quinta-feira, 13 de julho de 2023

O Céu de Kundera


Meu primeiro editor, Pedro Paulo Sena Madureira, fez também os primeiros livros no Brasil de Milan Kundera e tornou-se seu amigo. Contava de uma visita que lhe fizera, em sua casa, na França, quando ele já sofria de depressão aguda. Sentado na cozinha, Kundera  apontava os móveis, que ele mesmo tinha feito, usando a marcenaria como terapia ocupacional.

 - Já não me interessa a literatura - ironizava. - Meu negócio agora é o "bricolage".

Eu gostei muito de A Insustentável Leveza do Ser, quando li o romance pela primeira vez. A história do homem que levava a vida com leveza e da mulher que arrastava raízes pelo chão, ou de como o amor pode juntar gente tão diferente, me pareceu uma espécie de romance filosófico, que trazia o melhor de uma literatura existencialista do passado, mas sem a amargura de Camus, Sartre e Beauvoir.

O tempo passou, gostei menos do livro, cansativo na segunda vez em que o li, e achei o filme melhor que a obra literária, algo raro. Concluí que ela não era tão boa como eu acreditava, ficou datada - ou eu simplesmente fiquei mais velho.

A história de Kundera na cozinha reforçou minha impressão de que sonhamos e queremos muito escrever livros e, quando o fazemos, isso deixa de ter a antiga importância. Nesse momento, há algo na vida que desaba sobre nós, como um pesado céu.

Chamo a este efeito de "Céu de Kundera", e penso nele toda vez que me dá vontade de fazer outra coisa, qualquer coisa, como virar pescador, plantador de cebolas, estivador, ou quem sabe guia do deserto.

Mas um dia chega o descanso, e o Céu de Kundera agora é de paz.

sábado, 1 de julho de 2023

A morte de um livro

Como pessoas, os livros nascem - e também morrem, cumprido seu tempo e papel. É o caso de meu primeiro livro, Liberdade para Todos, publicado pela primeira vez pela Moderna em 1996, cuja vida chega ao fim, 27 anos depois, com mais de 200 mil exemplares vendidos ao longo do tempo.

Vai aqui seu breve obituário, cheio de alegrias. Quando escrevi essa história, como sempre, tentava ajeitar sentimentos que eram meus. Com o livro - sobre um pai, um filho e um passarinho -, não imaginei fazer tantos leitores, tocando em assuntos delicados com crianças: responsabilidade,  liberdade  e, sobretudo, como lidar com a morte.










O melhor foi na época em que ainda se enviavam cartas. Vinham quilos, de lugares tão diversos como Canoas, no Rio Grande do Sul, e Parintins, no Amazonas. Eram de professores, mães e crianças, entre 8 a 9 anos. Vinham fotos, desenhos, convites, beijos impressos, poemas, histórias, palavras carinhosas, de agradecimento,  de incentivo - um adorável turbilhão de amor.

Houve também incidentes. Certa vez, o pai de um aluno do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, tentou proibir a adoção do livro pelos professores. Alegou que trabalhava no IBAMA e achava inapropriada uma obra que falava de um passarinho preso na gaiola. A editora me ligou, perguntando que justificativa eu teria a dar a esse pai. Respondi que ele lesse do livro pelo menos o título, que já indicava do que a obra era a favor.

Esse foi, no entanto,  um prenúncio do fim. Já não há passarinhos em gaiolas, ou pelo menos não é algo próximo da realidade da maioria das crianças hoje. O livro envelheceu. E agora, depois dessa longa vida, concluímos, eu e a Editora, que seu ciclo está terminando e a atual será sua última reimpressão.

Aqui fica meu obrigado a Walcyr Carrasco, que me indicou a Maristela Petrili, e a Maristela, editora que acreditou na obra e sempre me tratou com a correção, a gentileza e a elegância que me fizeram seu admirador.

Agradeço também a todos meus milhares de pequenos leitores, hoje a maioria já adultos, que me deram a maior recompensa destinada a um autor: um lugar, por algum tempo, na sua vida.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Desencontos -2: um quarto de hotel em Paris

 A longa escadaria em espiral, até o último andar, uma só porta e o quarto. Ocupava, inteiro, um grande sótão: a cama de casal num mezanino baixo, uma cozinha com um balcão, uma sala de estar com uma escrivaninha de trabalho; à esquerda, a passagem para o segundo quarto, amplo, com uma banheira ao centro; a cama de madeira escura, diante da grande lareira de granito branco.

Teresa achou graça na porta de masmorra, baixa e pesada, que dava acesso ao banheiro, de teto inclinado pela meia água. Passeou os olhos pelos móveis antigos: o baú do tempo das diligências, o mobiliário Luis XV, a cama pesada de cabeceira alta, cenário de vidas e horas inconfessáveis.

As malas nem foram desfeitas: Teresa e Marcel mergulharam nos lençóis flutuantes, entre os travesseiros de penas, a pele morena dela na tela de branco alvíssimo, os cabelos de graúna  espalhados, ondulando sobre as dobras do algodão indiano.

O cheiro dos corpos misturados, a vontade primitiva, a matrioska dos desejos, desvelados um atrás do outro. Mesmo cansado de viagem, Marcel não dormiu: preferiu ver Teresa na penumbra, adormecida ao seu lado, enfim serena e apaziguada, joia viva sobre o colchão.

Pela janela medieval se avistava os telhados do casario, mas para eles Paris estava ali dentro, à luz de do abajur art déco: languidez e lassidão. Dormiam e acordavam enlaçados, amantes num refúgio, esconderijo de tudo: da vida lá fora, do passado, deles mesmos, da luz e da escuridão.

Tinham saído do Rio de Janeiro, sem dizer a ninguém onde iam, com quem iam, nem a razão. Eles mesmos não sabiam ao certo o que os movia, exceto que, fosse como fosse, a vida levava um para o outro. E só.

Teresa embarcou no aeroporto sem malas, livre de tudo, o avião apenas como ponte para ele, que já a esperava. O momento de um para o outro, única coisa de que precisavam, única destinação.

Deixaram para trás a vida anterior, os filhos, o medo. Não, o medo, não. Pairava a sombra do exame de Teresa, um indicador que não podia dar mais que 20, e dava 1000. Eles não sabiam o quão grave podia ser, qual era o tumor, nada, só aquele número: na volta, com mais exames, saberiam melhor. 

A dúvida pode ser o inferno da alma e eles sabiam que o passado pesava: a vida anterior os minara. A tristeza é somática, domina o ânimo, depois penetra nas células, corrói os tecidos. Contra ela o corpo sofrido se rebela, avisa, ordena a revolta.

O futuro ninguém sabia, mas eles se refugiavam na certeza dos braços um do outro, sem outros pensamentos, sem outro sentido, sem outra razão. Passavam o dia enlaçados, imersos em sussurros e planos, as coisas em comum: o amor à palavra,  a necessidade de leitura, não dos livros, mas dos sentimentos, penúria de que tinha vivido no deserto dos outros, o mundo onde você sempre serve à vaidade de alguém e sempre acaba sozinho.

As conversas sussurradas traziam o amor de volta, brigado, mordido, suado, até que tinham de trocar de cama, tão molhados ficavam os lençóis. Depois ele lavava os cabelos dela, um ritual lento, longo e solene, teatro de amor, na banheira feita de palco.

Ela secava as melenas no espelho antigo, usando ao mesmo tempo dois secadores, uma dança mágica de cabelos ao vento; ele ria e admirava a destreza, cada movimento de Teresa era graça, beleza e arte.

Saíram do quarto pela primeira vez no dia seguinte, depois das quatro da tarde, e só porque precisavam comer.

Paris no Natal estava frio, Paris chovia, e a melhor hora era voltar, subir aquela escadaria, esconder-se  no sótão, sua nova casa. Moravam agora dentro de um quarto e, naquele quarto, um dentro do outro.

No dia seguinte, fim de tarde,  breve interlúdio: atravessaram a ponte Solferino, dos cadeados, onde tanta gente deixava sua promessa de amor, e seguiram pela quai da Rive Droite. Ele a fotografava, usando a boina dele e calça xadrez - musa de uma belle époque que ele mesmo inventou. 

Passaram pelo mendigo adormecido sob a Pont du Carrousel; saíram da margem e entraram nas Tulherias, pisando o cascalho entre os esqueletos das árvores invernais. 

O sol súbito caiu sobre a água da Grand Bassin Ronde, a piscina que separa o palácio do Louvre de seu imenso jardim. Momento iluminado, ou mensagem divina, Teresa despertou de repente - que bonito, onde estamos, perguntou.

As luzes da Saint Chapelle, pausa para uma oração. A noite para sair: o restaurante japonês, invenções sobre um prato; cruzaram o canal sobre o Sena e centenas de pessoas foram se juntando a eles pelo caminho, passos ressoando na calçada, em meio ao frio da noite.

Da passarela em arco, avistavam ao longe a tenda iluminada do Cirque du Soleil, nave  esplendorosa brilhando branca na noite, ao lado do rio.

Corteo: espetáculo da vida assistindo a morte, ou da morte assistindo a vida. Algo tão igual ao momento deles, tristeza e alegria, esperança e medo, misturados em turbilhão. Era isto, a vida: uma bicicleta sobre a corda, rumando ao céu; a beleza de viver até o fim, seja quando e onde for, arriscando tudo. 

Por fim chegou a véspera do Natal, o dia receado, que ambos passariam longe das famílias: receio da opressão da saudade, de ter estragado tudo; a carga do sofrimento próprio e dos outros; o abismo entre onde estavam e o que ficou para trás. Porém, o futuro eles iam construir juntos, para viver não como outros queriam, mas como eles mesmos, do jeito que eram, em estado verdadeiro e puro e claro.

Enquanto pelo mundo crianças recebiam os presentes de Natal, famílias estalavam copos e talheres em festa, eles anestesiavam a alma na plateia da Opera de Paris. O balé Onéguine: uma tragédia de amor. 

Todo grande amor tem algo de trágico: assim era também o amor deles, grande, feito de dor por muitos lados, mas era também o que os unia. Transmutariam a tristeza em felicidade, contagiaram a todos com aquele amor, que transbordava para ser dividido, dando a todos esperança, sonho de final feliz.

No intervalo do espetáculo, uma taça de champanhe na sacada, o brinde de Natal, feito como juramento: nós dois consertaremos tudo; mesmo contra tudo, tudo podemos juntos, esta é a força maior.

Saíram caminhando abraçados pela ruas enfeitadas de luzes vermelhas; entraram no Café del' Opera, para uma taça de vinho, entre as mesas vazias da meia noite natalina. A cidade estava suspensa, mas eles sorriam, mais leves. Passara o mais difícil e eles se deixavam embalar pelo mel de um dia inteiro de cumplicidades.

Breves impressões da vida lá fora: O Pensador, no Museu Rodin ("já vi isto aqui", disse Teresa); madeleines num café acolhedor; o silêncio sagrado do velho templo de Saint-Germain-des-Prés. Por fim subir de novo a escada, a sensação de voltar ao abrigo do quarto, a eles mesmos, sua primeira casa, das muitas que teriam depois. 

O frio ficava do lado de fora, de fora ficava até mesmo o medo, com o passado de desilusão. Eles não precisavam de mais nada, Paris era ali, mas seria em qualquer lugar: viveriam, sobreviveriam, Marcel salvaria Teresa do câncer, da tristeza, do abandono, que também era seu. 

Teriam a felicidade mais pura, reunindo novamente a todos, para outros natais, contagiados por aquela Paris que eles levariam para sempre, onde fossem, transbordantes de amor.

*

Marcel olha as fotos antigas, abre o navegador e pesquisa: Hotel del' Université. 

Há um passeio virtual; ele sobe a escadaria, usando o dedo indicador sobre o laptop, e chega ao último andar.

O antigo sótão, onde ficava o quarto Saint Germain, foi dividido em quartos diferentes, com paredes brancas e mobiliário contemporâneo. Ainda há janelas para o casario de Paris, mas a grande lareira de mármore, a banheira, a história, tudo desapareceu.

O texto informa que o hotel passou por uma renovação. Remexendo lembranças, ele se dá conta de ter estado ali uma vez anterior, muito tempo antes daquela semana de Natal em Paris.

Tinha pouco mais de vinte anos quando, passando ao acaso na rua, entrou no hotel, para conhecer. Queria ser escritor e soube que Hemingway, quando estava na cidade, se hospedava ali. Subiu ao quarto do último andar, levado por um camareiro, com a chave na mão, para ver onde ele se hospedara. 

Olhou o grande sótão, com jeito de casa no céu; parou diante da janela, e pensou: um dia vou publicar livros, terei dinheiro e trarei para cá alguém especial, para a minha melhor história de amor.

Depois, esqueceu tudo, ou quase: escolheu aquele hotel por lembrar vagamente que um dia quisera hospedar-se ali. Uma mensagem no tempo, para o dia em que, amadurecido, cumprisse a antiga promessa, sem saber.

Marcel faz uma busca pelo site. Não há mais qualquer referência  a Hemingway. Teresa vive, mas não está com ele. Depois de tantas casas, nas buscas de quem nunca achou algo o bastante, nunca parou: espelho na impermanência, na inquietação. Os carentes de um amor que não existe, ou sempre muda de lugar: destruidores de corações.

Nao a reconheceria se a visse na rua: aprendera que se pode sentir luto por alguem ainda vivo, mas que nao erea quem se pensava, como se tivesse morrido, ou ainda pior, nunca existido. Já não existe o quarto, não mais existe Teresa de Marcel, mas ele é o mesmo. Não só o homem daquele Natal em Paris. É o rapaz magro e imberbe que andava no inverno parisiense de capa de chuva, sem dinheiro para comprar um casaco de verdade, passando fome e frio, sonhando com a vida de Hemingway.  

Sim, isso ficou: sonho. A entrega sem receio, a vontade de amar, de sempre experimentar a vida intensamente, e escrever. 

Ainda.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Desencontos - 1: "Radiografia de um instante"

Eram três horas da tarde e Tirso estranhava o silêncio, parecia que ninguém pegava o metrô em Washington, a plataforma estava deserta, tão deserta que ao caminhar seus passos ecoavam pela estação.

Encostou-se na parede, à espera do trem. Gostava, queria, precisava daquela solidão. Meia hora antes, estava com a mulher, Silvia, em um apartamento de classe média na capital americana, aquilo que ela achava perfeito. Sandra, melhor amiga de sua mulher, casada com George, militar americano, os recebera e fizera um belo almoço; os dois maridos, que se viam pela primeira vez, esforçavam-se para ser simpáticos um com o outro.

Elas se conheciam desde a adolescência, eles há pouco minutos; Sandra se esmerou na comida, Mark em abrir uma garrafa de vinho premiada; contou-lhes do barco que tinha ancorado no Potomac, na primavera ele o tirava para passear, gostavam de velejar no rio, especialmente aos domingos.

Esforçava-se em querer mostrar que os americanos não eram tão aborrecidos para brasileiros como se pensava: a vida ali era boa, eles eram felizes, a melhor amiga de Silvia estava feliz e satisfeita, mesmo longe da família, do país, do feijão com arroz.

As duas mulheres tagarelavam, tirando o atraso da conversa naquele reencontro, proporcionado por uma esticada de Nova York a Washington que Tirso concordara em fazer só para aquilo.

Faziam planos para mais tarde. Tirso e Silvia estavam hospedados em um hotel em Cristal City, com seus prédios envidraçados e aquelas galerias internas que permitiam caminhar longas distâncias fugindo do frio congelante do inverno na rua. George e Sandra poderiam mais tarde buscá-los de carro. Iriam a um lugar para dançar, havia um que ficava no edifício de um antigo banco, a pista era dentro de um cofre, com aquelas portas de chumbo, uma grande roda girando sobre pesados gonzos.

Estava tudo perfeito, a comida, o vinho, as promessas de diversão, mas Tirso olhava para George já sem escutar, distante e imerso, peixe num aquário. Disse que achava melhor deixarem as mulheres conversar, matar a saudade, colocar a conversa em dia; não queria atrapalhar, poderia aproveitar a hora. Tinha curiosidade de visitar a biblioteca do Congresso, algo que Silvia não gostaria de fazer; aproveitaria que ela estava em boa companhia para dar uma volta e conhecer o Capitólio.

George também achou boa ideia; sugeriu que visitassem outro dia, com as  mulheres, o Smithsonian Museum, o Lincoln Memorial e o que mais quisessem.

Silvia adorou tudo, na verdade não se importava, queria apenas estar com a amiga, acenou com a cabeça e assim ele saiu, com breves despedidas. George disse que na esquina havia uma estação do metrô, por ele chegaria ao Capitólio, era simples e rápido.

Quando a porta do lar americano bateu às suas costas, Tirso sentiu-se repentinamente livre,  ou aliviado: ao descer o elevador, passar o hall de entrada e ver-se na calçada ensolarada, era como se tomasse sol pela primeira vez na vida.

Não foi difícil achar a estação, comprou o bilhete, desceu a escadaria até a plataforma: vazia, aquele silêncio, tudo confortador, como se tivesse escapado de uma guerra para um esconderijo seguro.

Não sabia direito o que havia de errado com o que deixara para trás. Talvez a resposta estivesse à frente: a biblioteca, os livros, o mundo interior onde ele navegava, e que Sílvia via com certo desdém. "Você pensa demais", ela dizia.

Agora ela ficava para trás e ele ia em direção a uma biblioteca, uma das maiores bibliotecas do mundo, no Congresso americano, sede do Iluminismo ocidental, onde a república tinha sido proclamada antes mesmo da revolução francesa, berço das ideias e dos ideais contemporâneos de liberdade, igualdade e tolerância.

Havia um certo efeito analgésico naquele túnel deserto, uma estação em silêncio, toda para ele; nesse instante, ouviu o barulho do trem chegando, a luz se insinuando na penumbra, até que ele passou, aquele borrão horizontal, na plataforma contrária ao sentido em que ele ia; viu a composição brecar aos poucos, com um guincho estertorante, até a imobilidade total.

Assim como a plataforma, o trem estava vazio: era tarde, ou era um momento mágico, Tirso não sabia, mas olhava os vagões desertos como num sonho. Foi então que viu a mulher, sentada à janela, sozinha no vagão inteiro, no trem inteiro. Olhava para baixo, debruçada sobre um livro. Um livro.

Por um instante ele pensou que poderia estar ali a mulher da sua vida, e o que aconteceria se ela olhasse para ele, os dois sozinhos naquela estação. Olhava para a mulher distraída, com o livro na mão, só os dois naquela estação, e não precisava saber mais nada sobre ela.

Lembrou-se de Silvia; pedira para a mulher ler o livro que tentava escrever, mas ela, cansada, deixara o calhamaço torturado de folhas na cabeceira, dia após dia; qualquer hora veria aquilo, daria opinião. Tirso passou a ter aquela vontade, então, de ir a algum lugar. Não era Washington, não era Nova York, era um lugar de encontro com ele mesmo, onde havia estantes, livros, e uma mulher, com um livro na mão.

Na plataforma oposta, as portas da composição se abriram, para ninguém; houve um instante de expectativa, Tirso não sabia por que, já que ninguém ia entrar. A mulher com o livro continuava a leitura, imóvel; pensou se ela sabia que ele estava ali, pressentia que ele olhava para ela. Imaginava agora outra vida, que não era a dele, ou melhor, era a dele, mas uma vida que não tinha com ninguém. As portas do trem se fecharam; o cheiro de metal queimado passou pelas narinas de Tirso, quando a máquina acordou, as engrenagens lentamente se moveram, e a composição começou a andar.

Nesse momento, a mulher do livro levantou a cabeça. Era uma bela mulher. Viu Tirso encostado na parede, olhando o trem ir embora, distanciando-se em velocidade cada vez maior. Apenas um momento, e, enquanto se afastava, com o livro aberto nas mãos, enquanto o trem a levava para nunca mais, pela janela ela sorriu.

"Menino": um trecho de A Quinta Estação

"Desceram em Klosters; ali esquiava a família real da Inglaterra, as ruas estavam brancas como num filme de Natal. Uma súbita nevasca escureceu o tempo; Vitor sentiu o frio cortante secar-lhe a boca, escorreu o nariz. Andaram abraçados pela rua; Vitor tirou as luvas para pôr as mãos na neve pela primeira vez na vida. Andaram até que o frio os congelou, suas roupas não eram suficientes, no Brasil tinham comprado aquelas capas impermeáveis para chuva, ali não serviam sequer para os mendigos, correram de volta para a estação, chegaram ofegantes, esfregando as mãos, o rosto, como se estivessem fugindo de uma avalanche, mas felizes como crianças que fazem seu primeiro boneco de neve.

Tomaram o trem seguinte; passaram por Saint Moritz, contornaram o imponente Pitz Bernina, com sua ponta escarpada que feria o céu. Adriana passava os dedos pelos cabelos de Vitor, sob o boné em cujo forro escrevera “Juízo!!!”, assim, com uma tríplice exclamação. Tinha algo de maternal, ele se acostumara a ouvir Adriana chamá-lo de “menino” quando estavam na cama, depois de fazer amor, ele fazia uma segunda universidade, ela lhe ensinava coisas da vida, mostrava como lidar com os outros, em especial nos meandros do mundo do trabalho, tirava Vitor do mundo da inocência do qual viera, um pouco para abreviar-lhe dissabores do aprendizado por conta própria, muito para diminuir a distância que havia entre os dois. Tinha prazer em lhe passar sua experiência, como numa transfusão de sangue, queria fazê-lo mais velho rapidamente, afinal ele compreendeu a razão para Adriana querer vê-lo com rugas, nesse tempo eles seriam menos desiguais, ficariam mais próximos, seria mais possível aquele amor quando a realidade sobreviesse à paixão que os levava pelos desfiladeiros alpinos."

Na Amazon: A Quinta Estação

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Amis e o Valhala dos escritores

Eu tinha 16 anos de idade e viajava de mochila nas costas ao lado de meu pai, Alípio, numa jornada até Machu Picchu, no Peru.  

Estávamos parados, conversando, na borda da cidade perdida, de onde se avistava majestosamente o Huayna Picchu, batido pelo vento  que dá uma misteriosa atmosfera às construções de pedra nos píncaros da selva. Então, um sujeito ao lado, com chapéu de Indiana Jones, nos abordou, em inglês.

- Que língua vocês estão falando? - perguntou.

Explicamos que era português.

- Que língua forte -, disse ele.

- O que você está fazendo aqui? - perguntei, observando que se encontrava sozinho.

- Estou trabalhando - disse ele, para minha surpresa.

- E o que você faz?

- Sou escritor.

Fiquei, claro, imediatamente entusiasmado.

- E que livros você escreveu? - perguntei.

- Ainda nenhum - disse ele. - Estou fazendo o primeiro.

Murchei de desapontamento. Achei estranho alguém se dizer "escritor", sem ter um livro publicado, embora ele parecesse bastante convencido.

- E o que você está escrevendo? Algum romance de aventura, ambientado na selva peruana?

- Não - disse ele - Estou escrevendo sobre Londres.

Eu e meu pai nos entreolhamos: devia ser maluco. Conversamos mais um pouco e nos despedimos, dizendo , meio incrédulos, que aguardaríamos notícias da publicação da obra.

Passaram-se alguns anos e eu já tinha quase esquecido daquilo. Um dia, lendo o jornal (ainda impresso), dou com o lançamento de Campos de Londres, de Martin Amis. Olhei a foto do autor. Espanto: eu estava certo de que era o escritor da selva peruana. 

Mostrei-o a meu pai, eufórico com o achado.

- Será? - disse ele, ainda duvidando.

Era ele, sem o chapéu, claro. E um romance sobre... Londres? Só podia ser.

Passaram-se mais trinta anos. Martim Amis morreu no último dia 19 de maio, vitimado por um câncer esofágico. Para mim, porém, mais do que os livros, ficou uma estranha influência daquele episódio.

Primeiro, ele me ensinou que o escritor não é o que publica livros, mas aquele que acredita que está escrevendo e faz disso sua vida, não importa o que os outros pensem - ainda que jamais venha a publicar um único livro. É um estilo e um propósito de vida, não um resultado.

Ser um escritor não se trata de ter um editor, de vender livros ou ser conhecido. É uma convicção. Escritores não desistem e continuam sendo escritores, não importa onde estejam, ou o que tenham publicado.

Essa ideia me ajudou a escrever o meu primeiro romance, publicado dez anos depois de Campos de Londres. Naquela época, me parecia algo impossível. Mas não desisti.

Amis fez uma carreira de sucesso, com outros livros importantes, muito embora o único que realmente me interessou tenha sido  aquele romance sobre uma das mais cosmopolitas cidades do planeta, para o qual ele buscava inspiração numa aventura muito longe dali.

Tenho por ele um certo sentido de agradecimento, por entender daquela história que escrever não depende de mais nada nem ninguém, a não ser de nós mesmos.

Ao rapaz de chapéu naquele momento improvável, devo muito: mudou minha vida. Para mim, ele está vivo, talvez escrevendo em algum lugar, no Valhala da literatura, ao vento das paragens aventurescas onde nós, escritores, devemos ter nosso lugar, não sei se no céu ou no inferno.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Histórias de um grande amor




Levei muito anos para escrever sobre meu grande amigo. Dezesseis anos e um pouco mais.

Ainda é difícil, e sua história, às vezes engraçada, outras heroica, às vezes comovente, é também cercada de uma aura de mistério, talvez de fantasia.

Você pode achar estranho, mas falo de um cachorro. Uma amiga minha, Eliana Simonetti, jornalista que trabalhava comigo em Veja, tinha uma cadela que ganhou uma ninhada de dogues alemães, da variedade arlequim, de pelagem malhada. Separou para mim o maior deles, meio folgado, e comilão, para me dar de presente.

Bichinho que já nasce meio grande, dizia ela que, quando acabava com a ração, ele se enrolava e dormia dentro do prato da comida.

Dei-lhe o nome de King.

Eu sempre quis ter um cachorro, a infância inteira, mas meu pai nunca deixou. Aos 36 anos, achava que era hora de fazer todas as vontades não satisfeitas e acabara de comprar um sítio, onde pretendia construir uma casa. Não imaginava que teria, porém, um cachorro daquele tamanho, para matar qualquer vontade.

No sítio, que estava ainda em obras, não havia ninguém para cuidar do bicho. Ele não caberia no apartamento de São Paulo. Eu sempre quis ter cachorro, repito, mas não tinha onde colocar um bicho que, segundo diziam, crescia até ficar quase do tamanho de um leão; queria ele para mim, mas não podia; pensei em dá-lo a minha mãe, que estava se mudando para Brotas, no interior de São Paulo.

Ela comprara e estava reformando uma casa com quintal, em frente à praça central da cidade. Eu e minha irmã Lara íamos visitá-la, durante a obra. Em Brotas, com minha mãe, King teria terra e cimento para andar, e ainda seria companhia para dona Marlene, recém separada, numa cidade com poucos amigos, nenhum parente. Para completar, ele guardaria a casa. Era o meu pretexto. E eu o veria sempre - pelo menos, sempre que fosse para lá.

No fundo, eu também transferia a minha mãe todo o trabalho. Eu era solteiro, livre para ir onde quisesse: por que iria cuidar de um bicho que no futuro iria fazer cocô e xixi como um cavalo?

Tive mais certeza disso quando fiquei um tempo com ele em casa, ainda pequeno, para ver como era, e dar a minha mãe quando a casa dela estivesse pronta e o cão tivesse algumas vacinas. Quase fiquei louco. King escorregava, riscava com as unhas o sinteco, batia com estrondo a cabeça nas portas. Eu não sabia lidar ele, com suas travessuras, mais aquela alegria incontida quando eu chegava em casa.

Ele era um relacionamento sério: dependia de mim e não me largava um minuto. Eu trabalhava em casa, escrevendo, e ele me puxava pelas meias, gania, pulava para chamar a atenção. Um dia, numa explosão de fúria, afastei-o com um chute na cara; ele ganiu, gemeu e, para dor ainda maior do meu coração, voltou e me lambeu o pé, como a dizer que em sua carência suportava tudo, até aquela minha demonstração de destempero e suprema desumanidade.

Eu ainda não estava preparado para aprender a ser gente, com um cachorro. Tão logo ele tomou a segunda vacina, levei o “presente” a minha mãe, que ela aceitou também sem pensar muito.

Minha mãe adorava cachorros, paixão que passou para os filhos. Levava na perna uma feia cicatriz deixada pelo Zorro, pastor alemão preto, de olhos cor de laranja, cão que teve na infância, na Casa Verde. Bravo, bravo, bravo.

Ao meu avô, deu muito trabalho; um dia pulou o muro e mordeu feio o Lolote, filho do Orlando, um vizinho espanhol, que estranhou porque o menino corria na rua, atrasado para chegar em casa. Mordeu feio também minha mãe, mas, por amor ao bicho, ela o desculpava.

Mesmo adorando cachorros, minha mãe não tinha como criar o King. A cada visita, mais de 400 quilômetros dentro de um carro, eu o via crescendo; com quatro meses, estava maior que muitos cachorros, e ficou depois muito grande, mesmo para um dogue alemão.  Também por causa da pelagem, diziam que parecia um bezerro.

Talvez como ao filho, minha mãe não sabia discipliná-lo. Resultado, King pulava em cima das pessoas, principalmente dela; não saía de casa, porque minha mãe não tinha força suficiente para segurá-lo na guia; as coisas iam de mal a pior. Vi o dia em que o cachorro acabaria por machucá-la e, não sem tristeza, ela deixou que eu o levasse embora.

Eu havia comprado o sítio na serra da Mantiqueira com o primeiro dinheiro que ganhei depois de me separar, saindo de casa com a roupa do corpo. Tudo o que recebi do livro que fizera com o jornalista Fernando de Barros, sobre moda masculina, troquei numa canetada por um pedaço de mato no alto de uma montanha pelo qual me encantei e parecia um bom remédio contra a angústia. Sem outro jeito, levei King para lá.


De Brotas para São Bento do Sapucaí, foram sete horas de carro. Um passeio tranquilo, numa tarde ensolarada, na qual pela primeira vez fomos companheiros de jornada. Depois de sair do casamento, eu vivia tão em crise que nem sabia explicá-la. Porém, aquela mudança de ares – um sítio, um cachorro - já andava me fazendo bem.

Fazíamos algumas paradas, esticávamos as pernas, esvaziávamos a bexiga no mato à beira da estrada: dois rapazes sem compromisso.

Deixá-lo no sítio foi uma dor de cabeça. Eliézio, o caseiro, que morava no sítio ao lado, aceitou cuidar de King, dando-lhe comida; mas o cão tinha de morar na obra, mudando de cômodo, à medida em que os pedreiros levantavam paredes, cimentavam o piso, davam forma ao rancho.

Eu subia a montanha sacudindo na estrada poeirenta, que nos dias de chuva virava uma ilha no céu, inacessível pela subida lamacenta, especialmente num morro íngreme, em formato de S. Como bem havia alertado Tiãozinho Neto, dono do bar que me vendera o pedaço de chão, no molhado não subia ali “nem tatu ferrado”.

A antiga tapera, onde eu passara apenas uma noite dormindo entre as aranhas, aos poucos mudava: dois quartos novos, banheiros de azulejos hidráulicos que chegavam no meu carro, arriado quase ao chão. Agora, tinha o cão.

Era ainda o bicho indomável que eu trouxera da casa de minha mãe; ansioso ao me ver, me recebia com mordidas insistentes nos braços, que ficavam lanhados. As feridas depois inflamavam, por causa da baba; ele pulava na gente, enfiando as patas enlameadas na minha roupa, na minha cara, quase me derrubando no chão;  eu me perguntava se podia fazer o que minha mãe não conseguira, ou se era tarde demais.   

O mestre de obras, um senhor cheio de melindres, cansado do King, o colocava para fora da casa em construção, apesar do meu pedido para deixá-lo abrigado lá dentro. Certa vez, ao visitar a obra, num sábado, e perceber que o homem estava deixando o cachorro dormir ao relento, ultimei que fizesse como eu havia falado.

“Melhor esclarecer uma coisa”, eu disse. “Se eu tiver que decidir entre o senhor e o cachorro, eu fico com o cachorro.”

(Eu era foda. Ainda bem que fiquei mais velho. E mais jeitoso)

King passou a dormir novamente na obra da casa, recém coberta. Depois, pedi ao mestre de obras que fizesse um canil com uma cerca de arame do grosso. A casinha de alvenaria ficou pequena e um forno: mandei fazer outra, de madeira. 

As paredes de tábua permitiam um pouco de refrigeração; o lugar não esquentava muito de dia, nem esfriava tanto à noite, como acontece com a alvenaria.

O piso também era de madeira, recomendação de Zé Carlos, veterinário de São Bento: o dogue, por seu tamanho, acaba criando bolsas calosas nos cotovelos quando dorme apoiado num piso muito duro.

A segunda casinha do cachorro não merecia o diminutivo. Era tão grande que um adulto podia entrar e ficar em pé lá dentro, um pouco inclinado. Maria, a vizinha, e faxineira, foi ver a nova residência do King. Com as mãos de roça na cintura, comentou, admirada: “O cachorro é rico!”

A casa ficou pronta e tratei de ensinar King a se comportar, o que não era tarefa fácil. Comprei um manual de auto-ajuda, de um treinador alemão (“Adestramento sem castigo”), para ver como podia lidar com aquele bichão.

Aprendi ali uma lição preciosa. Se o cão te incomoda fazendo algo, você tem que fazer com que aquilo se torne para ele também um grande incômodo. Passei a usar o joelho para detê-lo quando pulava na gente – um animal que, nas patas traseiras, já ficava bem maior que um homem de boa estatura.

Tirei dele também a mania de, excitado com a minha chegada, morder os meus braços – mordidinhas amigáveis, mas que me deixavam as feridas infeccionadas. Passei a dar batidinhas em sua cabeça, como numa porta, quando ele me mordia. Depois de algum tempo, desistiu.

Logo, King se tornou um cão educadíssimo. Respondia a chamados, sentava, ficava parado ao meu comando. Sobretudo, não pulava mais em ninguém, nem mordia. Mas era bastante independente. Tinha personalidade própria. E opinião.


Afinal a obra ficou pronta. Era um lugar ainda de acesso dífícil, onde o celular em sua rudimentar gênese (um Startac tipo flip flop, moderníssimo para  época) não pegava. Porém, eu tinha a casa na montanha, e um cão. Andávamos juntos pela mata, diante da paisagem soberba, com o vale verde rodeado por picos que, de manhã, levantavam do lençol de nuvens brancas; respirava ali o ar e a luz da liberdade.


Viramos grandes companheiros. Para chegar lá no alto, comprei um jipe Wyllis de oito lugares (o "Bernardão"), quase uma peça de museu, mas com ele descia e subia a montanha abaixo para passear com King na cidade ou nas estradas de terra que serpenteavam a partir do que eu chamava agora de casa.

Fazíamos também longas caminhadas, de dia e de noite. Eu andava com ele preso à corrente; aparecíamos nas festas da roça, caminhando pelas estrada de terra sob a noite estrelada.

Logo percebi que ele podia ser também um sério perigo. Certa tarde, eu esperava meu pai sentado no banco de concreto dentro do bar do Tiãozinho, na saída de São Bento para o bairro do Serrano. O cão estava sentado na minha frente. Por sorte, eu o mantinha seguro pela coleira. Meu pai apareceu na porta do bar e veio na minha direção, para me abraçar. King estranhou o homem vindo para cima de mim - saltou no ar e, no trajeto, já virou a boca, para pegar meu pai pelo pescoço.

Como eu disse, por sorte eu o segurava pela coleira, um enforcador com anéis de aço. Detive o cão quando já ia fechar a boca no pescoço do meu pai, que deu um salto para trás e parou com um baque das costas num carro estacionado em frente, na rua. Tiãozinho Neto, que estava no balcão, assistiu tudo. Nunca mais chegou perto do cachorro.

Não era só no dono do bar que ele punha medo. Começava pelos cães da vizinhança. Certa vez, um Weimaraner de bom tamanho, cachorro do Barrinha, que eu visitava, rosnou para King. O dogue mal se mexeu: com uma pata, deu-lhe um tapa na cara, como se fosse gente, e jogou o outro cão para longe. Foi o bastante: nunca mais brigaram.

Ele punha medo também na vizinhança. Certo carnaval, encontrei-o magro, inerme, depois de ter sido envenenado por alguém que não o queria mais ali na montanha.

Durante quatro dias, eu o alimentei na boca, como a um bebê, com colheradas de xarope de guaraná. Punha sua cabeçorra no meu colo e fazia com que sorvesse o líquido pela língua, com dificuldade. Ele permaneceu três dias deitado ao lado da porta de entrada; na quarta-feira de cinzas, se levantou, ainda cambaleante.

O envenenamento ligou o alarme. Eliézio fez algo inteligente. Um dia, ao chegar, reparei que alguém havia cortado pelos do cachorro, que tinha nas costas uma marquinha de tesoura. Para tirar o medo das crianças, o caseiro tinha feito uma sopa de pelo de cachorro. Jogou os pelos na água fervendo. Quem bebesse daquela sopa mágica, estava a salvo do cão. Assim, a vizinhança ficou pacificada.

Mais, as pessoas do morro começaram a pensar que King cuidava de todos, ali, botando medo nos estranhos, que, claro, não tinham tomado a sopa de pelo de cachorro.

 

Minha mãe o adorava: ficava companheiro dela, quando vinha ao sítio. Minha irmã Lara, também sempre ali, igual. Era o nosso cachorro, e de todo mundo.

King me ensinou muitas coisas, a mais fundamental delas a importância do amor e da comunicação sem palavras, que eu, como jornalista, até então valorizava demasiadamente. Percebi, com ele, que a palavra não era a intermediária para tudo. Nem é com palavras que escrevemos muita coisa, e sim com sensações e emoções.

Eu não conhecia a mim mesmo, meus sentimentos, bloqueado pelo esforço sempre profissional da palavra: a racionalização de tudo. Naquele plano, não podia resolver problemas afetivos, que só podiam ser resolvidos no plano afetivo.

Com aquele animal, que gostava de mim sem nada dizer, e me compreendia sem nada ouvir, passei a entender melhor o que sentia, e a manifestar meus sentimentos da mesma forma: sem palavras, sem prevenções, intermediários, o que equivale dizer, sem medo.

Nós nos entendíamos e nos ajudávamos, principalmente diante de grandes e reais perigos.

Certa manhã de domingo, andando no mato, entramos no sítio do Zé Janico, homem que morava sozinho no alto da montanha e que, picado de cobra no pé, internado na cidade, tinha deixado ali a casa e um burro bravo, sem cuidados.

Eu não sabia que o burro estava ali, um lugar ermo, com uma casa que mais parecia um galpão enfiado no mato. Caminhava para a porteira, quando vi King sair correndo de trás da casa, e o burro atrás dele, para pegá-lo de manotada.

Era um burro cinzento e poderoso, com o qual Janico puxava o cadáver das vacas que caíam do despenhadeiro no ribeirão, um lugar íngreme e fundo. Corri para a porteira, passei para o lado de fora. King começou a correr em círculos, com o burro atrás, tão perto, que o cão não tinha tempo de agachar-se, para escapar por baixo da cerca de arame.

Eu o chamei pelo nome. Ele veio. Abri a porteira e deixei espaço apenas suficiente para ele passar. Só vi uma coisa branca zunindo a meu lado, como um raio, e bati a porteira.

No mesmo instante, o baque: o burro brecou nas quatro patas e estava tão em cima que bateu com o peito na porteira, na minha frente - pude sentir o seu bafo. Saímos dali os dois, eu e o cão, ofegantes, eu com as pernas trêmulas e o coração quase saindo pela boca.

Um dia, andando também pelo mato, sem a corrente, ele entrou a brincar num chiqueiro de porcos, mas, em vez de divertir-se, os porcos o atacaram. Nada vi, pois todos estavam atrás de uma grande pedra. Só ouvi uma gritaria de porco. Depois, fiquei sabendo de outro matuto, dono do chiqueiro, Zé Tida, que King havia levado uma corrida dos porcos, revidara e tinha dado uma mordida que arrancara um pedaço das costas de um cachaço.

O bicho não morreu, apesar da febre. Dali em diante, porém, King passou a não gostar de porco - corria atrás de todos o que encontrava pela frente, e para matar. Tive que passar a andar com ele seguro pela corrente sempre.

Num dia em que achei que podia deixá-lo andar sozinho, sumiu atrás de um porco que viu ao longe - e de repente, desapareceu, como por mágica.

Fui atrás do vizinho mais próximo, Tiãozinho Costa, pedindo ajuda. Ele me guiou até uma caverna, que ficava embaixo de uma pedra: tão grande que parecia uma capela subterrânea.

De um lado, havia um fosso, um buraco que levava à superfície. O porco tinha caído ali por aquela abertura e o cão mergulhara atrás dele. Aquela tinha sido a mágica do desaparecimento.

Achamos o porco no fundo da câmara, deitado, imóvel, em silêncio, sobre uma plataforma de terra que parecia um altar. Chegamos perto, devagar, porque o bicho podia estar ferido, e brabo. Estava, contudo, morto.

O porco pertencia ao Pé de Ferro, apelido de outro vizinho, que morava mais acima, no fim da estrada, alto na montanha. Ele trouxe um maçarico ligado a um botijão de gás, queimou a pele do porco e distribuiu os pedaços à vizinhança. Não comi nada, sem estômago, mas o porco, tive que pagar inteiro.

Cansei de pagar por bichos, depois disso, por causa do cachorrão. Certa vez, King juntou-se a um bando de cachorros que seguiu uma cadela no cio, até uma fazenda de carneiros, já na virada da serra para Gonçalves, longe. Ficou uma semana sem voltar. No sábado, quando cheguei, e o caseiro Eliézio me avisou do seu sumiço, fui procurá-lo. O funcionário da fazenda me levou por um pinheiral onde se avistavam no chão pedaços de carneiros espalhados por todos os lados - pernas, cabeças, coisas assim.

- A gente já tinha visto ele com você, por isso não atiramos - disse o homem. - Mas ninguém teve coragem de chegar perto dele.

Achei o cachorro na matilha, simplesmente passei a guia na coleira e o levei embora. Lembro de quanto paguei à dona da fazenda: 60 reais cada um dos nove carneiros mortos. Na época,  era um bom dinheiro.

King não havia comido nenhum carneiro. Quando parei o carro na igreja da Sagrada Família, para lhe dar água, seu estômago fazia barulho: estava colado, de fome. Porém, como era o cachorro maior, os outros não tinham dono, e era dele que tinham medo, recaiu a conta sobre mim.


Dali em diante, King passou a pegar vacas, bichos maiores. Um dia, numa estrada vicinal, topamos com um burro velho de um vizinho que encarou a gente, bufou, não nos deixou passar. Eu estava com King na coleira, soltei, ele entrou pelo mato e sumiu. O burro entrou no mato atrás dele.

Segui caminhando. Entrei na estrada principal, comecei a descer a ladeira, num lugar onde a estrada tinha um barranco alto, à direita, e uma cerca de arame farpado, à esquerda. Ouvi um barulho, e lá de cima, vindo morro abaixo pela estrada, corria o cachorro, perseguido pelo burro. Fui para o lado da estrada e rolei por baixo da cerca de arame, para sair do caminho.

Testemunhei, então, uma impressionante cena de caça, que durou um piscar de olhos. Quando King passou na minha frente, fugindo do burro, de repente deu um salto e voou para o alto do barranco, bem na minha frente, do lado oposto da estrada. Câmera lenta: o burro, surpreso, tentou brecar, arrancando a poeira do chão com as patas. Enquanto se arrastava ladeira abaixo na brecada, virou a cabeça para o barranco, procurando onde o cão estava. Nesse instante, o caçador virou caça. King, do barranco, completando uma manobra de tigre, caiu sobre o burro como uma fera, fechou a boca no pescoço do burro, derrubou-o no chão e ali o deixou pregado.

Logo vi que o mataria - era uma questão de tempo. Corri até o cachorro, que tinha o burro dominado, passei a corrente de ferro pela coleira e tentei puxá-lo, tirando-o do pescoço do animal. Porém, ele não se moveu. Eu nem sabia que tinha aquela força: naquele frenesi, puxei de tal forma que a corrente de aço rebentou na minha mão.

Fui buscar ajuda, de novo. Quando voltei com vizinhos, da família de Barrinha, porém, não havia nada na estrada: nem burro, nem cachorro. Achei King pouco depois: tinha ido beber água num regato, pescoço empapado com o sangue do burro. Este era velho, e esperto. Fingira-se de morto. Quando o cachorro foi embora, fugiu tropegamente até o fim da estrada: foi encontrado, semimorto, lá embaixo, no vale, tropicando pelo asfalto.

Como eu tinha comprado uma casa no Morumbi, em São Paulo, quis levá-lo para lá. King guardaria a casa e lá não mataria nenhum bicho, pensei. Engano. Acostumado a viver livre, andava estressado e atacava as visitas, como os padrinhos de meu filho, que tiveram de correr dele, e amigos. Tive de levá-lo de volta para o sítio. Comprei uma cadela para tomar conta da casa e, quem, sabe, cruzar com ele, para termos filhotes.

A cadela tinha a mesma pelagem arlequim. Mel ficou o seu nome, por conta da cor dos olhos. Uma vez, eu a levei para o sítio, de modo a conhecer King e movimentar-se no espaço maior. Só não pensei que Eliézio, o caseiro, estava acostumado a entrar ali sem pedir licença. E não sabia que Mel estava por lá.

Quando abriu o portãozinho da entrada, Mel o viu. Disparou como uma seta na direção do caseiro. E deu o salto, virando a cabeça já no ar, para pegá-lo pelo pescoço.

King também viu Eliézio entrar. E Mel correr na direção do caseiro. Parece mentira, mas foi exatamente isto o que aconteceu.

King, que estava bem mais longe, num baixio do terreno, arrancou na direção do caseiro. Quando Mel se projetou no ar, a boca virada para apanhar Eliézio pelo pescoço, King também saltou. Com seu corpanzil de mais de 90 quilos, interceptou Mel no ar, jogando-a longe com uma trombada. Ela caiu rodopiando no gramado, sem entender o que tinha acontecido. Viu King, que Eliézio tratava todos os dias. Ele então olhou para ela e emitiu um bufo, uôuf! - como a dizer: "este não".

Era isto o King: um herói. Não sei de onde ele havia tirado aquela índole, mas era um ser admirável.

Tinha também um estranho sexto sentido. Aos sábados, eu chegava por volta das duas da tarde, pois trabalhava na sexta até a madrugada de sábado e, ao acordar, partia para a casa do mato. Encontrava King na estrada, sentado sobre uma pedra, à minha espera.

- Ele fica sempre aí? - perguntei ao Eliézio.

- Não. Ele sobe nessa pedra sempre às duas da tarde de sábado, a hora que você chega, e fica esperando.

- E como ele sabe que é sábado e duas da tarde?

- Não tenho ideia.

Aquilo fazia parte da minha vida, e me fez falta no ano que passei morando em Nova York. Quando voltei, éramos os mesmos - ou quase. Cachorros grandes ficam velhos mais cedo, e King estava já indo para o final da vida.

Passou a sofrer alguns problemas. Teve um tumor na bolsa escrotal; os veterinários queriam extirpar toda sua genitália. Não deixei. Achei que ele podia viver com mais qualidade com uma cirurgia menor. Viveu mais um ano, depois disso, e morreu de velho, numa quinta-feira, quando eu estava em São Paulo.

Nesse mesmo dia, minha mulher, grávida de nove meses, teve contrações. As contrações pararam e o médico disse ter sido alarme falso. Passou uma semana e eu estava preocupado. Para mim, o cão tinha aquele estranho sexto sentido e eu acreditava que sabia das coisas. Tinha morrido na quinta-fera, dia justamente das contrações, porque o menino estava nascendo, como quem diz: "você já tem companhia, agora eu posso ir embora".

Mas o menino não tinha nascido.

Passada uma semana, eu estava preocupado com aquele atraso. No exame de rotina, sentado ao lado do médico, olhando a imagem do ultrassom da criança, projetada em uma tela na parede do consultório, eu disse que havia algo errado. Não expliquei ao doutor Eduardo que achava isso por causa do cachorro, é claro.

O médico, olhando a imagem, balançou a cabeça.

- Não tem nada de errado, segundo a imagem - disse. - Porém, se você está preocupado, vamos ao hospital tentar induzir o parto.

Foi o que fizemos. À uma da tarde, no mesmo dia, eu estava no hospital com minha mulher. Ela deitou numa maca, instalaram eletrodos para medir seus batimentos cardíacos, assim como os da criança.

Tomou os remédios para acelerar contrações - a indução do parto. O que era um procedimento de rotina, porém, de repente virou emergência. Cada vez que ela tinha uma contração, de 180 os batimentos cardíacos do bebê caíam a 60, 40...

O médico foi chamado às pressas e realizou a cesariana. Nunca passei tanto medo na vida. Vi quando ele abriu a barriga, camadas e camadas, e de lá do fundo puxou a criança. Por trás da máscara azul, ele então sorriu amarelo, ou assim o imaginei, quando puxou o cordão umbilical, enrolado no pescoço da criança, como um elástico.

- Ele não tem nenhuma sequela, mas no fim foi bom termos feito o procedimento, porque assim ele poderia entrar em sofrimento - disse.

O problema não aparecia na imagem, mas eu o pressentira, alertado, de um jeito talvez meio espírita, pela morte do cachorro. Na quinta-feira, era para ter acontecido o parto - mas o cordão impedia o bebê de ser empurrado para a saída, segurando-o pelo pescoço. A cada contração, o cordão o enforcava.

Por pouco, não ocorrera algo grave. Eu pensava que aquilo tinha sido o sinal de King, ele sabia que aquele era o dia do bebê nascer. Graças a este sinal, eu havia insistido em levar a mãe de meu filho ao hospital. A criança estava a salvo, e, a meu ver, quem a salvara tinha sido o cachorro.

Pode rir ou duvidar. Eu, estou convicto.

Pelo celular, quando soube da sua morte, eu pedira a Eliézio para enterrar King num lugar que eu jamais saberia. Ainda hoje não gosto de pensar que ele morreu. Prefiro acreditar que está vivo, presente, um espírito do bem a nos guiar - a mim, seu amigo, e meu filho, a quem penso ter transferido o amor dele por mim.

Um amor maior, que não precisa de palavras, onde o heroísmo está sempre presente e que eu carrego comigo por montanhas acima das nuvens.