sexta-feira, 3 de julho de 2020

Manchas da vida sobre o chão

Colocando os quadros na parede de casa, volto a olhar para eles com a velha cumplicidade, nesse reencontro que às vezes temos com a gente mesmo - cada quadro um momento e seu significado. Mas este, o cavaleiro... Este, é difícil ainda hoje de olhar.

Penduro, com coragem. A data de quando o pintei - pela primeira vez, digamos - é 1997. Nesse ano, eu ainda terminava de escrever meu primeiro romance, Filhos da Terra. E, no pouco tempo de descanso, comecei a desenhar e pintar personagens do livro, talvez como uma forma de ajudar que tomassem vida.

Saiu um cavaleiro, dos muitos que estão no romance - um imigrante italiano, de colete, visto por trás. Eu o dei a minha mãe, por ser o romance inspirado na história e nas histórias de meu avô: uma saga de imigrantes telúricos, que fizeram fortuna e depois perderam tudo com o café.

Minha mãe aceitou o quadro, o livro não. Quando eu disse que o romance era inspirado na história de vovô, ficou furiosa. "Mas seu avô, não tem nada a dizer sobre ele", vociferou.

Ela tinha seus amargores com o pai. Falava dele, às vezes, com raiva. Uma vez, quando reclamei que não me dava beijos, como outras mães, respondeu com estas palavras: "você queria o quê? Meu pai matava meus cachorros a paulada".

Assim eram os italianos da Bolonha: capazes de te dar a própria camisa suada, por amor, mas um amor endurecido na lida do campo, na aridez da terra, na luta contra tudo e contra todos, muito difícil de explicar.

Quando lancei o romance, em 1998, em uma livraria de São Paulo, todo mundo apareceu - amigos de infância, colegas de trabalho, todos os familiares. Minha mãe, não. Andávamos meio brigados. E aquele livro... Para ela, aquele livro, não.

Para mim, foi um grande momento. Eu tinha passado muito tempo e empenhado muito sacrifício para aquilo acontecer. Desde os 18 anos, ia visitar meu avô, ainda vivo, muitas vezes, na chácara onde morava, em Suzano, com minha tia Malfisa. Aproximando-se do último dos seus 96 anos, ele estava surdo e falava sozinho. Cantava para mim modas de viola e músicas que tinham vindo com os italianos, com mais de um século de existência. Às vezes, eu lhe fazia perguntas, anotando num caderno.

Dizia-lhe, aos 18 anos, que queria escrever um livro. Ele ria. Para ele, não importava. "Isso está em você", dizia.

O livro não importava para ele e parecia não importar a minha mãe. Assim ela fazia parecer e foi assim durante toda a vida. Passaram-se os anos e ela jamais disse uma palavra sobre Filhos da Terra. Até uma tarde, poucos dias antes de suas morte, no hospital, ao fim de dois anos em que se descobrira com câncer.

Eu estava sentado na cadeira, diante da cama, e ela me olhava, fixamente. Por fim, falou.

- Filho, você é um fraco - disse. E aí, pensando um pouco, acrescentou: - Mas, se não fosse assim, talvez não escrevesse coisas tão bonitas.

Falou então tudo o que pensava dos meus livros. Por último, falou de Filhos da Terra.

- Fico admirada com sua imaginação - disse ela. - O engenheiro perseguido pelo vento. Como você pensou nisso?

Pouco depois que ela morreu, passamos eu e minha irmã Lara a cuidar das coisas que estavam no apartamento dela. Quadros que eu tinha pintado e lhe dado de presente voltaram para as minhas mãos. Entre eles, o cavaleiro de Filhos da Terra.

Levei a tela para o sítio, onde pretendia escondê-lo em algum lugar. Mas, de repente coloquei o quadro no chão, junto com as tintas, enfiei nelas as mãos e descarreguei nele tudo o que sentia. Tristeza, frustração, tudo - sobretudo, acho, raiva.

Essa foi a segunda vez em que pintei esse quadro.

O romance está na estante, e muita gente diz que ainda é a melhor coisa que escrevi.

O quadro, uma vez eu joguei no lixo. Foi resgatado pela minha mulher. Agora lido melhor com ele. É mais um quadro na parede de casa. Não é mais ele que me faz lembrar.

sábado, 20 de junho de 2020

Um negro avança na imensidão

Quando vendi meu sítio, o futuro comprador trouxe livros para que eu lhe desse autógrafos e queria porque queria ficar não apenas com a casa, mas com tudo: os móveis, os tapetes, os quadros, enfim, tudo. E eu disse que era impossível, porque aquele tudo ali era a minha vida, e ela ia junto comigo, aonde eu fosse.

Cada coisa aqui de casa tem alguma história, quando não fui eu que fiz, como este quadro que acabo de pregar na parede agora de um apartamento, em São Paulo: um guerreiro masai, andando na savana, que pintei  ao retornar da África, por volta de 1998.

É uma cena que eu vi, pintei de memória, e me traz ainda muitas e importantes recordações.

Eu tinha ido com um grupo de jornalistas brasileiros conhecer as reservas naturais do Quênia. Saímos de Nairóbi numa van e entramos por uma estrada de terra que dava na reserva de Masai Mara.

O céu estava pesado, com jeito de chuva. E vi o masai, de lança em punho, com seu perfil longilíneo, avançando a pé e sozinho naquela imensa pradaria selvagem - o retrato mais primitivo da intrepidez humana.

Aquele dia foi cheio de aventuras, impregnadas daquela atmosfera que eu conhecia dos livros de Hemingway. Como o céu prometia, dali a pouco, de fato, choveu. As estradas do Quênia são de uma terra finamente arenosa, que os ingleses chamam de black cotton soil - solo de algodão negro. Na chuva, aquilo vira um lamaçal terrível.

Tivemos de descer da van, metendo o pé naquele território infestado literalmente de leões e outros bichos não menos perigosos. Só a vontade hercúlea de chegar explica como empurramos o veículo por oito quilômetros até o destino, subindo ladeiras e cortando riachos, levando aquele barro preto na cara.

Por sorte, a certa altura surgiram uns negros do meio do mato, com pinturas de guerra, mas que adoraram saber que éramos brasileiros. "Brasil? King Pêle, king Pêle!" - diziam. E nunca fiquei tão feliz por sermos a terra nativa de Pelé, cuja fama, como pude testemunhar, é sem limites.

Chegamos ao acampamento no final da tarde. A chuva tinha passado e deixou um belo por do sol. No alto de uma colina, nos esperavam os ingleses do hotel, que mantinham na reserva um acampamento digno do velho colonialismo britânico, com tendas providas de travesseiros penas de ganso, lençóis indianos e um negro aquecendo a água do banho do lado de fora num tambor sobre o carvão.

Tinham preparado para os jornalistas uma impecável recepção. Montaram uma mesa de bufê sob um dolman, de onde se avistava o horizonte africano, sanguíneo e fresco como se pintado por Raimundo Correia.

Coberto de lama negra dos pés à cabeça, fui me aproximando do chefe da recepção, um inglês de longos bigodes e cachimbo, elegantemente trajado com sua roupa cáqui de safari e botas reluzentes de montaria, provavelmente compradas em Saville Row.

- Sorry - disse eu, declinando do aperto de mão. - I hope next time we can show up dressed properly .

Naqueles dias, além de fugir de um elefante em fúria, entrar em barrancas a pé perigosamente para ver hipopótamos de perto e ficar horas a fio esperando um guepardo terminar seu almoço para poder descer da van e tirá-la de um buraco, tivemos a oportunidade de conhecer os masai mais de perto.

Nosso guia, Peter N'Guru, era um sujeito falante e simpático, que tinha uma cicatriz atravessada na barriga, resultado de um dia em que dirigia uma camionete no meio da ravina e só viu o rinoceronte quando ele atravessou a porta com o chifre, jogando carro e motorista para longe.

Embora aquilo fosse proibido, Peter conseguiu dar um jeito de nos levar pra dentro de uma aldeia. O cacique, um negro com bem mais que dois metros de altura sobre o caniço das pernas, me levou para dentro de sua casa, uma choça como as outras, feita de estrume seco de gado, dividida em duas metades.

Na primeira, ficavam as vacas, para eles tão importantes que não podiam ser deixadas do lado de fora. A outra metade da casa era também dividida ao meio. Na primeira célula, pelo respeito e a idade, ficavam os avós. Na célula restante, um quarto do espaço total, amontoava-se todo o resto da família - pai, mãe e filhos, geralmente vários.

Os masai se alimentavam sobretudo do sangue do gado. Aproveitavam tudo - os ossos, para fazer instrumentos, e o couro, usado nos escudos com que saíam savana afora.

Para ir de aldeia em aldeia, andavam, ou corriam - daí os quenianos serem imbatíveis nas provas de maratona. Correr, para eles, é como para nós pegar o carro.

Aos quinze anos, como rito de passagem da adolescência para idade adulta, tinham de matar um leão. Não era sentido figurado, mas isso mesmo: matar, de fato, um leão.

A certa altura, apareceu a polícia. Como nossa visita era ilegal, os policiais levaram o chefe para o interrogatório - uma bronca, segundo me explicaram, e ele estaria de volta, porque os masai, como os índios no Brasil, eram inimputáveis. O homem levantou a perna do tamanho de uma vara de salto e sem nenhum esforço subiu no caminhão da polícia florestal. Ainda o vi, altaneiro, balançando selva afora.

Tal foi a impressão que tive dos masai, quando os conhecia, mais de perto: a mesma desse quadro, quando os vi de longe, que me lembra que o homem é, e sempre foi, a maior força da natureza.




quinta-feira, 18 de junho de 2020

O romancista encara suas fontes


Eu estava em Nova York, tempos depois de lançar A Quinta Estação, quando tocou o celular. Era uma ex-namorada, que ligava do Canadá.

- Meu pai leu o seu livro.

- Ué, achei que ele não gostava de mim.

- Disse que o livro está cheio de sexo!

- Mas é uma obra de ficção e ninguém está identificado...

- Como não? Agora só me chamam de Sofia!

Lembro dessa história ao folhear A Quinta Estação, um daqueles livros que, por ser contemporâneo, acabam criando alguns problemas. Tenho um amigo que, quando lanço um romance, pergunta; “Quem vc f... dessa vez?”

Um de meus filmes favoritos, “Desconstruindo Harry”, de Woody Allen, fala justamente desse problema do autor. De forma análoga ao que faz como cineasta, Allen se coloca no papel de um escritor que usa todo mundo que conhece como inspiração para seus personagens. Acaba criando uma confusão só ao seu redor. E não conto mais nada, para não dar spoiler a quem não viu.

Por sorte escrevo muitos romances históricos e, quando as inspirações são colocadas no passado, as pessoas não percebem tanto onde contribuiram sem querer para a história.

O fato é que, em qualquer época na qual qual seja ambientado, todo livro é produto das experiências de um autor, que frequentemente envolvem outras pessoas. E estas por vezes não gostam de se ver retratadas ali, ou da forma como você as retrata. Um romance tem sempre um ponto de vista, que é o ponto de vista do autor.

- Nesse livro aí você acerta conta com muita gente – Certa vez me disse um ex-cunhado, que é juiz. – Como a gente se defende de você?

Tem gente, por outro lado, que se enxerga lá nos livros mesmo sem ter nada a ver. Seja como for, é difícil entender o que sai da cabeça do escritor como uma recriação ficcional, que serve a uma função dentro da história, e por vezes tem de ser propositadamente adaptada.

A Quinta Estação é meu campeão de problemas nesse campo. Uma vez, uma leitora me mandou uma mensagem indignada.

- Mas esse livro só tem a perspectiva masculina dos relacionamentos!

Tentei explicar que era essa mesmo a ideia: cinco contos de amor, narrados do ponto de vista masculino. Afinal, o que há de errado com o ponto de vista masculino? Se eu sou homem, por que não posso ter um ponto de vista masculino?

Eu gostaria de mostrar que os homens pensam, sim, sobre relacionamentos, apesar da fama em contrário. Homens sofrem de amor, ficam magoados, e, no fundo, se queixam tanto as mulheres, talvez mais, por incompreensão. Porém, tentar convencer a moça foi inútil.

Às vezes, é verdade, faço referências que são pura e inocente provocação. Em Filhos da Terra, por exemplo, homenageio um amigo meu, o doutor Eduardo Reis, colocando seu nome num personagem que é um bacharel de porta de cadeia, especializado em livrar a pele dos larápios. Uma daquelas pequenas sacanagens que a gente só faz com grandes amigos.

Outra: também em Filhos da Terra, coloquei o nome da minha mãe e de minhas tias nas sete filhas do delegado que não deixava nenhuma casar antes de desencalhar a primeira. Elas adoraram o livro. Mas um tio que teve seu  nome trocado com o de um irmão ficou chateado comigo.

O que as pessoas não pensam tanto é que ninguém se expõe mais do que o autor, às vezes onde menos parece. Ainda assim, como não podemos ser tudo nem viver tudo, acabamos aproveitando a experiência dos outros.

Por isso, o interesse verdadeiro pelo outro, com o entendimento e aceitação de toda a diversidade humana, é essencial para quem escreve e também nossa vantagem. Essa preocupação serve ao trabalho e serve à vida, porque ela melhora muito, fica muito mais rica, quando temos um interesse genuíno pelas outras pessoas. E mais: temos compaixão. Sem base na realidade, sem nos colocarmos na pele do outro, nenhuma história teria credibilidade. E paixão.

A todos aqueles que me ensinaram alguma coisa na vida, que me me deram amor, ou com quem dividi aventuras, experimentos e mesmo alguns erros, deixo meu reconhecimento agradecido.

Indo para o papel ou não, todos podem ter a certeza de que tudo o que compartilhamos continua vivo dentro de mim. Se também compartilho algo dessa experiência em livro, é porque acho isso tão importante que pode servir a mais alguém.

E, por favor, não tenham medo de me contar coisas. Eu não mordo. Só, às vezes, escrevo. Discretamente.


terça-feira, 16 de junho de 2020

Minha companhia silenciosa

Algumas vezes na vida, morei sozinho – e desta vez recorro ao psicólogo americano Anthony Storr, que publiquei em português como editor na Saraiva, para quem estar sozinho não significa necessariamente ser uma pessoa solitária.
Pelo contrário. Storr nos lembra que a ideia de que as pessoas só podem ser felizes juntas, coabitando no casamento, é uma invenção relativamente recente na história da Humanidade, datada da era vitoriana para cá.
Diz Storr que são muitas as fontes da felicidade, podendo ser escolhidas de acordo com cada um. O importante é nos sentirmos bem e encontrarmos a melhor forma de viver em cada um dos períodos da vida.
Estar em uma nova casa, desta vez, acabou me reaproximando de velhos amigos, que de vez em quando visito. Saem dos livros que enchem as estantes e carrego comigo aonde vou morar, alguns deles há muitos anos.
Dali vem ao meu encontro Storr, falecido em 2001, mas que ainda hoje me ajuda e acompanha no que de outra forma seriam apenas desorientados solilóquios existenciais.
Uma biblioteca é um cemitério de papel, com a diferença de que dali os mortos se levantam tanto quanto os vivos, no frescor humano, plenos de ideias, sentimentos e energia vital. Conversam comigo, quando folheio as páginas onde colocaram, estou certo, o melhor que tinham de si. Contam histórias, fazem confissões, trazem experiências, conhecimento, vivência humana.
Fico feliz e um tanto aliviado de estar hoje também entre eles – o meu canto da estante em que me coloco dentro de mais de uma vintena de livros escritos ao longo da vida, nos quais, pelo tempo em que os escrevi, dei, certamente, o melhor de mim.
Digo a todos estes meus amigos, espalhados por cerca de 3 mil volumes, carregados trabalhosamente de mudança em mudança, que não os abandono, nem abandonarei.
E que não me esquecerei de um dia juntar-me a eles, de maneira definitiva, para ressuscitar da mesma forma que hoje ganham vida, assim que eu me sento, bastando abrir o tablet ou, neste caso, a palma das mãos.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Os livros e o louco sobre a montanha


Lá por volta de 1998, trouxe para o sítio que tinha acabado de comprar, nas montanhas de São Bento do Sapucaí, o Zé Luís - um encanador de metro e meio de altura, que se tornara tão meu amigo quanto um colaborador imprescindível, para me ajudar naquela que seria a primeira grande revolução da minha vida.

Em São Paulo, eu morava numa cobertura do Morumbi, com um deck para a piscina que vivia dando vazamentos - e Zé Luís, pelo tamanho, era o único que conseguia passar pela abertura onde ficava a bomba, para realizar reparos. Volta e meia, chamava o Zé Luís.

- Você não pode sumir - eu dizia a ele. - Sem você, não sei o que faço.

Em 1998, eu andava bastante encrencado. Não conseguia terminar meu primeiro romance, travado por uma daquelas paralisias cerebrais que transformam a vida da gente numa crise só. Casado fazia seis anos, me separei. Era o editor da revista VIP, na Editora Abril - pedi demissão. Deixei a casa para minha ex-mulher. Fiquei com a roupa do corpo. Fiz uma revisão geral de vida. E concluí que precisava de ar.

Numa viagem de fim de semana, acabei parando nos altos do Serrano, levado por Tiãozinho, simpático dono de um bar, num jipe que subiu uma estrada então quase inacessível, principalmente na chuva, até o terreno coberto de mato, com uma tapera de dar dó. Porém, o que avistei, dali de cima, mexeu com meus olhos e o coração.

Eu não tinha emprego, nem casa em São Paulo. Tinha, porém, acabado de receber 20 mil reais das vendas de um livro, que tinha feito em parceria com o hoje falecido editor de moda Fernando de Barros - "Elegância". Tião queria 25. Eu disse que tinha 20 e pagava à vista. Fechamos negócio.

Eu continuava sem casa em São Paulo, sem emprego, sem mulher, e estava novamente sem um tostão. Mas ali se desenhava uma nova vida.

Dormi uma noite na tapera, entre aranhas e vidros quebrados. O encanamento não funcionava. Pensei no Zé Luís. Levei-o de São Paulo para me ajudar. Subimos a montanha no carro velho, comprado com o dinheiro da rescisão trabalhista, que substituíra meu belo veículo corporativo. Chegamos levantando uma nuvem de poeira com a patinação.

Quando entramos no terreno, ainda cheio de mato, abri os braços.

- Olha, Zé Luís. Você conheceu minha casa lá em São Paulo, minha vida, tudo. Troquei por isso aqui. Você acha que eu estou louco?

Zé Luís olhou a tapera, o mato, e depois o vale verde, rodeado de montanhas, que pelas manhãs se encobria num lençol de nuvens, deixando fora só os altos de serra. Do outro lado, no horizonte, a Pedra do Baú.

Respirou o ar. E disse:

- Olha, seu Thales, se o senhor está louco, queria ser louco como o senhor.

Conto essa história para dizer que voltei para cá, semana passada, passar parte do meu retiro no meio da pandemia que forçou o isolamento. Estou acostumado a isolamentos. Mas, aqui, como tantas vezes, sinto que não preciso de mais nada.

Desde que aqui cheguei pela primeira vez, muita coisa mudou. Terminei meu primeiro romance, Filhos da Terra, que precisava desse ar livre para sair, e duas dezenas de outros livros de ficção e não ficção. Passei também por outros casamentos. No sítio, apareceram uns outros paulistanos pela redondeza e tem calçamento até na frente.

A casa já não é mais minha - hoje é de minha irmã, Lara, que veio aqui e gostou tanto quanto eu. Estou na companhia de minha irmã, meus sobrinhos, cunhado e meu filho. Depois de doze anos acabei indo para outros lugares. E agora, outros dez anos depois, por razões que a razão desconhece, estou novamente aqui.

Respiro. Quantas vezes pintei, desenhei e descrevi esse cenário? Achei que tinha deixado este lugar, este meu "canto do mundo", como diria D.H. Lawrence, para sempre. Mas volta e meia acabo aqui, sempre em circunstâncias de recomeçar.

Sou muitas vidas e muitos recomeços. E ainda sinto que tenho muito por fazer. Olho adiante e, em vez de cansaço ou desânimo, recolho experiências como material de trabalho.

Não sou mais tão jovem, mas, quando jovem, já pensei que teria menos tempo pela frente do que acredito ter hoje. E sei que a luta me fortalece.

Invento uns versos parafraseando a Canção do Tamoio, de Gonçalves Dias, rabiscando o caderno em cima do joelho.

"Não chores, amigo
Não chores que a vida
Não vence, é vencida
E se parece perdida
Pode recomeçar

A vida é ganhada
Sonhando acordada
É fim e partida
Eterno perigo
É sempre lutar."

Não sei por onde anda Zé Luís, mas ainda sou meio louco. E preciso da loucura, para viver, e trabalhar.

sábado, 9 de maio de 2020

O direito a uma boa morte

Outro dia faleceu, de causas esperadas, aos 94 anos de idade, Rubem Fonseca. Um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos, se não o melhor. A notícia de sua morte virou uma pequena nota na imensidão de mortes causadas pela pandemia. Pouca gente leu. No pandemônio pandêmico, não houve loas, nem homenagens.

Nesses dias, morreram também o compositor Aldyr Blanc e o jornalista Nirlando Beirão. Eu não sabia, mas Nirlando sofria do mesmo mal que Stephen Hawking. Padeceu não imagino o quanto e perdeu a vida, aos 71 anos. Essa idade, hoje, é tão cedo.

No passado, brigamos, mas, creio, nos respeitávamos um ao outro. Da última vez em que o vi, sentamos à mesma mesa, num restaurante no Itaim. Conversarmos e demos boas risadas.

Eu o chamava de "meu melhor inimigo". Certamente era um cavalheiro como poucos. E um grande jornalista. Sua morte me afetou  profundamente. Ainda que ela pareça se perder nesta multidão.

Escrevo isso enquanto por aí morrem pessoas às centenas, já aos milhares. Na pandemia, todas as mortes parecem iguais. As pessoas se vão sem despedidas, pela proibição de visitas de parentes e reuniões, até mesmo um velório.

A periferia de São Paulo hoje lembra os campos de concentração nazistas. Tratores cavam valas em série. As pessoas são ali despejadas, muitas lacradas dentro de caixões metálicos. Não há gente, cerimônia, sentimento. O rito, tão necessário às despedidas.

Somente depois de cuidar de crianças, entendi plenamente quanto trabalho e empenho emocional dá fazer a vida humana florescer . Ela tem um valor inestimável. Escrevo sobre gente, talvez, por isso. Para mim, cada indivíduo tem um valor único e precioso.

Se pudesse, escreveria um romance sobre cada um. O mais pobre e anônimo dos seres para mim vale uma odisseia. Mas sou apenas um. E os mortos se vão contando no mundo hoje às centenas de milhares.

Vejo nosso presidente dizer que as mortes são inevitáveis e temos que voltar ao trabalho de qualquer forma. Com o isolamento, porém, sabemos que haverá menos mortes. Cada vida vale um esforço sobre-humano para sua salvação. E devemos poder cuidar mesmo dos mortos. Temos, todos, o direito a uma boa morte.

Não podemos nos tornar insensíveis ou indiferentes à tragédia humana. Penso não apenas nos que se vão, mas em todos que sofrem com as perdas, com o medo da doença, ou a preocupação com os entes queridos. Este será um tempo para lembrar, não para esquecer.

Temos que enfrentar a crise com determinação, mas não podemos perder o sentimento. O que nos mantém vivos não são as vacinas, os remédios. É a solidariedade humana, que nos coloca juntos diante das dificuldades. E o amor.

Podemos sofrer,  podemos endurecer, podemos divergir, podemos até lutar, mas não podemos, em hipótese nenhuma, perder a humanidade. É isso que impede o mundo de ser irreparável.

sábado, 11 de abril de 2020

Bem vindos ao meu mundo

Bem vindos ao meu mundo. Eu sabia que um dia o estilo de vida dos escritores, tão decantado no período em que eles saem a beber, dizer besteiras e fazer enormidades, mostraria seu outro lado: o da vida de toupeira, enfiado num escritório, com a cabeça dentro de um laptop.

Escritores são, na maior parte do tempo, trabalhadores domésticos. Estou acostumado a longos períodos dentro de casa. Dias a fio, semanas, meses. Escritores vivem periodicamente quarentenas voluntárias. E bem. Por isso, a vida hoje não está muito diferente para mim. E talvez a minha experiência possa ajudar outros a conviver melhor com o isolamento.

O escritor tem algo de
faraó. Escrever um livro é como construir uma pirâmide. Você começa, não sabe quando vai terminar, e provavelmente a maioria das pessoas só vai ver aquilo depois da sua morte.

O processo de trabalho é uma mistura de horror e êxtase. Quando entramos no estado de sintonia necessário para emendar um parágrafo no outro, mergulhamos num túnel que parece interminável, até que algum dia, um belo dia, a gente sai do outro lado, ofuscado pela luz.

Para mim, esses períodos podem durar quatro, cinco, até seis meses. Saio do outro lado mais velho, com as costas moídas, estressado e gordo. Mas saio.

Você corre o risco de virar parte da mobília. É esquecido dentro de casa, como um abajur. Ou então, lembram  de você porque não está fazendo nada. Mandam você catar o lixo, atender a porta, consertar coisas. "Ficar em casa não é trabalho", dizia minha ex-sogra.

O contrário também é verdadeiro. A vida dentro de casa passa quase sem ser percebida. Se não vierem me chamar, não tomo café da manhã, não almoço, nem janto. Você pode achar estranho. Mas é o normal.

Concentração, a causa de alheamento, é fundamental para o trabalho. Eu já escrevi em redações de jornal, com 100, 200 pessoas. Você adquire a capacidade de se concentrar, apesar do barulho ou do movimento ao redor. Fica como numa caixa. Por isso, frequentemente passa como mal educado, ou imbecil.

Certa vez, quando escrevia O Homem que Falava com Deus, estava tão absorto no texto que só por volta das quatro e meia da tarde percebi não ter almoçado. Dei um grito, já bronqueado com Elizete, a empregada. "Elizete!" - berrei. "Você esqueceu meu almoço!"

Ela veio. E mostrou que o prato, já frio, estava do meu lado. Tinha entrado, avisado que o almoço estava servido, saiu. E nem percebi.

Esse estado de ausência pode durar dias, até semanas. Claro que eu paro para comer, tomar banho, essas coisas. Mas a cabeça frequentemente está em outro lugar. Quando estou parado, a cabeça trabalha. Nunca trabalho tanto quanto nos momentos em que pareço não estar fazendo nada. Eu me distraio fazendo outra coisa. Pode ser ver um filme, consertar alguma coisa. É preciso fazer uma atividade diferente, não que me faça parar de pensar, mas que me faça pensar em outra coisa, que não seja o livro que estou escrevendo. A isso eu chamo de descanso.

O tempo passa rápido, quando você está envolvido com alguma coisa. Lá fora não importa. Não sabemos se está chovendo, ou fazendo sol. Você vai dizer: não é possível. Outros já me disseram: não entendo como você escreve tanto. Escrevo tanto porque é possível. Quando começa o transe, sumo do mundo exterior.

Reapareço lá na frente, e é sempre um dia glorioso. Mas aquele tempo que passei dentro de casa sumiu do calendário. É quase como se eu não tivesse vivido. Transformou-se em algo que vira um monte de papel. E não faz nenhum sentido, se ninguém for ler.

Além de permanecer reclusos longos períodos, escritores se habituam a passar longas temporadas sem rendimento. Cada vez que você começa um livro, geralmente, está no risco. Risco de nenhum editor gostar da obra e ela não ser publicada. Risco de ela ser publicada - e não vender.

São períodos de ansiedade, tanto por conta do processso de escrever, em si, quanto pela expectativa de fazer algo que possa dar resultado. Do momento em que começo a escrever um livro, até ele ser publicado, existe o intervalo de pelo menos um ano. E outro ano, até que o livro seja vendido, a livraria pague a editora, e a editora me pague, como autor.

Não conheço nenhum outro ofício em que você investe tanto tempo e dinheiro, sem perspectiva de receber tão cedo. Talvez a construção civil. Para sobreviver, se você é empreiteiro, você precisa ter imóveis já à venda. O escritor, livros já escritos, que rendam algum dinheiro, enquanto você trabalho no próximo. Ainda assim, nada está garantido.

O livro tem uma curva de vendas. Vende mais no começo, depois as vendas começam a ser menores, até que ele vira uma "obra de catálogo". É importante você ter um bom catálogo, porque a soma da venda de livros que já não estão no auge, mas continuam vendendo, ajuda a você se manter pelo longo período de produção de um livro novo.

E quando ele acaba, ah!. Que sensação de alívio. É uma alforria. Dá vontade de viver de novo.Sair, viajar, namorar, fazer mil bobagens. Reencontramos os amigos, que não entendem nosso sumiço. Nem a mulher (ou marido) entende. São poucos os casamentos que sobrevivem a escrever um livro. Mas não há muita coisa você possa prometer para melhorar isso.

Vocês, meus amigos, ou a maioria de vocês, pelo menos, têm a sorte de estar sendo confinados uma vez na vida. Eu, com mais de duas dezenas de livros na carreira, vivo numa espécie de regime semi-aberto. Saio de vez em quando, para voltar ao confinamento. Preciso de ar livre, de experiências, de contato humano, de amor, para me reabastecer e voltar à clausura. E preciso da clausura. Não sei, até hoje, por que. Acho que nem quero mais saber.

São esses pensamentos que me vêm agora. Eu vejo e sei que lá fora a miséria avança, que estão todos preocupados, que o drama das mortes lança uma sombre negra sobre a Humanidade. E sei que o remédio do confinamento é duro. Se vale de alguma coisa a minha experiência, ou um conselho, é: torne seu tempo de confinamento produtivo. Empenhe-se em algo que vale a pena, tenha um objetivo, e envolva-se. Não fique achando que todo dia dá para tomar uma cerveja. Invente uma rotina. E aferre-se a ela, pensando que ela agora é a sua vida.

Você pode não ganhar dinheiro com isso. Mas chegará ao final do túnel ainda são, ou, pelo menos, recuperável.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

O gigante de papel


A história da última entrevista de Paulo Francis

Eram cinco horas da manhã de uma quarta-feira de março de 1996, Nova York passara por uma das maiores nevascas de todos os tempos e o avião descia no aeroporto J.F. Kennedy numa escuridão tão completa que só percebi a aterrissagem quando o aparelho tocou o solo. 
Francis: esforço para enxergar

Embrulhado em meu cobertor, espiando pela janelinha como num submarino em grande profundidade, eu só via a luz da asa direita, transformada num halo difuso e pálido em meio à neblina. Tentei imaginar como o piloto chegara ali e taxiava sem enxergar a pista. Quem dera jornalistas tivessem pilotos automáticos para fazer o seu serviço, pensei, grogue de sono. Infelizmente, eu me sentia como se fosse aquele avião: andando literalmente às cegas.

Aos 32 anos, eu era editor executivo da revista Exame VIP, dirigida a um público com capacidade financeira para tomar vinhos, comer bem e aproveitar as recomendações de uma publicação empenhada em elevar seu estilo de vida. 

Para mim, isso significava um emprego com um bom salário, alguns desfrutes e um regime de trabalho que me permitia, das seis até as dez e meia da manhã, quando partia para a redação, escrever secretamente meu primeiro romance, Filhos da Terra, que seria publicado dali a dois anos. Porém, gostava da revista; lá, além de vinhos, viagens e outros importantes supérfluos, tinha oportunidade de escrever sobre o que mais gostava – gente, suas idéias e a maneira que elas levavam a vida. 

Daquela feita, minha missão era produzir uma reportagem sobre três mosqueteiros do jornalismo brasileiro, que viviam em Nova York: Paulo Francis, Lucas Mendes e Nelson Motta, personagens quase lendários que vinham dando brilho a um recente sucesso da televisão.

O Manhattan Connection, da GNT, era o primeiro programa a se destacar em cabo no Brasil, num tempo em que a audiência da TV por assinatura ainda engatinhava. Não era difícil entender as razões pelas quais atraíra a simpatia de um público crescente. Primeiro, tinha sido concebido como uma mesa-redonda, que provocava o debate acalorado entre seus participantes, como as tertúlias sobre futebol nas noites de domingo, tão ao gosto dos brasileiros.

Tratava de notícias do Brasil e do mundo a partir da Nova York, com novidades sobre a cidade e reflexões de ambição internacional, numa fase em que os brasileiros se abriam para o mundo, estimulados pela abertura política e econômica que lhes permitia viajar para o exterior, usar finalmente cartões de crédito em viagens internacionais e conquistar um novo tipo de status.

Para completar, o programa atraía pela qualidade de seus participantes, cuja personalidade lhe dava o condimento. Com sua língua ferina e sua cultura enciclopédica, Paulo Francis era o polemista visceral. Fiel a si mesmo, e ao que escrevia nas suas colunas na época para o Estado de S. Paulo, O Globo e a TV Globo, disparava seus comentários sobre tudo e todos com a soda cáustica produzida por seu cérebro monumental.

Nelson Motta, com sua contagiante alegria de embaixador da música popular brasileira, era a figura ligeira e bem humorada que contribuía com sua visão cultural.

No papel de moderador da mesa, encarregado de trazer o fato puro e objetivo, com o talento que fazia dele o melhor texto da TV brasileira, Lucas Mendes tinha a tarefa adicional de colocar ordem nos companheiros de mesa.

Por fim, como um D’ Artagnan entre os três mosqueteiros, Caio Blinder - ex-editor da seção de internacional do jornal Folha de São Paulo - tentava fazer no meio daqueles gigantes da imprensa o difícil papel de sujeito normal.

Escrever sobre aquele pessoal não seria fácil: entrevistar gente de imprensa, dentro dos órgãos de imprensa, é sempre encarado como missão delicada, pois qualquer ferimento a suscetibilidades pode se transformar em retaliação. Além disso, havia um desafio adicional.

Meu chefe à época, Antonio Machado, alçado à direção do grupo Exame, responsável pelo lançamento de VIP como revista independente, era partidário das iniciativas ciclópicas. Queria uma reportagem de bastidores sobre o programa, a biografia completa daqueles jornalistas, e mais: uma foto de capa, com os três mosqueteiros abraçados diante de um táxi amarelo, que para ele simbolizava a vida na Big Apple.

Eu não gostara muito daquela idéia, que achava redundante; além disso, imaginava dificuldades para convencer os personagens, sobretudo Paulo Francis, que por temperamento provavelmente não se prestaria a encenações. No entanto, com Machado ninguém discutia. Quando ele tinha uma grande idéia, era uma grande ideia – qualquer manifestação contrária era insubordinação, passível de demissão. E ponto.

Não foi difícil convencer Nelson Motta e Lucas Mendes ao telefone de que aquela matéria seria excelente para todos. Lucas, que além de apresentador do Manhattan Connection era seu produtor, buscava consolidar o prestígio do programa. Garantiu que daria toda ajuda possível. Nelsinho, o brasileiro cordial em pessoa, mostrou-se disposto a colaborar com alegria. Chegou, então, a vez de falar com Paulo Francis.

Somente telefonar para o velho monstro do jornalismo, implicando nessa expressão o tamanho do personagem e também o medo que eu sentia dele, representava para mim uma enormidade. A terrível verdade sobre o jornalismo é que o repórter sempre depende da boa vontade do entrevistado. E eu, rezando a missa para o Papa, receava ser demolido pela mesma agressividade com que Francis devastava seus adversários, espicaçava governantes e fazia inimigos em tal profusão que somente a vida no exílio em Nova York garantia sua integridade física.

Do alto dos seus 66 anos, Francis desfrutava como alguns personagens mitológicos de uma certa imunidade para dizer o que pensava a torto e a direito – especialmente, como eu temia, a palavra “não”. Mesmo assim, enchi-me de coragem e pedi a Helppy, apelido de Maria do Socorro, a secretária da redação, para fazer a chamada.

- O Paulo – me avisou ela, com grande intimidade, ao passar a ligação.

Peguei o telefone, disse alô, e minha saudação caiu no vazio. “Alô”, repeti, e nada. Do outro lado, um silêncio cortante vinha em resposta: Francis, no entanto, estava lá, porque eu podia ouvir ao longe, na rua, o barulho de uma sirene de bombeiro, polícia ou ambulância, como as que passam a toda hora nas ruas de Nova York. “Alô”, repeti pela terceira vez, angustiado, e como nada obtivesse de retorno acabei por desligar.

Pensei: já sei o que foi. Eu continuava com medo, mas lembrei de uma máxima, segundo a qual correr do leão é a melhor maneira de ser devorado: é preciso enfrentá-lo. Além disso, eu estava irritado; nem Paulo Francis podia fazer aquilo comigo.

Foram longas horas até o dia seguinte, quando fiz minha segunda tentativa. Pedi a Helppy que me cedesse o seu lugar. Sentei diante do telefone, disquei o DDD e o número. A voz inconfundível de Paulo Francis, mesmo ao pronunciar uma palavra de três letras, surgiu do aparelho.

- Alô.

- Alô – disse eu, firme. – Aqui é o Thales Guaracy, da revista VIP. - Primeiro, gostaria de saber por quê você não me atendeu ontem ao telefone.

- Eu não espero secretária.

Pensei: eu sabia.

- Bem, então eu gostaria de lhe dizer que, como jornalista, eu sempre atendo todo e qualquer telefonema, assim como faço minhas próprias ligações. Só pedi à Helppy que transferisse a chamada porque a linha da minha mesa não faz ligações internacionais. É também por essa razão que eu estou ligando hoje para você sentado no lugar da secretária.

O silêncio pairou novamente no ar do apartamento nova-iorquino de Francis; daquela vez, porém, senti que era porque ele estava desconcertado. Quando falou, foi com uma nota de irritada aceitação.

- Mas o que você quer, afinal?

Expliquei-lhe a ideia da matéria, sem mencionar o táxi amarelo, assunto delicado demais para nervos ainda à flor da pele. E disse que os outros integrantes do programa, estrategicamente consultados primeiro, já tinham concordado.

- Quando você vai pegar o avião?

- Se você estiver de acordo em dar a entrevista, amanhã – disse eu.

- Então venha. E quando chegar me ligue.

Apesar da confirmação, não fiquei tranqüilo. A voz de Francis ainda me pareceu mais ameaçadora que o seu silêncio. Um fracasso, pelo volume de gastos que a operação toda implicava, incluindo a foto com o táxi amarelo em estúdio, seria funesto. 

Por isso, eu insistira em explicar o que meu chefe queria a Lucas e Nelsinho, contando com a ajuda deles para convencer o mosqueteiro mais refratário. “Pode deixar que falo com ele”, garantira Nelsinho ao telefone. “Você vai ter tudo o que você precisar”, assegurara Lucas.

Chamei Helppy e disse: “Mande comprar a passagem”.
Minhas preocupações se juntavam ao jet lag quando desembarquei do avião em Nova York num finger aonde penetrava um frio antártico. O táxi deslizou pelas avenidas desertas do Brooklyn enquanto as luzes de Manhattan mais adiante brilhavam como um mosaico enfumaçado pela escuridão e a neblina. Pelas ruas planas da ilha, adormecidas naquele horário, montanhas de neve e sacos de plástico negro deixados por uma greve dos lixeiros se acumulavam nas calçadas.

Eram pouco mais de sete horas quando entrei no Algonquin, o velho hotel que naquele tempo pertencia à rede Caesar Park, da brasileira Shieko Aoki, e por isso oferecia descontos para empresas nacionais. 

Entrei no saguão afamado pelas reuniões que no passado tinham abrigado a escritora Dorothy Parker e os membros da sua Round Table; suas confortáveis poltronas pareciam ainda mais acolhedoras naquela manhã fria e a gatinha que habitava o lugar, uma de suas tradições, enrolava-se a um canto. Apresentei meu voucher no balcão. 

Era cedo demais: o quarto só estaria disponível às nove horas. Tomei meu café da manhã no pequeno restaurante do hotel, até poder levar minha malinha para o apartamento de simplicidade austera, com suas paredes brancas e cama de madeira escura.

Depois de deixar a mala em um canto, fui direto ao telefone. Pensava no que Francis dissera (“ligue assim que chegar”). Ainda não eram dez da manhã, hora considerada precoce pela maioria dos jornalistas. Contudo, obedeci às instruções: fiz a ligação. Para minha surpresa, ele atendeu o aparelho de imediato – e parecia de bom humor.

- Chegou? – perguntou ele.

- Sim.

- Então me encontre no 230 East 63. Meio dia.

A discussão que eu tivera com Francis sobre jornalistas, telefones e secretárias surtira um efeito maior do que eu imaginara: aparentemente, naquela manobra arriscada, eu ganhara o seu respeito. Espantado pela maneira como o que parecia mais difícil se tornava o mais fácil, cinco minutos antes do meio dia eu me encontrava no endereço indicado, uma cantina italiana no Upper East Side.

O Bravo Gianni tinha um grande aquário na entrada, como os estabelecimentos decadentes que eu conhecia da minha infância quando almoçava com meus pais no Bixiga, em São Paulo. Estava vazio, não por causa do horário, mas porque, como eu veria em breve, pouca gente almoçava lá – incluindo nessa lista alguns brasileiros que tinham feito daquele lugar, muito graças a Francis, um ponto de encontro. 

Quando disse ao garçom quem encontraria ali, ele me levou a uma mesa de canto, redonda, cercada por uma poltrona de couro, a preferida do seu cliente habitual. 
Francis surgiu meio dia em ponto, com um chapeuzinho estilo inglês, sobretudo preto cobrindo o terno escuro de lã e gravata verde: parecia uma espécie de duende gigante, atrás dos óculos grossos que deformavam ainda mais seus olhos esbugalhados.

- Olá, Guaracy.

Sentou-se ao meu lado; pouco olhava na minha direção, mas parecia de uma extraordinária afabilidade para quem, até há pouco tempo, sequer tinha vontade de me dizer alô ao telefone.

- Este é o meu restaurante preferido em Nova York – foi dizendo ele. - Não essa Nova York, que não é Nova York, mas esse quadrilátero aqui, onde ficam minha casa, o Bravo Gianni e a TV Globo. Essa é a verdadeira e única Manhattan, eu nunca saio desse quadrado, seria uma grande perda de tempo.

Contou então sentir muita falta de Elio Gaspari, seu grande companheiro de tertúlias, que há um ano deixara Nova York, onde ocupara o posto de correspondente da revista Veja. Havia em Francis um certo fastio, ou uma melancolia de um tempo em que achava ter a única pessoa no mundo inteligente o bastante para conversar com ele. 

Almoçava com Gaspari no Bravo Gianni, naquela mesma mesa onde estávamos sentados, e dali eles saíam para caminhadas de até “quarenta quarteirões”, nas quais mantinham a forma física e praticavam seu esporte preferido, definido por Francis como a “observação dos “loucos”.

- Essa é a coisa mais engraçada de Nova York - disse. - Você desce pela Terceira Avenida e vai vendo os loucos. Eles se modernizaram e agora têm até microfone com speakers para gritar maluquices mais alto.
Passavam também pela Quinta Avenida na altura da Rua 56, reduto de grifes como a Tiffany’s, que Francis classificava como a “maior esquina do mundo”. “O Elio dizia como piada que essa é a região com a maior concentração de mulheres bonitas do planeta. Elas vão lá depois de velhas para lembrar como eram e ficar espiando as mais novas”, explicou.

Pedimos a comida – pasta – e o dono do restaurante, Gianni em pessoa, um italiano de cabeleira branca, apareceu para dar um alô. Tinha estado em viagem, explicou, num inglês macarrônico, e para provar que fugira à nevasca levantou a camisa até a altura do peito, deixando à vista sua barriga de chope, transformada em uma bola alaranjada. “Estava na República Dominicana, tomando sol”, disse ele, satisfeito. “Desde 1978 eu não via uma nevasca assim”, disse Francis. “Desde 1961”, corrigiu Gianni. “Para mim, esse foi um ano de duas tempestades: a neve e o meu casamento.”

Depois que Gianni foi para a cozinha, comecei oficialmente a entrevista. Francis era na conversa pessoal exatamente a metralhadora giratória que aparecia em seus artigos de jornal, ou nos comentários feitos todas as noites para o Jornal da Globo. Não perdia oportunidade de falar mal de ninguém e enfiava um assunto no outro com a facilidade de um moleque que sai disparando seu estilingue na passarinhada. 

Sentado no restaurante, dissertava com desenvoltura sobre assuntos variados, que estudara profundamente, do preço dos aluguéis em Nova York ao balé e a tecnologia das bombas atômicas. Chegara a fazer, segundo explicara, um curso a respeito, que o deixara preparado para ser um verdadeiro agente da CIA.

Com seu porte de aristocrata, Francis sempre morou em Nova York no Upper West Side, aquela região que considerava a única habitável na cidade, desde que se mudara para lá. Ocupava um apartamento na rua 47 com a Segunda Avenida, a dez quarteirões de caminhada do antigo escritório da Rede Globo, na Terceira Avenida com a 54. 

“Para morar em Nova York, e aproveitar tudo de bom que a cidade oferece, é preciso ganhar pelo menos 10 mil dólares por mês”, disse. “Aqui não se aluga um apartamento por menos de 2 000 dólares. Eu pago menos que isso, mas essa foi uma galinha morta que só encontra quem mora aqui há anos.”

Entramos no terreno mais pessoal. Francis falou da sua infância e de como seu pai parecia sempre preocupado em que ele não virasse um vagabundo. Para “fazer alguma coisa” alistou-se como figurante num grupo de teatro, dirigido por Paschoal Carlos Magno. Foi Paschoal, que achou impronunciável seu nome de batismo (Franz Paulo Trannin Heilborn), quem lhe deu o pseudônimo de Paulo Francis. 

“Eu achava que ia ficar segurando uma espada no palco, mas acabei fazendo seis papéis”, contou ele. “Num DC-3, avião então utilizado pelos correios, e com o auxílio de Getúlio Vargas, que deu metade das passagens, porque político só dá as coisas pela metade, fizemos uma turnê pelo Brasil. Sou, por isso, um dos poucos atores que representou em Teresina.”

Francis passou de ator a diretor, de diretor a crítico, tornando-se colunista de artes em meados da década de 1960, seu caminho de entrada na imprensa, logo ampliado para a política, até escrever a partir de 1977 a coluna no jornal Folha de S. Paulo que o projetou ainda mais. 

Impunha seu crivo sobre tudo, do último romance da moda ao presidente da República, como se fosse uma autoridade superior. Explicou-me seu gosto pela leitura, o empenho com se fizera um bem sucedido autodidata e a importância da vida introspectiva, levando-me a acreditar que havia na metralhadora Francis um fundo psicológico mais profundo do que eu pudera imaginar.

Apanhou os óculos de fundo de garrafa, segurou-os na concha das mãos, examinando-os como um passarinho ferido. Era, no entanto, como se visse além deles, através da toalha branca da mesa; olhava a si mesmo, ou um passado com recordações capazes de machucar.

- Você sabe – disse ele, num murmúrio, - os meus olhos são ruins.

Explicou-me sua quase cegueira; havia no seu relato sobre aquele dado biológico um extraordinário peso, como se tudo o que fizera na vida fosse sempre um esforço supremo para enxergar, no sentido figurado e literal. 

Essencialmente, Francis era o tipo de homem que passara a vida lutando contra as limitações, as impossibilidades, o que me fez imaginar se a sua resistência, desde o tempo em que tivera de sair do Brasil para não ser preso como comunista durante o regime militar, em 1971, era a filosofia de lutar sempre contra a corrente. 

Nos artigos que escrevia, na sua postura, havia algo muito próprio da imagem que eu fazia de um jornalista ideal. Além disso, por trás do homem que levava a razão a extremos, surgia o sentimentalismo mais radical. Como exilado, Francis se sentia traído pelo seu próprio país, a ponto de nunca mais voltar. Ao mesmo tempo, como o filho rejeitado pelos pais, gostava demais do Brasil, ao ponto da paixão.

Talvez pela distância, ou pela saudade, poucos discutem a política e o Brasil tanto quanto os expatriados. Do seu posto, como um Diógenes com sua lanterna acesa, Francis procurava extrair da sua quase cegueira física uma visão de maior alcance que pudesse realmente ajudar o país. No entardecer da vida, era ainda um idealista incansável. 

Para defender suas idéias, não dispensava a criação de inimigos, esporte apurado pela sua natureza rabugenta e seu temperamento ciclotímico. No entanto, ali, na minha frente, colocando os óculos no nariz para receber o prato de macarrão que chegava à mesa, como a bonança no olho do furacão, eu vi o melhor Francis. 

Pensei que, por alguma razão, a maneira como eu o enfrentara ao telefone não apenas fizera com que ele passasse a me respeitar, como de certa forma o reaproximara de si mesmo.

Quando terminamos o almoço, eu já não tinha mais perguntas. Francis fez questão de pagar a conta. Eu lhe garanti que o dinheiro não sairia do meu bolso, seria pago pela revista para a qual eu trabalhava – mesmo assim, com autoridade, não me deixou colocar a mão no bolso. Saímos para a rua. Com o chapeuzinho de volta à cabeça, Francis permitiu que eu o acompanhasse a pé, descendo a Terceira Avenida em direção ao escritório da Rede Globo, onde gravaria sua coluna diária.

Depois de semanas de nevasca bíblica, naquele final de tarde uma nesga de sol iluminava a rua, refletindo-se nos montes cristalizados da neve suja que os caminhões tinham atulhado na calçada. Com sua entonação característica, Francis olhava para aquelas pilhas de lixo com ar reprovador, dissertando sobre a cidade, a sujeira e a vida, numa mistura que graças às suas cambalhotas retóricas acabava fazendo todo sentido.

- Em 1966 havia aqui um prefeito alto, louro, bonito como um ator de cinema; comia a mulherada toda - dizia. 
- O nome dele era John Lindsay e ele enfrentou uma greve dos lixeiros como esta. A população não gostou nem um pouco da sujeira. Ele tentou se reeleger, não conseguiu e desapareceu da política: o sindicato dos lixeiros o derrubou. Se fosse no Brasil, onde os políticos podem roubar mais de 21 bilhões de dólares como fizeram com o Banespa (nota: o maior escândalo financeiro da época), não aconteceria nada. Tanto que estão todos lá, rindo da vida.

Logo adiante, Francis deu uma paradinha. Naquele trajeto a pé, costumava cruzar com os alunos de uma escola pública localizada no caminho. Apontou o estabelecimento, sem deixar de pontificar sobre aquele outro assunto, como todos os que o absorviam.

- As meninas dessa escola parecem todas umas prostitutas, e os garotos uns assaltantes – sentenciou. - É um horror.

Voltou à caminhada, ao prefeito e o lixo.

- Esse (Rudolph) Giuliani até que não é mau prefeito - disse Francis. - Apesar da greve dos lixeiros, tem obtido outros sucessos, como uma espetacular redução dos crimes em geral de 30% nos últimos dois anos.
Perguntei se ele achava que isso era resultado da eficiência da polícia, como ventilara a revista Time em recente reportagem. Francis, porém, sempre tinha outra teoria sobre tudo, muito mais original.

- Dizem isso, mas eu acho que é por causa da redução do consumo do crack - afirmou ele. - As pessoas perceberam como ele pode ser perigoso e estão mudando para outras drogas. Bem, muitos consumidores do crack também morreram.

Na porta da TV Globo, nos despedimos com um abraço cordial. Saí dali feliz, e aliviado: todo o peso da responsabilidade por aquela viagem desaparecera dos meus ombros. Mais: eu me sentia quase como uma criança que acabava de conquistar a amizade de seu ídolo do futebol. 

Estava tão contente que me esquecera completamente do fato de não ter mencionado a fotografia com o táxi amarelo. Antes de partir, eu ainda fizera uma tentativa de demover meu chefe daquela idéia, mas Antonio Machado era tão teimoso quanto Paulo Francis: dizia que sem a foto não havia reportagem. Devido à mudança de humor de Francis, no entanto, eu já considerava quase realizado aquele milagre.

Passei o resto do dia fuçando as livrarias de Nova York, minha atividade preferida na cidade. Como estava perto da rua 53, naquela tarde fui primeiro até uma de que gostava muito: a Mistery Book Shop, pequena loja monotemática no subsolo de um edifício residencial, onde se encontrava a maior variedade possível de romances de detetive. Na manhã seguinte, eu trataria de organizar a sessão de fotografias e rumaria para meu segundo compromisso, previamente marcado: um almoço com Nelsinho Motta.

Faltava só um pedaço da missão. Naquela mesma tarde, fui ao escritório de Lucas Mendes, ao lado do estúdio onde era gravado o Manhattan Connection, no pedaço de um andar onde funcionava a agência Reuters em Nova York. Lá Lucas me deu informações sobre o programa e prometeu que no dia seguinte, depois da sessão de fotos que eu programava, me levaria também para almoçar, de modo que eu traçaria o perfil do meu último mosqueteiro e poderia comemorar o final daquela empreitada.

- Vou levá-lo também ao um lugar de que gosto muito – disse. – É aqui perto.

Combinamos que eu passaria ali novamente no dia seguinte às nove horas; parti contente, certo de que uma tarefa quase impossível começava a ser concluída. Naquela altura, tinha já contratado um fotógrafo brasileiro para fazer a foto, um estúdio no Greenwich Village e um produtor que alugara um táxi amarelo antigo, de 1946, em estado impecável – tudo, obviamente, a peso de ouro. Por recomendação de Nelsinho, tomei cuidados extras: aluguei uma limusine para apanhar o grupo de jornalistas no escritório de Lucas, uma maneira de agradar, sobretudo, Francis. Pelo menos ele não teria razões para colocar o transporte como objeção.

Na manhã da sexta-feira, a data crucial, estava tudo certo: o táxi amarelo já se encontrava no estúdio, fotógrafo, maquiador e produtor nos esperavam no local. Saltei da limusine preta que alugara como o responsável por uma produção de Hollywood. 

Ao entrar no escritório de Lucas Mendes, porém, encontrei o grupo do Manhattan Connection reunido pesarosamente. Lucas mantinha-se mudo; Nelsinho olhava para a ponta dos sapatos; Caio Blinder, embora humildemente deixado de lado da minha pauta original, tentava ser solidário: procurava amenizar o clima de cemitério comentando banalidades. Sentei numa cadeira diante do grupo, como um acusado diante do tribunal.

- Ué, o que foi?

Por dois excruciantes segundos ninguém disse nada. Francis, no meio do grupo, então me olhou com certo ar enfarado.

- Sabe, você é um rapaz até simpático – ele começou a dizer. – Não é nada pessoal. Mas não gostei nem um pouco dessa história de fazer a fotografia diante do táxi amarelo. É uma bobagem muito grande.

Vi o meu mundo cair.

- Eu tentei falar com meu chefe, também não gosto da idéia, quem sabe ainda exista uma maneira de fazer a foto, tiramos o táxi e...

- Não – disse Francis. No meio do embaraço coletivo, aquela palavra soou de maneira brutal. – Eu estive pensando e não quero mais participar dessa reportagem. Da próxima vez que eu aparecer na imprensa, será como capa da revista Veja.

Naquele instante, aquilo só não soou como piada porque era a pá de cal no meu trabalho. Com o que me restava – uma certa dignidade – levantei, agradeci e saí, deixando atrás o vazio da consternação. 

De um instante para outro, tudo o que eu fizera – as entrevistas, o estúdio, o fotógrafo, o táxi amarelo, a limusine preta, as estadias no Algonquin, a própria viagem – se transformava num fracasso dos mais caros que eu já tinha promovido em minha carreira. Pensei em Machado, e na minha própria cara, ao voltar de mãos vazias, após gastar alguns milhares de dólares. Era provável que fosse pagar a dívida com o meu emprego.

Emergindo da sua sala, Lucas Mendes me alcançou no corredor. Não havia mais entrevista, reportagem, fotografia, nada, mas disse que o almoço ainda estava de pé, se eu esperasse pelo fim da gravação do programa, antecipado para aproveitar a presença de todos. 

Depois de alguns telefonemas em uma sala ao lado, em que dispensei todo o circo que havia acabado de armar, e autorizei o pagamento da conta em uma ligação para Help, esperei por Lucas meio escondido de vergonha, até que ele ficou livre para me levar a pé ao Wollenski’s Grill, um restaurante com ares de bistrô, na 49 com a Terceira.

Saímos da garoa fina que caía sobre Nova York para o pequeno hall do restaurante, no qual se entrava por uma porta de aço, como o refúgio de um doleiro. Lá dentro, fervia gente no bar antigo, apartado das mesas, localizadas num estreito mezanino em L. Galgamos a escada e sentamos numa mesa pequena, milagrosamente vaga naquele horário, depois de pendurar os casacos numa quina de escada. “Eu queria te levar num restaurante turco, mas aqui também é ótimo”, disse Lucas. “A especialidade é a sopa de ervilha”. 

Pedimos as sopas e ali ele me falou de sua carreira desde os tempos em que era o correspondente da Rede Globo e da vida que construíra em Nova York. Temperamento inquieto do repórter, às vezes parecia distante, como se enquanto conversava já estivesse pensando no que fazer a seguir.

Como jornalista, Lucas sabia que eu voltaria sem minha reportagem, mas cumpriria sua palavra e até o final do almoço concedeu sua própria entrevista. Às três horas da tarde, quando saímos, caía uma tempestade fluvial, já prevista pela infalível metereologia americana. 

Quando Lucas saltou do degrau e mergulhou na enxurrada, duvidosamente protegido por seu chapéu impermeável e uma capa de chuva, eu pensei que ele era mais que o melhor repórter de televisão do país: aquele mineirinho de coragem que atravessava a tromba d’água em direção ao outro lado da calçada e virava a esquina, premido pela necessidade urgente de ir ao banco, era também um cavalheiro. 

                                                  *
Antes de voltar ao Brasil, passei na Mistery Bookshop para comprar os três volumes com as obras completas de Raymond Chandler, recém lançadas. Passei uma última vez no escritório de Lucas Mendes, entregando o presente, com a dedicatória de um admirador, nas mãos de Paulo Francis. 

Embaraçado, em vez de agradecer ele fez uma longa dissertação sobre a excelência do criador do detetive Philip Marlowe. Eu voltava entre os escombros da minha missão, mas tivera a oportunidade de encontrar grandes figuras da minha profissão e queria demonstrar que para mim isso ainda era mais importante que tudo.

*
A matéria do Manhattan Connection não saiu. No seu lugar, escrevi um perfil de Nelsinho Motta, então o grande promotor do Brasil em Nova York. Reproduzia nossa conversa no Bice, restaurante alegre e caloroso de Manhattan, também escolhido por ele, e que tinha a sua cara. Nelsinho falava dos brasileiros que recebia na cidade, da igreja Gospel onde os levavas, dos negros maravilhosos com quem ele queria produzir discos e do caldo cultural novaiorquino. 

Fez tanto sucesso a capa de VIP que o Bice encheu de brasileiros e mais tarde abriria um restaurante em São Paulo. A namorada de Nelsinho na época, Costanza Pascolato, me contou que ele nunca mais pagou a conta no restaurante, tal o afluxo de clientes brasileiros que apareciam por lá. Para mim, foi um alívio: saí daquela enrascada toda. E a entrevista com Francis permaneceria engavetada por anos a fio.   

                     *
Paulo Francis morreu seis meses depois da nossa entrevista, em 4 de fevereiro de 1997, vítima de um ataque cardíaco fulminante em seu apartamento nova-iorquino. 

Andava estressado com uma ação por danos morais movida por diretores da Petrobrás, encabeçados pelo então presidente da estatal, Joel Rennó, a quem Francis acusara no Manhattan Connection de  formar “a maior quadrilha que já existiu no Brasil" e colocar o produto de subfaturamento em contas pessoais na Suíça – algo que obviamente não tinha como provar.

Assustara-o ainda mais o valor exorbitante da ação, movida na corte de Nova York: 100 milhões de dólares. Ciente de que a pendenga se arrastaria por anos, acreditava que quebraria somente com as despesas com advogados.

Ao partir, sem que pudesse imaginar, a sua vontade se realizava como uma profecia: na semana de sua morte, Paulo Francis sairia – sozinho – na capa de Veja. E fez com que a entrevista concedida a mim, a última de sua vida, permanecesse inédita, até a edição 110 da revista Cult, que lembrava de Francis, 10 anos após sua morte. E este relato, escrito em junho de 1996, permaneceu inédito. Até agora. (T.G.)

P- Alguém me disse que você passou um apuro com o seu gato no fim do ano. É verdade?
F- Meu gato teve um enfarte. Eu tinha ido a Roma, queria passar uma semana lá, depois outra em Veneza. Já tinha ficado uma semana em Londres. Sozinho. Para relaxar um pouquinho. Não tenho férias, né? Aí ele teve o enfarte! Tive de voltar.
P- E como estava o gato?
F- Ah, estava só meio de boca mole... Levei-o a um hospital de animais, na rua 60, que parece desenho animado... Todos aqueles bichos passando de maca... E lá cuidaram dele, está fazendo tratamento. Nós (ele e a mulher, Sonia Nolasco) temos três gatos. Esse é o Bundeca, um gatinho muito safado, engraçado. Agora ele está bem, mas tem de tomar fluidos, três vezes por semana.
P- O resto da viagem foi cancelado?
F- Ué, que eu posso fazer? Não tenho ningupém para resolver isso, assim, na última hora. Tenho três empregos, ela (a mulher) trabalha como uma louca.... Nós precisávamos de alguém trabalhando para nós, uma babysitter ou coisa assim. Temos que ficar lá, vigiando o gato, dar injeção nele. Normalmente um amigo meu, íntimo, passa uns tempos aqui em Nova York no fim do ano, e fica tomando conta dos gatos enquanto viajamos. Não vou fazer um amigo meu cuidar de um gato doente. Só que eu preciso dessas duas semanas de descanso. Trabalho muito, escrevo muito. Tem a televisão (sua coluna diária na TV Globo), mas o que me dá mais trabalho mesmo é escrever para jornal (O Estado de São Paulo). Tenho de me manter a par de tudo que está acontecendo... Este vai ser um ano de eleição aqui...
P- Há quanto tempo você está em Nova York?
F- Há quase vinte e cinco anos. Cheguei em junho de 1971.
P- Você se lembra da primeira vez em que pisou nesta cidade?
F- Isso foi há muito tempo. Pisei aqui a primeira vez em setembro de 1954. Pouco depois do suicídio de Getúlio Vargas. Vim tentar fazer um mestrado na área de teatro, na Universidade Columbia. Eu me interessava muito por teatro. Me interesso, até hoje. Naquela época, era paixão.

P- No período em que você ficou na Universidade de Columbia já trabalhava?
F- Não. Meu pai morava aqui, num apartamento na 55, West Side. Eu morava com ele. Só no verão, certa época, trabalhei como vendedor numa livraria. Mas era fantástico. Certa vez eu estava num bar – bebia muito, nessa época –, que tinha uma TV ligada. A televisão estava apenas começando. Apareceu um sujeito todo estranho, chamado Elvis Presley, no programa de Ed Sullivan. Foi assim que vi Elvis Presley, na sua estréia, pela primeira e a última vez. Cinema custava 50 centavos, não tinha inflação nenhuma. Começou a ter um pouquinho de inflação nos Estados Unidos com a Guerra do Vietnã. Antes, a vida era baratíssima. Com 1 dólar você comia bife de fígado com batatas fritas e uma Coca-cola.

P– Sua intenção era continuar a fazer teatro?
F- Passei três anos estudando aqui em Nova York, mas não fiz mestrado. Voltei ao Brasil para dar uma olhada. Comecei a ver teatro, intensamente. Trabalhei como ator, um tempo, e diretor de teatro. Acabei sendo crítico. Fui crítico de teatro no Diário Carioca e na Última Hora.

P- Como foi sua experiência como ator?
F- Eu fiz Frei Lourenço, do Romeu e Julieta... (o carpinteiro Jacob) Engstrand, no Espectro, de Ibsen...
P- Como você entrou para o teatro?
F- No Teatro de Estudantes, com o Pascoal Carlos Magno, um grande animador do teatro brasileiro. Eu não tinha nada que fazer, estava brigado com meu pai, que estava farto, furioso comigo, porque não eu fazia nada. Aí vi um anúncio de que precisavam de pessoas para a temporada de teatro no Norte e Nordeste. Eu sou do Rio, nunca tinha ido ao Norte, ao Nordeste. Era muito novo, tinha 20 anos. E me apresentei para segurar lança, essa coisas... Fazer alguns extras. Aí me ofereceram alguns papéis. Eu dizia, mas como? Nunca tinha pensado em ser ator. Tenho esse problema de vista (segura os óculos de aro de fundo de garrafa, examina-os com seus olhos esbugalhados), é uma vista muito ruim. Ensaiamos meses para essa temporada e fomos. O Getúlio Vargas deu (à companhia de teatro) um avião DC-3, não se você já ouviu falar.

P- Já tomei esse avião no Quênia.
F- Está vendo? Pelo que me consta, esse avião nunca caiu. No Brasil, era o avião do Correio Aéreo Nacional. O Getúlio nos deu passagem e voávamos com o Correio. Na verdade o Getúlio, como todo político, deu só metade das passagens. Nós fomos de Manaus a Recife. Fui um dos poucos atores brasileiros que se apresentou em Teresina... Nos apresentamos também em São Luís do Maranhão, Natal, João Pessoa. Nunca mais voltei. Eu tenho um amigo agora que está fazendo um jornal diário em Manaus. É uma cidade muito simpática, mas é muito calor. Meus óculos em Manaus ficavam embaçados. Precisavam inventar um pára-brisa para óculos. Eu faria uma patente com isso e ficaria rico lá. Com o dinheiro, iria morar em Cannes, na França.

P- Como você se tornou crítico?
F- É interessante porque nada do que fiz foi planejado. Foi tudo ao sabor do momento. Essa história de crítico de arte, com o qual eu me tornei bastante conhecido, por exemplo: eu não tinha a menor intenção. Entrei para ajudar uns amigos meus que faziam críticas, para ver se a gente moralizava o teatro brasileiro. Moralizar artisticamente, quero dizer: parar de alojar espetáculo longe, por exemplo. Na Última Hora eu trabalhava criticando televisão. Naquela época, em 1962, não havia nada para criticar na TV (porque havia poucos programas). Aí eu passei a me concentrar nos problemas políticos. E criticava os políticos. O Samuel Wainer, o proprietário do jornal, gostou tanto que me botou como crítico político. Foi acidental.

P- Como você voltou a morar em Nova York?
F- Em 1964, quando houve o acontecimento militar, quer dizer, quando foi derrubado o João Goulart e os militares tomaram o poder, eu tinha uma coluna na Última Hora, onde atacava muito os militares. Não exatamente os militares, mas eu defendia teses às quais eles pareciam ser contrários. Perdi os empregos, fiquei três anos fazendo textos anônimos. Depois voltei para o Correio da Manhã, aí fui preso. Até o Ato Institucional Número 5, fui preso quatro vezes.

P- Ficou muito tempo na cadeia?
F- Dois meses, cada vez. Começou a se tornar mais difícil depois que escrevi um artigo sobre minha infância no Colégio São Bento e outro artigo sobre uma ópera de Wagner, que não tinham nada a ver com a política brasileira. Pensei, bom, esses caras estão querendo me impedir de ganhar a vida. Pedi para trabalhar no Pasquim, na Tribuna da Imprensa e na televisão. Obtive uma bolsa de quinze meses da Fundação Ford. E vim para cá em 1971.

P- Como você se instalou?
F- Eu tinha algum dinheiro. Morava muito bem, no Greenwich Village. Isso porque fui também professor visitante da Universidade de Nova York, com direito a morar num prédio de apartamentos da instituição. Fiz lectures sobre jornalismo e política. Depois a minha vida melhorou muito, quando passei a trabalhar na revista Visão, que era de propriedade do Sahid Farah, um homem inteligente lá de São Paulo. E em 1975 fui para a Folha de S. Paulo. Na época, como o maior salário de correspondente da Folha. Primeiro eles me pagaram free lancer para que eu cobrisse a morte do generalíssimo Franco, na Espanha, em 1975. Gostaram do meu trabalho e me contrataram. Em 1981 entrei para a TV Globo. Em 1990 saí da Folha e fui para O Estado.

P- Qual foi a sua reportagem mais interessante?
F- Reportagem não é o meu forte, sou mais um comentarista. Eu não sei, não. Estava muito orgulhoso em 1974 da cobertura que eu fiz do escândalo de Watergate. Agora estou convencido de que aquilo foi um lamentável equívoco. Watergate foi visto como um grande erro do Richard Nixon e na verdade foi um erro idiota do partido, que a imprensa aproveitou para destruir o presidente. Uma vez na vida, nesse caso, fui maria-vai-com-as-outras. O Nixon é uma figura complexa e foi um dos maiores presidentes dos Estados Unidos.

P- Você chegou a vê-lo pessoalmente alguma vez?
F- Claro, várias vezes. Em certa época fui do corpo de imprensa da Casa Branca. É um emprego para o qual você se habilita. Eles fazem um exame e você entra. Viajei muito com o Jimmy Carter. Estive em todas aquelas negociações de armas nucleares. Viajei com o Ronald Reagan. Aí me enchi e parei.

P- E como era?
F- O Reagan era uma figura controvertida, que tentou duas grandes coisas: baixar os impostos e f... com a União Soviética. E as duas coisas ele conseguiu brilhantemente. A segunda ele conseguiu de uma maneira muito interessante, da qual as pessoas não se dão conta. Ele aumentou de tal maneira o orçamento militar, aprovado pelo Congresso, que os soviéticos quebraram. A União Soviética tinha essa política de acompanhar as despesas militares americanas. E com isso faliu. Não tinha condições de sustentar uma corrida armamentista como aquela, porque a economia de lá era como a da Colômbia, sem a cocaína, é claro.

P- Como foi a campanha de desarmamento nuclear do Carter?
F- Foi uma loucura. Eu fiz um curso de seis meses sobre armas nucleares. Com um homem chamado Paul Desmond, um dos maiores especialistas e armas nucleares do mundo. Eram lectures, um abc sobre o assunto. No Brasil, ninguém tem a menor idéia do que seja.

P- Você fez esse curso com que objetivo?
F- Na verdade a minha estada aqui em Nova York é um grande doutorado. Fiz vários cursos. A princípio eu era apenas um amador dando palpites. Para entender de política exterior, e de outras coisas, fiz curso. É como matemática, álgebra: você precisa saber a linguagem, caso contrário você bóia, fica sem saber inteiramente o que está acontecendo. E fala bobagens.

P- Onde você fazia esses cursos?
F- No Center For International Affairs. A bomba que destruiu Hiroshima era de urânio. Em Nagasaki eles testaram a de plutônio. Eram bombas sujas. Na década de 1950 houve o teste da bomba de hidrogênio. A pessoas pensam que a bomba nuclear é uma bomba, mas não é. É uma reação em cadeia. Havia um planejamento para uma bomba de cobalto, mas eles acabaram desistindo porque ninguém podia prever até onde essa reação em cadeia ia. Há duas coisas interessantes na história facinorosa da Humanidade. Uma é o uso do gás venenoso na primeira guerra mundial. Causou tanto transtorno que na segunda guerra fizeram um tratado para ninguém mais usá-la. Na Segunda Guerra, com Hitler, Stálin e todo esse pessoal, ninguém usou, veja só. A outra coisa que merece destaque é esse misterioso pacto entre a União Soviética e Estados Unidos, que durou quarenta anos, após a Segunda Guerra. Com uma capacidade de destruir cem vezes o mundo, ninguém teve coragem de iniciar uma conflagração.

P- Você se aprofundou em algo mais, além de armas nucleares e política international?
F- Tudo me interessa. Ontem o telescópio Hubble descobriu quarenta bilhões de galáxias. E durante muitos anos se pensou que a única galáxia que havia era a nossa, a Via Láctea.

P- Outro dia, a propósito das descobertas astronômicas, o Jornal Nacional deu uma manchete um tanto engraçada: “O Universo é maior do que se pensava”...
F- Não sei então o que eles pensavam, antes. O (Edwin) Hubble, um astrônomo americano, foi o descobridor de que o universo está sempre se expandido. Agora sabemos graças ao telescópio com o nome dele que existem 40 bilhões de galáxias. De todo modo, que diferença isso faz? Dez ou 50 bilhões, é um tipo de espaço, tamanho e tempo que não tem nada a ver com nossas idéias, nossa vida. É uma coisa infinita.

P- Você já passou algum susto na cidade? Assalto ou coisa assim?
F- Nunca. Aliás, toda forma de crime caiu em Nova York.

P- É por causa do policiamento?
F- É devido a muitas coisas. Um grande número de pessoas desistiu de fumar crack, que leva as pessoas a atos de violência. E muita gente que usava droga morreu. Mas sem dúvida o Rudolph Giuliani (então prefeito de Nova York) estabeleceu um policiamento razoável. Aqui tinha uma coisa chamada pan handler, um sujeito que pegava você na rua para pedir uns trocados, um negócio muito chato. Se você não dava nada a ele, era insultado. Esses mendigos insultavam mulheres, qualquer um. O Giuliani acabou com isso. Diziam que ele não podia fazer tal coisa, que qualquer um tem o direito de pedir dinheiro na rua. O prefeito não quis saber e botou esse pessoal na cadeia. A queda de homicídios aconteceu também. Morria gente de maneira estúpida.

P- Em Nova York, se ouve sirenes ligadas o tempo todo. Você acha que isos faz parte do combate à criminalidade, torna a polícia mais presente no cotidiano?
F- Isso é uma forma de auto-expressão. Eles gostam de fazer barulho. Não sei se você viu na cinemateca um filme do Jean Luc Godard chamado Weekend. Um sujeito parado no tráfego tira uma arma de dentro do carro e começa a atirar nas pessoas. Um dos meus sonhos secretos é me disfarçar e sair atirando numa ambulância dessas. Eu durmo tarde. Vou deitar às três horas da manhã ouvindo ambulância. Não tem tráfego que exija isso. Quer dizer, tem tráfego, porque Nova York não dorme nunca. Mas não é suficiente para justificar a barulheira.

P- E do que você gosta mais aqui?
F- Há mais dinheiro em Nova York que na Suíça. Dinheiro traz outras coisas. Tem museus, balé, teatro, tudo do bom e do melhor.

P- E do mais caro, suponho.
F- Não. Nova York é a cidade mais barata do primeiro mundo. A única coisa mais cara aqui, talvez, é o aluguel. Você não pode morar onde nós estamos, razoavelmente, por menos de dois mil dólares. Falo de Manhattan. Claro que você pode também morar no Queens, no Brooklyn, no Bronx. O Queens é um bairro de classe média, o Brooklyn também. Quase todo mundo que eu conheço mora fora de Manhattan. Com um aluguel desses, a vida se torna impossível. Você paga um imposto de renda brutal aqui. Eu nunca tive disso, mas meus colegas que melhor ganham na TV Globo, jornalistas, se queixam amargamente porque deixam 40% do que ganham em impostos. Tem o imposto geral, o INSS americano, que é o Social Security, o imposto estadual. Você ganha 10 mil dólares por mês, recebe seis. Pode reaver algum dinheiro na declaração, mas mesmo assim o imposto é alto.

P- O Brasil já não está longe disso, não?
F- Qualquer imposto no Brasil é uma doação. Porque não tem serviço público. Em São Paulo, que é 60% da renda brasileira, o Tietê transborda e ninguém faz nada, é uma tristeza.

P- O que você gosta de fazer em Nova York? Vem sempre aqui (ao Bravo Gianni)?
F- Este restaurante é uma espécie de pub brasileiro. O Gianni, o proprietário, é uma pessoa muito simpática. Esteve no Brasil há pouco tempo. E restaurante italiano há poucos iguais. O forte daqui é o jantar, lotado. Vêm celebridades. Você vive muito bem nesta cidade. Mas precisa ganhar 10 mil dólares por mês para viver sem se aporrinhar.

P- Por causa do aluguel?
F- Também. Eu pago menos, porque arranjei uma galinha morta, mas isso é porque eu moro aqui há muitos anos. Você pode comer fora, comprar um carro, ver os melhores espetáculos. Não é que não possa viver por menos, mas para viver realmente sem ficar contando os tostões, o leite das crianças, o aluguel, é isso. E hoje estão pagando isso na imprensa brasileira, não? O real está valendo tanto... Soube de uma pessoa que foi trabalhar como repórter na Folha de S. Paulo ganhando 15 mil dólares. O mercado se diversifica. Você conhece o Hermano Henning? Saiu da Globo discutindo propostas, cada uma delas mais incrível que a outra. Inclusive na TV do bispo (a TV Record, de Edir Macedo). Ele disse, “quase aceitei, fiquei até meio sem graça”. Acabou indo para o SBT.

P- Você iria?
F- O problema do bispo é que, se você vai trabalhar para ele, fica um pouco constrangido de tomar o dinheiro de fé, né?

P- O que você gosta de fazer? Ainda vai ao teatro?
F- Muito. Eu sou uma pessoa de gosto católico: música, balé, pintura. Agora tem no Moma uma exposição de 160 quadros do Mondrian. Já vi três vezes.  E você aqui tem todos os museus, é um paraíso. Tem o Citi Ballet, que é o balé do Balanshin, outra maravilha. Eu não posso ver tudo (por causa do dinheiro), então passei minhas três últimas noites vendo na televisão Orgulho e Preconceito, minissérie baseada no romance da Jane Austin, uma maravilha. Cinema e televisão nesta cidade chama-se Jane Austin, que morreu em 1817. Os filmes baseados em histórias delas hoje são o maior sucesso, estão mais quentes que o Quentin Tarantino. As pessoas aqui lêem muito mais os “scripts” dela: Senso e sensibilidade, Persuasão, Emma, que tem três versões diferentes.

P- Que lugar de Nova York você recomendaria para morar?
F- Com pequenas exceções do lado oeste, deve-se morar do lado leste. Entre a Primeira Avenida e a Quinta. O lado oeste é um lugar muito bonito, mas meio barra pesada. O lugar ideal é você morar aqui mesmo onde nós estamos. Você pode ir a pé para os melhores cinemas, os melhores restaurantes, ao teatro... Nova York é uma cidade muito agradável de março a novembro. O clima é ameno. O verão tem alguns dias muito quentes, mas em geral o calor não é muito intenso.

P- E essa nevasca aí fora?
F- Desde 1978 eu não vejo neve. Este foi o pior inverno que já passei, uma coisa espantosa. Eu me lembro que morava na Rua 47 e ia na 42, onde ficava a UPI, para entregar meus textos. Não havia todo esse equipamento, computador, fax, etc. Então a UPI mandava meu material para São Paulo. Ia a pé, caindo neve, estava muito difícil para pegar um táxi. Um frio... Andava até lá as cinco quadras e, quando chegava, os caras me davam um bourboun para ressuscitar. Que eu lembre, foi o pior inverno. Os metereologistas ficam citando outras ocasiões, mas deve ter sido uma coisa muito rápida, não marcou tanto.

P- Muita gente vem te visitar em Nova York?
F- Só as pessoas que eu conheço, porque não sou atração turística.

P- Eu digo jornalistas, por exemplo. O Elio Gaspari não é seu amigo?
F- Olha, o Elio e eu nos divertimos muito, quando ele morava em Nova York (como correspondente da revista Veja). Nós almoçávamos aqui (no Bravo Gianni), daí dávamos uma volta de quarenta quarteirões para afinar a barriga e ver os loucos. Os loucos são a maior atração de Nova York. Saem gritando por aí. Tem louco que entrou na era da eletrônica e grita de microfone.

P- Que roteiro vocês faziam?
F- Saíamos daqui para ir à Quinta Avenida, na altura do. Central Park. Aí íamos andando pela Quinta até a confluência com a 57, que é a maior esquina do mundo. Ali você vê as mulheres mais bonitas do planeta. O Elio tem até uma piada ótima. Diz que as mulheres quando ficam velhas passam lá para lembrar de quando eram gostosas e bonitas. Porque vêem as outras, é claro.

P- Você ainda caminha?
F- É claro. Um dos maiores prazeres de Nova York é poder andar sem ser assaltado. O Brasil chegou ao ponto de que no Rio de Janeiro estão cobrando taxa para não te sequestrarem. Mandam um recado: olha, você me manda 5 mil reais, caso contrário sequestro tua mulher. Ninguém pode viver assim. Eu nasci no Rio, quando era a cidade mais cordial do mundo. Aí começou na década de 1960 para 1970 essa política que gerou multidões de pobres brasileiros e essas favelas criminosas.

P- Você voltaria a morar no Brasil?
F- O proprietário, aqui, o Gianni,  foi lá e voltou dizendo que não dá. Uma das características da minha vida é que não planejo nada. Vir para cá foi pelas circunstâncias da ditadura. Acho que inconscientemente eu esperava que fosse acabar o regime militar e a gente pudesse voltar a uma vida normal no Brasil. Mas em 1970, quando chegou aquele pessoal do (presidente Emilio Garrastazu) Médici... O Brasil estava bem, ganhou a Copa do Mundo, crescimento econômico como nunca houve igual, de 11% ao ano, o Delfim Netto era o Homem-Milagre... Mas de repente houve um arrastão, prenderam Deus e o mundo... Decidi ficar no Brasil. E fui ficando.

P- Seu afastamento do Brasil então foi também uma definição política?
F- Eu sei que na sua geração isso não é muito comum, mas você faz um pequeno tour no horizonte para ver quantas pessoas deram sua vida pelo comunismo, se sacrificaram. Mais adiante você vê quantas pessoas deram suas vidas na guerra entre os católicos e os protestantes. Talvez as melhores pessoas, ou muitas delas, tenham sido destruídas por essas coisas que hoje nos parecem perda de tempo. Eu tenho também esse lado, que é meio literário. Escrevi vários romances. É muito mais forte que política. É meio misterioso.

P- O Manhattan Connection foi também uma coincidência?
F- Eu fico fascinado com com essa reação em cadeia de acidentes. Esse programa, por exemplo: as pessoas que vêm do sul agora só falam nisso. Agradeço os cumprimentos, mas entrei no programa por acaso. O Lucas Mendes, que mora aqui há uns trinta anos, estava saindo da TV Globo e rearrumando a vida dele, com a TV Cultura. Resolveu fazer esse programa e me convidou, mas puramente na esportiva. De repente tem uma repercussão enorme...

P- Você acha que o sucesso do programa se deveu ao debate?
F- O debate já existe na televisão. Os telespectadores gostam é do informalismo. Televisão brasileira é muito fraque e cartola. Não há um mínimo de informalismo. E numa TV a cabo você pode se soltar muito mais. Ninguém pode se queixar daquilo que dizem da TV comercial, na qual alguém invade a sua casa e diz algo que te ofende. Aqui nos Estados Unidos, pouco a pouco, o cabo está comendo tudo. Eu só vejo TV a cabo. Das grandes emissoras, eu só vejo os jornais. O jornal da ABC tenho que ver todo dia porque o Jornal da Globo tem sua parte internacional tirada dali, temos os direitos de reprodução.

P- A que horas você grava sua coluna?
F- Às sete e pouco. Às vezes antes. Dependendo do dia.

P- O que mais você recomendaria na cidade?
F- O cenário do estúdio da TV Globo em Nova York é o Empire State Building. Não vou lá há mais de 20 anos. Contudo, tem uma hora maravilhosa em que você pode ir, à tardinha, quando a luz natural está caindo e as luzes da cidade se acendem.

P- Bem, foi um grande prazer.
F- Sim, mas (saiba que esta entrevista) foi um acidente. Porque eu não tenho tempo para essas coisas. Normalmente a minha vida é muito atrapalhada.