segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

A mais livre das mulheres

Quando eu pensava em escrever meu primeiro romance, aos 18 anos de idade, costumava dirigir de São Paulo até Suzano, onde ficava a chácara de minha tia Malfisa, que lá morava com meu avô e muitas histórias repletas de perigo.

Ali, por algum tempo, no final da década de 1960, com risco da própria vida, minha tia havia escondido um grupo de amigos, guerrilheiros contra a ditadura. Todas as vezes em que eu a visitava lá, pensava que, de certa forma, a chácara continuava meio esconderijo.

Tia Malfisa falava de política com convicção, mas, para ocultar aqueles que o regime chamava de "subversivos", era preciso também muita coragem e generosidade.

Um de seus primeiros empregos foi o de revisora no Diário da Noite e assim conhecia muitos jornalistas, a maioria dos quais, de uma forma ou outra, defendia a liberdade - a começar pela liberdade de expressão.

Ser livre, então, era perigoso - e ela era a mulher mais livre que nós da família conhecíamos. Fazia uma porção de coisas que naquele tempo - e falo da década de 60 - eram pouco comuns para mulheres. Fumava. Tomava cerveja. Falava o que pensava. E nunca casou.

Lembro dela entrando em nossa casa, um apartamento térreo no bairro da Liberdade, no jogo final da Copa do Mundo de 1970 - não haverá outra igual, pois aquela tinha Pelé, pela primeira vez havia transmissão direta em cores pela TV e o povo brasileiro estava meio cansado de sofrer.

Tia Malfisa, que adorava futebol e acima de futebol o Palmeiras, irrompeu porta adentro com um bando de amigos, agitando bandeiras, cantando e pulando de cerveja na mão - e o jogo, que se afigurava uma goleada, ainda nem havia terminado. Saíram incontinenti para a rua, inebriados pela vida, como se fosse carnaval. Eu tinha apenas seis anos e lembro de pensar: quando for adulto, quero ser assim.

Ela só andava de fusca, e andou de fusca a vida inteira, mesmo quando o carro virou peça de museu. Quando eu ainda era criança, pediu o fusca de meu pai emprestado e deu uma batida feia. Saiu ilesa, daquela vez, e lembro de meu pai desolado, olhando o ferro retorcido que antes era um veículo, sendo depositado no pátio que servia de garagem.

Não escapou tão bem de outra batida, em que prensou o braço esquerdo. Dali em diante carregaria aquele bracinho atrofiado, por muito tempo quase imóvel. Mas continuava dirigindo o fusca, usando um braço só.

Segundo minha mãe, minha tia nunca casou por ter tido na juventude uma grande frustração amorosa - supostamente, enamorou-se de alguém sem saber que era casado. Mas acho mesmo que ela gostava de ser livre - e livre ficou.

A bem da verdade, chegou a tentar o casamento durante dois anos, com Jurado, um sujeito muito simpático, mestiço de japonês, louco por ela. Como a tia não tinha filhos, sempre que eles vinham em nossa casa visitar, Jurado nos trazia presentes - para mim, e minha irmã, Lara. Só queria agradar. Mas a tia passara dos 40 anos, estava já acostumada demais a viver sozinha e logo achou a vida conjugal uma amolação.

Não tendo filhos, acabou tendo muitos. Eram as crianças da escola, como professora e depois diretora. E eram como filhos os muitos sobrinhos, de quem sempre foi tão próxima. Especialmente de minha irmã Lara, caçula da sobrinhada. Para os sobrinhos, era uma mãe melhor que uma mãe. Porque, como tia, podia ser mãe, sem dar as broncas nem ter os grilos de mãe.

Minha tia era uma das poucas pessoas que me defendia em qualquer situação, mesmo quando eu estava errado, mesmo quando a pessoa com quem eu brigava era a irmã dela, a minha mãe. Talvez por isso, era também das poucas pessoas que tinham o direito de falar qualquer coisa comigo - e eu escutava sem discutir.

Tinha aquele poder de fazer a gente, mesmo depois de adulto, se sentir ainda amado e querido como criança. Talvez por ter passado toda a minha infância perto dela, ela fazia eu me sentir como nos tempos em que, na Casa Verde, abria a porta do quarto dela, que dava para a rua, com uma escada feita de lajota vermelha. Eu passava o dia brincando e vinha suado, deitar ali, para refrescar as costas na lajota, sempre fresquinha, ou esperar passar a chuva de verão, e voltar a brincar.

Por viver solteira, minha tia sempre morou com meus avós; quando meu avô ficou viúvo, e velhinho, pode-se dizer que passou a viver com ela. Deixaram a casa térrea da Casa Verde e mudaram-se para Suzano, onde ela lecionava.

Eu aparecia com meu gravador K-7 na mão, para passar o dia ali. Colocava o gravador, ouvia meu avô cantar, e no meio das canções, colhias história de família com que aos poucos ia tecendo Filhos da Terra, cujo título original, Iusfen, era o nome dele - José - no dialeto bolonhês.

Às vezes, ele parava de cantar para esfregar as pernas com limão - um remédio caseiro que neutralizava a coceira das varizes, dizia .

Minha tia cuidava dele, ou ele dela, enquanto lá fora fazia um sol de rachar. Ela me ajudava na comunicação, porque meu avô, já passado dos 90 anos, não apenas estava surdo como àquela altura monologava às vezes sem direção.

Foi a paciente testemunha de todo o trabalho que tive para começar Filhos da Terra, um romance que mostra a dura cepa daqueles italianos que encontraram um Brasil ainda bruto e selvagem. Fazia muitas coisas como antes, como matar as galinhas no quintal da Casa Verde dando um tlec no pescoço, ou estrangulando-as com o pé sobre o cabo da vassoura.

Nascida no campo, gostava da roça e, na cidade, sentia-se prisioneira. Gostava de viajar, viajava conosco sempre, e mesmo já muito idosa ia para o sítio da montanha que hoje está na guarda de minha irmã - gostava de ficar sozinha, precisava do campo, precisava de paisagem.

Essas raízes de contadina, que brotavam nela vindas de um passado que no romance parece hoje um pouco mitológico, estão na realidade no sangue, na educação, no exercício do amor passional - tudo aquilo que nos une em família, com uma identidade só.

Um amor turbulento, excessivo, por vezes destrutivo, que por vezes parece raiva, ou ódio, ou desamor, mas é no mundo um amor como não tem outro maior.

Tia Malfisa faleceu ontem, no único dia da vida em que lhe faltou o coração. Disse à irmã, minha tia Mafalda, que dormira mal, sentia-se fraca, não queria dar trabalho e era hora de partir. "Já vivi muito", disse ela. Foi tia Mafalda, com quem ela morava nos últimos anos, quem isto contou, a minha irmã.

A coragem que me falta nesses momentos foi aquela com a qual, resoluta, tia Malfisa foi buscar sua paisagem no céu, mais livre do que nunca, nos deixando desolados nestes tempos de pandemia, que não permitem sequer um adeus.

Em Filhos da Terra, quando Iusfen - o narrador - lamenta ser o último e mais inútil dos irmãos, é lembrado de que era por ele, por meio de suas histórias, que todos viviam, na memória e na ação. De tia Malfisa, também penso o mesmo, da forma como aprendi, e que em família se ensinou: enquanto viver um de nós, todos viverão.

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