sábado, 9 de janeiro de 2021

Conversa de adulto sobre crianças

Antigamente os pais não dividiam seus problemas com os filhos, especialmente assuntos de relacionamento. Era "conversa de adulto".

Mesmo a geração libertarista dos anos 1960, que fez uma grande revolução nos costumes, não mudou isso. Só fiquei sabendo de uma série de problemas de meus pais, por exemplo, quando já era, eu também, adulto.


Havia nisso um sentido de proteção, de preservar as crianças e a família. Hoje, penso que esse isolamento em relação aos problemas dos adultos deu à minha geração uma certa inocência. E não nos protegeu de nada. Ao contrário.

Acabamos descobrindo os problemas por conta própria, aprendendo com nossos erros. Pior, quando nos tornamos pais, ficamos também sem saber como lidar com essas coisas diante dos nossos filhos.

Concluo hoje, depois de muita ruminação, que começamos - eu e muitos da minha geração - a pensar sobre relacionamentos muito tarde, talvez tarde demais. E que isolar demais as crianças da realidade dos adultos não as protege, apenas ajuda a mantê-las mais despreparadas para o futuro.

Nunca fui muito a favor de tratar crianças de forma protetiva ou condescendente. Creio que nunca conversei muito com meu filho como se fosse criança, desde pequeno. Nunca fui de falar com ele feito bebê (papá casa agora, dã...). Nem me furto a discutir agora assuntos de adulto, da forma como penso, sem inventar uma "linguagem" ou um discurso para crianças, agora adolescentes, quando ele pergunta. 

Às vezes me questiono se isso está certo, mesmo. Ensinando é que a gente mais aprende. Mas escolhi esse caminho.

Estudamos e somos educados desde crianças para ter as ferramentas de trabalho. Porém, somos pouco educados para a vida afetiva, ou pelo menos para enfrentar seus problemas. Faltam as ferramentas.

Acho que uma criança merece o melhor do nosso entendimento, não o silêncio, nem uma resposta hermética, ou infantilizada. Crianças merecem respostas afetivas, tanto quanto racionais, que sejam sinceras e as coloquem no mundo real.

As crianças merecem entender as coisas como são. Isso não é ser contra o amor, nem contra a família. Entendo que elas precisam descobrir que é possível haver problemas mesmo quando há amor e afeto. E que problemas não eliminam amor e afeto. Ao contrário, é pelo amor que muitas coisas se resolvem.

Não podemos ter medo dos problemas nem de preparar crianças para enfrentá-los, quando forem adultos. Mas isso é o que eu acho. Gostaria muito de ouvir a opinião de psicólogos e outros profissionais dedicados ao assunto.

Sou apenas romancista, um investigador da alma humana, e não um cientista. Faço perguntas, sem sugerir respostas. Na minha própria vida, por vezes sigo mais a intuição que qualquer coisa que tenha lido ou aprendido. E vivo errando. Sei apenas que não posso deixar o coração insatisfeito.

Pensando bem, talvez eu seja romancista justamente por me sentir ainda inocente e despreparado para muito da malícia humana e das encrencas que a vida adulta nos apresenta. Não sei lidar ou lido mal com as imperfeições afetivas. Se o amor não é perfeito, parece que não há amor.

Francamente, essa é a fonte de muitos desastres. Gostaria de ter sido mais maduro para errar menos. E viver de coração satisfeito, mas não somente por lhe dar toda a liberdade, e sim tendo menos sofrimentos. É isso o que queremos para os filhos: que sejam felizes, que sofram menos. Mas resolvendo os problemas, e não se escondendo, como vítimas.

É possível aprender por conta própria, a experiência humana ensina, mas pode ser melhor quando temos um bom diálogo com os pais, o que depois de adulto pode ser feito com os filhos. Para mim, não há nada melhor que a verdade e a sinceridade, incluindo com as crianças. Elas são crianças, futuros adultos, e não bichinhos de estimação.

E, se queremos que sejam afetivamente seguras, é preciso que tenham estrutura emocional para lidar com a imperfeição do mundo real, onde se encontram, para grande tumulto, os corações.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Clarice: não há glória depois da morte

A escritora Clarice Lispector está na moda: suas frases profundas, reflexivas, quase haikais, viraram memes, espalharam-se pelas redes sociais, e fizeram dela, quem diria, a escritora mais quente do Brasil na era digital.

Ótimo. Contudo, chama a atenção que ela, em vida, nunca tenha sido tão conhecida, nem reconhecida. A meu ver, esse sucesso póstumo nos devia fazer pensar sobre como tratamos os escritores brasileiros, para não dizer os artistas em geral, quando eles ainda não são um nome no cemitério.

Clarice morreu na miséria e menosprezada pela crítica. No seu tempo, diziam que seus textos estavam no meio do caminho. Não se desenvolviam como romances ou contos, portanto não eram bons contos, nem se reduziam a poesia, portanto não era boa poesia. Nem uma coisa, nem outra, Clarice não era nada.

Ela não foi a única que sofreu. Para dar mais só um exemplo, Mario Quintana viveu de favor na velhice - habitava um quarto no hotel do jogador de futebol Paulo Roberto Falcão, que era seu admirador, e assim livrou o poeta gaúcho, literalmente, de ir para a sarjeta, em Porto Alegre. Clarice, nem esse suporte chegou a ter.

De forma geral, o brasileiro fala mal do brasileiro, mais ainda na literatura. Quais são os grandes escritores brasileiros vivos? Faça essa pergunta e você verá todo mundo engasgar. Será que entre 200 milhões de concidadãos não existe nenhum, ou isso é porque ninguém lê, nem fica sabendo?

Esse preconceito começa no próprio meio. Escritores não dão suporte e não promovem outros escritores. A crítica nunca vê o que há de bom na produção nacional - só faz criticar, talvez sugestionada pela própria palavra. Quem publica livro, como eu, ou faz música, do Zé da Esquina ao Caetano, já experimentou desse fel.

Fala-se do negro, do índio, do pobre, do gay, mas a maior discriminação no Brasil é contra a inteligência.

Não faz muito tempo que escrever, sobretudo ficção, se tornou uma atividade profissional, especialmente no Brasil. O romancista Guimarães Rosa era médico. Vinícius de Morais, diplomata. Antes, escrever era uma atividade diletante, que se fazia nas horas vagas.

Escrever no Brasil só se tornou uma atividade profissional e suficientemente remunerada nos anos 1970. Porém, aos poucos, a fase supostamente romântica em que aqueles que só escrevem estão condenados a passar fome está voltando.

A chegada do livro digital, facilmente copiável, vai destruindo toda a indústria do livro. Hoje há também acesso fácil a um universo de conteúdo, o que faz a disputa pelo leitor se tornar mais acirrada.

Há ainda uma proliferação de amadores que polui as estantes virtuais. Assim como na fotografia, todo mundo virou escritor, da noite para o dia. E qualquer um pode se "autopublicar".

E, pasmem, é justo nessa era de declínio da literatura como arte que se redescobre Clarice. Como ela já morreu, recebe agora uma chancela que aos vivos não se dá.

Pena que ela não tenha vivido para desfrutar do seu sucesso. Mas a realidade é essa. O brasileiro só dá valor ao brasileiro quando é tarde demais.

Nosso hábito de rebaixar a cultura brasileira é parte do nosso complexo de inferioridade geral. Adoramos qualquer porcaria que vem de fora e, assim, a cultura nacional enfrenta o descaso do mercado.

Há também pouquíssimos autores brasileiros vendidos no exterior, assim como há poucos filmes brasileiros com carreira internacional. E mesmo esses, como Paulo Coelho, são vilipendiados.

A cultura é a vanguarda de um povo. Coloca o país em todo o mundo, abre portas, caminhos, fronteiras. Mas, para que seja disseminada pelo planeta, precisa ser valorizada primeiro dentro do próprio país. Nada vai adiante com um povo que só fala mal de si mesmo e de seus intérpretes. Ou que só lhes dá valor quando é tarde demais.

A indústria cultural brasileira é de uma mediocridade explanatória sobre a nossa mediocridade geral. Para fazer filmes, ou séries baseadas em romances brasileiros, por exemplo, só ouço gente reclamando que o governo não dá dinheiro, como se a arte dependesse de governo.

A arte é independente, se for patrocinada pelo governo, chapa branca, deixa de ser crítica, deixa de ser arte. Existe um mercado global a ser explorado, mas para isso temos de ter outra mentalidade, sem paternalismo, com mais vontade, mais ambição.

Para expandir a literatura e a arte brasileiras, é preciso lhes dar o devido valor. Como fazem, como exceção nacional, os baianos, que têm uma bem azeitada e positiva indústria cultural, onde um ajuda o outro e se fazem sucessos como linha de série, especialmente na música. Os baianos são um exemplo a seguir, como não se vê em São Paulo, no Rio de Janeiro ou qualquer outro lugar do país.

É necessário que se promova o autor, e que o reconhecimento não venha depois que morrer. Para o bem da cultura brasileira, da valorização do país, e do nosso progresso como civilização. E dos autores e artistas, claro, porque a glória, na morte, deve ser algo muito chato.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

O segredo para escrever bem

Este livrinho aqui, Escreva Bem, Pense Melhor, é dos que mais vendo pela internet. Infelizmente o brasileiro é muito deficiente em redação. É uma grave falha do nosso sistema educacional, com graves consequências.

Como digo no livro: escrever é pensar. O resto é datilografia. Para escrever bem, é preciso pensar bem. Definir a ideia principal. Desenvolvê-la de forma encadeada, de uma forma fluida e lógica. Para isso, é preciso desenvolver o pensamento organizado. Tudo fica mais fácil quando já temos tudo bem claro dentro de nós.

O exercício de escrever nos leva a desenvolver a forma de pensar. E pensar de maneira estruturada nos ajuda a estruturar, desenvolver e enriquecer o texto, além de escrever sem embaraços, com naturalidade. 

Por trás do déficit da redação no Brasil, há, portanto, uma dificuldade de pensar. Para escrever bem, é preciso antes de mais nada ter algo a dizer. E, para ter algo a dizer, é preciso ter informação, refletir sobre ela,  exercitar a capacidade de distinguir o mais importante, além de transformar o importante em interessante.

Nos Estados Unidos, as crianças são educadas com o livro. Na França, o livro é considerado a essência do próprio país. Em ambos os países, as crianças exercitam cedo, na escola, a leitura, a redação e a interpretação de texto. 

Não por acaso, os americanos são o maior país de leitores do mundo. De forma geral, o americano é muito sucinto e objetivo, quando escreve - e quando age. Isso não é acaso. É resultado do pensamento estruturado, que vem do treinamento, desde a educação básica, montada sobre o livro, a leitura e o exercício de escrever.

Os livros não ensinam apenas o que dizem, como ajudam a pensar, e pensar de uma forma estruturada. Quando já refletimos muito sobre um assunto, é fácil discorrer sobre ele. Escrever se torna então tão simples como falar. Ninguém pensa antes de falar. Escrever pode ser assim também, uma transmissão direta do pensamento. Como afirmo no livro, escrever é pensar no papel.

Quando temos dificuldade de escrever sobre algo, colocamos a culpa na dificuldade da redação. É mais difícil admitir que a ideia não é boa ou que não temos algo realmente relevante a dizer. Seria apenas uma dificuldade de expressão.

A realidade, porém, é que a dificuldade em escrever vem da dificuldade em pensar. Diante da falta de ideias, muita gente apela para uma linguagem complicada, cheia de jargões e academicismos, por exemplo. Escrever difícil, porém, não disfarça a falta de ideias. Só cria um problema a mais.

Na luz, as ideias aparecem. É essencial, portanto, boas ideias. Escrever nos obriga a melhorar, se não quisermos passar vergonha.

Quando o texto não avança, temos de buscar mais informação, ou repensá-la. Esse exercício é que nos leva ao desenvolvimento pessoal. Mostramos, ao escrever, o que somos. E isso nos obriga a melhorar.

Quando há uma boa ideia, ou algo relevante, a clareza valoriza o conteúdo. É como dizia, belamente, o padre Antônio Vieira: "O estilo pode ser muito claro e muito alto. Tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem.”

Escreva Bem, Pense Melhor, fornece um roteiro para esse desenvolvimento: escrever para pensar melhor e pensar melhor para escrever. Não se trata portanto de um manual de redação, e sim de um guia para o desenvolvimento pessoal.

Seus conceitos são baseados na minha experiência de mais de trinta anos como autor e editor, tanto de livros de ficção e não ficção quanto de imprensa.

Pela minha mão, como editor, passaram textos de muitos jornalistas, profissionais de primeira linha, que nem por isso às vezes deixam de ter suas dúvidas, e autores de livros de ficção e não ficção, muitos deles premiados e best sellers.

Todo esse meu aprendizado, tanto ao escrever como ajudando outros a escrever, serve agora neste livro para quem quer encurtar o caminho para fazer textos de sucesso.

Como se trata de organizar o pensamento, Escreva Bem, Pense Melhor serve para qualquer tipo de texto - de um simples e-mail profissional a um romance. Ajuda também a desenvolver um estilo próprio, usando a capacidade instalada que todo mundo tem, ou pode adquirir.

Escrever é um exercício constante e nada acontece do dia para a noite. O padre Vieira, conhecido pelos seus célebres Sermões, diria que esse é provavelmente o único trabalho onde não há milagre. Porém, neste livrinho, como uma pequena bíblia, está um bom caminho para a salvação. 

Para comprar:
https://www.amazon.com.br/Escreva-Bem-Pense-Melhor-desenvolvimento-ebook/dp/B085QM6MJ6

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A herança de 2020

Acredite: 2020 teve algo de bom.

A pandemia tirou muitas vidas. E tirou muito das nossas vidas. Porém, com isso, algo muito importante aconteceu.

O mundo caminhava para muita intolerância, filha de pobreza, geradora dos muitos radicalismos. A pandemia, apesar de alguns, nos aproximou. 

Fez lembrar o valor dos entes queridos. E a importância de todas as pessoas, sem distinção.

Fez a gente sentir falta de gente. Desarmou ânimos. Como só acontece nas horas difíceis que alcançam a todos, lembrou que a Humanidade e a nossa humanidade estão acima das diferenças.

Ressurgiu o espírito de amor e da solidariedade. Cada vez que a truculência, a incompreensão e a intolerância se manifestaram, parecia algo bestial, extemporâneo, inadmissível, sem sentido. É um começo. Ou recomeço.

Isso se refletiu na política, onde se faz a gestão da vida coletiva. O radicalismo ideológico passou a ser defletido, claramente arrefeceu. Baixamos a guarda. 

Olhamos para os doentes, os frágeis, os necessitados. Revalorizamos os mais velhos, um patrimônio humano que de repente ficou ameaçado. 

Muita gente diz que a velhice tira o trabalho, o respeito, a importância social. Mas antevimos como um mundo sem os velhos é impensável. 

A pandemia lembrou a todos de como eles são fundamentais.  2020 foi o ano de preservar  e trazer de volta a sabedoria e o amor, que os mais velhos aprendem a cultivar. Para a liderança, o conselho, o nosso equilíbrio, a nossa felicidade. E o bom funcionamento do mundo.

Aprendemos novamente a lidar com a tragédia, recolocando a vida humana acima das preocupações cotidianas e de interesses comerciais. 

Olhamos para nossos pais, filhos, amigos e irmãos como pais, filhos, amigos e irmãos. E olhamos os desconhecidos, especialmente os desvalidos, como seres humanos, gente como a gente. Assim, voltamos a ser gente, também.

Olhamos os números, sabemos que somos um deles, mas enxergamos neles as pessoas. Lembramos que somos iguais e que a grande tarefa social é tratar todos os diferentes como iguais, e os iguais como diferentes. Para que todos possam ter os mesmos direitos e oportunidades de desenvolver suas capacidades únicas, individuais.

2020 foi o ano em que a tecnologia digital provou seu bem maior. Ligou cada casa a uma cidade, cada cidade à Nação, e todas as nações na busca por uma resposta a uma ameaça tanto coletiva quanto individual.

A pandemia expressou como a vida de cada um depende da vida de todos, e vice-versa. Este foi o ano em que tivemos de pensar no outro e convencer os refratários de que pensar na coletividade é salvar a nós mesmos.

A conexão virtual expôs de forma cristalina e deu o último estágio de desenvolvimento à própria essência do que é a Humanidade.

Diante de uma doença cruel, que nos coloca em perigo ao fazer aquilo é mais indispensável - respirar - e nos mata literalmente extraindo nosso oxigênio, voltamos a valorizar as coisas simples e elementares. Sair à rua. Encher os pulmões de ar puro. Olhar a natureza. Tomar sol. Dar um abraço.

As crianças perderam muito da escola, da convivência, da infância. Mas ganharam essa vivência, que ainda servirá.

Grandes tragédias podem ser um grande impulso para o futuro. Este planeta nunca foi tão civilizado quanto depois da Segunda Guerra Mundial. Conflitos existiram, mas progrediu como nunca a riqueza, a saúde, a lei, o concerto dos povos.

Atingimos tanto progresso que ele acabou gerando também grandes distorções. Temos de usar o aprendizado, novamente, para uma próxima etapa.

Vamos precisar dessa nova solidariedade para progredir outra vez. A miséria crescente, a exclusão social, a crise ambiental pedem esforços tanto individuais quanto coletivos, possíveis por essa nossa nova e grande facilidade de conexão.

A consciência de que o bem de todos é o nosso bem remete à necessidade de retomarmos a valorização dos direitos essenciais. A saúde, o trabalho, a educação são os motores não da economia, como da própria civilização. 

Do bem estar coletivo, com desenvolvimento humano e social, depende o bem estar individual. Ainda mais no mundo super conectado, em que todos se mostram a todos, não há mais como viver bem enquanto o outro não estiver bem, igual.

Podemos lembrar de 2020 somente pela perda de entes queridos, ou ter em mente que nós, os sobreviventes, temos ainda a oportunidade de fazer mais. E que a grande e verdadeira obra é o bem coletivo, porque, de nós, é o que vai ficar.

Para mim, este ano, Natal e o Ano Novo são a celebração de um novo nascimento para todos. Agradeço pela vida. E a parentes e amigos, incluindo aqueles que se fizeram amigos como meus leitores, por tornarem a vida tão boa. 

Pelo mesmo motivo, agradeço a todos aqueles que estão conosco agora somente em espírito.  Criaram este mundo que nos cabe continuar. E aconselham, acompanham, aquecem o coração.

Por último, convoco todos a fazer uma promessa, como eu mesmo faço. A de que estes tempos duros sirvam de forma duradoura para esse entendimento e, assim, a real construção de um futuro melhor. As agruras terão valido a pena, para nós, aqueles que se foram e os que virão depois.

 





segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

A mais livre das mulheres

Quando eu pensava em escrever meu primeiro romance, aos 18 anos de idade, costumava dirigir de São Paulo até Suzano, onde ficava a chácara de minha tia Malfisa, que lá morava com meu avô e muitas histórias repletas de perigo.

Ali, por algum tempo, no final da década de 1960, com risco da própria vida, minha tia havia escondido um grupo de amigos, guerrilheiros contra a ditadura. Todas as vezes em que eu a visitava lá, pensava que, de certa forma, a chácara continuava meio esconderijo.

Tia Malfisa falava de política com convicção, mas, para ocultar aqueles que o regime chamava de "subversivos", era preciso também muita coragem e generosidade.

Um de seus primeiros empregos foi o de revisora no Diário da Noite e assim conhecia muitos jornalistas, a maioria dos quais, de uma forma ou outra, defendia a liberdade - a começar pela liberdade de expressão.

Ser livre, então, era perigoso - e ela era a mulher mais livre que nós da família conhecíamos. Fazia uma porção de coisas que naquele tempo - e falo da década de 60 - eram pouco comuns para mulheres. Fumava. Tomava cerveja. Falava o que pensava. E nunca casou.

Lembro dela entrando em nossa casa, um apartamento térreo no bairro da Liberdade, no jogo final da Copa do Mundo de 1970 - não haverá outra igual, pois aquela tinha Pelé, pela primeira vez havia transmissão direta em cores pela TV e o povo brasileiro estava meio cansado de sofrer.

Tia Malfisa, que adorava futebol e acima de futebol o Palmeiras, irrompeu porta adentro com um bando de amigos, agitando bandeiras, cantando e pulando de cerveja na mão - e o jogo, que se afigurava uma goleada, ainda nem havia terminado. Saíram incontinenti para a rua, inebriados pela vida, como se fosse carnaval. Eu tinha apenas seis anos e lembro de pensar: quando for adulto, quero ser assim.

Ela só andava de fusca, e andou de fusca a vida inteira, mesmo quando o carro virou peça de museu. Quando eu ainda era criança, pediu o fusca de meu pai emprestado e deu uma batida feia. Saiu ilesa, daquela vez, e lembro de meu pai desolado, olhando o ferro retorcido que antes era um veículo, sendo depositado no pátio que servia de garagem.

Não escapou tão bem de outra batida, em que prensou o braço esquerdo. Dali em diante carregaria aquele bracinho atrofiado, por muito tempo quase imóvel. Mas continuava dirigindo o fusca, usando um braço só.

Segundo minha mãe, minha tia nunca casou por ter tido na juventude uma grande frustração amorosa - supostamente, enamorou-se de alguém sem saber que era casado. Mas acho mesmo que ela gostava de ser livre - e livre ficou.

A bem da verdade, chegou a tentar o casamento durante dois anos, com Jurado, um sujeito muito simpático, mestiço de japonês, louco por ela. Como a tia não tinha filhos, sempre que eles vinham em nossa casa visitar, Jurado nos trazia presentes - para mim, e minha irmã, Lara. Só queria agradar. Mas a tia passara dos 40 anos, estava já acostumada demais a viver sozinha e logo achou a vida conjugal uma amolação.

Não tendo filhos, acabou tendo muitos. Eram as crianças da escola, como professora e depois diretora. E eram como filhos os muitos sobrinhos, de quem sempre foi tão próxima. Especialmente de minha irmã Lara, caçula da sobrinhada. Para os sobrinhos, era uma mãe melhor que uma mãe. Porque, como tia, podia ser mãe, sem dar as broncas nem ter os grilos de mãe.

Minha tia era uma das poucas pessoas que me defendia em qualquer situação, mesmo quando eu estava errado, mesmo quando a pessoa com quem eu brigava era a irmã dela, a minha mãe. Talvez por isso, era também das poucas pessoas que tinham o direito de falar qualquer coisa comigo - e eu escutava sem discutir.

Tinha aquele poder de fazer a gente, mesmo depois de adulto, se sentir ainda amado e querido como criança. Talvez por ter passado toda a minha infância perto dela, ela fazia eu me sentir como nos tempos em que, na Casa Verde, abria a porta do quarto dela, que dava para a rua, com uma escada feita de lajota vermelha. Eu passava o dia brincando e vinha suado, deitar ali, para refrescar as costas na lajota, sempre fresquinha, ou esperar passar a chuva de verão, e voltar a brincar.

Por viver solteira, minha tia sempre morou com meus avós; quando meu avô ficou viúvo, e velhinho, pode-se dizer que passou a viver com ela. Deixaram a casa térrea da Casa Verde e mudaram-se para Suzano, onde ela lecionava.

Eu aparecia com meu gravador K-7 na mão, para passar o dia ali. Colocava o gravador, ouvia meu avô cantar, e no meio das canções, colhias história de família com que aos poucos ia tecendo Filhos da Terra, cujo título original, Iusfen, era o nome dele - José - no dialeto bolonhês.

Às vezes, ele parava de cantar para esfregar as pernas com limão - um remédio caseiro que neutralizava a coceira das varizes, dizia .

Minha tia cuidava dele, ou ele dela, enquanto lá fora fazia um sol de rachar. Ela me ajudava na comunicação, porque meu avô, já passado dos 90 anos, não apenas estava surdo como àquela altura monologava às vezes sem direção.

Foi a paciente testemunha de todo o trabalho que tive para começar Filhos da Terra, um romance que mostra a dura cepa daqueles italianos que encontraram um Brasil ainda bruto e selvagem. Fazia muitas coisas como antes, como matar as galinhas no quintal da Casa Verde dando um tlec no pescoço, ou estrangulando-as com o pé sobre o cabo da vassoura.

Nascida no campo, gostava da roça e, na cidade, sentia-se prisioneira. Gostava de viajar, viajava conosco sempre, e mesmo já muito idosa ia para o sítio da montanha que hoje está na guarda de minha irmã - gostava de ficar sozinha, precisava do campo, precisava de paisagem.

Essas raízes de contadina, que brotavam nela vindas de um passado que no romance parece hoje um pouco mitológico, estão na realidade no sangue, na educação, no exercício do amor passional - tudo aquilo que nos une em família, com uma identidade só.

Um amor turbulento, excessivo, por vezes destrutivo, que por vezes parece raiva, ou ódio, ou desamor, mas é no mundo um amor como não tem outro maior.

Tia Malfisa faleceu ontem, no único dia da vida em que lhe faltou o coração. Disse à irmã, minha tia Mafalda, que dormira mal, sentia-se fraca, não queria dar trabalho e era hora de partir. "Já vivi muito", disse ela. Foi tia Mafalda, com quem ela morava nos últimos anos, quem isto contou, a minha irmã.

A coragem que me falta nesses momentos foi aquela com a qual, resoluta, tia Malfisa foi buscar sua paisagem no céu, mais livre do que nunca, nos deixando desolados nestes tempos de pandemia, que não permitem sequer um adeus.

Em Filhos da Terra, quando Iusfen - o narrador - lamenta ser o último e mais inútil dos irmãos, é lembrado de que era por ele, por meio de suas histórias, que todos viviam, na memória e na ação. De tia Malfisa, também penso o mesmo, da forma como aprendi, e que em família se ensinou: enquanto viver um de nós, todos viverão.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Um amigo reaparece no ar

Éramos só dois meninos, aos nove anos. Eu ia na casa dele: era meu melhor amigo, na época. Um japonesinho tranquilo, alegre e simples, com quem eu gostava de conversar.

Voltávamos para casa juntos, a pé, vindos da mesma escola, na Aclimação, por aquelas ruas com nome de planeta: Urano, Saturno, Plutão. Ele parava primeiro, porque a casa dele era antes. Assim, nos despedíamos todos os dias. Ele entrava e eu seguia adiante.

Até o dia em que, diferentemente dos outros, encontramos a mãe dele na porta do prédio. Ela então me disse que Renato não iria mais para a escola e não poderíamos nos ver mais. E me pediu para não procurá-lo. Nunca mais.

Não entendi.

No dia seguinte, explicaram na escola que ele estava com câncer. Eu era pequeno, não entendia do assunto, falaram que era leucemia. Nunca mais vi Renato, nem tive notícias. Acreditava que tinha morrido.

Esta semana, fui procurado por Carlos Alberto, um colega do antigo Jardim Escola Aclimação, que me convidou para entrar num grupo da nossa turma pelo WhatsApp, tantos anos depois.

- Estamos procurando pelo Renato, você sabe dele?

- Nunca soube o que aconteceu com ele, mas é pouco provável que esteja vivo - eu disse. - Sempre penso nele e gostaria de descobrir o que aconteceu.

Carlos Alberto sabia algo que eu não sabia - o sobrenome de Renato. Procuramos por Renato Ishigami. E assim ficamos sabendo que ele viveu mais 41 anos, contra o improvável, ou melhor, o impossível.

Seu pai, Takashi Ishigami, escreveu um texto, publicado na internet sob o título "Um Inverno rigoroso", contando a história e o papel que ele atribuiu ao budismo na realização do inacreditável. 

"Após inúmeros exames, sem resultados, os médicos acharam que o melhor era extrair o nódulo para que fosse analisado", escreveu Takashi, daqueles dias. "Fizeram uma biópsia e foi diagnosticado linfossarcoma, câncer nos gânglios linfáticos, três vezes mais agressivo que a leucemia. Os médicos deram-lhe um curto prazo de vida, de três a doze meses, porque, de um modo geral, a evolução da doença em criança é rápida e fatal. 'Não existem no mundo casos conhecidos de sobreviventes dessa doença', afirmou o médico categoricamente."

Takashi narra a saga da família nos hospitais, até perder a esperança, diante da desistência inclusive de uma clínica americana que se oferecera para o tratamento de Renato. E seu mergulho pelas religiões, à procura de um milagre. 

Takashi encontrou conforto no budismo, pela busca da reafirmação da crença com base em resultados comprováveis. A situação desesperada de Renato transformou a família. Takashi primeiro teve de convencer a mulher, que era católica, a entrar em uma corrente de fé. Até nisso o budismo traz sabedoria: pai e mãe são "como uma carroça", a família não anda sem as duas rodas irem para a mesma direção.

O texto é cheio de ensinamentos e incríveis esperanças para quem se vê diante do inevitável. A família Ishigami passou a dedicar sua vida a rezar. De um estado cadavérico, passando pelo sofrimento de morte, purgando não apenas a doença como o que seria o “carma” familiar, Renato recuperou energia e ganhou novamente vida. Em dois anos, foi considerado curado.

"Um Inverno Rigoroso” é um texto tocante, especialmente para quem tem filhos. Mostra sobretudo a força da humildade perante a vida. E a beleza de uma religião que integra o ser humano ao universo em todos os tempos e mostra que não há por que desistir.  “Nunca houve inverno sem depois chegar a primavera”, escreve Takashi, citando um pensamento budista.

Há nas suas memórias de pai também certo fatalismo, como na história da médica que queria internar Renato para que morresse com menos dores no hospital, e brigou com a mãe dele, quando esta se recusou a aceitar a morte do filho e o levou, moribundo, para casa. 

Quis o destino que essa mesma médica fosse mais tarde levada, por coincidência, ou mistérios insondáveis, à casa dos pais de Renato - onde o encontrou vivo, feliz e pleno de saúde. E foi embora chorando, de pernas tremendo, diante do "inconcebível".

Renato formou-se na FGV, casou-se com uma fisioterapeuta e teve um filho, Guilherme. Viveu bem  até 2009, quando teve um primeiro AVC, sequela do tratamento radioterápico na infância, que ressecou suas artérias do pescoço, comprometendo a oxigenação do cérebro, anos depois. Veio a falecer em 2013, aos 50 anos. 

Depois da ressurreição, a morte. Terá vivido pouco, ou muito? Não sei. Não sei também se fiquei feliz ou duplamente triste. Feliz, por saber que Renato viveu, apesar de sua história tão sofrida. Teve felicidade e deu à sua vida um sentido maior, inspirando outras pessoas a persistir, mesmo quando não há esperança.

Ao mesmo tempo, fiquei desolado. É estranho uma pessoa morrer para você duas vezes. Coisa rara em mim, sempre cheio de razão sobre tudo, fico sem saber o que pensar.

Sei o que sinto. É como se eu deixasse Renato na porta de casa, novamente, outra vez. Sigo em frente, para minha própria casa, que fica mais adiante. 

E sei que não o verei mais, mas acredito que, como Renato, ninguém morreu, nada morre, somos essa história que se respira no ar.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Manchas da vida sobre o chão

Colocando os quadros na parede de casa, volto a olhar para eles com a velha cumplicidade, nesse reencontro que às vezes temos com a gente mesmo - cada quadro um momento e seu significado. Mas este, o cavaleiro... Este, é difícil ainda hoje de olhar.

Penduro, com coragem. A data de quando o pintei - pela primeira vez, digamos - é 1997. Nesse ano, eu ainda terminava de escrever meu primeiro romance, Filhos da Terra. E, no pouco tempo de descanso, comecei a desenhar e pintar personagens do livro, talvez como uma forma de ajudar que tomassem vida.

Saiu um cavaleiro, dos muitos que estão no romance - um imigrante italiano, de colete, visto por trás. Eu o dei a minha mãe, por ser o romance inspirado na história e nas histórias de meu avô: uma saga de imigrantes telúricos, que fizeram fortuna e depois perderam tudo com o café.

Minha mãe aceitou o quadro, o livro não. Quando eu disse que o romance era inspirado na história de vovô, ficou furiosa. "Mas seu avô, não tem nada a dizer sobre ele", vociferou.

Ela tinha seus amargores com o pai. Falava dele, às vezes, com raiva. Uma vez, quando reclamei que não me dava beijos, como outras mães, respondeu com estas palavras: "você queria o quê? Meu pai matava meus cachorros a paulada".

Assim eram os italianos da Bolonha: capazes de te dar a própria camisa suada, por amor, mas um amor endurecido na lida do campo, na aridez da terra, na luta contra tudo e contra todos, muito difícil de explicar.

Quando lancei o romance, em 1998, em uma livraria de São Paulo, todo mundo apareceu - amigos de infância, colegas de trabalho, todos os familiares. Minha mãe, não. Andávamos meio brigados. E aquele livro... Para ela, aquele livro, não.

Para mim, foi um grande momento. Eu tinha passado muito tempo e empenhado muito sacrifício para aquilo acontecer. Desde os 18 anos, ia visitar meu avô, ainda vivo, muitas vezes, na chácara onde morava, em Suzano, com minha tia Malfisa. Aproximando-se do último dos seus 96 anos, ele estava surdo e falava sozinho. Cantava para mim modas de viola e músicas que tinham vindo com os italianos, com mais de um século de existência. Às vezes, eu lhe fazia perguntas, anotando num caderno.

Dizia-lhe, aos 18 anos, que queria escrever um livro. Ele ria. Para ele, não importava. "Isso está em você", dizia.

O livro não importava para ele e parecia não importar a minha mãe. Assim ela fazia parecer e foi assim durante toda a vida. Passaram-se os anos e ela jamais disse uma palavra sobre Filhos da Terra. Até uma tarde, poucos dias antes de suas morte, no hospital, ao fim de dois anos em que se descobrira com câncer.

Eu estava sentado na cadeira, diante da cama, e ela me olhava, fixamente. Por fim, falou.

- Filho, você é um fraco - disse. E aí, pensando um pouco, acrescentou: - Mas, se não fosse assim, talvez não escrevesse coisas tão bonitas.

Falou então tudo o que pensava dos meus livros. Por último, falou de Filhos da Terra.

- Fico admirada com sua imaginação - disse ela. - O engenheiro perseguido pelo vento. Como você pensou nisso?

Pouco depois que ela morreu, passamos eu e minha irmã Lara a cuidar das coisas que estavam no apartamento dela. Quadros que eu tinha pintado e lhe dado de presente voltaram para as minhas mãos. Entre eles, o cavaleiro de Filhos da Terra.

Levei a tela para o sítio, onde pretendia escondê-lo em algum lugar. Mas, de repente coloquei o quadro no chão, junto com as tintas, enfiei nelas as mãos e descarreguei nele tudo o que sentia. Tristeza, frustração, tudo - sobretudo, acho, raiva.

Essa foi a segunda vez em que pintei esse quadro.

O romance está na estante, e muita gente diz que ainda é a melhor coisa que escrevi.

O quadro, uma vez eu joguei no lixo. Foi resgatado pela minha mulher. Agora lido melhor com ele. É mais um quadro na parede de casa. Não é mais ele que me faz lembrar.