terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A poesia, a máquina e a metafísica


Lanço agora pela editora Urutau OCEANO NEGRO, poema em livro, que trata da busca essencial pelo valor da vida diante dos dilemas contemporâneos, a partir da emegrência da inteligência artificial e dos desafios que se apresentam hoje e para o futuro.

Em vez de metafísica, uso a poesia, com um pouco de mitologia clássica, ciência e memória pessoal para tecer uma narrativa íntima, que pode ter algo de épico. Em OCEANO NEGRO, o espaço vazio do universo, para onde caminhamos, Deus não é ser divino, mas o robô de inteligência artificial.

A promessa de eternidade não vem da fé, mas da máquina, como possibilidade de continuidade além da morte. O poema enfrenta dilemas atuais, como  o transumanismo e risco da desumanização da sociedade.

No desafio da perpetuidade, viver é morrer para renascer na máquina — não fim, mas evolução. A dúvida persiste: será a máquina humana? A poesia dialoga com a máquina sobre os princípios da humanidade, unindo indivíduo e cosmos, presente, passado e futuro num tempo indivisível.

No limiar entre a civilização de carne e osso, adormecida na “cidade elétrica”, e o “ser-luz” feito de energia, o livro é uma espécie de carta para o futuro, dirigida ao “Grande Carteiro”, guardião de cartas sem resposta, que coleta a informação da humanidade em “museu do sentimento”. 

Ao inventar deuses e máquinas, o homem reinventa a si mesmo — e corre o risco de se perder. Contra isto, o poema reafirma a existência humana, dividido em ciclos — Gênese, Civilização, Cosmo — que percorrem da origem mítica ao futuro tecnológico, da criação dos deuses à máquina, onde o progresso ameaça abolir a morte e, com ela, o sentido da vida. 

Emergem memórias, lembranças de infância. A solução está na inocência — tanto humana quanto da máquina — que aprende pelo desconhecimento e mantém vivo o impulso do infinito.

Como Hesíodo, em sua Teogonia, onde a poesia funda o humano e o próprio mundo, Oceano negro visa atualizar o gesto arcaico da criação poética em uma era em que ciência, tecnologia e memória pessoal tornam-se novas mitologias.

No fim, OCEANO NEGRO celebra a grandeza criadora do homem, ao mesmo tempo em que reconhece reconhece sua miséria. Nele, afirmo que só a poesia pode dar sentido ao universo inventado , oferecendo ao humano — ou humano-máquina — a chance de resistir ao vazio.


https://editoraurutau.com/titulo/oceano-negro


Oceano negro: “carta para o futuro”

 


O jornalista, autor e editor Thales Guaracy lança agora em livro o poema Oceano Negro (Urutau, 2025), uma visão a um só tempo histórica, metafísica e poética da humanidade a partir do avanço da inteligência artificial.

Nesta entrevista ao poeta, dramaturgo e ensaísta Marcelo Ariel, publicada originalmente em vídeo no canal Letra Selvagem, do Youtube, ela fala sobre o que o levou a escrever o poema, a entrar em poesia, e seu trabalho como autor de romances, livros de história, reportagens, além de sua carreira como editor da imprensa e também de livros.

 

MARCELO ARIEL

Editor-poeta e historiador, Thales Guaracy lança Oceano Negro, pela editora Urutau. Vamos falar do livro, mas antes queria perguntar ao Thales: o que quer dizer Guaracy, mesmo? 


THALES GUARACY

Guaracy, em tupi, é o sol. As famílias brasileiras antigas, ao tempo do positivismo, gostavam de botar nome indígena nos filhos.


MA

Os filhos eram uma espécie de volta às raízes.

 

TG

Sim, do brasileiro miscigenado. Meio português, meio indígena. Meu avô se chamava Guaracy, que era desse tempo. Recebi dele esse que é meu nome do meio, seguindo essa tradição. 

 

MA

Essa harmonia de disparidade, no fundo, que o Brasil consegue fazer, difícil, entre o nativo e o europeu.

 

TG

Eu acho que nós somos síntese. O brasileiro acostumou-se a pensar em si mesmo com um ideal europeizado, mas volta e meia aparecem esses movimentos identitários que buscam as raízes. Acho que é por causa disso que eu me interessei em fazer uma série muito conhecida, minha trilogia colonial, que começa com A Conquista do Brasil (1600-1700) e procura rever documentos originais para recontar a formação do DNA brasileiro: nossa história, nossa identidade. E trazer isso que nós estranhamos em nós mesmos, esse passado meio oculto, que a gente joga para baixo do tapete, e que tem muito da tradição indígena.

 

MA

Por que você resolveu escrever poesia, ou se apoiou em poesia para um livro como Oceano Negro? O que é a poesia para você?

 

TG

Existem romancistas, que fazem romances, existem poetas, que fazem poesia, e existe o escritor, aquele que transita por todos os gêneros. Na verdade, a gente quer sempre contar uma história, mostrar o valor das pessoas, ideias, sentimentos. O objetivo é sempre o mesmo. Eu faço reportagem, como jornalista que sou, faço poesia, faço romance. Cada gênero te ajuda a se expressar sobre um determinado assunto. A forma é aquela que o assunto pede. Oceano negro é uma carta para o futuro. Se você anda por um lugar onde a razão não explica tanto, se você quer mais a nuance, a poesia funciona melhor. 


MA

Você fez esse trajeto da história para a poesia. Ela ilumina a história de alguma maneira?

 

TG

Estou envolvido num projeto maluco, que é transformar meus três livros de história do Brasil em um poema. Venho condensando texto, é um trabalho demorado. A ideia dessa transição é mostrar aquilo que a gente não pode contar num livro de História propriamente. Por exemplo, no poema os personagens falam, coisa que a gente não pode inventar num livro de História. Vi aquelas histórias maravilhosas, os grandes personagens brasileiros, e fiquei imaginando como eram. Queria contar, do meu ponto de vista, a vida dessas pessoas, também do ponto de vista íntimo. O indivíduo pode mudar a história. Anchieta, por exemplo, é um personagem maravilhoso. A história do mundo mudou por causa dele. Grandes personagens da história são desconhecidos. Pensei em como escreveria a história deles, que dariam vários romances. Cheguei à conclusão de que conseguiria transformar todas essas histórias em um poema. Para dar-lhes um sentido, que não chamo de épico, porque para mim o poema é o antiépico: procura mostrar o conflito, e não transformar personagens em heróis. Há uma diversidade dos personagens e de forças envolvidas. Essa é a natureza do brasileiro, cuja origem vem do conflito. A gente esquece disso.

 MA

Você acha que a poesia é capaz de constituir a subjetividade de um país? Constituir uma ontologia, de um país que não tinha substância, é um desafio enorme, inclusive porque muita gente acha que o épico, por não ser poesia intimista, em voga na poesia contemporânea, é uma coisa do passado. Será possível provocar nas pessoas essa impressão de que estão se reconhecendo ali e valorizar o que é o brasileiro, entender o nosso lugar no mundo, e ao mesmo tempo produzir um poema que conta as histórias de um país, de uma nação, da formação de uma identidade nacional em poesia?

TG

Muita gente acha que o poema épico é coisa do passado, na forma e também no objetivo. Eu, pelo menos, gosto da contracorrente. Está todo mundo preocupado com a poesia intimista e eu continuo atrás das coisas coletivas também, que se misturam hoje muito com o indivíduo. A identidade nacional é também a nossa identidade individual. É como a internet: você não sabe o que começa primeiro, se é o indivíduo, ou a onda coletiva, a comunidade. As duas coisas se movem juntas. Não dá para a gente se entender como indivíduo se não entender a coletividade e vice-versa.

 

MA

Vamos falar agora sobre Oceano negro. Como ele surgiu?

 

TG

Esse poema apareceu também por causa de minhas preocupações, mas que são coletivas.  Também é um livro contra a corrente. A gente vê o mundo mudando tanto, surge a inteligência artificial, e nós fazemos novamente a pergunta: o mundo vai acabar? A humanidade vai acabar? Aí, saiu esse livrinho. Pensei em ensinar sobre a humanidade à máquina, como a uma criança. Do princípio da vida é que vêm as melhores lembranças.  Somos mais felizes quando nem desconfiamos dos perigos do mundo. Na infância, todo aprendizado é grande; cada experiência, é um fascínio, cada afeição, um amor marcante. Pensei: eduquemos a máquina como a criança, para quem as pequenas coisas são as mais importantes e tudo na vida vale a pena.

 

MA

 Ideia é fazer uma máquina mais humana?

 

TG

Pergunto, no poema, de certa forma, qual é o sentido de uma máquina que está sempre criando conhecimento cumulativo, mas não tem infância. Se a infância é o melhor da vida,  qual é o sentido da sociedade-máquina que estamos criando? O que será da humanidade, feita ainda de gente que, toda vez que nasce, tem que fazer o download outra vez do conhecimento? Acho que estamos no ponto de decidir o destino da humanidade. Temos até o privilégio, eu acho, de estar nesse momento do tempo, da história, em que serão tomadas decisões importantes. A linguagem que achei para falar sobre isso foi a poesia. Mistura metafísica, filosofia, um pouco de história, e muito desse sentimento contemporâneo de preocupação com a mudança. Para isto, a poesia me pareceu ser a linguagem mais precisa, ou a mais correta para fazer as pessoas refletirem.

 

O MA

O poema é sobre a humanidade, não é?

 

TG

É, a nossa humanidade.  A humanidade no sentido coletivo e também no individual.

 

MA

Você acredita em humanidade ainda? Não somos todos máquinas?

 

TG

Acho que estamos evoluindo para uma sociedade de máquinas. O livro fala um pouco sobre isso. É uma carta para a máquina, tentando mostrar para a máquina o que é ser humano. Trato a máquina como uma espécie de repositório do patrimônio sentimental da humanidade, como se fosse um museu do sentimento. Acho que talvez isso seja o futuro. Assumo no poema, como premissa, que isto vai acontecer.  Se vai mesmo acontecer, não sei. Mas desconfio que pode ser isso mesmo. Humanizar a máquina, talvez essa tarefa da poesia mesmo. Os poderosos já não são mais humanos. Já são máquinas, que ligam máquinas. Vejo nesses grandes personagens da tecnologia uma personalidade meio psicopática. Eles estão transformando o mundo, de fato, num engenho, sem se preocuparem com as pessoas. É como se isso fosse o funcionamento da sociedade.  Ela não tem objetivos. A felicidade é uma noção passageira para essa gente.  Eles não estão preocupados com as pessoas,  não estão preocupados com a pobreza,  não estão preocupados com quem vai ficar de fora. Já fazem parte desse processo de movimento contínuo. O meu esforço, com esse livro, é fazer com que a máquina, produto desta era, não seja uma máquina psicopática e que vai nos eliminar, no primeiro momento em que perceber que a única falha do sistema é o ser humano.

 

MA

Muita gente leva a sério isso.

 

TG

Eu levo a sério também. É um problema real, porque nós somos a humanidade de carne e osso, esse ser perecível que atrapalha o desenvolvimento e acha que todo desenvolvimento é para si, e não para um outro objetivo que é o da própria máquina. Atrapalha, é um problema, um obstáculo. E, como todo obstáculo, para um ser objetivo, a eliminação é o caminho mais fácil.

 

MA

Uma impressão que tenho é de que as questões do historiador migraram para a poesia. Você colocou agora uma problemática no presente e do passado também, que está no presente. Você percebe essa relação?

 

TG

Sim, por isso vou contra a poesia exclusivamente intimista, de pessoas somente preocupadas com elas mesmas, neste mundo de individualismo extremo.

 

MA

O futuro do narcisismo?

 

TG

O futuro do narcisismo. Ele se multiplicou de uma tal maneira que as pessoas querem aparecer de qualquer jeito o tempo todo. Tanto que eu brinco, parodiando o Andy Warhol: no futuro todo mundo terá direito a 15 minutos de anonimato. Hoje há uma procura pela expressão, pela volta a si mesmo, e pela exposição, mas a grande preocupação com esse movimento do eu excessivo é a de que a gente, na verdade, está desaparecendo. As pessoas entram em colapso, porque elas não veem perspectiva de mostrar o valor individual. Todo mundo se expressa e você perde a sua voz no meio da multidão.  Essa é uma das razões principais de a poesia aparecer hoje como uma força, como uma tentativa de se fazer ouvir.

 

MA

E o que pode ser feito?

 

TG

Os existencialistas escreviam romances que eram filosóficos. Acho que também pode haver uma poesia filosófica, que procura as causas da humanidade e do indivíduo ao mesmo tempo. Não é só uma poesia intimista, ela também é aberta para o outro, para a compreensão dos processos, para que a gente possa crescer não apenas individualmente, ou uns contra os outros. Acredito na ideia da sociedade, nós dependemos uns dos outros. Não somos selvagens no meio do mato, lutando pela nossa sobrevivência. O ser humano não sobrevive sem o outro. Para ter roupa, para ter comida, eu preciso de alguém que fabrique, que plante. As pessoas perderam essa noção, de quanto dependem do outro. Querem respostas imediatas e tudo aquilo que é interesse alheio vira conflito.

 

MA

Como resolver isto?

 

TG

A gente precisa recuperar o sentido da sociedade, e não só o de comunidades de interesse, que são divisões da sociedade. É preciso valorizar novamente o que nós temos de interesse em comum. Nós, brasileiros, vivemos brigando, temos essas nossas diferenças, que vão se transformando em ódio. Isso acontece também em todo mundo: as divisões, a perseguição ao imigrante, enfim, os conflitos que vão se acirrando pela defesa de interesses. As pessoas se esquecem do que a humanidade tem em comum e que são os nossos interesses em comum, dos quais depende a sobrevivência do mundo coletivo. Como está, vamos para um conflito, hoje, inimaginável. Mas a gente tem ainda a capacidade, e o poder, com algum amor, de reverter esse processo.

 

 MA

Há uma brutalização nesse processo, um excesso de auto expressão também, que, no fundo, são depoimentos. Há um excesso de depoimentos, de imagens, selfies.Mas o que você faz está na contramão disso,  realmente, porque são poemas numa perspectiva mais ampla, talvez historiográfica, no meio dessa multidão que vai desaparecendo. Você faz uma referência a isso, falando no poema de uma ilha no Japão, onde tem uma agência de correio para onde as pessoas mandam cartas  que não tem destinatário.

 TG

Quando descobri essa história, falei, poxa, que coisa maravilhosa. Já estive no Japão, mas não conhecia ainda esse lugar, senão teria ido lá pessoalmente. As pessoas escrevem para pessoas que morreram, amores não correspondidos, gente que não vai responder. Escrevem para bichos, escrevem para elas mesmas no passado, no futuro. No fundo, tudo o que a gente escreve é uma carta para o futuro. E a gente não sabe quem vai ler, se é que alguém vai ler. O ato de escrever em si já é uma manifestação válida, no sentido de você saber que, mesmo que não tenha destino, aquilo já te satisfaz, porque, no fundo, todo livro, olhando no tempo infinito, talvez seja uma carta sem resposta. A gente não sabe o que vai acontecer daqui a milhões de anos.

 

MA

Você é otimista! Milhões de anos? O que será de um livrinho?  Se é que a humanidade sobreviverá! Eu acho que a gente morre e vai ser esquecido. Vão lembrar de um poema ou outro.

 

TG

Não, não. Acredito nisso.  A sociedade só existe hoje porque a gente tem o passado, que foi construído. Toda literatura é uma herança, é um patrimônio que é nosso, presente.

Hoje, quando a gente escreve,  faz um livro, estamos concorrendo com o passado.  Você pode ir em uma livraria e comprar o Thales Guaracy, mas também tem o Fernando Pessoa, o Carlos Drummond de Andrade,  assim por diante. O passado é permanente.

E continuará existindo como uma presença na vida das pessoas do futuro. O conhecimento  é cumulativo. E a sociedade também, às vezes, evolui. Tudo aquilo que é experiência anterior é válida para a construção de um futuro melhor. Por isso  hoje em dia a gente ainda tem livros ainda que são proibidos e queimados, onde a literatura é perseguida.  Porque ela tem influência sobre o presente. Senão, ninguém ligaria.

 

MA

O que é a literatura para você?

 

TG

Para mim, uma biblioteca é um cemitério, só que, quando você abre um livro,  aquele morto volta à vida, porque conversa com você. Como Fernando Pessoa, vejo a literatura como uma outra vida, ou uma segunda vida. Ou a vida possível. Tudo que se escreve é válido, temos essa necessidade de sobrevivência, ela é de todo mundo, mas ela não pode nos impedir de ouvir o outro. Toda experiência é humana. Um livro não é um livro, é uma pessoa que escreveu. A sabedoria não vem do nada. 

Talvez, a partir de agora, venha da máquina.  Mas, até agora,  tudo o que se tem no livro é experiência humana. A gente aprende com pessoas. Não somos saídos do nada. Se essa tarefa de guardar a experiência for da máquina, talvez até seja melhor,  porque a máquina não tem parti pris, não tem opinião pré-concebida, a priori não defende interesses. Faz a curadoria do que é importante, do que é construtivo para a sociedade. Por isso é muito perigoso o controle da máquina, porque ele pode definir exatamente o que as pessoas serão no futuro, o que elas vão ler. Esse controle tem que ser também coletivo. Não pode ficar na mão de uma meia dúzia de personagens que acumulam riqueza e se apoderam do conhecimento do mundo.

 

MA

Você no fundo defende a literatura também como um ato de fé,  tanto no passado quanto no futuro.  Ou seja, também no presente. Os tempos todos estão interligados, de certo modo?

 

TG

Fazendo esses livros de história, aprendi muito da cultura indígena brasileira.

Ela é muito parecida com o shintoísmo e o budismo japoneses.  Eles consideram que o presente, o passado e o futuro são uma coisa só.  A natureza é uma coisa integrada.

É a imagem do Sidarta, livro do Hermann Hesse,  quando o personagem encontra o barqueiro. Usa a imagem do rio, que eu prezo muito e apareceu em alguns romances meus: O Homem que Falava com Deus tem isso. Hesse escreve que o rio é um só. Ele tem começo, meio e fim -- nascente, leito, foz, e vai para o mar. Mas o rio é o rio, tudo ao mesmo tempo. O rio é o tempo. Somos muito o que foi o passado e também o futuro. Estou com certa idade, talvez seja mais passado do que futuro, mas acho que, no fundo,  é tudo uma coisa, só como a natureza.  Ela é uma entidade única. Isso já era visto pelas sociedades indígenas,  pela tradição xintoísta japonesa, que estão próximas da natureza. Diferente da tradição católica, não existe vida após a morte, onde você ressuscita, é tudo uma coisa só.

 

 MA

Você é católico?

 

TG

Sou católico, batizado, mas apesar da minha formação, presto muita atenção nessa sabedoria oriental,  que acho muito valiosa. É muito consoladora,  porque nos faz sentir parte do todo e com que a gente tenha esperança de sobrevivência. Não apenas pelo livro, mas como parte de uma coisa boa, uma entidade espiritual que nos preside.

 

MA

Você está me dizendo que você é humanista, que existe uma poética no humanismo que não é a poética narcísica.  Nós estamos vendo um narcisismo necrosado, hoje.

Não é uma poesia voltada para si, fechada em si.

 

TG

Lógico. Você, como autor, sabe bem: ninguém escreve só para si. Tenho a sorte de ter leitores e poder viver do que escrevo desde os 20 anos de idade, coisa que não é muito fácil.  Mas sempre digo que, mesmo que não pudesse viver assim, se eu tivesse que ser pedreiro,  marceneiro, qualquer outra coisa, continuaria escrevendo, porque acho essa uma necessidade humana. A gente precisa disso para viver. Você vive para escrever e escreve para viver.

 

MA

Hoje em dia muita gente quer escrever só para ser, escrever só a partir do trauma, não é?

 

TG

Aí que está. Conheço um monte de gente que só fala de si. Esse é o problema, talvez, dessa poesia, dessa literatura contemporânea, que é reflexo da sociedade. As pessoas só olham para elas mesmas. Eu faço isso também. Por vezes eu presto mais atenção em mim mesmo. Mas também estou procurando olhar os processos, o futuro, o que está acontecendo por aí. O jornalismo, no meu caso, ou talvez também um pouco do temperamento, colabora para isso.

 

 MA

O jornalismo colabora para a ficção e a poesia?

 

TG

Como jornalista, eu sou obrigado a ver o que está acontecendo, entender o contexto, analisar o processo, a influência, a interinfluência de indivíduos e sociedade. Mas acho que todo mundo deveria ter um pouco dessa preocupação, porque não adianta a gente ter uma sociedade de escritores.  Se ninguém lê, realmente não tem sentido alguém escrever. Temos hoje um mundo de autores, que está perdendo o mundo dos leitores. É essa solidão que precisa ser resolvida. Com uma comunicação de gente que lê, escreve e troca. A sociedade, ou a vida, é troca. Senão, a gente poderia ficar na caverna como os personagens do Platão. Ler é escutar com os olhos, escutar o outro. Sentire, os italianos usam essa palavra: para o italiano, sentir é escutar. O que entra pelo ouvido vem ao coração. Está faltando isso na humanidade hoje.

 

MA

Vamos ler um pedacinho do livro?

 

TG

Vou abrir aqui em qualquer lugar.

 

A palavra despedida no éter

viaja ao fim da noite.

 

Jornada até o futuro que não conhecemos, mas já existe;

não há parte-tempo do universo

sem a totalidade.

 

Em algum lugar chegará

para que alguém desfrute.

 

Está hoje na sua mão; e não se sabe

até onde vai

só que jamais terá

para mim

resposta.

 

MA

O livro inicialmente não chamava Oceano Negro. Dá para contar a razão?

 

 TG

O título original, como pensei, era A Cosmogonia Humana. Pensando nessa explicação da máquina sobre o que é a humanidade e do que é a humanidade para a máquina. Mas a editora do livro, a Débora Rendelli, muito sabiamente achava que o livro era melhor do que o título, um pouco hermético. Fui procurar e achei essa ideia do Oceano negro, que já estava lá dentro. É a nova fronteira, né? Para onde vai a navegação humana, que se dará nesse espaço infinito e acontece toda vez que a gente olha para o céu e fica se perguntando, afinal de contas, para onde isso leva. Acho que o novo título caiu bem: já gosto de “Oceano negro” até mais do que “A Cosmogonia Humana”.

 

MA

Mas nós estamos vivendo A Cosmogonia Humana, não? Nossa questão é planetária.

 

TG

Essa busca do equilíbrio na sociedade, a busca do equilíbrio do indivíduo dentro da coletividade, as novas relações que vão surgindo, agora intermediadas pela tecnologia, são uma maneira de aproximar mais as pessoas. E às vezes é usada para o mal, criar a cisão, estimular a dissensão, o ódio, controlar aquilo que foi feito para a liberdade. Não é a primeira vez que isso acontece na humanidade. Acaba se transformando em uma máquina destruidora também. Por isso acho que vivo nesse esforço, vem da minha mãe, que era educadora.

 

MA

Qual o nome da sua mãe?

 

TG

Marlene Fiorini Ferreira. Era professora e pedagoga. Ela me passou esse amor pelo esforço de educar as pessoas, no sentido de fazê-las prosperar, progredirem.

 

MA

Você era criança?

 

TG

Ah, sim. Ela me ensinou a ler e a escrever.

 

MA

Sério?

 

TG

Ela ensinava todo mundo. Uma vez, entrei no prédio dela e o rapaz da portaria me perguntou, você é filho da dona Marlene? Eu já tinha visto em cima da mesa de jantar na casa dela o livro Caminho Suave, com que ela tinha me alfabetizado, quando era criança, mas não sabia o que ela estava fazendo com aquilo. Estava ensinando o porteiro a ler e escrever, um homem de mais de 40 anos de idade. Ele me disse: sua mãe mudou minha vida, agora eu tomo o ônibus e sei para onde estou indo. Minha mãe não era professora na escola, só. Era professora em qualquer lugar. Fico até emocionado de contar essa história. Acho que a gente tem uma missão, nós que sabemos que a educação é a única coisa que promove as pessoas socialmente. Não adianta dar dinheiro, não adianta dar ajuda, a pessoa precisa se qualificar.

MA

É uma chave, não?  A educação poética, também. Dá sensibilidade. 

 

TG

Cultura não é educação, mas é algo próximo, obriga as pessoas a pensar. O hábito crítico, a capacidade de análise, o raciocínio, são instrumentos que fazem as pessoas evoluírem. É isso que faz uma sociedade de primeiro mundo, e não o dinheiro, ou os recursos naturais.  Isso está também num poema que estou fazendo sobre o Brasil, a partir dos meus livros de história. O valor de um país, de uma nação, está nas pessoas.  Elas precisam ser promovidas.  Esse é o esforço que a gente tem de fazer: que as pessoas sejam melhores. É o que traz progresso.  O resto não importa.  O dinheiro se ganha, se perde. Os recursos naturais se esgotam. O que faz o país ser desenvolvido é a qualificação do seu povo. A gente vê hoje países que foram de primeiro mundo se transformarem em países de terceiro mundo pelo obscurantismo que começa a tomar conta da sociedade. É triste. O poema é uma esperança de lançar luzes numa sociedade que vai se tornando novamente medieval. A intenção de Oceano negro é esta, humanizar a máquina, mas no fundo quer dizer que é possível também humanizar mais a própria humanidade, que se desumanizou muito.

 

MA

Você falou bem: é uma esperança, porque a gente não tem certeza de nada.

 

TG

Por isso eu fiz poesia, não um tratado filosófico. A ideia da poesia é transmitir um ânimo, uma vontade e uma fé. Para isso, você precisa mover as pessoas emocionalmente. Elas precisam enxergar o futuro, ainda que ele pareça utópico, porque é isso que move a gente para frente. Sem um sonho, você não vai para lugar nenhum.  Então, a gente precisa criar de novo o sonho.  E acho que a poesia que faz isso melhor que a filosofia. Ela faz com que as pessoas sintam e tenham vontade de ir para algum lugar.

 

MA

A gente vê claramente que você ama o Brasil.

 

TG

Eu amo o Brasil, amo a vida, amo as pessoas.

 

MA

Mas o que é o Brasil? O Brasil tem jeito, para você? Tem solução? O Brasil irá triunfar?

 

TG

O Brasil é um país pulsante de vida.  A gente não tem ideia hoje e não reconhece o quanto se lutou neste país para a gente chegar onde a gente está. Imagine aquelas primeiras pessoas que subiram da Serra do Mar, cheia de mosquito, cobra, nativo canibal, gente brigando para todo lado. Levava um século para chegar onde a gente chega hoje em duas horas de carro.  As pessoas faziam duas, três viagens na vida, porque morriam, não tinham mais tempo. O Brasil era um lugar difícil, inóspito, distante.  O sonho das pessoas que vieram para cá era uma coisa impossível. E, no entanto, elas vinham. E aqui faziam uma vida. Criaram um país num lugar absolutamente difícil. Apesar da nossa aparente riqueza, era um lugar muito conflituoso,  onde todo mundo vivia em guerra permanente. A gente esquece dos conflitos, de onde a gente veio, e a gente não pode desanimar, porque os nossos defeitos -- esse individualismo bárbaro, essa vontade de liberdade que a gente tem  -- são também o nosso patrimônio. 

 

MA

Como assim?

 

TG

Não aceitamos subserviência, não aceitamos autoridade. Isso pode ser bagunça, mas pode ser também liberdade, o que nos mantém como um país livre, de gente livre.  Então, eu não trato os meus livros do Brasil como um lugar condenado por si mesmo. Ao contrário, acho que a gente precisa ver que os nossos defeitos também são as nossas qualidades. Somos defensores da liberdade acima de tudo. Não colocamos coisas menos importantes na frente. A gente gosta de viver, a gente gosta da liberdade, a gente não aceita o segundo lugar. A gente quer o melhor, a gente quer um país grande, como são os nossos recursos. Isso está em nós. Nós é que fazemos o país ser assim. E o progresso, o sucesso, só depende também de nós. Estamos nesse processo.

 

MA

Mas e os problemas?

 

Existem, mas levantamos dos tombos que a gente leva, temos essa capacidade. Hoje o Brasil está dando um exemplo de democracia para muitos países tidos como democráticos. É uma certa capacidade de resolver seus problemas sem entrar em crise, sem quebrar o sistema. Isso é um esforço, creio, da minha geração. Como jornalista, trabalhei muito nisso. A gente construiu um sistema que se sustenta, com todas as dificuldades de hoje, vivendo uma crise da democracia no mundo inteiro, uma crise dos processos, uma crise de como a gente avança num mundo que vai mudando muito rápido com mecanismos ainda antigos. Estamos procurando as respostas para saber como a gente atende essa população enorme que surgiu por causa das virtudes da liberdade. Porque essa crise vem do progresso, que gerou muita gente no mundo; vem do avanço da medicina, que deu longevidade das pessoas, vem da promoção social de muita gente que antes estava à margem. Todo progresso gera uma nova onda de problemas. A gente precisa resolver isso de uma forma civilizada.

 

MA

Você acha que temos essa capacidade?

Tem uma frase do Bill Clinton sobre os Estados Unidos de que gosto muito: “não temos nenhum problema que nós não consigamos resolver com as nossas qualidades”.  Acho que isso vale também para o Brasil e toda a humanidade. Temos condições de superar os problemas. A literatura serve para inspirar a gente, reflete a época que vivemos, os desafios que nós temos. Eu, como intelectual que me permito ser ainda, procuro modestamente dar minha contribuição para isso. Faço livros sobre esse assunto, como A Era da Intolerância, sobre a história recente do mundo e a origem dessa crise que desafia a democracia na era contemporânea. O Brasil está no livro, como um exemplo até de esperança. Acredito muito no Brasil como país, mas não porque tem riqueza natural, porque tem petróleo, porque tem a Amazônia. Acredito no brasileiro, uma figura ímpar no mundo,  capaz de ajudar o mundo com sua perspectiva única a enfrentar esses desafios que nós temos pela frente, porque eles são globais. Fiz um discurso?

 

MA

Não, é a história, tem que afirmar.  A gente faz, no fundo, a defesa da própria fé. Você citou até um norte-americano pouco citado, o Bill Clinton, que é um bom saxofonista. 

 

TG

É um bom saxofonista.

 

MA

Você que está há tanto tempo escrevendo, editou tantos livros, inclusive um de que  gosto muito – Brasil em Movimento, de John dos Passos --, fez reportagens sobre o Brasil, romances, poesia, o que diria para um jovem e uma jovem, que estão começando a escrever agora, poesia, prosa ou jornalismo, que também é uma forma de literatura -- a gente esquece disso?

 

TG

Eu diria a esse jovem que não olhe só para dentro. A gente está dentro do mundo e o mundo é muito rico. A riqueza vem da experiência que a gente tem. O mundo transforma a gente e a gente transforma o mundo.  É um vaso comunicante.

Quem só olha para dentro, fica preso em si mesmo. O valor da vida está na experiência, está nos lugares, está com as pessoas, em fazer coisas. Viva. A vida não serve para a gente escrever, é o contrário, a literatura serve para a gente viver. A importância é olhar para fora.  A beleza está ali, na paisagem, nas outras pessoas. Ninguém pode achar que só porque escreve está vivo. Não existe literatura sem experiência humana.  Quanto mais rica é a sua vida, melhor é a literatura. Quanto mais pessoal for o que você escreve, quanto mais individual for a literatura, baseada na sua experiência de vida, nos lugares onde você vai, nas pessoas que você conhece, nas ideias que você tem, nas coisas que você aprende, mais original ela é. Porque as pessoas são únicas.  Quanto mais você tiver uma experiência única, em vez de seguir a manada, mais original você vai ser. E a originalidade é tudo,  porque essa é a nossa expressão,  o lugar no mundo que a gente constrói para a gente mesmo,  onde só cabe a gente, mas onde as pessoas podem se espelhar.

 

MA

Aquilo que o Agostinho da Silva dizia: a sua mensagem única, a palavra que só você pode dizer essa palavra.

 

TG

E a gente entende, com o tempo,  que o nosso lugar no mundo é também o de todos. Às vezes temos algum problema, que achamos ser só nosso, mas quando vamos ver a experiência humana, descobrimos que somos casos tipificados.  As pessoas são muito parecidas, têm os mesmos problemas, e podemos aprender com os outros. Não seremos máquinas nunca, mas podemos melhorar nossa vida evitando erros já cometidos. Esse é um valor muito real da literatura. As pessoas pararam de ler romance, por exemplo.  Romance é muito importante, porque transmite essa experiência. Uma coisa é você ouvir alguém falar: você é informado. Outra coisa é ler um livro, porque você atravessa a experiência de vida que lhe oferece o autor. E, quando você atravessa uma experiência, se transforma. Informar é importante, mas não é suficiente para uma transformação. O livro tem esse valor: faz você viver uma outra vida, ter outra experiência, que talvez jamais teria xe outra forma, a não ser pela leitura. Isso é transformador.  As pessoas saem de um bom livro diferentes. Os bons livros fazem isso com a gente.

 

MA

Que livro marcou você? Quais recomenda? Você já citou o Pessoa, o que gosta mais dele?

 

TG

Eu gosto de muita coisa do Pessoa, mas o que eu mais gosto dele, algo muito particular, são as cartas. É quando ele fala da vida dele. Eu mesmo, enquanto editor do selo português Assírio & Alvim no Brasil, publiquei os seus Diários e Escritos. Gosto muito de comparar a obra com a vida de um autor, ver como se comunicam. Tenho muito interesse na relação entre o que sai publicado como obra e o que está por trás da obra, como ela evolui e acontece, ao par da vida. Sou assim com todas as artes. Se você olhar a vida do Picasso, vai ver que ele briga com a mulher, a figura feminina vira um monstro na tela, e aquilo muda a história da arte. Gosto muito desses relatos. O Jack Lock, tem uma vida tão aventuresca e interessante quanto seus livros. Algumas vidas são mais ricas que a própria literatura. O Hemingway, por exemplo: a vida dele é melhor do que a obra, na minha opinião. Vale muito a pena ler sobre Hemingway,  porque ele era apaixonado pela literatura, vivia a vida intensamente, e se mata quando percebe, como o personagem de O Sol Também Se Levanta, que não é mais capaz de ser ele mesmo. Então,  a vida não vale mais a pena.

 

MA

Mais um trecho de Oceano Negro para encerrar? 

 

TG

Vamos lá, um trecho mais do começo do livro.

 

Ao cosmo, dou sentido;

ao vazio, dou razão;

ao nada, dou prazer,

alegria à imensidão;

à vida, dou o sorriso,

a companhia

o gesto amoroso.

 

O humano cria sua cosmogonia;

deixa marcas no universo

que agora é seu;

 

e o humano,

meu amigo, minha amiga,

somos você e eu.

 

 MA

Conversei com Thales Guaracy, filho da dona Marlene Ferreira. Vamos dedicar essa entrevista,  essa nossa conversa, à dona Marlene. Muito obrigado, dona Marlene, esteja onde estiver.


Link:

Letra Selvagem TV

sábado, 22 de novembro de 2025

A poesia, o Direito e a luta

Na entrada pelo frontão da Faculdade do Largo do São Francisco, as célebres Arcadas, no centro de São Paulo, estão gravados de forma perene os nomes de Álvares de Azevedo, Fagundes Varella e Castro Alves -- três estudantes da escola que também se encontram entre os maiores poetas clássicos brasileiros.

Essa aparente coincidência tem um significado. Há uma relação entre a poesia e o idealismo, às vezes também meio sonhador, que se encontra por trás do espírito de quem se dedica à busca da Justiça pelo Direito. É a força motriz das boas causas, que conduz à ação na vida real.

Digo isto para falar do tempo retratado pelo jornalista José Ruy Gandra no livro “O espírito de um tempo de lutas (Gandra Editorial, 2025), que fala da turma do final dos anos 1970 no Largo do São Francisco, da qual ele foi participante e testemunha.

Uma época em os estudantes de Direito iam às ruas, e não apenas a gabinetes, para mudar o Brasil, dentro de um processo de transformação pela liberdade, que acabou ocorrendo no país e no mundo inteiro. Foi um caso em que os poetas e sonhadores tiveram sucesso.

A ditadura militar havia esgotado o país com a violência, o autoritarismo e seu resultado mais garantido: a incompetência, que levava o país ao desastre. Lutava-se na São Francisco por causas que parecem ser as do poeta, mas são também as cidadão, do político, da humanidade.

Essa juventude, que em meu poema Asas sobre nós chamo de “geração da liberdade”, lutou ates de mais nada pela volta do Estado de Direito, ou seja, o império da lei, com a segurança de quem ninguém pode ser preso arbitrariamente, e todos têm direito à liberdade de opinião e expressão.

Segundo, lutou pela restauração da cidadania e da democracia, com a eleição direta para cargos públicos, de vereador a presidente da República.

Foram tempos em que a força da juventude gerou um movimento cívico sem precedentes, levando o país de volta à democracia e à renovação do poder público como uma garantia de esforço permanente por uma vida melhor não apenas para alguns, mas para todos.

A Constituição de 1988, hoje remendada por interesses espúrios, que devolveram privilégios e apontam novamente o atraso, não foi chamada de Cidadã por acaso. Dava novamente não apenas direitos, deveres e poder ao brasileiro, como lhe devolvia a dignidade.

O livro de Gandra mostra que essa luta, merecedora de figurar mais douradas páginas da Faculdade de Direito mais antiga e respeitada no país, não foi nada fácil. Mas valeu a pena.

A democracia produziu uma era de ouro na vida da geração que a conquistou -- um tempo de relativa paz e progresso extraordinário, que nos trouxe a grandes avanços econômicos e sociais, até a sociedade contemporânea. Seus princípios continuam em pé -- e as distorções criadas por outros interesses não mancham sua razão de ser, mais válida que nunca.

O sistema democrático, mostra o tempo, também gerou distorções e vícios. Isso não significa que suas bases deixaram de ser válidas. Ao contrário. Somente o regime democrático permite ver com transparência os vícios e problemas e corrigi-los, dentro das suas próprias normas, o que não ocorre em nenhuma ditadura.

"O espírito de um tempo de lutas" dá viva memória de como chegamos até a democracia e mostra que este é um caminho sem retorno, embora o preço da liberdade, velha máxima, seja a eterna vigilância -- e inteligência para corrigir desvios.

É  a batalha de hoje, quando a democracia encontra grandes desafios, não apenas no Brasil, como no mundo – a luta que os velhos e novos poetas, idealistas e paladinos da justiça terão de enfrentar.



 

sábado, 30 de agosto de 2025

15 minutos com Luis Fernando Verissimo

Fui certa vez visitar o escritor Luis Fernando Veríssimo em sua casa, no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre. Tinha colaborado comigo na revista VIP, do grupo Exame, escrevendo uma crônica para uma série que inventei, dentro de uma seção chamada Viagem Inteligente, em que punha escritores para falar de seus lugares favoritos. Antonio Callado escreveu sobre Roma; Ligia Fagundes Telles, sobre Estocolmo; João Ubaldo, Berlim; e assim por diante. Veríssimo escreveu sobre Paris.

O texto era sobre o que se podia fazer em um dia na cidade, caminhando. O título, "Paris aos nossos pés", foi da jornalista @mariellalazaretti, que trabalhava na revista. Eu queria fazer mais coisas com ele, um dos mais brilhantes cronistas brasileiros de todos os tempos. Divertido e sagaz, tinha a capacidade rara de tocar em temas profundos com leveza. Escrevia alguns textos hilariantes, como as crônicas de O Analista de Bagé.

Fiquei na casa de Veríssimo 15 minutos. Pessoalmente, aquele senhor tão divertido de ler era, embora afável, tão lacônico que a conversa não andava. Respondia por monossílabos. Nada parecia importante. Apareceu diante de mim o personagem que ele mesmo descrevia como o sujeito que só  chegava mais perto da natureza "quando usava bermuda".

Ainda assim, foi uma conversa interessante por outra razão. Veríssimo conservava a casa tal qual lhe deixou se pai, Érico Veríssimo,  por quem tenho paixão, desde que li aos 14 anos Incidente em Antares e publiquei meu primeiro texto na imprensa -- uma crítica do livro, para a revista Visão.

Parecia que eu conhecia a casa, porque li também O Homem ao Espelho (ou "Solo de clarineta"), umas memórias em que Érico a descreve, porque a cada livro publicado (Clarissa, Olhai os Lírios do Campo etc) corresponde algo que compra para ela -- a mesa de jantar, o aparador, e assim por diante. Era, assim, estranhamente tudo muito familiar.

Veríssimo preservava a memória e a vida do pai daquela forma. Tinha com ele um diálogo misterioso. Achava que jamais seria um romancista do mesmo calibre. Na crônica, achou o seu espaço.

De vida meio reclusa, com seus sorrisos meio envergonhados, só estava totalmente à vontade na arte, escrevendo, tocando sax numa banda de jazz, outro meio de se expressar, ou desenhando. Na imprensa, fez parte de uma geração de cartunistas que colaborou para o progresso da democratização, onde a sátira fazia também o papel de demolir a ignorância e obscurantismo.

Honrou, ao final, a linhagem. Há agora dois Veríssimo no panteão de Petrópolis.


sábado, 2 de agosto de 2025

José Roberto Guzzo, in memoriam

Comecei a trabalhar em Veja em 1986, como repórter da seção de economia, num tempo em que revista era o maior e mais influente veículo impresso do país, com alcance nacional e mais de 1 milhão de exemplares vendidos a cada semana, dos quais cerca de 800 mil iam para assinantes.

Como diretor de redação, José Roberto Guzzo comandava o que considero a mais brilhante equipe de jornalistas de todos os tempos, que contava com Elio Gaspari (diretor adjunto) Dorrit Harazim (redatora-chefe), Henrique Caban e um time de editores que mais tarde daria continuidade ao sucesso da revista, dentro de uma escola de jornalismo da qual me orgulho muito em pertencer.

Guzzo, em particular, era aquele em quem eu mais me espelhava. Dirigia um negócio nevrálgico para a Editora Abril e o Brasil  como se não fosse nada -- parecia fazer até pouco caso das decisões difíceis que tomava, das brigas que comprava, e das grandes coisas que fazíamos.

Passei a ter mais contato direto com ele quando comecei a escrever capas. No processo de trabalho de Veja, cada texto passava por várias mãos: do relatório da sucursal para o subeditor em São Paulo, depois o editor,  e por fim o editor executivo. A capa, porém, ia sempre para mais uma leitura: a de Guzzo.

Eu ainda o vejo sentado em sua cadeira giratória, dedos cruzados sobre a barriga, esperando chegar o texto da capa, geralmente alta madrugada. Aí ele se encontrava no que parecia talhado para fazer desde o nascimento.

Guzzo era famoso na redação de Veja por "consertar" textos com problemas de entendimento e dar estilo e graça a assuntos complicados, com grande facilidade, em leves canetadas (sim, ainda escrevíamos em papel, na velha máquina datilográfica).

Com sua caneta Bic, Guzzo fazia suas intervenções com letra de professor; eram uma aula de redação e edição. Por essa habilidade,  era chamado na redação pelo apelido de "mão peluda" -- muito embora as tivesse lisas, com dedos longos e delgados e unhas bem cortadas, como os de uma moça.

Tinha a visão clara do negócio: a revista tinha de estar ao lado do leitor. Isso determinava o que escolhia como capa, à frente dos editores que discutiam os temas da semana e apresentavam a ele suas ideias, na reunião de pauta das segundas-feiras e, na quinta-feira, quando tudo era reavaliado.

Elio era o editor-repórter; genial e genioso, mente ativa, buscador incessante da notícia, o atacante rompedor. Guzzo era o fechador: tinha visão do que estava acontecendo, e  equilíbrio; enquadrava a notícia, mostrando o contexto, os bastidores, o que ninguém pensava, o que ninguém tinha visto. 

Guzzo e Elio se completavam, na dupla a meu ver mais icônica da imprensa brasileira. Com Roberto Civita, dono da Abril, que os respeitava como iguais, davam a Veja a importância que a revista adquiriu, especialmente no período de redemocratização do Brasil, quando teve um papel fundamental.

Veja produziu grandes marcos da imprensa na época. Um deles foi a reportagem sobre a morte do jornalista Alexandre Baumgarten, que quebrou o silêncio sobre as execuções nos porões da ditadura. Foi um momento corajoso e determinante dentro do processo de abertura, que, de uma hora para outra, mudou o Brasil. Dali em diante, a volta à democracia ainda demandou muito trabalho, mas se tornou apenas uma questão de tempo.

A clareza de Guzzo se manifestava em tudo o que escrevia ou mandava fazer. Lembro de uma reportagem sobre o aumento do salário mínimo, fechada pelo meu chefe na época, Fernando Pacheco Jordão. Fernando redigiu uma longa matéria sobre os efeitos do aumento na economia e, ao final, um pequeno box (texto em destaque) sobre o custo das empregadas domésticas para as famílias de classe média. Guzzo mandou Pacheco inverter tudo: ao leitor de Veja, o que interessava eram as empregadas domésticas, que viraram a matéria principal, enquanto todo o raciocínio econômico foi o box do final.

Passei a trabalhar mais diretamente com ele quando me tornei subeditor de economia e depois editor de Brasil. Guzzo era um chefe descomplicado: não dava bronca, não brigava, não perdia tempo; dizia o que queria, mas deixava as pessoas trabalharem, e sempre defendia e recompensava o mérito.

Certa vez, já como editor de Assuntos Nacionais (Brasil), fui encarregado de fazer um perfil de Zélia Cardoso de Melo, assessora do recém-eleito Fernando Collor, que ainda não escolhera seu ministro na área econômica. A matéria era delicada: Zélia aceitou me dar a entrevista, morrendo de medo: o que eu escreveria decidiria o seu destino (é bom lembrar que foi Veja quem lançou Collor no plano nacional, ao escrever sobre um então jovem e promissor governador de Alagoas, para quem criou, pelo título de capa, a alcunha de "caçador de marajás").

Na reunião de pauta, apresentei minha ideia para o texto e o título da minha matéria sobre Zélia -- "o coringa de Collor". Os outros editores torceram o nariz -- acharam aquilo muito enigmático. Guzzo, porém, aprovou.

-- Tem uma esperteza aí.

De fato: a gente não sabia o que Collor decidiria, mas a matéria indicava que Zélia seria influente no governo de qualquer forma, onde quer que estivesse (o coringa). Se não fosse ministra da economia, acabaria como uma sombra para qualquer outro. A revista saiu no sábado.  Na segunda, Zélia foi anunciada como titular do ministério econômico.

(Ninguém imaginava o que aconteceu depois: o choque perpetrado por Zélia -- o Plano Collor, que sequestrou o dinheiro da conta bancária dos cidadãos --, e as denúncias que levaram ao impeachment do presidente, cuja investigação,  por sinal, Veja liderou, até a célebre entrevista de Pedro Collor, irmão do presidente).

Guzzo via em mim um pouco do que ele mesmo era -- um " resolvedor de problemas", como se chamava na Abril, por inspiração de Roberto Civita, aquele jornalista para trabalhos complicados. Sabia com quem podia contar, por exemplo, para entregar em Veja  uma matéria de última hora na madrugada de sexta-feira, ciente de que eu não iria ficar "rolando na lama" -- o jargão da redação para aqueles que se viam em dificuldades e demoravam para entregar o texto.

Era comum, pela pressão do tempo e da qualidade, alguém entrar em pânico. Muita gente da redação temia como um pesadelo a possibilidade de entrar uma nova matéria na sexta-frira, dia de fechamento, ou acontecer algo que mudava tudo, na última hora, por vezes alta madrugada de sexta para o sábado. Meu batismo literalmente de fogo nisto foi escrever a dramática história dos incêndios nos grandes edifícios em São Paulo para a Vejinha, numa noite de sexta-feira, quando queimou o Shopping Center 3 na Avenida Paulista, em 1987.

Dado o "pescoção" das madrugadas, cada edição de Veja equivalia ao jet lag de viajar ao Japão semanalmente, virando e desvirando a noite, e isto por meses, anos a fio. Mas era um trabalho que fazíamos de forma missionária, abnegada, um sacrifício justificado. Acreditávamos que daquela forma estávamos mudando o Brasil para melhor-- e estávamos, mesmo.

Eu adorava aquela vida, mas ela era terrivelmente desgastante. Saí de Veja para um período sabático,  e voltei à Abril mais tarde, a convite mais uma vez de Antonio Machado, desta feita para Exame, cuja direção Guzzo passara a acumular, de forma a desenvolvê-la. Como editor-executivo de Exame, eu era encarregado de VIP,  então um suplemento da revista-mãe. Com a saída de Machado, Guzzo passou a me deixar a fazer a revista sozinho -- eu apenas o informava da pauta e lhe mostrava a capa, ao final.

Guzzo valorizava o trabalho, era objetivo, generoso e usava sua ironia até para fazer o bem. Uma vez me chamou na sala dele com um pedido.

-- Tem um velho jornalista, fulano de tal, que já trabalhou aqui, um sujeito meio encrenqueiro, mas que está doente, precisando de dinheiro. Você não consegue arrumar qualquer coisa para ele aí?

Sugeri criarmos uma coluna na revista sobre livros, poderíamos dar a ele, algo que ele poderia fazer de casa.

-- Ótimo --, disse Guzzo, com um sorriso leve sob o bigode. E, quando eu já saía da sala, completou: -- Provavelmente nos arrependeremos depois.

*

O que eu não sabia é que Guzzo já tinha feito algo parecido com meu pai -- e, de certa forma, por mim. Essa história, sobre a qual nenhum dos dois falava, eu só soube por meu pai,  muito tempo depois.

Em 31 de março de 1964, meu pai, Alípio do Amaral Ferreira,  era chefe de redação de Última Hora em São Paulo. O jornal foi empastelado pelos militares no golpe e, do dia para a noite, ele se viu sem emprego, sendo que tinha um bebê de 15 dias para criar -- eu. Guzzo, com quem meu pai havia trabalhado no jornal A Hora, estava numa editora de revistas especializadas -- o Grupo Lund -- e o socorreu com um emprego salvador.

Mais tarde, quando Guzzo foi para Veja, chamou meu pai para trabalhar com ele. Meu pai chegou a ficar uma semana na revista, mas achou o trabalho muito duro, sobretudo pelas madrugadas de fechamento, que eram um sacrifício físico muito grande. Voltou para o velho emprego, onde tinham lhe deixado a porta aberta.

Comecei minha carreira na Gazeta Mercantil; de lá, fui para Veja, por motivo que nada teve a ver com Guzzo e meu pai.  O editor de economia, Antônio Machado, leu uma reportagem que escrevi, na Gazeta, sobre economistas dos governo Sarney, que davam entrevistas no mesmo dia, em cidades diferentes. Em vez de reproduzir o que diziam, como os demais, escrevi que aquele era um movimento coordenado no governo para obter apoio ao Plano Cruzado, num momento crítico. Era uma matéria típica de Veja, embora feita para um jornal.

Fui trabalhar em Veja, sem saber da história de Guzzo com meu pai, apenas porque queria escrever mais, e dessa forma me desenvolver. Com Guzzo, e as equipes brilhantes que consolidaram em Veja uma cultura de trabalho incomparável na imprensa brasileira, aprendi muito do que usei pela vida inteira, até hoje.

Só não sabia o quanto havia do dedo de Guzzo não apenas no que aprendi,  como jornalista e editor, mas na minha vida pessoal. Ainda mais pela forma silenciosa com que trabalhamos juntos tantos anos, sem que eu soubesse daquela ligação anterior. Para mim, além de tudo, Guzzo cultivava o princípio da verdadeira generosidade, de quem faz o bem sem ver a quem, e sem nem mesmo falar sobre isso depois.  

Fora de cargos de chefia, tornou-se um colunista muito lido; era crítico permanente do governo de plantão,  por ora do PT, razão pela qual passou a ser taxado como radical de direita, bolsonarista e afins. Creio, porém,  que não defendia pessoas ou partidos, mas princípios e ideias, que tenderam cada vez mais ao conservadorismo liberal, mas essencialmente não mudaram tanto. 

Defendia sua independência e, como jornalista, acima de tudo colocava-se contra correntes, fosse de que lado fossem, fiel a um princípio de Veja, que é investigar a quem seja, mesmo os bons.

Chamamos a este campo irrotulável não de convicção ideológica,  embora de certa forma seja, mas é mais a atitude do pensador coerente consigo mesmo, oponente obstinado da corrupção, da incompetência e dos discursos vazios, venham de onde vierem.

Com este habilidoso espadachim da palavra, que brandiu sempre ao serviço do Brasil e do bem comum, fica minha amizade, minha gratidão eterna e seu legado: um país muito melhor,  que ele defendeu e ajudou a construir como ninguém.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Uma luz sobre o caos mundial


Muita gente não está entendendo o que tem a ver o tarifaço de Trump com a política no Brasil, assim como a relação meio esquizofrênica do presidente americano com Elon Musk e Putin, a quem durante a campanha eleitoral tinha prometido apoio na guerra contra a Ucrânia -- e, agora no governo, ameaça, oferecendo mísseis Patriot à Ucrânia por meio da OTAN.

Salvem Bolsonaro e acaba o tarifaço, diz Trump? Processo contra o ministro do STF Alexandre Moraes nos Estados Unidos? Acabem com o pix no Brasil? Vamos chutar todos os estrangeiros e proibir funcionários do governo americano de usar palavras como “feminismo” e “diversidade”? O que está por trás dessa metralhadora política e econômica em escala global?

Parece que o presidente de cabelo laranja aposta no caos. E de certa forma é isso mesmo: ele ataca a ordem mundial, para instalar outra, que lhe interessa.

Tudo isso se entende com a leitura de A Era da Intolerância, um livro meu pouco observado, mas que começa a ganhar espaço nas universidades, adotado por professores para discussão em sala de aula, e que fala da origem desta crise mundial, em que mesmo os organismos internacionais perderam sua capacidade de negociação e mediação de crises.

O problema é mais que econômico, é sistêmico: estamos assistindo a uma reação à era da liberdade, em que empresas transnacionais passaram a fugir aos controles dos estados nacionais, incluindo a taxação, derrubaram empregos, impostos, e enfraqueceram os estados nacionais, tanto na sua capacidade de taxar quanto legislar.

Os estados nacionais agora buscam taxar a internet na fonte da venda, para evitar evasão de divisas; há um retrocesso conservador geral, um grande refluxo contra o globalismo, que afeta todas as áreas da atividade humana – a política, a economia, o judiciário, e mesmo as relações humanas e sociais.

A origem, ou as causas, e uma radiografia da natureza do problema, onde a intolerância é “a febre” causada pela doença, conforme digo no livro, estão lá. Assim como algumas indicações do que pode ser o futuro.

@matrixeditora
#economia
#aeradaintolerancia


terça-feira, 22 de abril de 2025

O Papa que sabia sorrir

O Papa morreu. Viva o Papa.

Um Papa vem atrás do outro, a história segue, mas um Papa não é igual ao outro.

Francisco morreu, mas não tem outro igual. Era latino americano, uma outra visão do mundo. Voltada para o lado mais pobre do mundo. Voltada para os erros da Igreja, que ele nunca escondeu. Ao contrário, procurou consertar.

Não fugiu do escândalo dos padres acusados de crimes sexuais. Enfrentou a mazelas da igreja. E as próprias, desde seu tempo de bispo na ditadura militar argentina, brilhantemente retratadas no belo filme de Fernando Meirelles, Dois Papas. 

Ele se opôs à guerra e não temia os senhores da guerra, os poderosos armados, que combatia com a autoridade de quem leva o Anel do Pescador, e a postura de amor, serenidade e uma certa leveza. Um pouco de saúde, uma presença curativa, restauradora, num mundo envenenado pelo ódio.

Ele olhava para os mais pobres e queria que a Igreja colaborasse com uma economia transnacional participativa, quase uma guerrilha contra o capitalismo digital, voltada para a simplicidade, a produção e a erradicação da miséria pelo mundo. 

Nadava contra a corrente de um capitalismo tecnológico que cada vez mais concentra a riqueza e exclui o ser humano.

Era um papa, sim, humano, que aproximou as pessoas de novo da Igreja, ou a Igreja das pessoas. Falava de futebol, da vida. Era um Papa que sorria. O Papa sabia sorrir.

Essa presença equilibrada, esse bálsamo num mundo belicoso e feroz, onde o estresse vai levando muita gente à loucura, e a violência, a mentira, o absurdo se tornam normais, simplesmente se foi. Como tudo. 

Num mundo de retrocessos, a Igreja com Francisco avançou. Por mim, ele podia ficar como Papa eterno, assim como Jesus. Mas até Jesus é usado hoje para defender interesses e promover o ódio. Jesus.

Fique com Deus, meu caro Bergoglio. Você mostrou que é possível seguir o bom caminho. É triste, porém, que bons Papas morram; hoje, quando duvido de tudo, eu penso: e agora, o que será de nós?