domingo, 1 de dezembro de 2019

Lazinho e o relógio

- A gente está aqui emprestado. A hora que ficar bom, vai embora.

Zoel está com as pernas verdes, de roçar grama. Chateado, como eu. Acabamos de perder um colaborador. E um amigo. Usa a sabedoria da roça para nos consolar.

Lazinho. Depois de oito anos, não sei o nome inteiro dele, mas não interessa, porque na roça as pessoas têm um nome só. Quando cheguei a esta montanha, me ajudou a arrumar as coisas. Um homem tranquilo, positivo, trabalhador.

Vivia para a família. Construiu duas casas, melhores que as dele, mas morava na mesma, de sempre. A primeira, deu para a filha mais velha. A outra, alugava para turismo. Mestre de obra, era um faz tudo – pedreiro, encanador, marceneiro. Conselheiro nas coisas do mato, que ele conhecia todas, de cobra a minhoca, de flor até raio. Com o tempo, além de ajudar, foi ficando amigo.

Tinha também a sabedoria da roça, que tem mais valor, a meu ver, pela simplicidade, que vem da proximidade maior com o campo, a natureza. Aqui as plantas vicejam e morrem. Vem a seca e depois a chuva. O homem do campo aceita os ciclos. E que faz parte deles.

Lazinho recebeu assim a notícia do câncer que o levou em dois anos: como quem vê o inverno chegar cedo, este ano.

Certo dia, a mulher, Cida, mentiu que não tinha recebido a mensagem de Virgílio, meu médico, que tem casa perto da nossa e o ajudou a encaminhar-se no tratamento. Lazinho percebeu que ela estava sem coragem de dar más notícias e insistiu em saber a verdade.

- Se a gente tem de morrer -, ele disse -, pelo menos o meu já está marcado.

É difícil aceitar a perda de uma pessoa. Para mim, a natureza é revoltante, inaceitável. Mas aqueles que estão próximos dela, têm no nariz o cheiro de orvalho da noite e da grama molhada sob o sol da manhã, tiram o leite puro e depois a carne do gado, esses mais do têm coragem: são a coragem.

Eu e Lazinho andamos muito no mato, treinamos na besta, para caçar javali, que nunca caçamos, fizemos reformas e projetos que nunca se realizaram. Aparecia um problema, chama o Lazinho. Não tinha problema, também.

Aqui em casa muitas vezes Lazinho sentou, tomamos um dedo de cachaça, jogamos conversa fora. Aqui o sol entra pela varanda, bate na mesa, ilumina a conversa e a gente esquece o relógio. Aqui, eu só lembro do relógio porque, agora, falta alguém na cadeira, que está vazia na minha frente. E sei que ele não voltará para trás.

sábado, 26 de outubro de 2019

Na "China"

Mais um trecho do meu próximo livro, capitulinho intitulado..."Na China".
Em quarenta anos, poucas vezes fui à Liberdade; mas quis mostrar o lugar onde nasci a André. Levo meu filho para visitar a feira de domingo; ele tem pouco mais de três anos. Vamos de metrô, que tomamos na estação Sumaré; trocamos de trem na Sé e descemos na Liberdade. É a primeira vez que ele anda de metrô; os vagões estão vazios, mas ele prefere ir em pé, para ter a sensação da velocidade.
A ladeira da Rua dos Estudantes, onde ficava o prédio onde nasci, era um território perigoso, cheio de mendigos e bandidos, onde não se podia ir nem à luz do dia; a parte alta, porém, vibrava com os turistas de fim de semana, que enchiam as ruas decoradas com lanternas vermelhas.
Andamos pela feira de artesanato, na praça da Liberdade; coloco ele em meus ombros, para enxergar por cima da multidão. Andamos entre barracas de frituras, bonsais, bijuterias e objetos de bambu.
Almoçamos num restaurante de pernas cruzadas sobre o bandô; ele adora yakissoba, porque como bom italianinho aceita qualquer tipo de macarrão. E vai comigo ver o jardim japonês na ilha rodeada por carpas coloridas que enfeita um lado do salão..
Expliquei-lhe a certa altura que tinha nascido e vivido ali quando tinha a idade dele.
- Você então nasceu na China?
Tento esclarecer que era apenas o bairro japonês, mas ele, maravilhado, continua achando que está em outro país.
Depois de uma curta caminhada, com a preguiça das horas de digestão, decidimos para casa de táxi. Quando o taxista acelera, André pergunta, sentado no banco traseiro, ao lado da mãe:

- Vamos voltar para o Brasil?




quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Por que escrevo


Estou terminando de escrever um livro, que deve ser meu próximo, o mais difícil (para mim mesmo) que já escrevi. Divido ou antecipo aqui um pequeno trecho, que fala sobre a própria dificuldade de escrevê-lo. (E esse aí da foto sou eu mesmo, piqueno, objeto dessa obra).

"Deveria ser fácil, mas assumir os erros e enfrentar a nós mesmos para mudar e melhorar é uma tarefa ainda mais difícil que enfrentar os outros. Mudar é doloroso, pois no caminho temos de encarar quem somos, nossos medos, nossas falhas.

Precisamos de humildade para aceitar que não sabemos tudo, que temos problemas e que nossa felicidade depende dos outros. Isso fica muito evidente quando temos filhos. É por eles, até mais do que por nós mesmos, que devemos tentar ser melhores.

Aprendi a duras penas. O exercício de escrever é um processo de reflexão, do qual acabamos dependentes. Escrevemos não por vaidade, ou por exibicionismo, ou para ficar na posteridade, mas para viver. Seja como autor de livros de ficção como de não ficção, eu me obrigo primeiro a quebrar a casca da ostra, a encarar a verdade interior.

Depois, aceito o que nunca faço: me expor. Escancarar as portas da alma, sem segredos, é uma forma de mudar, superar a dificuldade de estabelecer uma ponte para o mundo. Ao escrever, ajudamos a nós mesmos; ao publicar o que escrevemos, a intenção é ajudar também os outros na mesma situação. O que vemos nos livros pode ser informação, ciência ou arte, mas em última análise é o aprendizado com a experiência humana, que dividimos uns com os outros.

Aquele que abre o coração expia seu sofrimento em busca de redenção. Dá o primeiro passo para a admissão de que é um ser humano. E descobre, ao abrir os braços, que os outros o acolhem. Saber que não estamos sozinhos no mundo e receber esse retorno, tanto quanto dá-lo, traz um grande alívio."

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

O futebol e os garotos

Leão na bola: bom, briguento e vaidoso
O futebol sempre foi mais que o futebol. Nele se encontram os grandes sentimentos do homem, suas virtudes, suas falhas, num laboratório cercado por quatro linhas de cal.

O esporte me ensinou muito sobre vitórias e derrotas e também que a presença é o maior bem que podemos ter. Papai ia ao futebol com vovô e uma de suas memórias mais caras de infância foi um jogo da Copa do Mundo de 1954 - um Itália e Argentina em que o goleiro portenho, chamado Vaca, fez inesquecíveis milagres.

Eu gostava de sentar com ele na arquibancada do Pacaembu, num canto da arquibancada que não custava muito caro, e o futebol era sempre pretexto para conversas e algumas horas de companheirismo despreocupado. Um tempo que tinha algo de cumplicidade entre homens, mesmo sendo eu apenas um menino, o que fazia eu me sentir muito importante.

Naquele tempo em que o Palmeiras tinha a poderosa "academia", derrotas eram raras – o time ficou dois anos invicto, entre 1973 e 1974, quando foi bicampeão brasileiro. O torcedor tinha mais mais liberdade, especialmente dentro do Parque Antártica, o antigo estádio do Palmeiras. No intervalo do jogo, mudávamos de lado na arquibancada, para ficar mais perto do campo de ataque. Como o Palmeiras sempre dominava a bola, a maior parte do jogo acontecia no campo do adversário.

Eram todos grandes jogadores, mas eu, desde cedo, admirava e tinha como ídolo Leão: o audaz, esbelto e briguento goleiro do Palmeiras. Não gostava de perder de jeito nenhum. E era vaidoso. Até então, os goleiros usavam uma roupa cinza ou preta, como a dos juízes. A regra diz que o goleiro precisa ter um uniforme diferente do time, não necessariamente preto. Leão aproveitou-se disso para envergar uma camisa azul, que se tornaria tradicional no clube por longo tempo.

Tive uma camisa daquelas, de algodão, com o escudo do Palmeiras sobre o plexo solar. Numa loja de esportes da Líbero Badaró, meu pai comprou para mim também luvas emborrachadas de goleiro, meio grandes para minhas mãos pequenas. Posso sentir até hoje o cheiro do couro e borracha.

Passava horas sozinho, chutando a bola contra a parede, e saltando para pegá-la de volta. Não há sensação mais maravilhosa do que voar na bola, fazendo a “ponte” – a defesa mais plástica do futebol, em que o goleiro se estica completamente no ar. Defender uma bola com a “ponte” era como fazer um gol.

Mais tarde, ao jogar na Casa Verde, ia sempre para o gol. Meu primo, que tinha seis anos mais que eu, estava sempre nas peladas da rua, do colégio Nossa Senhora das Dores e, depois no Matarazzo, o time do bairro, que jogava no antigo campo do antigo Guarani da Casa Verde, na várzea do Tietê. Como eram meninos mais velhos, para não me machucarem, ele me mandava sempre para o gol.

Aqueles eram outros tempos do futebol; havia ainda algo romântico no esporte. Lembro das difíceis partidas contra o Juventus de Milton Buzzetto, um técnico especialista em retrancas, que nos faziam sofrer – e algumas vezes, perder a cabeça.

Num jogo assim, uma briga se transformou numa batalha campal. Foram expulsos todos os jogadores do Palmeiras, menos, salvo engano, o olímpico Ademir da Guia. O juiz deu vermelho até para Leão, que estava no gol, longe da confusão, mas correu metade do campo para entrar na briga. Na partida seguinte, com a suspensão dos titulares, o Palmeiras entrou em campo somente com reservas; no lugar de Leão, jogou um goleiro com nome de astro de cinema: Raul Marcel.

Torcidas podiam levar bandeiras aos estádios e torcedores de times diferentes conviviam lado a lado, de forma mais ou menos civilizada.
Não havia tanto dinheiro no futebol, e os jogadores que iam para a Europa, uma economia mais forte, onde os atletas passaram a conseguir contratos milionários, eram mais raros. Os craques do Brasil jogavam no próprio país e havia grandes partidas, tanto nos campeonatos estaduais, onde os times do interior eram fortes, quanto no Campeonato Brasileiro.

Poucos jogos passavam na televisão, e os jogos da cidade não eram transmitidos ao vivo, já que não havia a TV a cabo; com sorte, à noite se podia ver o “videotape” da partida. Por isso, ir ao estádio era mais barato, frequente, e importante.

Embora o Palmeiras da minha infância fosse um time vitorioso, não importava o resultado da partida, desde que eu e meu pai estivéssemos juntos. Essa era a essência do futebol. Com o esporte, aprendemos a suportar melhor, até com bom humor, os maus resultados. Todos os torcedores se rendem a um certo saudosismo, a pensar que o futebol de sua infância era melhor, porque está misturado a nossas melhores lembranças.

Pode ser que as crianças de hoje achem o mesmo no futuro e este tenha sido para elas o melhor tempo do futebol. De todo modo, com os escândalos de corrupção, derivados das fortunas que correm nos jogos de azar agora feitos por redes virtuais, as tentações do demônio são maiores, ainda que a índole do ser humano sempre tenha sido a mesma.

Hoje, meus heróis continuam a ser os mesmos de antigamente; não sou capaz de enxergar novos ídolos, mas sou fiel aos mesmos, diante dos quais, ainda, me sinto criança. 

Ave, Leão.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

A Linha da Vida: a longa história de um breve romance


Em dezembro de 2009, fui conhecer a então nova Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, e fiquei extasiado diante daquelas prateleiras cobertas de livros e, no centro, o auditório envidraçado que parecia flutuar entre as estantes, obra do arquiteto Isay Weinfeld.

– Ah! – exclamei, ao lado do proprietário da loja, Samuel Seibel. – Dá vontade até de escrever um livro aqui dentro!


Samuel olhou para mim, divertido, e provocou:

– Por quê não?

Surgiu então a ideia do “Escritor na Livraria”. Samuel reservou para mim uma mesa, ao lado do auditório, no amplo mezanino da loja; eu passaria ali um mês, numa espécie de reality show.

Escreveria um livro naquela mesa e meu computador estaria conectado a outra tela, voltada para o lado contrário. Assim, as pessoas que circulavam pela loja poderiam ver o que eu estava escrevendo: um livro sendo escrito em tempo real.

Escrever é por definição um trabalho solitário; gostei da ideia não apenas por fazer algo diferente, como pelo fato de que o processo de trabalho poderia contribuir para o romance que eu vinha justamente imaginando.

Na época, eu andava sob o efeito da leitura de Kafka, e de uma frase, que acreditava ter lido em algum lugar, talvez Kierkegaarde, segundo a qual a felicidade depende da incerteza. Claro, imagine se todo mundo soubesse como irá morrer: a condição para ser feliz é não saber.

Tinha de ser um livro curto, de impacto, um desafio para mim, autor de livros de fôlego; com aquela estranheza, simplicidade e força dos livros de Kafka.


O tema da incerteza ganharia força pelo método: eu permitiria que as pessoas pudessem ler e interferir durante o trabalho, de maneira que eu mesmo não saberia qual rumo a história tomaria.

Quando me instalei na livraria, eu sabia apenas duas coisas: o título, provisório (“Ensaio sobre a incerteza”), e a frase inicial (“Você quer mesmo saber?”). O título cairia ao longo do trabalho, mas a primeira frase persistiu.

Eu começava 11 horas da manhã e encerrava o trabalho por volta das 18:00, num expediente normal de trabalho, incluindo sábados. A pessoas passavam, primeiro, desconfiadas; aos poucos ganhavam coragem e vinham falar comigo, para entender o que estava acontecendo.

No final da tarde, o resultado do trabalho era publicado em um blog, pelo qual os clientes da loja poderiam continuar acompanhando diariamente o andamento da história.

Com o tempo, as pessoas começaram a participar e colaborar de verdade. Vinha, sentavam na minha frente, faziam perguntas, davam sugestões e contavam experiências próprias.

Assim, fiquei sabendo que o nome que eu havia escolhido para a cigana não podia ser o que estava lá no início; troquei-o para Rosa, que, conforme fiquei sabendo, é um nome cigano.

Surgiram jornalistas para gravar entrevistas, fotografar e escrever sobre o evento; eles também liam o que eu escrevia, faziam a crítica e comentavam sobre o que mudava na história.

Lembro especialmente de uma mulher, que sentou à minha frente e contou longamente sua história. Tinha nascido numa cidade ribeirinha do Amazonas, uma vila de pescadores, distante da civilização. Certa vez, quando tinha nove aos de idade, ciganos passaram por ali; uma cigana velha a tinha visto, lera sua mão e dissera que ela ainda seria muito rica e viveria na capital.

Para quem habitava as barrancas do rio, na beira da floresta, aquilo parecia absurdo. Na adolescência, porém, ela visitou Manaus para realizar um sonho de criança: conhecer o teatro Amazonas. Lá, encantou um rico médico carioca com quem rapidamente se casou; foi morar no Rio, teve filhos e há quarenta anos eles formavam uma família feliz. “Eu acredito em ciganas”, ela me disse, antes de ir embora.

O curso da obra ganhou outra interferência importante, que mudou o rumo da história. Naquela época, o noticiário começava a repercutir as denúncias sobre o médico Roger Abdelmassih, dono de uma célebre clínica de fertilização em São Paulo, acusado de violar suas pacientes.

O assunto ficou por dias nas conversas dentro da livraria. Um médico inspirado em Abdelmassih (o doutor Perez, ou o “Monstro”, como as vítimas de Abdelmassih o chamavam) foi incorporado à história. O dr. Jekyll da época deu um novo elemento ao romance.

No mês que passei na livraria, conheci seus funcionários, que gostavam muito do que faziam; era bom conversar com eles sobre música, livros e arte em geral; passeei pelo shopping de carrinho de golfe com Papai Noel, de quem me tornei amigo. Vi Paolla Oliveira pelada, sozinho na sala de cinema, numa tarde em que uma tempestade de verão apagou a luz do bairro e não pude trabalhar – o Cidade Jardim tinha gerador e, além dos elevadores, o cinema era a única coisa que funcionava.

Encerrei o trabalho no dia 24, véspera de Natal, como planejara, deixando o livro incompleto – para escrever em casa o trecho final, que as pessoas só poderiam ler quando fosse publicado.
Eu estava satisfeito. E cansado: não é fácil obter a concentração necessária para escrever, com gente em volta interrompendo a toda hora, embora eu, como jornalista treinado a escrever em redações com mais de uma centena de pessoas, e romancista trabalhando em casa com filho pequeno, soubesse lidar com a perturbação razoavelmente bem.

O evento foi um sucesso: promoveu a nova loja e cheguei a ser convidado para repetir a proeza numa livraria em Lisboa, a convite do Sapo – o maior portal da internet em Portugal, que queria transmitir a redação do livro em tempo real com uma câmera “24 horas”. Agradeci, mas recusei: repetir o feito, ainda mais longe da família, por trinta dias, seria demais.

Como as surpresas do destino do qual trata, A Linha da Vida ficou parado no estágio em que encerrei o trabalho na livraria, por um longo tempo. Em novembro de 2009, quase ao mesmo tempo em que começava o meu reality show literário, recebi um convite para ser diretor editorial da Saraiva, então a maior rede de livrarias e uma das maiores editoras do Brasil.

Em janeiro, ao assumir o cargo, com a responsabilidade de desenvolver as publicações de ficção e não ficção da editora, me considerei impedido de publicar o romance: como editor não queria publicar meus próprios livros, porque pareceria conflito de interesses, ou causaria estranheza nos autores de quem eu deveria cuidar em primeiro lugar; em outras editoras, passava a ser considerado concorrente.

O livro permaneceu dormindo. Passou para trás na minha lista de prioridades, mais tarde, quando voltei à vida de autor, concentrado em novos projetos. A Vila acabou fechando sua maravilhosa loja no shopping, talvez por ser tão maravilhosa que fugia um pouco à realidade comercial, sobretudo nestes novos tempos.

Só agora, numa janela entre trabalhos, resolvi revisitar o texto e concluí-lo. Dei-lhe um final, até agora inédito. E decidi publicá-lo como e-book, de acordo com sua história, precursora dos atuais livros virtuais.

O texto se manteve fiel aos propósitos originais: o tema, o tamanho, a busca pelo impacto. Mudou um pouco, contudo, sua direção; criado ao sabor dos acontecimentos, ganhou mais foco quando percebi, afinal, por quê havia me interessado pelo tema e pela história.

Está concluído A Linha da Vida, um breve romance com uma longa história: resta agradecer a todos os que com ele colaboraram, incluindo o Destino.
Juncal, agosto de 2019

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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Como surgiu O Livro Proibido

Em 2003, quando levei O Homem Que Falava com Deus ao editor Pedro Paulo de Senna Madureira, ele disse que ninguém acreditava em livros de autores brasileiros sobre algo que não fosse o Brasil.

- Mas vou publicar mesmo assim - disse ele. - Porque é um livro seu.

Um mês após o lançamento, quando eu ainda fazia a noite de autógrafos, a primeira edição de O Homem que Falava com Deus - surpresa... - já estava esgotada.

Penso nesse episódio quase anedótico agora que lanço, tantos anos depois, um segundo livro que ronda o esoterismo: O Livro Proibido, série de episódios envolvendo um sábio proibido de falar e enterrado nas dunas da história.

Os tempos mudaram. Dessa vez, escolhi lançar o livro somente em versão digital, pelo Kindle da Amazon, como experimento. O sistema da Amazon permite vender o livro em qualquer lugar do mundo. Inclusive na forma impressa, pelo sistema on demand. Infelizmente, o Brasil é um dos poucos lugares onde isso ainda não funciona.

Velhas histórias ganham contemporaneidade, não apenas pela tecnologia, como pelos temas da obra, que me parecem tão atuais, num momento em que procuramos justamente uma luz em meio a um grandes caos político, religioso e cultural, potencializado pelas novas tecnologias.

Continuo gostando de temas esotéricos. Me aproximei deles ao ler, ainda adolescente, ao Sidarta de Herman Hesse, obra que influenciou não somente o que escrevo como o meu pensamento. Gosto da filosofia e da arte orientais. E de sua forma de encarar a natureza e a espiritualidade como uma coisa só.

Gosto do deserto do Sahara, onde estive três vezes, uma delas apenas para fazer a pesquisa para O Homem que Falava com Deus. Em especial, uma parte desse deserto, que chamam de El Rayan, a noroeste do Cairo.

Lá, as dunas são formadas por conchas, porque um dia toda aquela imensidão foi um fundo de mar. Tirei no El Rayan a foto que agora ilustra a capa de O Livro Proibido. Aquele lugar tem, de fato, algo de mágico.

A esses ingredientes, juntei também minha admiração por Borges, para quem histórias antigas serviam como fonte para uma erudição por vezes inventada, produto da mais pura e fina fantasia.

Nos labirintos de Borges, feitos de portas falsas, que parecem tão verdadeiras, ficção e realidade se confundem.

São estes mistérios que estimulam a mente e nos ajudam a encontrar respostas na vida real. Assim como O Homem que Falava com Deus, O Livro Proibido é um exercício de reflexão, tanto quanto um thriller ambientado num tempo milenar, e um jogo, um desafio, ou provocação.

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quarta-feira, 31 de julho de 2019

O que é o bom jornalismo?


Você acha que Glenn Greenwald faz jornalismo?
Essa pergunta, que está no centro das mais valiosas preocupações de hoje, para muitos difícil de responder, e para outros fácil demais, pode ser respondida com a leitura deste livrinho que escrevi.
Ele vem do que deveria ter sido o novo Manual de Redação e Estilo para a Editora Abril, encomendado pela empresa a mim, alguns anos atrás. Incluía não apenas normas de padronização de estilo dos textos de suas publicações como todas as recomendações que envolvem a produção de conteúdo de imprensa, especialmente os princípios éticos, a qualidade e a credibilidade da informação.
O manual entrou no canal labiríntico das grandes corporações e sua implantação acabou morrendo junto com o dono da Abril, Roberto Civita. Assim, aproveitei aquele conteúdo para fazer um livro um pouco mais amplo de orientação para jornalistas de todas as mídias e veículos, com base na nossa experiência em Veja, Exame e outras publicações de sucesso.
Agora que as fake news e os veículos tendenciosos se espalham na internet, acredito que a única forma de valorizar a boa imprensa é revisitar os seus princípios e valores.
Por isso, recomendo este livrinho, não apenas aos iniciantes, como a todos aqueles que estão por trás de alguma notícia, profissionais ou não, de modo a beber na fonte da única coisa capaz de tornar um veículo de imprensa ou mídia digital bem sucedido, sustentável e duradouro: o jornalismo profissional.


https://www.amazon.com.br/Escreva-Bem-Jornalismo-Thales-Guaracy-ebook/dp/B00HZROI4K

quinta-feira, 28 de março de 2019

Clarice e a vida depois da morte

Meu filho, de 12 anos, conta que acabou de ler, na escola, Clarice Lispector. Aqui e ali, encontro alguém que está lendo, vejam, Clarice Lispector. É clarice pra cpa, Clarice pra lá. E olha já faz tempo que saiu sua biografia.

É estranho que, só agora, o brasileiro reencontre Clarice Lispector. Ou, por  outro lado, não é nada estranho.

Clarice: o sucesso, tarde demais
Tradicionalmente, o brasileiro não dá muito valor a seus escritores. Com raras exceções, em geral aqueles pertencentes a algum grupo de solidariedade política, social ou artísticamente correto e chique, como o Chico Buarque.

(Outro dia, conversando com um amigo meu, grande poeta, eu disse: "Estou perdido, como autor. Não sou preto, nem gay, nem comunista". Ele me respondeu: "Você ainda pode ser judeu.")

Clarice não pertencia a corrente alguma. Como eu, era jornalista. Colocada do lado de fora nada, como imprensa, ou do lado de dentro, como autora, não estava ao lado de ninguém, exceto dela mesma.

Assim, construiu uma obra original, desconectada de movimentos ou correntes e, talvez por isso, de difícil aceitação no seu tempo. Fazia de tudo, romance, conto e poesia, mas não era bem poeta, nem contista, nem romancista.

Sua poesia se aproximava da prosa e a prosa da poesia. O conto era quase uma coleção de pensamentos. Por isso, defino seu estilo pessoal e único como uma "prosa filosófica", em que cada frase tem peso. É denso, conciso. Os textos tendem a não ser muito grandes e por vezes contam uma história de um jeito muito difuso.

Naquele tempo de Clarice, muitos achavam que era apenas algo ruim, ou incompleto, ficado no meio caminho de tudo: não chegava a ser boa prosa, não chegava a ser bom conto, não era boa poesia.

Clarice, como muitos escritores, morreu na miséria. E não viveu para desfrutar o tempo em que se tornou, talvez, mais compreendida. Para a maioria dos escritores brasileiros, o sucesso vem tarde demais.

É pena. Guimarães Rosa, o grande, por exemplo, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963 - morreu qutro anos depois, em 1967. Na festa em que recebeu seus galardões, reclamou ter sido indicado quando já era "quase uma vaga".

Especulo que o interesse atual por essa rainha da introspecção, assim como a ressurreição recente da poesia, venha da internet. Nas redes sociais, multiplicaram-se os textos curtos, irônicos ou filosóficos, acompanhados de alguma imagem. Algo perfeito como veículo para as frases de Clarice, que são como haicais.

Entendo e aceito que, infelizmente, a obra sobrevive a um autor (certa vez, ao lhe perguntarem se queria eternizar-se por sua obra, Woddy Allen respondeu que preferia se eternizar "não morrendo").

Acho um pouco pena que a maioria dos autores brasileiros deixem de ser reconhecidos em vida. E que, sem vender livros como poderiam, muitos vivam de galho em galho, sobrevivendo duramente para fazer sua arte.

Aceito a vida como ela é. Eu mesmo sempre disse que tenho de trabalhar pouco e ganhar muito, para poder trabalhar muito e ganhar pouco (escrevendo romances).

É blague, claro. Na realidade eu trabalho muito, e duas vezes: para ganhar dinheiro e para continuar escrevendo.

É o que eu faço e pretendo continuar a fazer, sem reclamar. E, aos que me conhecem e os que não me conhecem, quero dizer que não me esquecerei de morrer.








Escritor não é profissão

Por vezes, me identificam assim, numa entrevista: "o escritor Thales Guaracy..." Ou me perguntam como é "ser um escritor".

Pode parecer estranho, mas isso para mim não tem sentido. Nunca escrevi na ficha de hotel, onde se coloca a profissão: "escritor". Nunca me referi assim, nunca disso isso, a ninguém.

Escrever não é nada. Pelo menos, em si. Escrever, para mim, são as ideias. Escrever é pensar. O resto é datilografia.

Não me defino, portanto, como escritor. Sou jornalista profissional, formado na USP. Sou cientista social, formado também na USP. Na ficha, escrevo: "jornalista", para facilitar, já quem não tem muita gente que sabe o que é um cientista social. E só.

Você pode ser um engenheiro e escrever um livro. Isso não é ser escritor, é ser engenheiro. O mesmo se passa com um médico, um advogado. Eu escrevo também romance. Para mim, nem o romancista é escritor. É um... Romancista.

Como jornalista, cientista social, e também romancista, coisas que parecem tão diferentes, eu na realidade sou uma coisa só: um pensador. E, por saber como os romanos que a palavra voa, a escrita fica, ("verba volant, script manent"), escrevo.

Escrever é a consequência do que somos, do que fazemos, e não um propósito, um fim em si. O que importa é levar adiante as ideias. E melhorar alguma coisa do mundo, quando podemos, um pouquinho.

domingo, 17 de março de 2019

Um charuto no Hof

Quando fui editor de livros, eu tinha de frequentar regularmente a Feira de Frankfurt, uma cidade meio sem charme da Alemanha, mas que tem um dos meus lugares favoritos no mundo: o bar do Steigenberger Frankfurter Hof. Ou, simplesmente o Hof - mais célebre hotel da cidade, reduto histórico onde se encontram jornalistas, editores e autores, todas as vezes que o circo do mercado livreiro faz sua parada na cidade.

No hotel tradicional, marcam-se encontros, alguns de trabalho, outros para conhecer pessoas e rever amigos. Por duas ou três noites, durante o período da feira, o hotel se ilumina não apenas com os velhos candelabros como o burburinho das discussões de negócios no salão principal, tão cheio de histórias que envolvem a própria história do livro.

Da primeira vez que fui, lembro de ficar ombro a ombro com uma jovem italiana que pedia no bar do jardim uma garrafa de água, enquanto eu tomava nas mãos uma flute de champanhe.

- Mas você só bebe água? - perguntei.

- Não - ela disse, com um sorriso. - Mas é melhor assim, porque tenho de estar sóbria, amanhã tenho um compromisso de trabalho com um editor logo cedo.

Qual não foi nossa surpresa, e diversão, quando no dia seguinte, pela manhã cedo, ao aparecer no salão dos agentes literários para a primeira da série de reuniões do dia, descobri que o encontro dela era... Comigo. Foi assim que conheci Giulia Mignani, que na época trabalhava na agência inglesa Numberg e depois se tornou editora em Milão, na Mondadori.

O bar do Hof: ilha na intolerância 
No Salão do Hof, comemorei junto com as moças da agência Balcells o Nobel concedido naquela mesma noite ao escritor peruano Mario Vargas Llosa. Uma noite especial também para mim.

Eu tinha acabado de entrar na editora, sabia que estava perdendo Llosa como autor para outra editora, com o vencimento de antigos contratos, que soubera desde a minha chegada que não seriam renovados. Naquela noite, graças a uma boa lábia, à champanhe e o entusiasmo das agentes, consegui manter algumas obras de Llosa na Saraiva-Benvirá, agora impulsionado pelo Nobel, por algum tempo mais.

O que eu mais gostava no Hof, porém, era de chegar cedo, nas horas de silêncio. lha no mar da intolerância na qual se podia fumar charutos à vontade, no bar do Hof sempre reina um silêncio reverencial. Lá, num poltrona de couro, reflexivamente, eu me sentia muito mais à vontade que em meio à alacridade dos encontros sociais.

Fiquei amigo dos garçons e gostava de passar ali um tempo, antes que o salão se enchesse de gente, pelo simples prazer de estar ali. E por me juntar a todas as almas que lá conviveram e fizeram da literatura não apenas o grande reino exploratório da alma humana como um lucrativo negócio.

Assim, distribuía minhas vitoriosas baforadas, satisfeito de deixar também nele lugar, como volutas que vão se tornando invisíveis, um pouco de mim.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Nascido no ano do dragão

Hoje completo 55 anos. Por isso, vou deixar aqui um trecho de um livro de memórias, que está quase pronto, e quero publicar um dia desses. Fala da era de onde eu vim. Fica pra vocês como aperitivo - e para sentir o que significam 55 anos.


"Certa vez, ao trazer minha mãe de volta para casa, depois de uma sessão de quimioterapia no Hospital do Câncer, uma das últimas que ela fez, o caminho nos levou a passar na Rua dos Estudantes. O lugar onde nasci, no final da ladeira onde a Estudantes entra no chamado Baixo Glicério.

- Nosso primeiro apartamento foi aqui, de frente para a rua, no terceiro andar – disse mamãe, apontando.

Eu já sabia - e lembrava. Nosso edifício continuava lá, o mesmo bloco de cimento áspero e cinzento. A porta central dava para o longo corredor interno; do lado direito ficava a entrada da garagem descoberta e, à esquerda, outra porta basculante, onde no passado funcionara um bar, estava fechada. Era um cortiço, não sei há quanto tempo. Ao lado, um imóvel derrubado dera lugar a um beco onde se amontoavam barracos de plástico preto. Gente sinistra espreitava.

Bem que eu gostaria de bater à porta e pedir para olhar lá dentro, mas dava medo descer do carro. Passei reto. A casa onde morei já não estava lá, e sim na minha memória. Tentei avaliar se aquele lugar já era assim ruim ou decaíra com o tempo. Certamente piorara; porém, creio que nunca tinha sido bom. Nem a casa, nem os tempos.

Pelo horóscopo chinês, todos os nascidos no ano de 1964 pertencem ao signo do dragão. Diz o horóscopo chinês que o Dragão é generoso, inteligente e tenaz. Pode alcançar a riqueza, mas não é por ela que trabalha. Gosta da liderança e do poder. Precisa, no entanto, de flexibilidade, tolerância e compaixão. Não sei. Sei que aquele foi mesmo um tempo de soltar fogo pelas ventas.

Em 1964, a Liberdade era região dos “inferninhos” – lugares mal-afamados com dançarinas que faziam programa e nem por isso impediam que logo ali se instalassem algumas famílias como a nossa. As boates de prostituição faziam à noite um barulho distante que me intrigava. 

Com quatro ou cinco anos de idade, perguntei ao zelador, com a candura e a curiosidade das crianças, por que lhe faltava um pedaço do dedo anular direito. Ele me respondeu que trabalhava de guarda numa boate ali perto; certa madrugada, dera um tiro com uma pistola automática e, quando ela cuspira a cápsula da bala, arrancara-lhe aquele terço.

Eu o achava simpático e, ao mesmo tempo, um tanto sinistro. Mantinha sempre fechado o fosso central do edifício, ao qual se tinha acesso por uma porta no longo corredor, como um alçapão na parede. Mais tarde, descobri que ali ele criava patos. Poucas vezes vi a porta aberta: um quadrilátero coberto de guano, com um cheiro repugnante, onde patos velhos e sujos grasnavam e espadanavam aos montes; um lugar onde o sol nunca chegava e pelo qual eu passava rápido, mesmo de porta fechada. Eu não entendia o que faziam ali aquelas aves; ou melhor, intuía que se tratava de um matadouro; foi esse contato que me deu uma primeira e lúgubre noção da morte.

Tornou-se célebre em casa o pato com cerveja preparado pela mãe com uma das crias do zelador, que para sua infelicidade permaneceu no prato, depois da careta dos comensais. Lembro de mexer co arroz amarelo longamente com o garfo; a expressão interrogativa de minha mãe, que foi virando zanga, depois fúria; rejeitar sua comida era rejeitar o seu amor, e isso a deixava tão possessa quanto se deliciava com os cumprimentos de qualquer almoço do qual saía com os costumeiros elogios.

Como em outras ruas do centro, na Estudantes o submundo dos proxenetas e outros marginais convivia com a “gentinha”: aqueles seres anônimos que viviam de pouco. Eram funcionários de pequenos armarinhos, bares, pensões, lojas de artigos baratos. Homens gastos pela desesperança e mulheres mestiças de exuberância e pobreza, aquela beleza suburbana ao mesmo tempo sensual e melancólica que exercia em mim ao mesmo tempo repulsa e atração.

Sem horizontes, viviam a beber (os homens) ou a falar da vida dos outros (homens e mulheres), o que aos poucos transferiu a expressão “gentinha” para a identifição dos fofoqueiros e maledicentes. Além deles, havia toda a marginália de bêbados, mendigos e vagabundos que faziam da rua uma zona proibida, como se eu estivesse numa ilha cercada de águas cheias de tubarões.

Ali meus pais podiam pagar o aluguel de um imóvel maior que a quitinete de seus primeiros meses de casamento. Nosso apartamento tinha dois quartos, era próximo da praça da Sé e do trabalho de meu pai - a Gepesa ficava na Rua Líbero Badaró. A prefeitura acabara de retirar os bondes da cidade e havia um cemitério deles num terreno baldio ao lado do viaduto que saltava a via férrea na entrada da avenida Rio Branco. Os trilhos do bonde ainda estavam colados ao asfalto e as ruas do centro cobriam-se pelos fios das linhas de trólebus, os ônibus elétricos que eram o principal sinal de modernidade do transporte público.

São Paulo ainda possuía algo da elegância de seus tempos áureos. Não havia shopping centers. O comércio era na rua, especialmente no centro da cidade, onde ficavam os dois grandes magazines - o Mappin e a Mesbla. Os homens andavam de gravatas finas e ousavam abandonar o chapéu. Para as mulheres, havia blusas de gola rulê, saias ou calças justas e curtas, que deixavam de fora a canela. O cabelo era armado com altas doses de laquê.

Mesmo quem era pobre, naquele tempo, se vestia melhor que os ricos de hoje. Vejo as fotografias de minha mãe e suas irmãs em casa de meus avós, ou em lugares como Campos do Jordão, e penso que aquela foi a última era da elegância. O consumo de massa ainda não destruíra a roupa de alfaiataria, nem espalhara o jeans para o uso comum, assim como a camiseta. Naquele tempo, usava-se ainda roupa social no dia a dia. E as pessoas se vestiam de forma diferente umas das outras.

O jeans, conhecido ainda como “calça rancheira”, apenas aparecia. Quando eu era pequeno, meu pai tinha só uma, guardada no fundo do armário, por seu pouco uso. Era grossa, dura e desconfortável. Criado pelos mineradores para o trabalho árduo nas minas nos Estados Unidos, o jeans era feito de índigo, uma lona grossa para ser utilizada no campo ou operários no serviço braçal. A disseminação do seu uso coincidiu com o início da democratização da roupa e da sua transformação em artigo rapidamente descartável, segundo os interesses da indústria de massa.

Embora meu pai não tivesse dinheiro, jamais deixou de lado um certo comportamento aristocrático, enraizado na família desde um tempo em que meus bisavós possuíam fazendas cheias de escravos na região de Piracaia, perto da divisa com São Paulo. Meu avô, que fugira de casa na juventude, depois de brigar com a madrasta, e vivera vida aventureira, tivera sido destituído da herança por um irmão trapaceiro. Porém, jamais se queixara de sua condição, do irmão, do dinheiro – de nada. Papai fazia o mesmo.

Uma vez casado e obrigado a virar-se por conta própria, ele tinha de viver no meio da ”gentinha”, mas era diferente dos outros – ele, sim, tinha perspectivas de sair dali. Educado graças ao gosto pela leitura, herdado de vovô, mesmo depois do golpe de 1964, que mudara sua carreira de maneira abrupta, acreditava prosperar no jornalismo. Mesmo não sendo tão culta quanto ele, mamãe estava ligada à educação pelo trabalho como professora. Além de interesses e ideais em comum, ela tinha a energia, o espírito de iniciativa e calor para ajudar e impulsionar o marido.

Era um casal admirável; eles estavam próximos pelo amor, pelo objetivo em comum da família e por características que, mesmo onde havia diferenças, se completavam na direção do bem comum. E talvez seja assim com todos os casais; uns administram a vida a partir da união inicial para convergir ainda mais ao longo do tempo, outros divergem até que a distância entre ambos fica tão grande que torna a separação inevitável.

Eles se casaram para sempre, num tempo em que “para sempre” começava a ser muito relativo – eles apenas não sabiam disso, ainda. Além das mudanças da tecnologia e da política, aqueles anos turbulentos da década da 1960 marcaram também o início de uma profunda mudança de comportamento e mentalidade. A geração de meus pais foi a primeira a colocar a felicidade como um bem sem barreiras, fossem religiosas e psicossociais. E como um bem eminentemente individual, acima, portanto, da família antes sagrada.

A manutenção do casamento deixou de ser tão importante; nessa geração, foi aprovado primeiro o desquite, depois o divórcio. A separação se tornou comum e este foi um passo decisivo para a criação da era de independência e individualismo que chegou ao auge nos anos 2000. Um modelo que, todavia, criava também seus próprios problemas, como o anterior.

As mudanças de comportamento tinham forte influência nas artes, muito rica naquele período. Os Beatles, banda inglesa que deu início ao fenômeno de massa em escala mundial, começou sua carreira usando gravata e terno preto; terminou de cabeleira e roupas largas que indicavam a liberdade de criação, pensamento e conduta. O estilo que se tornou conhecido como “bicho-grilo”, teve seu auge depois do festival de música de Woodstock, em 1968 e inaugurou o que se passou a chamar de “contracultura”.

A gíria da época se tornou muito característica; por conta da Jovem Guarda, que imitava no Brasil os Betles dos primeiros tempos, com suas músicas meio inocentes de juventude, ficaram famosos os bordões como “mora”, ou “morou?” (entendeu?). Vinha de “é uma brasa, mora”, frase criada por um jovem talento que encantava as multidões: Roberto Carlos. Tudo o que causava espanto vinha acompanhado da expressão “putz”, de “putz grila”. 

A influência das artes no comportamento e vice-versa em escala mundial apenas começava. Ainda havia pouco contato cultural com a Europa e os Estados Unidos. A TV incipiente tinha programação local e eram privilegiados os que tinham a oportunidade de conhecer o exterior – os aviões transcontinentais eram poucos, caros e demorados.

Esse relativo isolamento mantinha o Brasil com uma cultura autóctone, muito mais presente na vida dos brasileiros. Esta refletia apenas de longe a influência estrangeira que viria quase a substituí-la mais tarde, com o acesso imediato à informação e a criação do mercado global. A produção cultural brasileira era forte, predominante e rica. A década de 1960 foi uma fase áurea das artes brasileiras, com o maior encontro de gênios criativos numa única época, rebento de um longo período de desenvolvimento, liberdade e elegante despreocupação vindo desde os anos 1950.

Na arquitetura, havia Oscar Niemeyer, que acabara de desenhar Brasília; no paisagismo, Burle Marx. Grandes mestres das artes plásticas, como Di Cavalcanti, Portinari e Aldemir Martins, buscavam no retrato do povo a reafirmação da identidade nacional. Não eram assinaturas em museus, mas artistas vivos, trabalhando, sob a influência do mundo ao seu redor. Na literatura, conviviam Jorge Amado, Graciliano Ramos, Antonio Callado.

A década de 1960 foi também palco de grandes compositores, tanto da geração anterior quanto a mais jovem, todos em sintonia com os acontecimentos políticos e sociais que fariam a arte se alinhar com as bandeiras da democracia e da liberdade. Essa tendência cresceria depois do golpe militar de 1964, flor em meio aos espinhos, bandeira de poesia e liberdade em tempos de brutalidade, espada de idealismo para enfrentar os desafios sociais de um país que não aceitava mais o subdesenvolvimento, uma expressão que caracterizava a visão do Brasil sobre si mesmo nesse período.

O país ainda veria coisa pior, quando as metrópoles se transformariam em bolsões de pobreza e violência muito maiores, mas naquele tempo ainda havia a esperança de melhorar. Ninguém imaginava que levaríamos trinta anos para ter de volta a democracia plena, nem que a ditadura, apesar de uma série de realizações, como grandes obras de infra-estrutura a um custo bastante alto, teria de nos levar primeiro ao caos econômico e social para ruir.

O artista falava de amor e da vida simples, mas erguia bandeiras de um mundo melhor. O Brasil era romântico, tanto nas músicas sobre a saudade e o amor como no sonho de mudar o país e o mundo, alimentado por muitas bandeiras que se mostrariam também ilusórias, como a do comunismo.

Naquele tempo, quando a cultura de massa ainda não nivelara a qualidade por baixo, as canções depuradas, com letras inteligentes, eram também a canção popular. Nesse ambiente, meus pais vibravam com as vozes de João Gilberto, Maysa, Elis Regina, Jair Rodrigues, Wilson Simonal. Viviam ao ritmo das canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Assistiam à progressiva influência do rock, com a cara de uma juventude livre e despreocupada, incorporada pela Jovem Guarda, de onde se lançou Roberto Carlos. E o despontar de talentos ao mesmo tempo populares e intelectualizados como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Podia-se ver agora esses astros refinados em shows multiplicados pela TV cada vez mais acessível e levá-los para casa em discos de vinil, cultura viva que integrava o público na nova tecnologia das vitrolas de “alta rotação”. Os sucessos das rádios eram lançados imediatamente nos “compactos” – discos de vinil pequenos, que os americanos chamavam de “singles”, contendo apenas aquela música, mais outra no verso.

(Colocar a música na vitrola era uma delícia; a ponta do dedo levava a agulha até a faixa a ser ouvida, aquele barulho da agulha pousando no vinil, iííííí, e então a mágica, produto da sensibilidade e inteligência, música para a cabeça, o coração e a alma.)

O artista contra a supressão da liberdade e política mostrava como a luta contra a ditadura não era apenas uma questão política, da esquerda contra a direita, mas do iluminismo contra o obscurantismo, da alegria contra a sombra, da paz contra a opressão.

As cidades acompanhavam as mudanças sociais; o Brasil rural se transformava num país urbano, com uma indústria ascendente e moderna, especialmente a automobilística. O caos das metrópoles, o tráfego intenso, a violência exacerbada e o crime organizado ainda não eram sequer uma hipótese. Crimes de morte chamavam a atenção pela raridade e a brutalidade, sem perder-se na névoa da indiferença, capaz de cobrir tudo o que se torna rotineiro; o início do processo de banalização do absurdo, porém, estava ali.

Eu pouco sabia ainda da vida lá fora; não tinha consciência do que viria, nem mesmo de onde estava. Cresci naquele tempo de mudança, em meio a uma pobreza da qual nunca tive exata consciência, talvez até hoje, nem das dificuldades pelas quais meus pais passavam. Como eles, eu acreditaria sempre numa vida melhor, não com base em previsões, econômicas, mas simplesmente porque vim daquele tempo em que as pessoas viviam sobretudo de sonho."


sexta-feira, 8 de março de 2019

Chegaram!

Que satisfação receber pelo correio meus livros recém lançados em Portugal.


O futuro para autores e editores


Uma nova perspectiva para o mercado do livro na era digital

Confesso, eu me tornei editor de livros por acaso. Quando entrei na Saraiva, foi para escrever um livro – e não editar livro. Por mais improvável ainda que pareça, a encomenda era um livro destinado a um único leitor: o filho do doutor Ruy Mendes Gonçalves, sócio da Saraiva.

Uma criança que ainda estava por nascer. E que ele, com uma doença em estado avançado, sabia que não poderia educar. “Preciso que você escreva um livro contando a minha história ao Ruyzito”, disse. “Porque eu mesmo não poderei contar.”

Como recusar?

Em seis meses de trabalho, escrevi com Ruy O Serelepe, que já foi lido por bastante gente, e um dia o será pelo Ruyzito.

Eu e Ruy nos tornamos amigos e dividimos ideias e projetos. Naquele tempo, Ruy planejava expandir a área de varejo da editora Saraiva. E prepará-la para o futuro, com o prenúncio do fortalecimento do livro digital, supostamente capaz de quebrar muitas editoras e livrarias.

Sabendo do meu passado como executivo e editor de revistas, e querendo que eu continuasse por perto, me convidou para tocar a área de ficção e não-ficção da editora, com metas ambiciosas.

Fiquei na Saraiva três anos, dois além do que pude dividir com Ruy, com quem tive bons momentos, até seu falecimento. Aprendi muito, com ele, com agentes e livreiros, com acesso a todos os aspectos do negócio.

Fizemos também muito. Na Saraiva, criamos um selo (Benvirá), promovemos um prêmio literário recordista de inscrições, ganhamos Jabuti de literatura e outros prêmios, colocamos a Saraiva pela primeira vez na Flip com vários autores e multiplicamos o faturamento por cinco, em três anos de trabalho, com o lançamento de mais de uma centena de títulos.

Missão e todas as promessas ao Ruy cumpridas, achei que podia sair, para voltar apenas a escrever.

No fim das contas, ele estava certo: a crise veio. A Saraiva vendeu sua editora, que era lucrativa, para sanear a livraria, que nunca melhorou. O modelo de megastores, que antes dera lucros, se tornou pesado demais, num tempo em que todo o varejo é desafiado a trabalhar junto com o meio digital.

Passei um período de clausura, apenas escrevendo, para retornar ao mercado novamente como autor. Lancei pela editora Planeta A Conquista do Brasil e A Criação do Brasil, reportagens históricas sobre a colonização brasileira e a formação do DNA nacional. E um romance, Anita, sobre Anita Garibaldi, pela editora Record.

Agora sou um autor privilegiado, por conhecer mais gente e outros aspectos do negócio editorial. Volto a conversar com os compradores das livrarias e vejo um mercado dentro de um impasse ainda maior do que o existente no momento em que saí do meu posto como editor.

Enquanto as vendas do livro digital ainda parecem pequenas, insuficientes para se apostar nisso como negócio, as margens e as vendas do livro impresso andam cada vez menores. As grandes redes de livrarias - incluindo a Cultura, além da Saraiva - estão virtualmente falidas. As editoras não dedicam tempo ao mercado digital, porque este não paga as contas. E torcem para que as coisas voltem a ser como eram.

Isso não vai acontecer. O processo é irreversível, mesmo no livro didático. A perspectiva de o governo converter os milhões de livros que adquire do mercado em material virtual, num futuro próximo, é como uma espada sobre a cabeça de todos os grandes editores.

No varejo, algumas editoras optaram por se juntar e fazer volume com um imenso catálogo, mas nem isso parece garantir sua sobrevivência: seu futuro das editoras não depende apenas a escala de vendas, como também da mudança do próprio modelo do negócio.

As livrarias que não quebraram, atendo-se a vender livros em vez de produtos eletrônicos ou outros fora do foco, têm uma oportunidade de crescer no vácuo de quem está devendo dinheiro na praça. Porém, todos se perguntam como será o futuro – e como continuar.

Uma das ideias que procurei aplicar como editor é a de que é preciso explorar as possibilidades do presente, sem perder a passagem para o futuro. Por experiência própria, sei que é difícil nas grandes empresas rever processos de trabalho e toda a lógica do negócio, quando se tem contas imediatas a pagar.

É isso o que acontece com o mundo do livro. É mais fácil começar um negócio do zero, do que mudar o rumo de uma grande editora. Por isso, assim que me vi com liberdade para isto, resolvi aplicar um pouco das ideias que tive a meu favor.

Quando deixei a Saraiva, abri para mim mesmo um selo de livros digitais, onde coloquei meus títulos de backlist – livros cujos contratos com as editoras foram vencendo e cujos direitos guardei para mim mesmo.

Hoje, é preciso levar mais a sério a autopublicação. Não só para manter ativos títulos que já estavam fora de catálogo. Já é algo a se considerar para a venda de livros novos. Sobretudo digitais e em papel, sob demanda.

Esse sistema diminui o risco da editora e permite a formação do catálogo. A editoras têm procurado gastar pouco. Há editoras independentes que hoje só produzem o livro impresso se tiverem um grupo de leitores que já pagaram antecipadamente pelo livro. Há pelo menos um caso, a TAG, que inventou um clube do livro, pelo qual se paga mensalmente e se recebe um livro-surpresa. Não é um grande negócio. Porem, todos os negócios, no futuro, parecem ser afixados a algum nicho.

Muitas surpresas hoje estão surgindo da internet. Como editor, alguns dos livros em que eu mais apostava não vingaram da forma esperada. Outros, em que acreditava menos, foram sucesso. A internet oferece um grande espaço para testar o que funciona melhor e conectar-se com redes ou comunidades de leitores.

Por melhores que sejam, editores não têm bola de cristal. A realidade é que o público leitor decide o que vai ler. Isos vale tanto para o grande hit como para a cauda longa – o conjunto de títulos que individualmente vendem pouco, porque atendem a interesses muito individuais, mas na soma geral representam um volume de vendas muito maior.

Gastar pouco e apostar mesmo nos livros que venderão pouco, mas venderão - essa é a razão pela qual acredito que há mais chance de sobrevivência no futuro de uma editora independente do que nas tradicionais.  

Estou absolutamente convencido que no futuro não fará sentido manter estoque e mandar um livro para Manaus, ao preço de 40 reais, quando o leitor poderá tê-lo com apenas um clique, pagando 9,90 no formato digital. Não serão os leitores que irão decidir por esse novo modelo: será a própria indústria. Assim que as vendas não estiverem mais compensando seus pesados custos atuais, as empresas terão de mudar.

Imagino que em alguns anos o mercado de livros será um misto de editoras capazes de fazer obras que um único autor não poderá produzir, disputando espaço com autores independentes ou lançados por editoras digitais.

Haverá autores que agirão cada vez mais como editores, e editores que terão de ser cada vez mais autores. Para isso, terão de investir em conteúdo próprio, ou conteúdo de terceiros num novo modelo, que dispensará extensas, cansativas, caras e cíclicas renovações de contrato.

Cada um pode ver o futuro como quiser, claro. Essa é apenas a minha impressão. De uma coisa, porém, ninguém pode duvidar: esperar que nada vá mudar, sem fazer nada, é a melhor maneira de ver o bonde passar.