quarta-feira, 18 de maio de 2022

Entrevistas (quase) impossíveis

 Eu colecionei, na minha carreira de jornalista, alguma entrevistas consideradas impossíveis. Lembrei agora de algumas, porque há pouco me telefonou um jornalista,  querendo que eu contasse a história de como entrevistei o banqueiro José Safra, quando ninguém sabia quem ou como ele era, nem por fotografia.

Essa história,  pelo jeito, vai parar numa biografia de Safra, com quem almocei  sozinho, numa mesa para 50 pessoas, mas vazia, tendo ele à minha frente e ao lado apenas um mordomo de luvas brancas.

Não será a primeira vez que sai publicado um livro em que o autor se apoia no que escrevi, como entrevistador de um personagem complicado. Há algum tempo saíram duas biografias de Geraldo Vandré, quando completou 80 anos, citando uma reportagem que escrevi sobre no final dos anos 1990, mas tão rara que ainda é referência sobre ele. Tive vários encontros com Vandré, uma história surrealista, que começou depois de um mês em que eu passava bilhetes por baixo da porta da casa dele, diariamente, pois ele não tinha nem usava telefone.

Há outros casos. Fui o primeiro de dois ou três jornalistas que já entrevistaram Edir Macedo - e numa época em que ele não falava com ninguém mesmo, após ser preso. Falei com Eike Batista, quando ele ainda não dava entrevistas. E me recebeu com uma pistola em cima da mesa de trabalho.

Essas histórias estão num livro, já meio antigo e pouco conhecido: Eles me disseram, publicado pela Saraiva. Encontra-se na Amazon e algumas livrarias na seção de "linguística", sabe-se lá a razão. Acho que é para se torne tão difícil de encontrar como os personagens que me deram um trabalhão.

#thalesguaracy #jornalismo #reportagem #josesafra #edirmacedo #eikebatista #imprensa

terça-feira, 17 de maio de 2022

No Brasil (quase) intocado

Navegamos pelo rio Negro, a partir do ponto onde ele encontra o Solimões, onde nasceu a cidade de Manaus - local importante na história do Brasil e de grandes aventuras, narradas em A Criação do Brasil (1600-1700). 

Aqui passou Orellana, na primeira expedição que, vinda da América Espanhola, alcançou a foz do Amazonas, jornada entre as mais extraordinárias da história da humanidade.

Caminho feito duas vezes pelo bandeirante Pedro Teixeira, com cerca de 2 mil pessoas, que subiram o rio de Belém até Quito, no Equador, num tempo em que portugueses eram perseguidos pela inquisição nas cidades de colonização espanhola. 

Expulso de volta para o Brasil, fez todo o caminho de volta vigiado por dois padres. E deixou por aqui um marco de pedra, encontrado, anos mais tarde, na célebre e quase esquecida expedição de Raposo Tavares, que definiria  o tamanho do território brasileiro atual.

Esta era uma terra infestada de perigos, incluindo os temíveis omáguas, índios antropófagos, com a cabeça quadrada, formatada em uma caixa de madeira quando crianças, que deixaram poucos traços. 

A beira do Amazonas era então povoada de índios, muitos deles hostis, e dizia-se do Negro, um rio de pouca vida, animal e fluvial, que escondia grandes tesouros, possivelmente o Eldorado.

Para mim a experiência foi um tesouro, e os amigos que dela partilharam sabem.

@raphaelmontes
@aliceruizs
#acriacaodobrasil

quarta-feira, 11 de maio de 2022

A "geração da liberdade"


Já chegou às livrarias Asas Sobre Nós, meu novo livro, uma surpresa até para mim. Um grande poema e não, como esperariam talvez alguns leitores, um livro de história, ou um romance, ou mesmo memórias. Ficou sendo poesia, embora, ou talvez por essa razão, seja também tudo isso que eu faço – história, romance, memórias, reportagem.


Faz algum tempo, eu tinha esse projeto de livro, com o qual não estava sabendo lidar. Queria contar a história do nosso tempo, da minha geração, que chamo, no livro, de “geração da liberdade” - claro que do meu ponto de vista, o de quem, como tantos, viveu e participou da história recente.

Tentei escrever o livro como história. Achava tudo repisado. Tentei como memórias. Não gostei, achei presunçoso. Pensei em romance. Não saía.

É difícil ser o editor de si mesmo, então procurei uma opinião que eu mesmo, autor e editor, respeito. Já tinha levado a Pedro Paulo Sena Madureira, meu primeiro editor, outro livro, em que sofri com a mesma dificuldade, e que escrevi duas vezes, uma como prosa, outra como poesia.

Ele gostou muito do livro em prosa – mas, na forma de poesia, ficou maravilhado. Dali em diante, passou a me tratar definitivamente como se eu fosse um dos nossos monstros literários, muitos dos quais editou e de quem se tornou amigo íntimo, como Clarice Lispector.

Fez comigo o mesmo trabalho de edição que realizou com poetas como Adélia Prado. Examinamos o poema, que é um livro inteiro, frase por frase. Para mim, um assombroso privilégio. “Você é meu”, disse-me ele, ao final. Ele ainda é um editor – e possessivo com as pérolas que acredita ter achado.

Desde essa experiência, não consegui escrever mais nada sem ser dessa forma. Assim nasceu também Asas sobre nós, que passou o primeiro livro na ordem de publicação, por ser talvez mais urgente, tendo sido escrito sob o signo da pandemia. Deixou em Pedro Paulo a mesma impressão que o anterior.

É meu livro mais genuíno,  mais pessoal. Uma história afetiva, feita não de fatos, mas de amor, sonhos e realizações, certezas e perplexidades, minhas e nossas. Como eu queria, retrato da nossa época que só quem a viveu poderia fazer.

#asassobrenos
@assiriobr
#poesia
#poesiabrasileira

Uma história do "espírito do nosso tempo"


“Você é um escritor”, disse Pedro Paulo Sena Madureira, o Oráculo da rua Sergipe, meu primeiro – e sempre – editor, depois de ler Asas sobre nós. “Um escritor no sentido genuíno da palavra, pois uns são romancistas, outros poetas, ou ensaístas, ou prosadores de não ficção. Mas você, como Fernando Pessoa e alguns poucos, trafegam por todos os gêneros, e belamente.”

 

Conto isto não por imodéstia ou vaidade, e sim, na realidade, para explicar uma dificuldade, que me levou a escrever Asas Sobre Nós da forma como é. E não, como esperariam talvez alguns leitores, um livro de história, ou um romance, ou mesmo de memórias. Ficou sendo um livro de poesia, embora, ou talvez por essa razão, seja tudo isso – história, romance, memórias, reportagem.


É muito pessoal, mas narra a saga de todos nós, ou pelo menos de quem, como eu, viveu desde o fim da ditadura militar, passou pela democratização, por fascinantes e fundamentais mudanças no Brasil e no mundo. Reflete quem chega à maturidade, hoje, talvez um tanto perplexo, colocando na balança nossas realizações. A vida e a contribuição para a história da “geração da liberdade”.

 

Ah, sim, Asas sobre nós é também uma história de amor, que se confunde com a energia e o sonho da juventude e vai amadurecendo, como nós e o mundo. Vida pessoal e coletiva assim vão se misturando, sem que saibamos ao certo qual influencia mais a outra.


Este livro estava indo para a editora Record, onde publiquei meu último romance, mas aconteceu no meio do caminho a oportunidade de lançar no Brasil a Assírio & Alvim, maior editora de poesia em Portugal, casa dos grandes poetas portugueses, de Camões a Pessoa, vindo aos contemporâneos. Assim, Asas sobre nós acabou virando a primeira obra de um brasileiro na Assírio & Alvim - e no Brasil. E a única da qual não sou o editor, e sim, na prática, o Pedro Paulo.

 

Hoje posso dizer que de fato eu não saberia escrever este livro de outra forma. Graças às minhas conversas com Pedro Paulo, entendi que agora essa é minha linguagem, e tudo o que passei a fazer dessa maneira, desde então, flui caudalosamente.


A poesia já deixou de ser algo que sempre fiz para mim mesmo, como um exercício, ou uma prece. um momento íntimo, quase que diário. Agora, está indo para a rua. E o julgamento que mais interessa, sempre, é do leitor.

 

Asas sobre nós é, portanto, o que eu chamo de um poema geracional. É um livro ambicioso, como todos os que faço, e não deixa de ser um livro de história, mas, desta vez, como digo na obra, é uma história não de fatos, mas do “espírito dos tempos” – nossos sonhos, nossos desejos, aspirações, e o que disso fizemos.

 

A história que, no fim das contas, mais importa a todos nós, e agora permaneceu, olha aí a poesia, quase sem voz.