sábado, 27 de fevereiro de 2021

Conto: um quarto de hotel em Paris


A longa escadaria em espiral, até o último andar, uma só porta e o quarto. Ocupava, inteiro, um grande sótão: a cama de casal num mezanino baixo, uma cozinha com um balcão, uma sala de estar com uma escrivaninha de trabalho; à esquerda, a passagem para o segundo quarto, amplo, com uma banheira ao centro; a cama de madeira escura, diante da grande lareira de granito branco.

Teresa achou graça na porta de masmorra, baixa e pesada, que dava acesso ao banheiro, de teto inclinado pela meia água. Passeou os olhos pelos móveis antigos: o baú do tempo das diligências, o mobiliário Luis XV, a cama pesada de cabeceira alta, cenário de vidas e horas inconfessáveis.

As malas nem foram desfeitas: Teresa e Marcel mergulharam nos lençóis flutuantes, entre os travesseiros de penas, a pele morena dela na tela de branco alvíssimo, os cabelos de graúna  espalhados, ondulando sobre as dobras do algodão indiano.

O cheiro dos corpos misturados, a vontade primitiva, a matrioska dos desejos, desvelados um atrás do outro. Mesmo cansado de viagem, Marcel não dormiu: preferiu ver Teresa na penumbra, adormecida ao seu lado, enfim serena e apaziguada, joia viva sobre o colchão.

Pela janela medieval se avistava os telhados do casario, mas para eles Paris estava ali dentro, à luz de do abajur art déco: languidez e lassidão. Dormiam e acordavam enlaçados, amantes num refúgio, esconderijo de tudo: da vida lá fora, do passado, deles mesmos, da luz e da escuridão.

Tinham saído do Rio de Janeiro, sem dizer a ninguém onde iam, com quem iam, nem a razão. Eles mesmos não sabiam ao certo o que os movia, exceto que, fosse como fosse, a vida levava um para o outro. E só.

Teresa embarcou no aeroporto sem malas, livre de tudo, o avião apenas como ponte para ele, que já a esperava. O momento de um para o outro, única coisa de que precisavam, única destinação.

Deixaram para trás a vida anterior, os filhos, o medo. Não, o medo, não. Pairava a sombra do exame de Teresa, um indicador que não podia dar mais que 20, e dava 1000. Eles não sabiam o quão grave podia ser, qual era o tumor, nada, só aquele número: na volta, com mais exames, saberiam melhor. 

A dúvida pode ser o inferno da alma e eles sabiam que o passado pesava: a vida anterior os minara. A tristeza é somática, domina o ânimo, depois penetra nas células, corrói os tecidos. Contra ela o corpo sofrido se rebela, avisa, ordena a revolta.

O futuro ninguém sabia, mas eles se refugiavam na certeza dos braços um do outro, sem outros pensamentos, sem outro sentido, sem outra razão. Passavam o dia enlaçados, imersos em sussurros e planos, as coisas em comum: o amor à palavra,  a necessidade de leitura, não dos livros, mas dos sentimentos, penúria de que tinha vivido no deserto dos outros, o mundo onde você sempre serve à vaidade de alguém e sempre acaba sozinho.

As conversas sussurradas traziam o amor de volta, brigado, mordido, suado, até que tinham de trocar de cama, tão molhados ficavam os lençóis. Depois ele lavava os cabelos dela, um ritual lento, longo e solene, teatro de amor, na banheira feita de palco.

Ela secava as melenas no espelho antigo, usando ao mesmo tempo dois secadores, uma dança mágica de cabelos ao vento; ele ria e admirava a destreza, cada movimento de Teresa era graça, beleza e arte.

Saíram do quarto pela primeira vez no dia seguinte, depois das quatro da tarde, e só porque precisavam comer.

Paris no Natal estava frio, Paris chovia, e a melhor hora era voltar, subir aquela escadaria, esconder-se  no sótão, sua nova casa. Moravam agora dentro de um quarto e, naquele quarto, um dentro do outro.

No dia seguinte, fim de tarde,  breve interlúdio: atravessaram a ponte dos cadeados, onde tanta gente deixava aquela lembrança de amor, e seguiram pela quai da Rive Droite. Ele a fotografava, usando a boina dele e calça xadrez - musa de uma belle époque que ele mesmo inventou. 

Passaram pelo mendigo adormecido sob a Pont du Carrousel; saíram da margem e entraram nas Tulherias, pisando o cascalho entre os esqueletos das árvores invernais. 

O sol súbito caiu sobre a água da Grand Bassin Ronde, a piscina que separa o palácio do Louvre de seu imenso jardim. Momento iluminado, ou mensagem divina, Teresa despertou de repente - que bonito, onde estamos, perguntou.

As luzes da Saint Chapelle, pausa para uma oração. A noite para sair: o restaurante japonês, invenções sobre um prato; cruzaram o canal sobre o Sena e centenas de pessoas foram se juntando a eles pelo caminho, passos ressoando na calçada, em meio ao frio da noite.

Da passarela em arco, avistavam ao longe a tenda iluminada do Cirque du Soleil, nave  esplendorosa brilhando branca na noite, ao lado do rio.

Corteo: espetáculo da vida assistindo a morte, ou da morte assistindo a vida. Algo tão igual ao momento deles, tristeza e alegria, esperança e medo, misturados em turbilhão. Era isto, a vida: uma bicicleta sobre a corda, rumando ao céu; a beleza de viver até o fim, seja quando e onde for, arriscando tudo. 

Por fim chegou a véspera do Natal, o dia receado, que ambos passariam longe das famílias: receio da opressão da saudade, de ter estragado tudo; a carga do sofrimento próprio e dos outros; o abismo entre onde estavam e o que ficou para trás. Porém, o futuro eles iam construir juntos, para viver não como outros queriam, mas como eles mesmos, do jeito que eram, em estado verdadeiro e puro e claro.

Enquanto pelo mundo crianças recebiam os presentes de Natal, famílias estalavam copos e talheres em festa, eles anestesiavam a alma na plateia da Opera de Paris. O ballet Oneguin: uma tragédia de amor. 

Todo grande amor tem algo de trágico: assim era também o amor deles, grande, feito de dor por muitos lados, mas era também o que os unia; Transmutariam a tristeza em felicidade, contagiaram a todos com aquele amor, que transbordava para ser dividido, dando a todos esperança, sonho de final feliz.

No intervalo do espetáculo, uma taça de champanhe na sacada, o brinde de Natal, feito como juramento: nós dois consertaremos tudo; mesmo contra tudo, tudo podemos juntos, esta é a força maior.

Saíram caminhando abraçados pela ruas enfeitadas de luzes vermelhas; entraram no Café del' Opera, para uma taça de vinho, entre as mesas vazias da meia noite natalina. A cidade estava suspensa, mas eles sorriam, mais leves. Passara o mais difícil e eles se deixavam embalar pelo mel de um dia inteiro de cumplicidades.

Breves impressões da vida lá fora: O Pensador, no Museu Rodin ("já vi isto aqui", disse Teresa); madeleines num café acolhedor; o silêncio sagrado do velho templo de Saint-Germain-des-Prés. Por fim subir de novo a escada, a sensação de voltar ao abrigo do quarto, a eles mesmos, sua primeira casa, das muitas que teriam depois. 

O frio ficava do lado de fora, de fora ficava até mesmo o medo, com o passado de desilusão. Eles não precisavam de mais nada, Paris era ali, mas seria em qualquer lugar: viveriam, sobreviveriam, Marcel salvaria Teresa do câncer, da tristeza, do abandono, que também era seu. 

Teriam a felicidade mais pura, reunindo novamente a todos, para outros natais, contagiados por aquela Paris que eles levariam para sempre, onde fossem, transbordantes de amor.

*

Marcel olha as fotos antigas, abre o navegador e pesquisa: Hotel del' Université. 

Há um passeio virtual; ele sobe a escadaria, usando o dedo indicador sobre o laptop, e chega ao último andar.

O antigo sótão, onde ficava o quarto Saint Germain, foi dividido em quartos diferentes, com paredes brancas e mobiliário contemporâneo. Ainda há janelas para o casario de Paris, mas a grande lareira de mármore, a banheira, a história, tudo desapareceu.

O texto informa que o hotel passou por uma renovação. Remexendo lembranças, ele se dá conta de ter estado ali uma vez anterior, muito tempo antes daquela semana de Natal em Paris.

Tinha pouco mais de vinte anos quando, passando ao acaso na rua, entrou no hotel, para conhecer. Queria ser escritor e soube que Hemingway, quando estava na cidade, se hospedava ali. Subiu ao quarto do último andar, levado por um camareiro, com a chave na mão. 

Olhou o grande sótão, com jeito de casa no céu; parou diante da janela, e pensou: um dia vou publicar livros, terei dinheiro e trarei para cá alguém especial, para a minha melhor história de amor.

Depois, esqueceu tudo, ou quase: escolheu aquele hotel por lembrar vagamente que um dia quisera hospedar-se ali. Uma mensagem no tempo, para o dia em que, amadurecido, cumprisse a antiga promessa, sem saber.

Marcel faz uma busca pelo site. Não há mais qualquer referência  a Hemingway. Teresa vive, mas não está com ele, depois de tantas casas, nas buscas de quem nunca achou algo o bastante, nunca paro: espelho na impermanência, na inquietação. Os carentes de um amor que não existe, ou sempre muda de lugar: destruidores de corações.

Já não existe o quarto, não mais existe Teresa de Marcel, mas ele é o mesmo. Não só o homem daquele Natal em Paris. É o rapaz magro e imberbe que andava no inverno parisiense de capa de chuva, sem dinheiro para comprar um casaco de verdade, passando fome e frio, sonhando com a vida de Hemingway.  

Sim, isso ficou: sonho. A entrega sem receio, a vontade de amar, de sempre experimentar a vida intensamente, e escrever. 

Ainda.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Nós e nossas obsessões


Olá Roberta, tudo bem?

Desculpe invadir o seu tempo, não sei nada da sua vida, nem como você apareceu aqui na timeline, deve ser coisa dos algoritmos. 

Você pode perfeitamente me ignorar, ou me bloquear se quiser, mas ainda assim eu vou escrever. É bom escrever, mesmo com a possibilidade de que você não leia, de que ninguém leia, ou de que alguns leiam, mas não compreendam. 

Acabei de ver The Pillow Book e queria te agradecer a involuntária indicação. E fazer alguns comentários, de qualquer maneira.

É preciso certo refinamento para apreciar desse filme, certamente: não é só uma só uma questão de gosto, ou de estética, como também de certos sentimentos e preocupações, que a meu ver pouca gente tem. 

Não é todo mundo que tem o prazer de ver a vida como ritual (algo que japoneses e chineses fazem tão bem). Para esses, certamente o filme  ajuda a gente a pensar e aceitar como a vida é feita de nossas obsessões, que influenciam tudo: o que fazemos, como amamos, enfim, como vivemos. E a vida, assim, certamente, é muito mais rica.

Para mim, que vivo de escrever, há esse interesse adicional, de quem procura dar a tudo algum significado. Somos todos tela em branco e nós mesmos vamos escrevendo o que nos interessa, beneficiários e ao mesmo tempo vítimas de nossas mais particulares obsessões.

A mulher (que linda mulher), o editor (também um obsessivo), o namorado (ah, como é possível sofrer por uma mulher). A atmosfera do filme, como naquela canção em francês (que perturbadora cena de amor).

Ficam as perguntas, que eu sempre me fiz. Será a infância dela, a relação com o pai, que a fez assim? Ou as obsessões vêm da natureza, nascemos dessa forma?

O que fazer com isso: tentar superar ou vencer as obsessões, ou deixar que elas nos levem a um mundo às vezes misterioso?

Para nós, que escrevemos, não importa aonde, sobre o que, ou em cima do quê, escrever se confunde com a vida. A vida acontece e todo o tempo refletimos sobre o que fazemos, escrevendo.

E nada mais bonito, especialmente no amor, que deixar isso marcado no próprio corpo, mesmo com a leveza das palavras que depois escorrem com a água do banho. Assim a matéria, de existência tão banal e efêmera, fica ainda mais bela, e chega a um estado superior.

Só quem transforma a vida em ritual, em símbolo, conhece a si mesmo melhor, e leva uma vida mais profunda e com significado. Temos uma vida só, não é? E são as nossas obsessões, algumas inobserváveis à flor da pele, que tornam essa passagem, para muitos tão sem sentido, em algo que realmente vale a pena.

Thales

PS. Queria te contar, Roberta, que já escrevi nas costas de uma mulher. Saiu este poema, e gostei dele tanto que depois quis copiar:

Quero escrever um poema

Não em uma folha qualquer

Mas na tua pele morena

Poema em forma de mulher


Quero gravar no teu rosto

A certeza de um sorriso

Que espanta todo o desgosto

A luz de que eu tanto preciso


Nos teus seios atrevidos

Desenharei os desejos

Nunca mais reprimidos

Libertados por muitos beijos


Nas tuas pernas indecorosas

Estendidas no nosso leito

Desenharei muitas rosas

O caminho por onde me deito


Nos teus pés retesados

Ao se torcer de prazer

Deixarei registrados

Os extremos que podemos ser


No teu dorso de bailarina

Pousado contra o meu peito

Escreverei a uma menina

Que o torto pode ser o direito


No teu ventre liso e fecundo

Farei versos do mais puro amor

Onde eu deixo o meu mundo

E as sementes do meu ardor


Quero escrever-te em poema

Não para fazer mais um livro

Será, meu amor, um sistema

Capaz de manter-me mais vivo


Gosto, Roberta,  do cinema japonês, como de outras coisas do Japão. Especialmente o Kurosawa. Quero um dia aprender o shodo, que é essa escrita artesanal. E quem sabe escrever na pessoa certa. Porque só tem sentido escrever na carne de alguém que não escorra da vida com a água do banho.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A natureza dos relacionamentos


Sento no chão da pérgola da casa do meu pai, Alípio: conversamos ao ar livre, porque ele tomou só a primeira dose da vacina contra o vírus e eu ainda não. Volto e meia venho vê-lo, a certa distância: sinto falta das conversas pessoais, das quais eu sempre tiro alguma coisa. É como visitar um velho oráculo, o único talvez capaz de me entender - e aceitar.

Não falo muito, imerso em reflexões inconfessáveis, mas ele dá um jeito de entrar nos assuntos importantes, à sua maneira, como quem não quer nada. Dessa vez, me diz que está lendo sobre os elétrons, como sempre um pretexto, às vezes surpreendente, para falar de algo mais.

- Descobri que é impossível estudar os elétrons - disse ele. - Porque quando olhamos para o elétron, o comportamento dele muda.

Partindo dessa constatação científica, passamos a discutir a ideia de que pessoas são matéria, no fim das contas, e, como tal, sujeitas às mesmas propriedades físicas.

Dessa forma, deduzimos que uma pessoa que vive conosco nunca é exatamente aquela pessoa, tal qual existe por si mesma. É a pessoa como a vemos, e não só. A pessoa muda, sob a influência da nossa presença e do nosso olhar.

Chega Cláudia, mulher dele há trinta anos, período em que casei e me separei várias vezes. Traz uma cadeira de plástico para mim e uma mesinha, onde me serve o café. Esperamos um pouco, até ela se afastar.

Papai não é adivinho, ou pelo contrário, deve ser, porque de todo modo tenho pensado ultimamente em como aquelas pessoas com quem vivemos tanto tempo possam ser tão diferentes, sozinhas, do que são quando estão ao nosso lado. Às vezes, se tornam, mesmo, deploráveis.

Se elas são mesmo isso, me pergunto por que nos aproximamos delas, em primeiro lugar.

- Existe o papel e a persona - lembra meu pai. - Os atores sabem disso muito bem. O papel é aquilo que está escrito. A persona é como o interpretamos. Quem vê o outro, vê a persona, construída para aquele papel. E que não funciona fora dele.

Penso que então escolhemos alguém menos pelo que a pessoa é, e mais por como ela se mostra para nós. Depois, ela passa a ser aquilo que queremos, desejamos ou precisamos que ela seja.

Quando duas pessoas estão juntas, sob influência mútua, aquilo funciona. Tem gente com sorte de que isso dure a vida inteira. Para outros, funciona por algum tempo, até que a persona cansa, tendendo a voltar à sua própria natureza.

Então, aquela pessoa com você dividia a vida e os sonhos, sem a influência da nossa presença e do nosso olhar, de repente deixa de existir. Às vezes, ela quer mesmo desaparecer do seu olhar, para poder ser o que ela é, de novo. E é preciso entender.

Penso que por vezes podemos ser muito bom juntos, enquanto isso dura. E que aquela pessoa jamais foi, nem será a mesma. Ninguém mais terá alguém que só existiu a seu lado - e jamais será igual.

Para mim a vida ainda é inexplicável e não plenamente observável, como a matéria pura. Porém, me tranquiliza pensar que o passado ao menos existiu, de alguma forma, enquanto durou. Que não foi tudo mentira, não foi engano. Foi algo real, ainda que por algum tempo, sob a influência mútua de duas presenças que se completavam. Acreditar que foi tudo um grande erro é duro demais.

Cai a noite, e saio da casa do meu pai para a rua. Penso que eu sempre fiz isso, transformar a vida ao meu redor, vivendo no mundo das ideias, das pessoas, dos sentimentos, do interesse por tudo, e atraindo outros para isso. Trazendo as pessoas queridas para perto, dividindo a mesa, celebrando a vida.

Penso que não quero qualquer coisa de volta, porque a resposta não está no passado, está em mim. É de mim, do meu olhar, da minha física influência, que surge tudo, sempre. Quero apenas seguir em frente, sendo eu mesmo, fazendo o que sempre fiz.

E nada mais.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Nunca fomos tão felizes

Foram mulheres, amantes, meretrizes

Namoradas de tantos dias de luz iridescente
Foram sonho, paixões incandescentes
E, juntos, nunca – nunca! – fomos tão felizes

Foram amigas, amparo, companheiras
Dos dias difíceis como dos risonhos e floridos
Deram-se a mim em tudo e tão inteiras
Em favores e amores nunca esquecidos

Hoje eu sinto aqueles dias ainda vivos
E se pudesse daria uma vida a cada uma
Amo a todas guardando-as nos livros
Como as mãos no mar juntam a espuma

(São Paulo, fevereiro de 2017)