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| Foto: Kent Nishimura, AFP |
Gram Slattery, repórter da agência Reuters, relatou como o presidente norte-americano, Donald Trump, trocou secretamente de avião em uma viagem a Ancara, na Turquia, com escala em Londres. Não apareceu para a entrevista coletiva que devia dar a bordo à imprensa. Os jornalistas tiveram de viajar com as cortinas fechadas - e uma suspeita sinistra.
Não seria a primeira vez. Em 10 de julho, segundo o The Washington Post, Trump abandonou o Air Force One, avião oficial da presidência, escondido dentro de um caminhão do serviço de bordo.
Essa é a vida que ele atraiu para si - e para os norte-americanos todos, incluídos mais diretamente os seus assessores e os jornalistas que o acompanham, por obrigação profissional. Trump vem recebendo ameaças por conta dos diversos conflitos que abriu pelo mundo, especialmente a guerra com o Irã. Os jornalistas que cobrem a Casa Branca, assim como os assessores da Casa Branca convivem com a perspectiva de se tornarem também vítimas de um atentado que visa uma das pessoas mais odiadas do mundo.
Cobrir a Casa Branca é fazer parte de um escudo humano, assim como na guerra se coloca crianças na frente de exércitos mais poderosos ou o terrorismo faz abrigo debaixo de escolas e hospitais. O presidente pode ser o alvo, mas deixar os outros expostos no seu lugar fala muito mal sobre ele mesmo.
"Se eu for com vocês, talvez um dia vocês queiram mudar de profissão", respondeu Trump, quando questionado sobre sua ausência no voo oficial. O problema é justamente o risco de pensarem que estão com ele, quando ele nem está. O presidente que trata da vida alheia com sarcasmo não merece muita confiança.
Educados assistindo os filmes do velho oeste, os norte-americanos gostam do perfil do presidente caubói, isto é, do pistoleiro machão e truculento. Não se luta fugindo pela porta dos fundos, mas abrindo a porta do salão na frente de todo mundo. A tibieza de Trump, ainda mais deixando outras pessoas à mercê do risco do qual ele foge, é aquele tipo de atitude que tira credibilidade, confiança e admiração por alguém que devia ser o líder inspirador.
A hipocrisia é a marca dos demagogos, tanto no que dizem quanto nas atitudes. Por trás de um discurso falastrão, há sempre um medroso fingidor. A ameaça de invadir países, que parece mais querer fazer a bolsa oscilar em favor dos sócios especuladores, é outro aspecto deplorável do presidente norte-americano, que vai minando sua figura no poder.
Uma característica comum desse tipo de líder é fazer ameaças, começar a confusão, mas nunca terminá-la, ou sair dizendo que ganhou, quando perdeu. Trump enfeita-se com o Nobel da Paz e a Copa do Mundo alheios, mas comporta-se como todos os farsantes com o distintivo de autoridade.
Tenho conversado com bastante gente que vive nos Estados Unidos e a realidade lá é dura, exceto para os poucos que acumulam riqueza como nunca. Nenhum ilusionismo resolve problemas reais. Trump poderá ganhar dinheiro durante sua passagem pela presidência, e esse parece ser o objetivo, mas não está resolvendo problema algum. Apenas alimenta o terror interno e externo, perseguindo gente com seu Estado policialesco e levando o ódio ao extremo da violência.
Não é com o protecionismo nacionalista, muito menos com a multiplicação de conflitos ou ameaças a velhos parceiros como o Brasil, que os Estados Unidos verão melhorar os fundamentos da sua economia. Em geral o demagogo populista acaba mal, porque a realidade se impõe, no final. Ele pode acabar ainda mais rico, ou com um tiro na cabeça, dependendo da sorte, mas sempre deixará uma situação pior. Hoje as soluções para a crise econômica global passam pela cooperação entre países, e não com o negacionismo nacionalista.
Sem cooperação, seguirá a marcha descontrolada da economia transnacional, que tem resultado no fim do emprego, no aumento da pobreza e uma pressão cada vez maior sobre os responsáveis pelo Estado, como relato no livro A Era da Intolerância.
O presidente realmente corajoso ou com segurança suficiente admitiria que não pode resolver a crise sozinho e enfrentaria suas causas reais, liderando um esforço coletivo e solidário em escala mundial. Quem realmente é forte não precisa da bufonaria - a ameaça vazia. O realismo e a humildade são o primeiro passo para enfrentar grandes problemas.
Trump está passando para a história por suas estrepolias, quando está na posição de ajudar o mundo de uma forma real e deixar um legado importante para o futuro. Não é o único com o perfil do demagohgo que finge goprnar para outros, quando o faz para benefício próprio. É mais fequente encontrarmos aproveitadores que verdadeiros estadistas. Ele vai ficando para a história na primeira categoria.
Depois de incitar a população a invadir o Capitólio , Trump deveria estar na cadeia, como o ex-presidente Jair Bolsonaro no Brasil, e não de volta à Casa Branca. Talvez ele consiga se safar de todas as acusações, incluindo a influência russa nas eleições, e ainda possa continuar apreciando livre seu cofre forte se encher. Para a vida além da vida, porém, que é a história, e talvez não lhe interesse, ficará como o poltrão que manda outros para a morte em seu lugar.
