Depois do jogo Palmeiras e Cerro, no Paraguai, o senhor Abel Ferreira deu uma de suas entrevistas coletivas, no estilo raivoso que o tem caracterizado, e queixou-se de que o “futebol está doente”, pelo nível de exigência da torcida, difundido nas redes sociais, e da imprensa, com quem ele frequentemente se volta.
Abel tem razão: o futebol está doente, como toda a sociedade, que em tempos de redes digitais multiplicou movimentos de ódio, destrói reputações, e não perdoa falhas. Porém, embora tenha direito a manifestar qualquer opinião sobre o que quiser, o senhor Abel não está no Palmeiras para fazer análise sociológica da torcida e da imprensa, mas treinar uma equipe.
Quem quiser compreender a sociedade pode ouvir um historiador, um sociólogo, ou simplesmente ler o meu livro A Era da Intolerância, em que trato desse processo. Por isso, o senhor Abel parece apenas que apenas está desviando o assunto para não falar do mau futebol que seu time vem cronicamente apresentando.
É bom voltar um pouco atrás no tempo, quando o senhor Abel não era campeão de nada, e era mais realista, a virtude que o levou a ser campeão. Ele deu muita sorte. Pegou um bom time durante a pandemia, com estádios sem torcida, o que lhe deu tranquilidade para começar, sem a pressão habitual do estádio cheio. Coisa inédita, e que jamais acontecerá de novo, pegou duas Libertadores no mesmo ano, e ganhou as duas com a mesma equipe.
Podemos dizer que era a pessoa certa, na hora certa. Abel também trouxe algo novo para o futebol brasileiro, que às vezes dá uma cochilada em berço esplêndido. Trouxe dos bancos escolares europeus um estilo de jogo flexível, em que a equipe se defende ou ataca de jeitos diferentes ao longo de uma partida, adaptando-se ao momento e ao adversário.
Isto obrigou todos a melhorarem – e os outros melhoraram. Igualados na tática, passou a fazer a diferença novamente a qualidade dos jogadores – e o Palmeiras renovou-se, trazendo novos jogadores de qualidade, para fazer frente sobretudo ao Flamengo, seu maior rival no plano nacional.
Abel, porém, há três anos não consegue fazer o Palmeiras jogar bem. Dependeu do talento individual de Endrick para ser campeão brasileiro pela última vez, quando ninguém mais esperava, depois de mantê-lo no banco erroneamente por bastante tempo.
Ele sabe disso. Por isso, o senhor Abel hoje vive para provar que é mesmo Abel, mas é o Palmeiras que precisa voltar a ser o Palmeiras. Ele diz que conhece o Palmeiras muito bem, porque está no clube inéditos seis anos consecutivos, mas nós, palmeirenses mais velhos, podemos falar de coisas que ele não conhece tão bem, porque não as viveu.
Ele é um grande motivador de jogadores, razão pela qual o time joga com muita raça, ao que se deve muitas vitórias. Porém, igualar o adversário na raça e na tática só serve para que a qualidade dos jogadores faça a diferença. E essa sempre foi a diferença do Palmeiras.
Não é à toa que os grandes times do Palmeiras eram a “Academia”. Academia significa ensinar futebol: dar aula, ter categoria, ser modelo. Eu vi um Palmeiras de Dudu e Ademir, que ia à Europa, jogava contra o Real Madrid e ganhava de 3 a 1, tomando um gol no último minuto, porque já estava jogando relaxado.
O futebol brasileiro já teve que correr atrás do europeu em alguns momentos. Em 1974, a Alemanha e a Holanda de Rinus Mitchell deram um banho no Brasil, seja na aplicação tática, caso da Alemanha, seja na criatividade, caso da Holanda. Passamos muito tempo tentando entender por que perdemos a nossa “magia”, até sermos campeões do mundo novamente, dez anos depois.
A magia está no mesmo lugar: nos garotos que jogam bola na rua de um país maior que a Europa, e onde o campeonato nacional é maior que a Liga dos Campeões. Abel reclama da torcida, diz que o profissional é ele, mas a torcida conhece futebol muito bem, porque no Brasil todo mundo jogou bola um dia, e sabe das coisas por experiência.
O discurso de superioridade do técnico português desvaloriza o futebol brasileiro para reforçar a autoridade de quem não a tem. Querem nos impingir de novo o complexo de vira-latas, como nos tempos em que Nelson Rodrigues detectou essa nossa síndrome de inferioridade, que foi vencida, em grande parte, graças ao futebol.
Até parece que o senhor Abel vem de um país pentacampeão do mundo, que veio aqui para nos ensinar como deve ser o futebol. Reclama do juiz, do gramado, do calendário. Ele já conhece as dificuldades brasileiras, que só elas nos fizeram melhores, porque o jogador do Brasil joga em qualquer lugar – na calçada, na rua, no parque, no terrão, no quintal de casa.
O jogo contemporâneo se tornou fisicamente muito exigente. O calendário com jogos no meio de semana se tornou muito duro, não por causa do calendário, mas porque o esforço físico exigido do ser humano em cada partida hoje é algo brutal. A ciência levou o desempenho humano ao limite. E quem não se esforça ao máximo, por mais qualidade que tenha, perde.
O jogo se tornou rápido. cada passe é um chute. Com cinco substituições, sempre tem gente fresca em campo para correr mais. Isso, porém, só ajudou o senhor Abel, que tem mais jogadores de qualidade e assim pode resistir melhor a um campeonato longo e intenso. Em vez de se queixar, como vítima, o senhor deveria admitir o quanto é ajudado pelas condições circunstantes.
Ele é um bom rapaz, defende boas ideias e, se fizesse no campo táticvo o feijão com arroz do futebol brasileito, talvez continuasse aprendendo, em vez de querer ensinar. Podia fazer como um de seus mestres, Leonardo Jardim, hoje no Flamengo, que humildemente colocou o centroavante Pedro no lugar do centroavante, o ponta esquerda na esquerda, o direita na direta, e assim por diante, e o Flamengo está jogando muito bem.
Jogando bonito, como dizemos no Brasil, sabendo-se que, embora ninguém ganhe todas, como o senhor Abel faz questão de nos lembrar, nos dá a certeza de que, quando jogamos bem, a probabilidade de ganhar é muito maior. Jogar bem -- com o drible, a tabela, a ultrapassagem, enfim, a categoria -- reduz a dependência de esforços sobre humanos e a necessidade de viradas milagrosas.
O Palmeiras se tornou especialista no resultado do último minuto -- aquela cabeçada de Gomez na pequena área -- porque frequentemente estamos no modo “desespero”. Faz tempo que o Palmeiras não joga bem e mais ainda que não joga bonito. Aos pragmatistas, lembro que futebol antes de mais nada é espetáculo, e quem conhece, realmente, o Palmeiras, sabe que preferimos perder dignamente, com nobreza e categoria, que ganhar jogando de maneira medrosa, covarde, ardilosa.
O Palmeiras e o Brasil têm plenas condições de retomar a hegemonia do futebol mundial. É preciso de uma pitada da organização e da aplicação europeias, mas precisamos voltar a ser o Brasil -- aquilo que nos fez campeões. A liberdade, a imaginação e certa irreverência, que são a diferença do futebol brasileiro, precisam reaparecer em meio ao cemitério de invenção que a automatização tática produz. Esta observação vale também para Carlo Ancelotti, outro estrangeiro trazido para comandar brasileiros, na seleção.
O senhor Abel encheu o Palmeiras de jogadores de outros países, alegando que os brasileiros são muito caros. Porém, a base do Palmeiras, de onde vêm os melhores jogadores do país, é o que tem feito a diferença na equipe nos últimos tempos: Endrick, Estevão e, agora, Allan.
Se ele for realista, e com a coragem que diz ter, é nisso que deveria acreditar: o Brasil é bom. Sabemos o que temos de fazer, mas vamos jogar futebol brasileiro.

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