quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O líder da covardia

Foto: Kent Nishimura, AFP

Gram Slattery, repórter da agência Reuters, relatou como o presidente norte-americano, Donald Trump, trocou secretamente de avião em uma viagem a Ancara, na Turquia, com escala em Londres. Não apareceu para a entrevista coletiva que devia dar a bordo à imprensa. Os jornalistas tiveram de viajar com as cortinas fechadas - e uma suspeita sinistra.

Não seria a primeira vez. Em 10 de julho, segundo o The Washington Post, Trump abandonou o Air Force One, avião oficial da presidência, escondido dentro de um caminhão do serviço de bordo.

Essa é a vida que ele atraiu para si - e para os norte-americanos todos, incluídos mais diretamente os jornalistas que o acompanham. Trump vem recebendo ameaças por conta dos diversos conflitos que abriu pelo mundo, especialmente a guerra com o Irã. Os jornalistas que cobrem a Casa Branca não têm a menor dúvida de que o presidente que sai pela porta dos fundos e os deixa como iscas não merece a menor confiança.

Trump viaja com a imprensa para dar entrevistas? Ao que parece, os jornalistas funcionam mais como  escudo humano, assim como na guerra se coloca crianças na frente de exércitos mais poderosos ou o terrorismo faz abrigo debaixo de escolas e hospitais. Porém, o presidente escapar por alguma informação e deixar que a imprensa corra o risco por ele é algo pior. Que nome tem alguém que salva a si mesmo e deixa os outros correndo o risco em seu lugar?

Educados assistindo os filmes do velho oeste, os norte-americanos gostam do perfil do presidente caubói, isto é, do pistoleiro machão e truculento. Não se luta fugindo pela porta dos fundos, mas abrindo a porta do salão na frente de todo mundo. A tibieza de Trump, ainda mais deixando outras pessoas como boi de piranha, é aquele tipo de atitude que tira credibilidade, confiança e admiração por alguém que devia ser o líder inspirador.

"Se eu for com vocês, talvez um dia vocês queiram mudar de profissão", respondeu Trump, quando questionado sobre sua ausência no voo oficial. Não é fácil fazer perguntas a um presidente que mente e ainda trata a vida alheia com sarcasmo. 

Não são apenas os conservadores de direita que gostam de cultuar o líder corajoso. A esquerda cultiva, por exemplo, a imagem romântica de Che Guevara com sua boina militar - o herói morto quando já combatia por uma causa perdida. O problema dos grandes líderes  pacificadores, como Gandhi e Nelson Mandela, que fizeram bem mais pela humanidade sem disparar nenhum tiro, é que eles não se identificam com a esquerda nem com a direita: estão do lado da vida, que não tem lado.

A hipocrisia é a marca dos demagogos, tanto no que dizem quanto nas atitudes. Por trás de um discurso falastrão, há sempre um medroso fingidor. A ameaça de invadir países, que parece mais querer fazer a bolsa oscilar em favor dos sócios especuladores, é outro aspecto deplorável do presidente norte-americano, que vai minando sua figura no poder.

Uma característica comum desse tipo de líder é fazer ameaças, começar a confusão, mas nunca terminá-la, ou sair dizendo que ganhou, quando perdeu. Trump enfeita-se com o Nobel da Paz e a Copa do Mundo alheios, mas se caracteriza como todos os farsantes que recebem o distintivo de autoridade.

Tenho conversado com bastante gente que vive nos Estados Unidos e a realidade lá é dura, exceto para os poucos que acumulam riqueza como nunca. Nenhum ilusionismo resolve problemas reais. Trump poderá ganhar dinheiro durante sua passagem pela presidência, e esse parece ser o objetivo, mas não está resolvendo problema algum. Apenas alimenta o terror interno e externo, perseguindo gente com seu Estado policialesco e levando o ódio ao extremo da violência.

Não é com o protecionismo nacionalista, muito menos com a multiplicação de conflitos ou ameaças a velhos parceiros como o Brasil, que os Estados Unidos verão melhorar os fundamentos da sua economia. Em geral o demagogo populista acaba mal, porque a realidade se impõe, no final. Ele pode acabar ainda mais rico, ou com um tiro na cabeça, dependendo da sorte, mas sempre deixará uma situação pior. Hoje as soluções para a crise econômica global passam pela cooperação entre países, e não com o negacionismo nacionalista.

Nada no sentido contrário resolverá a marcha descontrolada da economia transnacional, que tem resultado no fim do emprego, no aumento da pobreza e uma pressão cada vez maior sobre os agentes do Estado, como relato no livro A Era da Intolerância.

O presidente realmente corajoso ou com segurança suficiente admitiria que não pode resolver a crise sozinho e enfrentaria suas causas reais , liderando um concerto mundial. Quem realmente é forte não precisa da bufonaria - a ameaça vazia. O realismo e a humildade são o primeiro passo para enfrentar grandes problemas.

Trump está passando para a história como o menino malcriado que faz pequenos furtos, quando está na posição de ajudar o mundo de uma forma real e deixar um verdadeiro legado para o futuro. Não é o único com esse perfil. É mais fequente encontrarmos aproveitadores que verdadeiros estadistas. Ele vai ficando para a história na primeira categoria.

O presidente norte-americano, que depois de incitar a população a invadir o Capitólio deveria estar na cadeia, como o nosso ex-presidente, talvez ainda possa apreciar em vida o enchimento do seu cofre forte pessoal. Para a vida além da vida, porém, que é a história, e talvez não lhe interesse, ficará como o poltrão que manda os jornalistas para a morte em seu lugar.