quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Garibaldi, Anita e uma cidade




Quando Giuseppe Garibaldi tomou Bolonha, na campanha de reunificação da Itália, entrou nas catedrais em pata de cavalo, contava meu avô José, por ouvir assim a história pelo pai dele, Mauro. 

Revirou as igrejas e nelas teria encontrado poços - pozzo razzore, dizia meu avô - com facas, cheios de ossos, todos de moças, que sumiam sem se saber até então onde iam parar.

Essa história, contada no meu romance Filhos da terra, sobre a imigração italiana no Brasil, pode ser ou não verdadeira, mas é no que os bolonheses daquele tempo acreditavam. 

O que explica muitas coisas: o anticlericalismo do bolonhês, sua forte politização e tendência para o anarquismo e o comunismo, ligados ao ateísmo, sua defesa da liberdade - a palavra que está junto ao leão no brasão da cidade - e seu amor a Garibaldi.

A figura de Garibaldi está presente em todas as cidades italianas, mas as histórias de meu avô me fizeram muito próximo desse personagem extraordinário, talvez o mais extraordinário da história, e eu sempre o associei a Bolonha. 

Garibaldi está também no meu romance Anita. E aqui, nessa estátua em Bolonha, que para mim tem um significado especial, porque é a cidade das histórias de família. Por coincidência, o primeiro lugar onde fiquei em Bolonha, hospedado a trabalho, foi no hotel logo atrás do monumento, o Tre Vecchi.

Em Bolonha, os Fiorini como meu avô locupletam as placas que homenageiam os partigiani mortos na segunda guerra. Estão no campo, onde lavraram a terra, na comida, que me fala da infância, na história.

Aqui, por tudo isso, eu fico muito sentimental. Especialmente quando sento à mesa, em qualquer restaurante, e me sinto de volta à cozinha de minha avó Dileta. #anitaoromance #filhosdaterra #livros #lendo

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Escrever é como fazer amor

Quando entregava um livro aos editores, Monteiro Lobato costumava colocar, antes do texto, um recado aos revisores: avisava quais eram os sinais utilizados na língua portuguesa. E os mandava colocar no texto, aonde quisessem.

Escrever não é saber pontuação, nem mesmo saber português. Escrever é pensar no teclado, imprimir as ideias. O trabalho é ter a informação e as ideias e desenvolvê-las.  As ideias se propagam de muitas maneiras, mas a mais elegante, eficaz, perene e influente é escrevendo.

Eu uso isso, verdade, como desculpa para todos os erros que cometo, num atentado não deliberado, mas não muito arrependido, ao bom português. Troco onde por aonde e vice-versa. Esqueço o "em" antes do "que". E por aí vai.

Conheço as regras, mas no fluxo acelerado do pensamento muitas vezes elas vão ficando para trás. E como sempre vem ideia atrás de ideia, o tempo para a revisão vai ficando para trás.

Talvez alguns estranhem a comparação, ou a achem de mau gosto, mas escrever é como fazer amor. Se você ficar pensando na parte mecânica do ato, como um engenheiro, e não um amante, a coisa não sai.

Escrever, fazer amor e dançar têm isso em comum. Fred Astaire certamente nunca pronunciou as palavras "dois pra cá, dois pra lá".

Se a ortografia não é minha arte, prezo ainda menos pela datilografia. Escrever não é datilografar. Cato milho com dois dedos de cada mão há mais de trinta anos trabalhando em jornalismo e escrevendo romances de 500 páginas. A
 invenção do corretor ortográfico é uma benção mas não resolve tudo.

Sei que minha estenografia digital é irritante, talvez deselegante para com a língua pátria, e uma complicação. O ideal é entregar o serviço perfeito, limpo, profissional. Porém, o cuidado com a língua é mais próprio do revisor, do professor ou do acadêmico.

E uma coisa é certa: quando o dançarino é talentoso, trabalhador, ou ambas as coisas, e as ideias fazem efeito, como o amor do bom amante, sempre aparece alguém disposto a ajudar.

sábado, 23 de outubro de 2021

Escrever, ou: o teatro de nós mesmos

O exercício de escrever é um processo de reflexão, do qual acabamos dependentes. Escrevemos não por vaidade, ou por exibicionismo, ou para ficar na posteridade, mas para viver. Seja como autor de livros de ficção como de não ficção, eu me obrigo primeiro a quebrar a casca da ostra, a encarar a verdade interior.  Sem isso, mergulho na tormenta.

Escrevendo, aceito da forma mais escancarada o que pessoalmente nunca faço: me expor. Escancarar as portas da alma, sem segredos, é uma forma de mudar, superar a dificuldade de estabelecer uma ponte para o mundo.

Ao escrever, ajudamos a nós mesmos; ao publicar o que escrevemos, a intenção é ajudar também os outros na mesma situação. O que vemos nos livros pode ser informação, ciência ou arte, mas em última análise é o aprendizado com a experiência humana, que dividimos uns com os outros. Ficção é assim também, com a diferença de que tratamos da matéria humana.

Aquele que abre o coração expia seu sofrimento em busca de redenção. Dá o primeiro passo para a admissão de que é um ser humano. Descobri, escrevendo, que, ao abrir os braços, em vez de nos rejeitar, os outros nos acolhem. Saber que não estamos sozinhos no mundo e receber esse retorno, tanto quanto dá-lo, traz um grande alívio.

Cedo ou tarde, perdemos a inocência; descobrimos que o amor pode trazer a dor e naveguei desde muito cedo em um mundo cheio de  ambiguidades, paradoxos e contradições. Vejo como o bem traz consigo também o mal, assim como mal pode trazer o bem; a realidade é uma comédia trágica. Escrever reflete tudo isso, é teatro: como ficção ou não, encenamos a nós mesmos, nossa perdição e nosso resgate.

 

Marília Gabriela: corações expostos

- Ai, ai.

Sim, era verdade: Marília Gabriela, 40 anos de prática no jornalismo (“que horror”, disse ela, ao fazer essa conta), estava com medo de uma entrevista.

É verdade que não era uma entrevista qualquer. Primeiro, porque ela - em maio de 2009 - estaria do outro lado do balcão, não como entrevistadora, mas como entrevistada. Segundo, seria uma entrevista ao vivo diante da plateia do Autores e Ideias, que acontecia uma vez por mês no auditório envidraçado da Livraria da Vila, no Shopping Cidade Jardim.

Além das perguntas do moderador – eu –, as pessoas poderiam fazer suas próprias perguntas. Ao ver o salão abarrotado, com os 100 lugares completos, mais uma porção de gente em pé, ela titubeou, mas só por um instante.

- Vamos lá -, cutuquei.

Sentada elegantemente diante da plateia, Marília começou me colocando contra a parede. depois de uma longa e complicada pergunta, disse, para espanto da plateia:

- Não entendi nada da sua pergunta.

Diabinha. Virei para a plateia, duzentas pessoas na expectativa do meu vexame.

- Alguém aí entendeu alguma coisa do que eu disse? Levante a mão.

Gargalhadas. E reformulei a questão.

Marília se impôs, primeiro graças ao traquejo profissional, depois com sua simpatia natural, quando ficou mais à vontade. Provocou o entrevistador (pobre de mim), respondeu a perguntas que envolvem o lançamento de seu livro e não fugiu das questões mais delicadas, nem mesmo as mais pessoais. Disse que escreveu Eu Que Amo Tanto da mesma forma que se interessa por todos os seus entrevistados, ou os personagens que faz no teatro ou em novelas – procurando respostas para si mesma.

Apenas pelo tema escolhido por ela, Eu Que Amo Tanto já era bastante revelador. Coleção de relatos em primeira pessoa de mulheres que sofrem por amor a um ponto patológico, que as leva a perguntar o que há de errado com elas mesmas e sua vida, o livro indicava por onde andavam as especulações íntimas de Marília.

Ela recolheu seus depoimentos entre as integrantes do MADA, um grupo de mulheres que se encontravam para discutir seus problemas da mesma forma que fazem os alcoólicos anônimos - vítimas de um vício que não conseguem controlar e que destrói suas vidas. Porém, não desistiram de lutar.

Cada relato era quase um conto, lido com prazer, sempre com um enfoque um pouco diferente do anterior, e um elemento de drama reforçado pelas fotografias do português Jordi Burch, que soube captar em imagem a alma de cada texto.

Aos 60 anos, Marília admitiu identificar-se com a frase de uma entrevistada para o livro: “há algo de errado comigo, mas não sei bem o quê”. Recém separada do ator Reinaldo Gianecchini, de seu segundo marido, com quem teve dois filhos, e viúva do primeiro casamento, ela se dizia uma questionadora permanente de relacionamentos e de si mesma. Inquieta, afirmou que, se não estivesse escrevendo ou fazendo alguma coisa nova, ficava angustiada.

Tida como mulher bem resolvida, descobriu que, mesmo assim, ninguém é totalmente resolvido.

Ex-repórter do Jornal Nacional, do Fantástico, apresentadora do TV Mulher, ela se consagrou como a melhor entrevistadora do país em uma série de programas que mudaram de nome, mas não no essencial: Marília cara a cara com seus entrevistados.

Jornalista de origem, ela usou o jornalismo cada vez mais para se interessar e se aprofundar no conhecimento das pessoas, com a sabedoria de entender que as respostas estão sempre nos outros – e, quando não há respostas, há pelo menos o consolo, o amparo mútuo, a compaixão. Sua exploração do ser humano acabou encontrando outros canais, reflexo da inquietação que caracteriza os temperamentos artísticos – Marília cantava bem e já fizera três discos, estrelara peças de teatro e interpretara personagens de novela.

Sobretudo, tinha coragem de se expôr, como fazem os artistas, e como fez na série de relatos que, embora de outras pessoas, falavam de sentimentos universais e ao mesmo tempo muito dela – a mulher que acha que amor não pode ser sofrer, num território onde não há linha separatória entre prazer e dor, felicidade e angústia, sucesso e fracasso, paz e perturbação emocional.

Em Eu que Amo Tanto, as doze mulheres de Marília tinham extração social e atividades as mais diferentes – havia uma psicóloga, uma manicure, uma médica, uma bombeira – mas possuíam em comum a certeza de que sua incapacidade de lidar com a paixão - o que, aos poucos, ia lhes destruindo a vida. Pouco suspeitavam de onde vinha sua dependência doentia de alguém ou como superá-la.

Havia pistas por toda parte, mas na realidade não uma só resposta: o que as mulheres de Marília encontravam no relato de umas e outras era o alívio de saberem que não estavam sozinhas no mundo e que existiam aquelas capazes de, se não obter uma cura completa, ao menos melhorar.

Em literatura, se pode apanhar personagens reais e transformá-los em ficção, ou dar a personagens fictícios algo de personagens reais. Entre uns e outros, o autor acaba colocando muito de si mesmos, de suas próprias questões, resoluções e interpretações. Ao final, não sabemos mais exatamente o que é uma coisa ou outra, se o que está ali é ficção, realidade, os outros ou nós mesmos.

Acostumada a entrevistar pessoas famosas, que apesar da exposição pública muitas vezes são tão desconhecidas por nós quanto muitas vezes por elas próprias, Marília avançava em território muito próximo da literatura, em que somos todos iguais, anônimos ou famosos, ricos e pobres, igualados na condição humana, nas alegrias e angústias de pontilham a existência em qualquer tempo e lugar.

Com seu trabalho de entrar nas pessoas, em busca de ajudar a si mesma, ela acabou se tornando um espelho de todos aquelas que vêm a um mundo onde as perguntas – leia-se, a própria vida – são mais importantes que as respostas.

Um poema para resgatar um país


Há muito venho pensando em escrever um poema épico sobre a minha geração, que fale também do Brasil, desde a redemocratização aos dias atuais.

Dos valores brasileiros, das nossas aspirações, desejos, identidade.

E da nossa verdade.

Descobri que esse grande poema pode ser dois. Um da minha geração, outro mais das nossas raízes.

Há poemas definidores das nações. Parece muito ambicioso, mas sinto que o Brasil carece de uma obra inspiradora, que reforce a nossa crença em nós mesmos. depois de tantos desapontamentos, tantas frustrações, é a única forma de resgatarmos a nós mesmos.

Hoje, a razão e o argumento já não funcionam. Estamos divididos, amedrontados, incapazes de ouvir. Talvez o poema possa enviar a mensagem que de outra forma não produz mais efeito.

Precisamos recuperar o orgulho, primeiro diante do espelho, para depois fazer frente ao munfo, cada vez mais competitivo.

Que venha então a muda, se for capaz de me fazer dela o seu instrumento.




O sabor do dialeto

 Aróst ad ninguém côt int al fåuren, peço à garçonete no Buca Manzoni, trattoria em Bolonha cujo cardápio traz os pratos no dialeto bolonhês - para mim, uma viagem no tempo.

Quem leu Filhos da Terra sabe que meu avô se chamava José - e que, em casa, o chamavam de Iusfen, no dialeto bolonhês. Nomes também mudam, conforme a língua: José,  Giuseppe, Joseph, Yussef, Iusfen.

Fazia tempo não via dançarem na minha frente essas palavras de "esses" puxados de quem faz sempre tudo a mais, e fala com prazer, esticando a silabação. 

Aróst ad ninguém côt int al fåuren, por sinal , é assado de porco ao forno.

Como esse, só aqui.

Micro histórias de um ex- diretor de Playboy


O agente dela não quer fotos de nu frontal.

- Tudo bem. A perereca dela é cinza, parece um charuto apagado.


*

- Você veio tão sem roupa. Não está com frio?

- Periguete não tem frio.


*

O que você quer?

- Como assim?

- O que você quer? Pode ser qualquer coisa .

- Não é  isso, não.

- Então você me  paga e eu te dou dinheiro de volta. 

- Apaga tudo aí. Vamos começar essa conversa de novo.


*

- Tua mulher não se importa?

- o se preocupe. Ela diz que não tem ciúme. Só ódio mortal.


*

- Eu sou doula. Ajudo mulheres no parto. Não aguento mais ver b...

- Eu também. Sou diretor da Playboy.


*

Mulher:

- Falei com um sujeito que trabalhou em Playboy.

 - E?

- Ele disse que comentam lá que você é o único diretor de Playboy que não comeu ninguém.

- Então deve ser verdade.

*


- Vai tomar nessa capa.

(Por e-mail)


*

Mulher:

- Às vezes você é um lobo em pele de cordeiro. E às vezes é um cordeiro em pele de lobo.


*

Mulher:

- Você é terrível.

(Depois de um tempo).

- Por que eu sou terrível?

- Não lembro.