sábado, 11 de junho de 2022

Hemingway, Dos Passos e um lugar ao sol

Hemingway (esq.) e Dos Passos

Numa noite da primavera de 1937, um grupo de homens armados invadiu o apartamento em Valência, na Espanha, onde estava José Robles Pazos, professor de literatura espanhola na Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. 

Intelectual do partido comunista, Robles tornara-se homem importante na guerra civil espanhola. Era tradutor e braço direito do general russo Mikhail Koltsov, encarregado de liderar as forças internacionais que reforçavam a resistência contra as tropas do general Francisco Franco

Depois de vasculhar seus pertences, os homens da milícia levaram Robles algemado, sem mandado de prisão, acusações ou explicação, deixando para trás, em desespero, sua esposa Márgara. Naquela noite, em algum lugar perto de Valência, sem julgamento ou apelação, Robles foi fuzilado. Seu corpo jamais foi localizado.

Para entender esse crime, que permaneceu sem esclarecimento muito tempo, é preciso compreender um estranho episódio da História: uma guerra na qual o líder soviético Josef Stalin entrou nos bastidores, sem ser chamado, para defender uma nobre causa e depois abandoná-la. Depois de enviar reforços russos aos republicanos de Madri, Stalin literalmente sacrificou os homens que tinham ajudado a defender a cidade do cerco franquista ― os seus próprios homens, incluindo o general Koltsov, considerado mais tarde um traidor e executado em Moscou. Com a mesma frieza com que realizava expurgos em massa em seu país, Stalin tinha como principal interesse atrair a cobiça imperialista de Adolf Hitler para uma Espanha enfraquecida. E assim desviá-la da União Soviética.

O assassinato de Robles e dos oficiais russos na Espanha marcou também a vida de dois escritores americanos célebres, como conta o ex-professor de literatura da Universidade de Columbia Stephen Koch em seu livro O ponto de ruptura ― Hemingway, John Dos Passos e o assassinato de José Robles (Difel, 2008, 352 págs.), publicado no Brasil pela editora Difel. Amigos fraternos, até cobrirem juntos como jornalistas essa guerra insensata, John Dos Passos e Ernest Hemingway saíram da Espanha como inimigos silenciosos. E a partir dali teriam destinos opostos, na literatura e na vida.

Amigo de Robles desde seus tempos de faculdade, Dos Passos era então o romancista mais quente dos Estados Unidos ― pouco antes de viajar à Espanha, tinha sido personagem de capa da revista Time. Ao descobrir o assassinato ― e que fora patrocinado pelos chefes de sua corrente ideológica ―, ele se afastou dos quadros do partido comunista, do qual era a maior estrela entre outros intelectuais e celebridades da época. 

Ernest Hemingway, seu amigo também de longa data, foi atraído para o seu lugar, mesmo sendo menos (ou pouco) identificado com o ideário do partido. Numa descrição minuciosa, Koch narra como Hemingway teria sido manipulado por interesses que pretendiam usá-lo, primeiro, para desmoralizar Dos Passos, calando-o na perseguição aos responsáveis pela morte de Robles e de outros homens-chave da resistência. E, segundo, para colocá-lo no lugar do autor de Manhattan Transfer como símbolo da inteligência comunista.

Do livro de Koch, emerge um Hemingway hedonista, vaidoso, conturbado. Trai a mulher que lhe deu casa, comida, filhos e tranqüilidade para escrever (Pauline), por Martha Gelhorn ― uma ambiciosa candidata a celebridade que fazia o jogo do apparatschik e o atrai com as armadilhas certas (a beleza física e a bajulação). Ao mesmo tempo em que leva Martha consigo para a ribalta da intelectualidade (e a cama), Hemingway é convencido a demover Dos Passos de investigar a morte de Robles. O que ele faz, munido do mesmo fatalismo seco que encontrava nas guerras e transpunha para sua literatura.

Como compensação, além do reconhecimento de Martha, Koch mostra que Hemingway desfruta, ainda que com um certo desconforto, de novos refletores. Levado por Martha e seu círculo de amigos ligados ao aparato stalinista, que via na propaganda um instrumento de Estado, Hemingway é colocado por eles como o centro dos eventos mais barulhentos da intelectualidade da época. O Hemingway de O ponto de ruptura aceita ser usado, fisgado pelo ego, sua eterna obsessão ("a carreira, a carreira", escreve Koch, citando um conselho que dera Gertrude Stein) ― e uma bela mulher.

Ao afastar-se do comunismo stalinista, Dos Passos entrou no período de declínio de sua produção literária. Depois de cobrir como jornalista a guerra civil espanhola, e perceber como Stalin aos poucos mandava matar seus colaboradores no país, nunca mais conseguiu escrever romances com o mesmo calor. 

Por sua obra anterior, a trilogia intitulada USA, e Manhattan Transfer, Dos Passos pode ser considerado um dos romancistas mais brilhantes de sua geração nos Estados Unidos, senão o maior. Contudo, enquanto Hemingway saiu da Espanha com o esboço de um romance que o levaria mais alto no estrelato (Por quem os sinos dobram), a alma literária de Dos Passos enfraqueceu, ferida pelos estilhaços de um desapontamento vital. Nunca mais escreveu algo do mesmo nível.

Enquanto sustentou seu ponto de vista engajado, Dos Passos o usou para a crítica de um país em que cada vez menos se admite, ainda hoje, as falhas do sistema. Destruída sua visão do mundo, traído por aqueles a quem defendera e afastado de Hemingway, Dos Passos se perdeu. 

Por sua associação com o comunismo, que lhe valeu a perseguição do macartismo, e também por tê-lo deixado depois, abandonado por seus antigos companheiros de partido, caiu no ostracismo. Hoje, quando se pergunta a um americano se conhece Manhattan Transfer, talvez ele se lembre apenas de um grupo musical brega que teve seus quinze minutos de fama na década de 1980.

Para os americanos, chega a ser incômodo pensar que um de seus maiores romancistas tenha sido comunista, algo que no país patrocinador da Guerra Fria se tornou uma maldição ― mesmo que o macartismo tenha terminado, ou que Dos Passos tenha se afastado do comunismo, quando a realidade brutal do stalinismo mostrou ao lado de quem ele servia. É muito mais fácil ter como monumento literário um gênio amoral como Hemingway, que fazia do individualismo sua única bandeira, mesmo que ele tenha servido de alguma forma ao comunismo stalinista. Na sua busca incessante de servir a si mesmo, Hemingway disfarçava melhor quando servia a outros. O professor Koch, aos poucos, vai demonstrando seu ponto de vista: como Hemingway, com seu perfil duvidoso, faz o milagre de desfrutar o apoio do apparatschik, sem perder a aura de ícone da Geração Perdida, que o colocou um pedestal da América capitalista.

Homem de um tempo em que as utopias eram tomadas nas mãos de ditadores pusilânimes e sanguinários, Hemingway morou seus últimos vinte anos em Cuba. Para isso, alegou não idealismo ou lealdade a Fidel Castro, mas o fato de que a ilha era o lugar perfeito para tomar daiquiris e praticar seu esporte favorito, a pesca de bico. Matou-se com um tiro de espingarda na boca, vítima da devastação física e moral a que o levou o alcoolismo ou, antes, o verme roedor das consciências. Porém, fez da própria morte, assim como da dubiedade de suas relações, incluindo com as mulheres, parte do mistério que alimenta seu mito. Enquanto Dos Passos submergiu, ele continua o romancista mais cultuado de todos os tempos.

Sendo eu também romancista, o livro de Koch me faz pensar. A qualidade literária sobrevive às ondas da política, aos ditadores de todos os matizes e às sociedades refratárias. Hoje, quando as ideologias são tão difusas que as diferenças parecem ser apenas a da pobreza e da riqueza, do Ocidente e do Oriente, do fundamentalismo desta ou daquela religião, os intelectuais perderam participação ativa na política e nos acontecimentos do mundo, afogados na falta de ideias ou de clareza. 

Não há correntes, ideais ou mesmo partidos com que se alinhar. Esvaziada como instrumento ideológico, a literatura deixou de buscar propósitos sociais, abandonando os ideais para servir somente ao individualismo. Livre das ideologias, o egocentrismo de Hemingway saiu vitorioso.

No entanto, O ponto de ruptura traz de volta à luz o talento de um romancista que olhava para dentro, mas também olhava para os outros. Mostra que se deve recolocar John Dos Passos em seu devido lugar histórico e literário. Dos Passos foi capaz de compreender Hemingway. Chegou a enviar-lhe uma carta reconciliatória, quando Hemingway deixou a Clínica Mayo, em Havana, para tratar-se de depressão e sintomas de psicose, manifestando preocupação com sua saúde ― duas semanas antes do antigo amigo explodir a cabeça com uma espingarda de caça.

Hemingway foi grande e ainda inspira, por sua vida e seus romances, reflexões profundas sobre a condição humana. Já Dos Passos foi duplamente grande: não só por escrever belamente, mas por ter sido, embora às vezes ingênuo, um exemplar daquela gente em extinção que não abdica de princípios, mesmo à custa do sucesso.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Suave era a vida


Gerald e Sara: dinheiro e artes que marcaram época
e fizeram a fama da Riviera Francesa
 Junho de 1923, um domingo em Paris. Festa depois da estreia do balé Les Noces, de Stravinsky. Pablo Picasso e Fernand Léger, já dois astros da arte cubista, o escritor Tristan Tzara e centenas de outros convidados da nata da sociedade francesa são recebidos ao som do piano no banquete montado sobre uma barcaça no rio Sena. Há uma grande disputa pelas atenções. Com as floriculturas fechadas em dia santo, as mesas são decoradas com carrinhos, bonecas, bichos de pelúcia, palhaços e outros brinquedos.

Entusiasmado, Picasso transforma a decoração em escultura – uma pirâmide cujo topo é formado por uma vaquinha malhada na ponta da escada de um carro de bombeiros. Depois de anunciar que faltaria à celebração por motivo de doença, o cineasta Jean Cocteau irrompe, vestido de capitão, com uma lanterna nas mãos e aos gritos: “Estamos afundando!” Depois de se divertir trocando de lugar as placas com os nomes dos convidados sobre as mesas, Igor Stravinsky, o homenageado, salta dentro de uma coroa de louros gigante como um cão amestrado.

Mais que ninguém, porém, brilham os anfitriões: Gerald e Sara Murphy, um casal de americanos atirados à mais absoluta dissipação, que depois da festa faria as malas rumo a Cap D’Antibes, onde os esperava o compositor americano Cole Porter, conhecido de Gerald desde seus tempos de Yale. Porter alugara lá o Château de La Garoupe – o dono do Hôtel du Cap, Antoine Sella, que fechava o estabelecimento entre maio e setembro, abrira-lhes uma exceção, franqueando os quartos para a estadia na companhia de Picasso, sua mulher, Olga, e o filho Paulo, então com dois anos de idade.

Lá os Murphy receberiam convidados, como a escritora Gertrude Stein (a rainha da chamada “Geração Perdida”), promoveriam piqueniques na praia, passeios de barco e festas à fantasia. Antes de partir para Veneza com os Porter, hóspedes do Palazzo Barbaro, os Murphy deixariam instituído o hábito do veraneio e a atmosfera chic que tornaria famosa a Riviera Francesa. E o sobrenome do casal como símbolo de estilo e de uma forma de joie de vivre em torno do dinheiro e da arte.

Com a alegria ao redor das garrafas de champanhe sobre a mesa, dos jogos de tênis com roupa impecavelmente branca e do veraneio na praia, que Gerald frequentava com sua camiseta listrada e bengala, e Sara de maiô adornado com pérolas, flutuava no ar o perfume que se desprende do mais ideal dos paraísos.



A vida era uma festa ao redor dos Murphy. Para os americanos ricos,
os anos 20 foram feitos para viajar e festejar noite e dia



Os anos 1920 eram um tempo de inocência, de crença numa prosperidade sem limites, impulsionada pelo fim da Primeira Guerra e a ignorância dos males que levariam ao crack de 1929 – quando foram à bancarrota não somente os milionários da época, como a ilusão de toda uma era. Talvez por isso Gerald e Sara tenham brilhado tanto e continuem a atrair tanto a atenção, sobretudo dos americanos, fascinados por sua vida, retratada em uma exposição itinerante, com obras de artistas como Picasso, Juan Gris e Georges Braque, algumas delas inspiradas na convivência com o casal.

Nessa exposição, há retratos femininos de Picasso usando Sara como modelo, aquarelas dedicadas aos Murphy por Léger, desenhos de Jean Cocteau e Francis Picabia e fotografias do casal feitas por Man Ray. Além de cartas, objetos pessoais e filmes caseiros em que, entre outros, aparecem os escritores John dos Passos e Ernest Hemingway, comensais da Villa America, propriedade adquirida na Riviera quando o Hôtel du Cap já não parecia o bastante.

Os Murphy ainda representam a versão mais refinada do “sonho americano” em tempos de absoluta prosperidade. Permanecem como ícone da riqueza como desfrute, consagrada na arte produzida ao seu redor. Em especial, como inspiradores do romance Suave É a Noite, de F. Scott Fitzgerald, que assim como Herman Melville e Henry James, forma a tríade dos autores clássicos americanos.

Fitzgerald foi companheiro de tertúlias dos Murphy na Riviera, num momento em que o escritor ainda procurava manter um padrão de vida semelhante ao deles, na companhia de Zelda – a aristocrática, extravagante e perturbada mulher que ajudaria o romancista a mergulhar em dívidas, no alcoolismo e nos malefícios do cigarro, antes de morrer de um ataque cardíaco aos 44 anos. Utilizou o estilo de vida do casal para enriquecer de detalhes a obra que selou seu papel como aguçado cronista daquela América próspera – revelada também por ele no seu lado mais hipócrita.

Perpassa a obra a sensação de que toda aquela riqueza desbundante e o espírito livre escondiam em si mesmos os genes da ruína, não apenas para os ricos dessa era de ouro, como de todo o país. Scott Fitzgerald foi ao mesmo tempo o grande celebrante e satirista do sonho que virou pesadelo”, escreveu o crítico literário Harold Bloom em seu livro Gênio, sobre os maiores mestres das ideias de todos os tempos. Para ele, a obra de Fitzgerald já levantava a velha pergunta: quanto tempo pode durar essa bolha de alegria que se repete nos tempos de fartura?


Hôtel du Cap, na Riviera, onde o casal recebia amigos
para cruzeiros em seus iates no Mediterrâneo


O romance mais famoso de Fitzgerald, O Grande Gatsby, celebrado nos Estados Unidos, é definidor do caráter de uma Nação, mostra como a América da Lei seca produzia seus milionários, levando um garoto das ruas de Nova York ao sonho americano pela via do crime organizado. A apresentação da máfia como um negócio qualquer, capaz de empurrar ao sucesso um “executivo” que compra suas camisas na Inglaterra, termina de forma trágica.

Suave É a Noite, porém, é a obra em que Fitzgerald melhor capta não somente o espírito americano, como a própria alma da riqueza – uma análise que deve muito à observação dos Murphy. Não por outra razão, esse é o romance que ele mesmo considerava sua obra-prima.

No livro, Dick River é um jovem e brilhante psiquiatra que interrompe sua carreira para se casar com Nicole Warren, uma herdeira bela, rica e mentalmente perturbada, que ao seu lado encontra certo equilíbrio, embora um tanto instável. A história é vista pelos olhos de uma aspirante a estrela de Hollywood, que durante uma temporada na Riviera Francesa se apaixona não só pelo protagonista como pela imagem de perfeição produzida pelo casal.

Para sua surpresa, ela os reencontrará anos mais tarde em situação completamente diferente. Recuperada, Nicole continua a levar sua vida de distanciamento da realidade num carrossel dourado. Descartado, Dick vê seu brilho se apagar num obscuro consultório no interior dos Estados Unidos, fadado a, depois de ter vivido num círculo de sonhos, ser enviado de volta ao seu lugar.

Muito mais um retrato da própria vida de Fitzgerald com Zelda, financeiramente arruinada e internada em diversos sanatórios mentais, Suave É a Noite contém muito da beleza desesperada do estilo de vida dos Murphy. Do casal, o escritor tirou alguns detalhes marcantes, como os colares de pérolas, a casa na Riviera e a aura que a cercava, bem como a exarcebação da vida social, a ligação com a arte e uma certa despretensão que embalava de maneira elegante o hedonismo mais desbragado.

Fitzgerald extraiu dos Murphy também observações menos edificantes, como uma certa frivolidade, oculta sob uma aparente perfeição, tão sutil quanto chocante. É essa frivolidade o substrato da história que, ao ser publicada em 1935, escandalizou Sara, a ponto de se julgar traída e devassada, dada a variedade de referências diretas à sua vida privada.

Na vida real, os Murphy não fizeram muito para ganhar dinheiro. O pai de Gerald foi esperto o suficiente para perceber que os automóveis tomariam o lugar das carroças no final do Século XIX e transformou sua selaria numa fábrica de malas de viagem, bolsas e congêneres, a Mark Cross Inc. Teve dinheiro de sobra para enviar o herdeiro a Yale e sustenta-lo por um período na Europa, onde Gerald vivia à larga, enquanto procurava engrenar como artista plástico.

Sara teve menos sorte apenas que seu pai, Francis Wiborg, um fabricante de tinta para escrever que se casou com Adeline Sherman, oriunda de uma família de políticos e oficiais laureados na Guerra Civil americana – o mais perto que se podia chegar da aristocracia nos Estados Unidos, com direito à mesma vida nababesca dos agraciados com títulos, terras e brasões.



O escritor F. Scott Fitzgerad e a esposa Zelda na vida real
e uma cena do filme Suave é a Noite, baseado no estilo de vida
e personagens do universo inpsirador dos Murphy

Ela desabrochou em Dunes, mansão dentro de uma propriedade de 600 acres pertencente à família em East Hampton, mas bem cedo foi apresentada à aristocracia de verdade. Levada pela mãe, conheceu a corte do rei Eduardo VII em Londres, onde adquiriu muito do seu estilo, inspirada na duquesa Violet Ruthland – célebre na Inglaterra pós-vitoriana por seus dotes como artista plástica e a liberdade com que variava os seus amantes.

Além do comportamento que precedia o feminismo, Sara tomaria da duquesa Violet o gosto por pérolas, usadas sempre e de todos os jeitos, especialmente nos colares que caíam sobre os longos decotes nas costas, imortalizados em desenhos de Picasso.

Em Londres, ela participou da intensa vida social da mãe, celebrizada como anfitriã do Baile dos Vegetais, no qual os convidados da mais fina flor recebiam produtos hortifrutigranjeiros como brinde na entrada do hotel Ritz – a filha da duquesa de Ruthland, Alice Cooper, saiu-se a estrela da noite ao vencer a “corrida das batatas”.

Mal falada nos Estados Unidos, depois de retornar ao país com uma carga ilegal de joias na bagagem, declaradamente para uso próprio, Adeline voltou à Inglaterra em busca de um bom partido para a filha. O projeto foi interrompido por um giro pelo Oriente e o posterior reencontro de Sara com Gerald, que ela conhecia há quase uma década, desde uma festa nos Hamptons, quando tinha 21 anos e ele 16.

Ambos se consideravam “almas gêmeas”, sonhavam ser artistas e viver em liberdade absoluta, um cenário que ganhou rápida oposição familiar de ambos os lados. Para se afastar do mau humor doméstico, depois de um casamento retratado na capa da revista Town & Country, o casal deixou Nova York em 1921 com destino a Londres e a intenção de se radicar em Paris, transformando em realidade o projeto juvenil de fazer da vida “uma obra de arte”.

Além de se manter distante da censura dos pais, Gerald teria na Europa novamente o ambiente ideal para pintar e, diferente de seu país, onde reinava a proibição do álcool, exercitar-se como conhecedor do cherry e do champanhe.

Inspirado em Georges Braque, André Derain e Pablo Picasso, cujas obras conheceu junto com os autores nas galerias parisienses da Rive Gauche, Gerald chegou a pintar telas e expor, mas nunca vingou nas artes plásticas – por sorte, não dependia de dinheiro. De todo modo, atraiu os artistas para seu círculo pessoal, com grande ajuda de Sara, cuja beleza e modos encantavam a todos – especialmente Picasso, mulherengo incorrigível. O artista espanhol os convidou para ir à sua casa na Rue de La Boëtie e logo os transformou em amigos próximos.

Faziam parte desse círculo a irmã de Sara, Hoytie, lésbica assumida, esnobe e agressiva, sobretudo quando alcoolizada, e Fernad Léger, eleito por Gerald como seu guru nas artes. Seu trabalho alinhava-se com o primeiro período modernista na geometria absoluta das formas e na temática própria do período da industrialização. Entre outras coisas, Gerald retratou mecanismos de um relógio e o convés de um navio que o levara à França, sua tela mais conhecida, com a qual participou do salão de artes plásticas de Paris em 1924 ao lado dos astros da época. Suas obras, porém, ficaram mais conhecidas pelo tamanho, sugestivo da ambição do autor, que pela sua qualidade.

Depois de cinco anos sem o esperado reconhecimento, exceto pelo gripo seleto de amigos que o chamavam meio zombeteiramente de “o único pintor americano em Paris”, Gerald abandonou a carreira e as veleidades artísticas, decretando que o mundo estava “cheio demais” de candidatos a gênio como ele.

Dedicou-se, então, ao que mais gostava: o incentivo às artes e a vida social. Recebia os amigos na Riviera, hospedado com Sara no Hôtel du Cap, enquanto aguardavam a reforma do chalé La Garoupe, adquirido pelos Murphy em 1923. Os verões famosos passaram a incluir cruzeiros pelo mediterrâneo a bordo de algum dos iates da família. Discretamente, Geraldo iniciou-se em relacionamentos cujo impulso tentou abafar durante toda a vida. Seu guarda-roupa recheado de fantasias, entre as quais de caubói, gondoleiro veneziano e caçador incluía trajes que sugeriam certa tendência à homossexualidade.

Ele chegou a se aproximar de um jardineiro de Boston, Richard Cowan, seu companheiro frequente de vela, que mais trade, em 1939, se suicidou sem motivo aparente. Gerald certamente discutia sobre sexo com Fitzgerald, o que acaba por transparecer em Suave É a Noite. Inspirado em Gerald só menos que em seu criador, o personagem principal do romance é definido no texto como alguém cujo gosto por “tiras e fivelas” indicava uma personalidade “masoquista”.

Nada disso, porém, parece ter atrapalhado o relacionamento de Gerald e Sara, dentro do espírito de elegante discrição com o qual eles mantinham a fachada de um casamento mais que perfeito, tão bem retratada em Suave É a Noite. Ela fazia vista grossa à aproximação dele com o amigo Cole Porter e por seu lado, embora fiel, dava pano para o flerte com artistas ao seu redor. Teria sido por recusar os seus encantos a Picasso que este, como um gesto de vingança bem ao seu estilo, tria retratado Gerald no quadro As Flautas de pã, um clássico da pintura modernista. Picasso personifica as antigas tradições em um flautista dionisíaco, representado por ele mesmo, que toca diante das “perdições do mundo” – uma figura em que Gerald detectava seus próprios traços. Tal referência nunca foi explícita, mas, desconfiado da semelhança, ele se afastou, esfriando a relação entre ambos.

Em Paris, numa sociedade aparentemente democrática, mas que via com certo preconceito os americanos, tão endinheirados quanto desprovidos de cultura – a própria efígie do novo-riquismo -, Gerald e Sara eram algo diferente. Devotados ás artes, tão educados e encantadores quanto pródigos, integravam-se ao ambiente festivo da época com a mais magnética combinação. Entre coquetéis e passeios pela Riviera, Gerald desfilava o seu charme extravagante, que incluía posar nu para fotografias, enquanto Sara exercia o fascínio da mulher espirituosa, calorosa e capaz de falar livremente sobre tudo – uma combinação fatal, ainda mais embalada pela beleza física.


A tela As Flautas de Pã, em que Picasso retrata Gerald.
À dir. Picasso em primeiro e Gerald em segundo plano



Entre seus ardorosos fãs, estava Fitzgerald, que alugava uma villa em Cap’Antibes, mas passava a maior parte do tempo com o casal.

Em 1925, o chalé dos Murphy em La Garoupe ficou pronto. Batizado de Villa America, a casa ganhou em tamanho. Tinha tijolos negros no chão e paredes brancas, a exemplo do apartamento do casal em Paris, no bairro de Montparnasse, onde havia uma única obra de arte: uma grande bola de metal girando num pedestal ao lado do piano de ébano.

A propriedade dos Murphy na Riviera possuía um terraço nos jardins que sugeria um pedaço do paraíso e um estúdio no antigo estábulo. Uma babá, um cozinheiro, um motorista e outros criados davam conta do serviço, que incluía a manutenção dos chalés, erguidos para acomodar os convidados. Além de Picasso e dos velhos amigos, eles recebiam celebridades do mundo intelectual, como os escritores Ernest Hemingway, Robert Benchley, John dos Passos e Dorothy Parker.

Comunista engajado, dos Passos conseguiu passar na Villa America no máximo quatro dias – tomou a decisão de ir embora, com receio de se render ao capitalismo. “Era fomo viver no céu”, escreveu. “Eu tinha de voltar para a terra.”

Depois do crack de 1929, a vida dos Murphy se tornou mais difícil. Com grandes perdas nas bolsas de valores, eles tiveram de apertar o cinto. A Villa America foi alugada e eles voltaram aos Estados Unidos, onde Gerald assumiu o comando da empresa da família, que dirigiria até 1956. À depressão econômica, sobreveio a tragédia da morte sucessiva de dois de seus filhos. Baoth sucumbiu à meningite, em 1935, e Patrick à tuberculosa, em 1937, depois de uma longa batalha contra a doença. Os Murphy se retiraram da vida social, embora continuassem ligados às artes e aos amigos.

Gerald teve na maturidade a vida da qual procurara escapar, despachando em um escritório e fazendo seu almoço regularmente no mesmo lugar, enquanto Sara se dedicava ao trabalho voluntário com crianças. Jamais falavam do passado nem sobre os filhos perdidos, como se a antiga vida tivesse se espatifado feito um lustre de cristal. Terminaram ocupando um chalé em East Hampton, no que restara da antiga propriedade da família de Sara. Lá, Gerald faleceu em 1964, aos 76 anos, e Sara em 1975, aos 82. Seu casamento durara 60 anos.

As sete obras que restaram da curta produção de Gerald se tornaram peças de museu não apenas por sua raridade, como pela história que fez a sua mística. Em 1971, surgiu o primeiro livro efetivamente biográfico dos Murphy, sugestivamente intitulado Viver Bem é a Melhor Vingança, escrito por um colaborador da revista New Yorker, Calvin Tomkins. Em 1998, despontou outra biografia, Todos Eram Tão Jovens, de Amanda Vaill.

Os revisionistas dos Murphy ressaltam sua influência na cultura americana pela sua proximidade com a vanguarda das ideias e das artes que traziam para a América ao retornar de suas temporadas europeias. Loas são entoadas sobre a influência do casal na moda e nas artes. Sabe-se hoje que Coco Chanel inspirou-se no comportamento libertário dos Murphy. Le Corbusier foi um admirador da reforma na Villa America. Há quem tente atribuir a Gerald o papel do pai da pop art.

Os Murphy também teriam financiado Hemingway, sobretudo no início de carreira, no período parisiense, em que ele chegou a passar fome, comi o próprio escritor relata em Paris é Uma Festa, livro de memórias da juventude, publicado postumamente. Talvez ferido pela recepção no mercado de sua melhor obra inicial, escrita no mesmo estilo de Suave É a Noite e claramente com a intenção de superar o amigo e eternamente rival Fitzgerald, Hemingway escreveu sobre os Murphy: “Sob o efeito do charme desses milionários, eu era fiel e estúpido como um cachorro de caça. Quando eles diziam ‘está ótimo, Ernest’, referindo-se a O Sol Também se Levanta, eu balanço o rabo, em vez de pensar... Se esses bastardos gostam disso, o que há de errado com o livro?”

Como se vê, a poética “vida transformada em arte” é como o fogo: fascinante, mas também pode queimar.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Lerner e a mágica da política


(De 21 de maio de 2021)

Quando eu era editor da revista VIP, ainda um suplemento de Exame, fiz uma capa com o então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, que mais tarde seria duas vezes governador do Estado – e poucas vezes testemunhei um político tão nas graças da população.

Era uma delícia andar com ele na rua. As pessoas vinham conversar, como se encontrassem um velho amigo. Eram gratas e carinhosas. Lembro de passarmos diante da estufa de vidro que ele construíra no florido Jardim Botânico, num fim de tarde ensolarado. Crianças brincavam por ali, perto dos pais. Acho que me emocionei tanto quanto ele em ver aquilo.

Lerner, ou o Polaco, como os amigos o chamavam, era realmente especial. Identifiquei-me com ele em várias coisas. Arquiteto de formação, tinha uns caderninhos onde rabiscava projetos, anotava ideias, algumas utópicas, outras que acabavam virando projetos de governo.

Ali ele me mostrou esboços como o da Ópera de Arame e do Ligeirinho, sistema de ônibus rápido, que funcionava quase como um trem, em faixas exclusivas e com facilidades para o embarque, de modo a ganhar tempo.

Lerner, que acaba de falecer, aos 83 anos, foi um bom exemplo do que é possível fazer com a política. No governo estadual, ele acabou tendo problemas e submergiu, como acontece com muita coisa boa, submetida tempo demais aos efeitos deletérios da política.

Porém, deixa um legado, não só para o Paraná, mas de como é possível fazer algo bom e verdadeiro na política, com interesse real pelo bem coletivo. E permanece um exemplo de que a maior recompensa da vida pública não é o dinheiro, mas esse patrimônio de paz, colaboração e progresso que podemos deixar no processo da civilização.

#jaimelerner #politica #brasil #curitiba #revistavip


quarta-feira, 18 de maio de 2022

Entrevistas (quase) impossíveis

 Eu colecionei, na minha carreira de jornalista, alguma entrevistas consideradas impossíveis. Lembrei agora de algumas, porque há pouco me telefonou um jornalista,  querendo que eu contasse a história de como entrevistei o banqueiro José Safra, quando ninguém sabia quem ou como ele era, nem por fotografia.

Essa história,  pelo jeito, vai parar numa biografia de Safra, com quem almocei  sozinho, numa mesa para 50 pessoas, mas vazia, tendo ele à minha frente e ao lado apenas um mordomo de luvas brancas.

Não será a primeira vez que sai publicado um livro em que o autor se apoia no que escrevi, como entrevistador de um personagem complicado. Há algum tempo saíram duas biografias de Geraldo Vandré, quando completou 80 anos, citando uma reportagem que escrevi sobre no final dos anos 1990, mas tão rara que ainda é referência sobre ele. Tive vários encontros com Vandré, uma história surrealista, que começou depois de um mês em que eu passava bilhetes por baixo da porta da casa dele, diariamente, pois ele não tinha nem usava telefone.

Há outros casos. Fui o primeiro de dois ou três jornalistas que já entrevistaram Edir Macedo - e numa época em que ele não falava com ninguém mesmo, após ser preso. Falei com Eike Batista, quando ele ainda não dava entrevistas. E me recebeu com uma pistola em cima da mesa de trabalho.

Essas histórias estão num livro, já meio antigo e pouco conhecido: Eles me disseram, publicado pela Saraiva. Encontra-se na Amazon e algumas livrarias na seção de "linguística", sabe-se lá a razão. Acho que é para se torne tão difícil de encontrar como os personagens que me deram um trabalhão.

#thalesguaracy #jornalismo #reportagem #josesafra #edirmacedo #eikebatista #imprensa

terça-feira, 17 de maio de 2022

No Brasil (quase) intocado

Navegamos pelo rio Negro, a partir do ponto onde ele encontra o Solimões, onde nasceu a cidade de Manaus - local importante na história do Brasil e de grandes aventuras, narradas em A Criação do Brasil (1600-1700). 

Aqui passou Orellana, na primeira expedição que, vinda da América Espanhola, alcançou a foz do Amazonas, jornada entre as mais extraordinárias da história da humanidade.

Caminho feito duas vezes pelo bandeirante Pedro Teixeira, com cerca de 2 mil pessoas, que subiram o rio de Belém até Quito, no Equador, num tempo em que portugueses eram perseguidos pela inquisição nas cidades de colonização espanhola. 

Expulso de volta para o Brasil, fez todo o caminho de volta vigiado por dois padres. E deixou por aqui um marco de pedra, encontrado, anos mais tarde, na célebre e quase esquecida expedição de Raposo Tavares, que definiria  o tamanho do território brasileiro atual.

Esta era uma terra infestada de perigos, incluindo os temíveis omáguas, índios antropófagos, com a cabeça quadrada, formatada em uma caixa de madeira quando crianças, que deixaram poucos traços. 

A beira do Amazonas era então povoada de índios, muitos deles hostis, e dizia-se do Negro, um rio de pouca vida, animal e fluvial, que escondia grandes tesouros, possivelmente o Eldorado.

Para mim a experiência foi um tesouro, e os amigos que dela partilharam sabem.

@raphaelmontes
@aliceruizs
#acriacaodobrasil

quarta-feira, 11 de maio de 2022

A "geração da liberdade"


Já chegou às livrarias Asas Sobre Nós, meu novo livro, uma surpresa até para mim. Um grande poema e não, como esperariam talvez alguns leitores, um livro de história, ou um romance, ou mesmo memórias. Ficou sendo poesia, embora, ou talvez por essa razão, seja também tudo isso que eu faço – história, romance, memórias, reportagem.


Faz algum tempo, eu tinha esse projeto de livro, com o qual não estava sabendo lidar. Queria contar a história do nosso tempo, da minha geração, que chamo, no livro, de “geração da liberdade” - claro que do meu ponto de vista, o de quem, como tantos, viveu e participou da história recente.

Tentei escrever o livro como história. Achava tudo repisado. Tentei como memórias. Não gostei, achei presunçoso. Pensei em romance. Não saía.

É difícil ser o editor de si mesmo, então procurei uma opinião que eu mesmo, autor e editor, respeito. Já tinha levado a Pedro Paulo Sena Madureira, meu primeiro editor, outro livro, em que sofri com a mesma dificuldade, e que escrevi duas vezes, uma como prosa, outra como poesia.

Ele gostou muito do livro em prosa – mas, na forma de poesia, ficou maravilhado. Dali em diante, passou a me tratar definitivamente como se eu fosse um dos nossos monstros literários, muitos dos quais editou e de quem se tornou amigo íntimo, como Clarice Lispector.

Fez comigo o mesmo trabalho de edição que realizou com poetas como Adélia Prado. Examinamos o poema, que é um livro inteiro, frase por frase. Para mim, um assombroso privilégio. “Você é meu”, disse-me ele, ao final. Ele ainda é um editor – e possessivo com as pérolas que acredita ter achado.

Desde essa experiência, não consegui escrever mais nada sem ser dessa forma. Assim nasceu também Asas sobre nós, que passou o primeiro livro na ordem de publicação, por ser talvez mais urgente, tendo sido escrito sob o signo da pandemia. Deixou em Pedro Paulo a mesma impressão que o anterior.

É meu livro mais genuíno,  mais pessoal. Uma história afetiva, feita não de fatos, mas de amor, sonhos e realizações, certezas e perplexidades, minhas e nossas. Como eu queria, retrato da nossa época que só quem a viveu poderia fazer.

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Uma história do "espírito do nosso tempo"


“Você é um escritor”, disse Pedro Paulo Sena Madureira, o Oráculo da rua Sergipe, meu primeiro – e sempre – editor, depois de ler Asas sobre nós. “Um escritor no sentido genuíno da palavra, pois uns são romancistas, outros poetas, ou ensaístas, ou prosadores de não ficção. Mas você, como Fernando Pessoa e alguns poucos, trafegam por todos os gêneros, e belamente.”

 

Conto isto não por imodéstia ou vaidade, e sim, na realidade, para explicar uma dificuldade, que me levou a escrever Asas Sobre Nós da forma como é. E não, como esperariam talvez alguns leitores, um livro de história, ou um romance, ou mesmo de memórias. Ficou sendo um livro de poesia, embora, ou talvez por essa razão, seja tudo isso – história, romance, memórias, reportagem.


É muito pessoal, mas narra a saga de todos nós, ou pelo menos de quem, como eu, viveu desde o fim da ditadura militar, passou pela democratização, por fascinantes e fundamentais mudanças no Brasil e no mundo. Reflete quem chega à maturidade, hoje, talvez um tanto perplexo, colocando na balança nossas realizações. A vida e a contribuição para a história da “geração da liberdade”.

 

Ah, sim, Asas sobre nós é também uma história de amor, que se confunde com a energia e o sonho da juventude e vai amadurecendo, como nós e o mundo. Vida pessoal e coletiva assim vão se misturando, sem que saibamos ao certo qual influencia mais a outra.


Este livro estava indo para a editora Record, onde publiquei meu último romance, mas aconteceu no meio do caminho a oportunidade de lançar no Brasil a Assírio & Alvim, maior editora de poesia em Portugal, casa dos grandes poetas portugueses, de Camões a Pessoa, vindo aos contemporâneos. Assim, Asas sobre nós acabou virando a primeira obra de um brasileiro na Assírio & Alvim - e no Brasil. E a única da qual não sou o editor, e sim, na prática, o Pedro Paulo.

 

Hoje posso dizer que de fato eu não saberia escrever este livro de outra forma. Graças às minhas conversas com Pedro Paulo, entendi que agora essa é minha linguagem, e tudo o que passei a fazer dessa maneira, desde então, flui caudalosamente.


A poesia já deixou de ser algo que sempre fiz para mim mesmo, como um exercício, ou uma prece. um momento íntimo, quase que diário. Agora, está indo para a rua. E o julgamento que mais interessa, sempre, é do leitor.

 

Asas sobre nós é, portanto, o que eu chamo de um poema geracional. É um livro ambicioso, como todos os que faço, e não deixa de ser um livro de história, mas, desta vez, como digo na obra, é uma história não de fatos, mas do “espírito dos tempos” – nossos sonhos, nossos desejos, aspirações, e o que disso fizemos.

 

A história que, no fim das contas, mais importa a todos nós, e agora permaneceu, olha aí a poesia, quase sem voz.