sábado, 6 de agosto de 2022

No mundo do criador. Meu perfil de Jô Soares, para VIP, novembro de 1995

Embora fosse o entrevistador mais célebre do Brasil, o showman Jô Soares raramente concedia entrevistas. Em 1995, abriu-se a janela para uma delas, quando ele promovia o lançamento de seu primeiro romance, o policial satírico O Xangô de Baker Street. Em seu apartamento no bairro de Higienópolis, Jô recebeu a mim e ao diretor de redação de Vip na época, Marco Antônio Rezende, com a condição de que somente poderíamos publicar a reportagem depois que passasse pela sua leitura. No início, pensei ser algo inaceitável na imprensa. Hoje, vejo o pedido dele mais como uma gentileza entre colegas de profissão.

Jô concordou em falar sobre tudo, até mesmo seu filho Rafa, sobre quem sempre deu poucas declarações. Posou de bom grado para uma sessão de fotografias, com o tradicional terno e gravata borboleta, conjunto ao qual fez questão de acrescentar um charuto. Muito cioso e experiente no controle da própria imagem, queria surgir no seu coté mais intelectual.

Voltamos à casa de Jô uma segunda vez com o texto pronto, para o momento delicado da leitura por parte do personagem.

– “Luzinhas piscam”? – disse ele, repetindo em voz alta a primeira frase, com uma careta. – É assim que começa?

– É – respondi.

Jô seguiu em frente e o resultado pareceu agradá-lo. Não fez qualquer reparo ou pedido de modificação do texto, nem sobre as tais luzinhas. Eu e Marco Antonio voltamos para a redação aliviados. Tínhamos a capa da revista, sem brigar com o Jô.

O texto original da revista foi publicado num livro de perfis de pessoas célebres, que publiquei pela editora Saraiva (Eles me disseram). Jô virou amigo. Fui entrevistado por ele duas vezes em seu programa, a última delas em 2015, quando lancei A Conquista do Brasil. Eventualmente conversávamos. Jantávamos no Jardim de Nápoli, porque, lá, ele não pagava a conta. E eu aceitava, para pegar carona  na gentileza do dono da casa. Eram jantares sempre divertidos, em que gostávamos especialmente de trocar histórias sobre gente de imprensa - ele conhecia muitas, e era uma delícia ouvi-lo contar.

Estranho que o texto termine falando de uma certa aristocracia que só acabaria junto com Jô. Ele acaba de falecer, para tristeza geral, e, tantos anos depois, continuo pensando a mesma coisa. E este perfil, construído no seu auge intelectual e criativo, ainda me parece o melhor Jô. 

 

(texto)

No mundo do criador

Luzinhas piscam como vaga- lumes eletrônicos na escuridão. Jô Soares acende a luz e aparece a grande biblioteca de seu apartamento, em Higienópolis  São Paulo. Nas estantes de madeira patinada, sob inspiração do arquiteto Sig Bergamin, acomoda-se 2000 livros, a maioria encadernados —sem contar os que há em sua casa de Petrópolis. Como o comandante de uma espaçonave, Jô instala-se na mesa em semicírculo ao fundo do salão. Sobre ela, o elemento mais proeminente é uma elegante caixa umidificadora de charutos, de rádica. De um conjunto de som, faíscam as luzinhas sequenciais. À direita, um poderoso microcomputador Pentium, tela gigante, um aprelho de TV Philips, e a janela onde pousam duas corujas espanta-pombos , de cerâmica, com vista para o bairro arborizado.

            Na parede do outro lado repousa um quadro a óleo em estilo pop de autoria do próprio Jô. É uma caricatura dele mesmo, gostosamente refestelado numa poltrona, com a roupa do Super—Homem e chinelas. Dorme segurando os classificados de um jornal, ao pé do retrato emoldurado de um sujeito bigodudo. “O nome do quadro é O retrato de Nietzsche na casa de seu filho”, explica.

            Não é só auto-ironia que quebra a perfeita organização do ambiente. Pelos cantos, há algumas pilhas do livro que Jó lançou recentemente: O Xangô de Baker Street, sua estréia como romancista. A história, um policial protagonizado pelo legendário detetive Sherlok Holmes no Rio de Janeiro do Segundo Império, é claramente algo com a marca de Jô. Na trama, personagens reais e fictícios se misturam com a naturalidade que ele imprime às suas mais finas criações. Para quem se espantou ao ver Jô romancista,diga-se que o livro já era um sucesso no lançamento.  Nas primeiras três semanas, foram vendidos cerca de 130 000 exemplares de Xangô. Nesse pouco tempo, ele quase alcançou a marca final de Agosto, último romance de um especialista no ramo, o escritor Rubem Fonseca( 160 000exemplares vendidos). E aproximou-se a passos rápidos dos recordistas da sua editora, a Companhia das Letras( Estorvo, de Chico Buarque, e Paratii, de Amyr Klink, com 200 000 exemplares). “Este vai ser o nosso melhor ano”, proclama o normalmente comedido editor Luiz Schwarcz.

            O Jô romancista cavalga com desenvoltura um sucesso do mesmo tamanho do Jô da TV. Mas a nova encarnação de Jô, literato, explodiu de modo um tanto inesperado, até para o editor Schwarcz, que ao lhe pedir um livro sugerira um compêndio sobre a história da televisão brasileira. “Não sei porque estranharam que eu tivesse escrito um romance”, diz Jô, enquanto solicita uma ajudante doméstica, ainda fardada para o seu plantão noturno, uísque com gelo para os seus convidados. Para ele mesmo pede um imbatível guaraná diet- bebida predileta dentre as que se permite. “Isso é um prolongamento da atividade do artista”, prossegue. “Se eu fosse engenheiro ou neurocirurgião , aí talvez se justificasse algum espanto”.

            Não se pode dizer , também, que Jô seja um neófito nas pretinhas, como os jornalistas costumavam chamar a máquina de escrever na era pré- computador. “Eu trbalhei pela primeira vez em jornal em 1961, quando escrevia uma coluna diária no Última Hora”, conta Jô, entre goladas de guaraná. “Era uma coluna com pessoas, artistas e espetáculos.” Na época, como era costume entre a elite do jornalismo paulistano, ficava até altas horas da madrugada em debates boêmios no velho restaurante Gigetto com os colegas da redação .

            De certa forma, nem mesmo os oito anos em que Jô confirmou-se como o melhor entrevistador da televisão brasileira, no seu tradicional programa Onze e Meia, ou escrevendo na coluna semanal na revista Veja, foram suficientes para encobrir sua imagem como humorista e homem de TV e teatro, onde ainda atrai multidões com seu one- man- show Um gordo em Concerto. Até porque ele faz questão de dizer que como jornalista seu principal elemento é também o humor.

            Pode-se ver muita coisa do Jô intelectual em Xangô. Persiste no seu livro a graça com que ele coloca um clássico personagem dos romances policiais, o detetive Sherlock Holmes, e seu amigo, o doutor Watson, a investigar uma série de crimes no Rio de Janeiro do Imperador Pedro II. Ao recriar os personagens a seu modo, inventar outros e ainda entronizar uma participação especial de personagens históricos, como a atriz Sarah Bernhardt e o próprio Dom Pedro, ele se diverte misturando ficção ao documento minucioso da época, o que imprime ao livro uma interessante mistura de graça e erudição.

            Com seus dedinhos , JÔ saca um Hoyo de Monterrey, doble corona, fura a ponta e o acende com prazerosas fumaradas. Diz que este é um velho hábito seu, embora só tenha vindo a aparecer publicamente empunhando charutos agora que está lançando o livro, na condição de entrevistado, e não na de entrevistador. Jô entende de imagens como poucos—e quer mostrar seu lado sério para que não levem seu livro na brincadeira. “Gosto muito de charutos, embora não tenha preferência por nenhum”, ele diz. “Fumo cubanos, porque eles realmente são algo diferente. É como vinho francês e pastel e sanduíche de botequim. O sanduíche em casa nunca é igual ao do bar. Faltam os germes, as bactérias e a mão suja de quem faz”.

            Entre uma e outra baforada, ele se entrega com evidente prazer à tarefa de recompor seu percurso profissional e intelectual. Lembra que em 1965 chegou a passar um dia prestando depoimento no Dops por participar de reunião de intelectuais de apoio à classe teatral, quando esteve entre os integrantes da mesa. Diverte-se ao lembrar: “O policial que me interrogou me perguntou, com grande seriedade: “O senhor sabe que intelectual é palavra inventada pelos comunistas?”

                                                                                                                                    De uma gaveta bem à mão, JÔ saca uma pasta com cópia de sua ficha nos récem – abertos arquivos do Dops paulista, retirada por um amigo. Põe-se a ler, quase embaraçado pela estupidez de uma era passada e obscura: “Elemento  nomeado ministro extraordinário da eucaristia, formado por Dom Helder Câmara...”Explica: “Eu fazia espetáculo no Brasil todo e ajudava na eucaristia. Achava que o leigo deveria participar mais da Igreja e fiz curso em São Paulo com Dom Lucas Moreira Neves. Estive com Dom Helder apenas quando fiz um show no Recife”.

Ele assesta os óculos e prossegue na leitura: “Autor da música Liberdade, proibida pelo Dops”... Nova explicação: “Fiz para o Ari Toledo. A letra dizia que ele queria morar na Liberdade (o bairro de São Paulo), que a rua tal e tal ia dar na Liberdade, mas que a Brasil e a Estados Unidos não iam dar na Liberdade... Claro que a gente fazia oposição como podia”. Jô chegou a ser processado quando trabalhou no Pasquim, naqueles tempos brabos, por causa de um artigo chamado “A cama”. “Dizia que a cama chamava-se cama por causa de seu suposto inventor, um homossexual assumido e famoso chamado Giovanni Cama”, explica Jô. “Daí a frase: Crie fama e deite-se no Cama”. Ri. “Não tinha nada demais, mas era o Pasquim, e qualquer coisa servia de pretexto para censurar a esquerda e podar a livre criação.”

 Talvez Jô acabasse conquistando fama no jornalismo se não tivesse iniciado a carreira de ator no filme “O homem do Sputnik”, em 1958, e começado a trabalhar na TV Rio na mesma época. Depois, foi convidado para a TV Globo pelo amigo Max Nunes, cardiologista que nas horas vagas tornou-se um dos mais talentosos autores de rádio e televisão do país. O mesmo Max Nunes, agora com 73 anos, aposentado da Medicina, com quem Jô ainda faz parceria – é seu co-autor na TV, em caráter de exclusividade. “Fizemos o Faça Humor, Não faça Guerra, ele escrevendo, eu escrevendo e fazendo personagens”, diz. Ele olha para o seu Pentium e lamentou que ainda não estivesse à sua disposição naquela época. “Escrever naquelas máquinas era um trabalho estivador”, diz Jô. “Principalmente a Família Trapo, um programa semanal de 2 horas. E ainda tínhamos de escrever tudo naquelas folhas de mimeógrafo. Ao final, estávamos completamente azuis”. Mas não se pense que o Pentium escreve sozinho. “O ato de escrever”, diz o novo romancista, “é como parir sem ser mãe”.

Jô fez incursões variadas também por outras searas artísticas, nem sempre com o mesmo sucesso, diga-se. Foi o caso, por exemplo, de seu único filme como diretor: “O pai do povo”, de 1975. “Foi uma frustração ter feito um filme que ninguém viu. Pelo menos, virou um cult às avessas”, disse. O Jô artista plástico participou em 1967 da 9ª. Bienal de Artes Plásticas de São Paulo, que ficou conhecida como a Bienal da Pop Art .

O ecletismo de Jô na área artística encontrou correspondência em outros aspectos de sua vida. Declara descaradamente que prefere um gorduroso cheeseburger às iguarias dos melhores restaurantes, embora tenha as de sua predileção, como o boeuf bourguignone do restaurante Daniel e o hambúrguer do P.J. Clark’s, em Nova York, ou o chucrute da Mansion d ‘Alsace, em Paris.

No Rio, Jô aprecia o cardápio do Hipopótamus e a carne seca e desfiada do Pantagruel. Em São Paulo, gosta do Massimo e é fã do polpettone al sugo de pomodoro do Jardim de Nápoli, que oferece a vantagem adicional de ser perto de sua casa. Jô é consumidor voraz também de livros. Entre suas leituras prediletas, relaciona clássicos como Eça de Queiroz, Ernest Hemingway e Dostoiévski, mas também escritores marginais. Como Frederic Brown, autor de contos curtos que ele degusta com prazer, e de um romance intitulado “Os Marcianos Se divertem”. Trata-se da narrativa de uma invasão de “marcianinhos verdes super cafajestes”, descreve Jô, que perseguem as pessoas em toda parte, inclusive na cama.

“Brow tem um humor ferino de que gosto muito”, diz ele. “Acho que os gremlins são fruto direto dos marcianinhos dele.” Para provar que está falando sério, Jô se dirige ao Pentium e tenta puxar o nome do escritor nos arquivos da Enciclopédia Britânica em versão CD—ROM. Nada. “Ele é tão marginal que nem na Britânica está”, diz. Depois, olhou para os livros em sua estante, levanta e busca um volume em francês onde consta uma brevíssima biografia de Brow. “Está vendo?”

Ao passar da bancada do entrevistador para o entrevistado, na esteira do romance, descobre-se um Jô Soares um pouco diferente daquele que todos acham conhecer da televisão. A começar pelas idéias, que muitas vezes deixa filtrar no seu programa, mas que só então aparecem inteiramente explicitadas.  Sua declarada posição ideológica, por exemplo: “Eu sou o anarquista que todo artista deveria ser”, diz. “Preservo a capacidade de criticar a quem quiser.” Essa profissão de fé tem seu lado muito prático. Jô, por exemplo, foi uma das primeiras - e poucas - personalidades a disparar contra o presidente Fernando Henrique Cardoso, uma unanimidade entre seus pares no mundo intelectualizado, ainda antes das eleições para a presidência da República, em 1993, quando decidiu aliar-se ao PFL: “Sou um democrata enraizado”, diz. “Essa aliança com o PFL incomodou todo mundo. E não era necessária”.

Ele também tem opiniões bastante singulares sobre o seu próprio meio. Acha bobagem, por exemplo, a conversa muito freqüente segundo a qual a TV imbeciliza o povo. “A função dela é pegar coisa de fora e levar para dentro da sua casa. Se você não ligar o aparelho , não será nociva, mas também não trará nenhum benefício - nem notícias, entretenimento, filmes. Nada. Na verdade, ela democratizou a informação, que antes era elitizada de modo indiscutível. Tenho empregados que às vezes estão mais bem informados do que eu sobre o que está acontecendo na economia.”

Casado pela terceira vez, com Flávia, Jô cultiva a discrição em relação à sua vida particular. Nas últimas semanas, expondo-se na nova faceta de escritor, acabou tendo de falar de assuntos que antes tenderiam a permanecer no terreno estritamente privado, como religião. Declara-se devoto de Santa Rita de Cássia, de quem tem uma imagem de meio metro de altura bem ali, em seu escritório. Diz que é assim desde criança, por influência da mãe. “Acho que Santa Rita me protege”, afirma. “Como tudo que é irracional, não tem muita explicação.”

Durante um programa Roda Viva, da TV Cultura, o momento mais emotivo foi aquele em que respondeu à pergunta de um telespectador sobre se tinha filhos. “Eu tenho um, hoje com 31 anos, o Rafael”, diz Jô. Rafael, que mora com a mãe, Tereza Austregésilo, com quem Jô se casou aos 21 anos, tem problemas semelhantes aos do personagem autista interpretado por Dustin Hoffman no filme “Rain Man”, embora ele evite mencionar o nome médico para o assunto. “O Rafinha tem um talento enorme para a música, toca piano e compõe”, disse no programa. “Mas ao mesmo tempo não consegue fechar sozinho o botão da camisa.” Alguns dias depois, entrevistado por Marília Gabriela, disse que para ele o problema de Rafinha era “bem resolvido até onde pode ser bem resolvido. Ter filhos com dificuldades é algo difícil de administrar. Mas eu não gostaria de ter outro filho  que não fosse o Rafa”.

Boa parte do dia, Jô passa ali no escritório mesmo, seu reino encantado, onde se sente muito à vontade. Acorda às 11 horas da manhã e dorme às 4 da madrugada. “Leio, vejo vídeos”, relata ele. Às segundas e terças, grava o Onze e Meia. Faz entrevistas também para os demais dias da semana. Grava ainda um programa de rádio, “Jô Soares Jam Session”, e de sexta a domingo apresenta no teatro “Um Gordo em Concerto”. Tira férias da metade de dezembro até março e procura não manter horários rígidos. “Tenho um problema com a pontualidade”, disse.

Nas férias, vai com freqüência a Nova York, onde se hospeda em flats alugados. Da última vez, em janeiro do ano anterior, acabou trabalhando na confecção de Xangô. “Quando estava escrevendo, fui ao Argosy, um sebo fantástico, com computador, na Rua 59, entre a Lexington e a Park Avenue”, disse ele. Lá, comprou a coleção completa dos livros de Sherlock Holmes. “Mas sou cliente fiel da Barnes & Noble, na Broadway com 83”, emenda. Em Manhattan, freqüenta cinema e teatro. “Aqui no Brasil, as salas são pequenas. A shopping não dá para ir, porque quando apareço começa aquela algazarra. Mas não fujo das pessoas, ao contrário, porque sou exibido à beça. Em viagem, ao contrário de muitos artistas que adoram o anonimato, eu fico carente. Sinto falta das pessoas que cruzam comigo sorrindo e me cumprimentando. Fico pensando: o que será que eu fiz de errado?”

Como se veste um escritor grande como Jô Soares? Ele usa jeans feito na Exss, que fabrica jeans de lycra, stone washed, especialmente para ele. Faz seus ternos com a VR. Depois, por amizade ao falecido Rafael Minelli, que confeccionava suas roupas desde a década de 1960, continuou freguês da alfaiataria paulista que leva seu nome. Gosta de gravata borboleta de dar laço — “nunca pinga nada nela” — e cultiva com gosto hábitos europeus, algo muito apropriado para quem estudou na Suíça até a adolescência. “Em Paris, vou à Brasserie Lipp”, diz. “Era amigo do antigo proprietário, falecido monsieur Casè, um fumante de charuto que proibia fumar cachimbo, dizendo que atrapalhava o apetite alheio com aquele ‘perfume adocicado’. Mas ele deixava os charuteiros completamente à vontade” diz Jô, e ri deliciado.


 Mesmo sendo amante de charutos, ele afirma que não tema outras grandes manias, como a de procurar “aquele” charuto. “Eu invejo as pessoas que não têm a menor fixação por objetos, como o Max Nunes”, afirma. “Uma vez lhe perguntei qual a cor de carro de que ele mais gostava. Sabe o que ele respondeu? Nenhuma, eu vou dentro.” Jô gosta de objetos bonitos, mas não faz questão de quantidade. Adora relógios, mas só tem três - o preferido era um Cartier modelo Pachá, de ouro maciço. Carros, também possui três: um Jaguar, um BMW 750 “longo” e um Mercedes conversível. “Tinha uma paixão pelas motos Harley que, como toda paixão, era patológica”, diz. Ela acabou depois de um par de tombos que deixou algumas seqüelas. Jô se levanta, vai até uma parede e empurra o braço contra ela, até conseguir alçá-lo apontando para o alto, único jeito de fazer movimento. Na primeira queda de moto, quebrou um braço. Na segunda, quebrou os dois. “O Max diz que motocicleta, por ter duas rodas, foi inventada para cair”, diz. “Um dia, ela te vence”.

O ar enfumaçado pelo charuto favorece temas mais profundos, de maneira que mudamos de assunto, para falar sobre seu método de criação. Talvez a principal característica de Jô seja a capacidade de reciclar o que vê à sua volta, transformando tudo sob sua ótica bem-humorada, como fazia com seus personagens da TV — alguns extraídos da realidade. Era o caso do português que exclamava “Q’ erias !”, um bordão que ao seu tempo se tornou muito famoso. “Eu estava com papai e mamãe numa estação de águas na Itália, num hotel deslumbrante”, conta Jô. “Havia lá um português grossíssimo e engraçado. Certa vez, vi uma bela italiana ralhando com ele: ‘Farabutto! Mascalzone!’ Era uma daquelas moçoilas que ficavam no hotel à caça dos ricaços que andavam por ali e cobravam 20 000 liras por serviço prestados.” Nesse ponto, Jô imita a reação do português: “’Q’erias! Q’erias vinte, zero é o que vales. Dei-te cinco, lucraste cinco. Q’erias!’  Contei essa história para o Max Nunes e ele achou que tínhamos ali um tipo já pronto”.

Essa característica de Jô também está presente em Xangô, além de um certo romantismo, pela maneira com que ele retrata o Brasil monárquico - cheio de nódoas sociais, mas também dotado de uma adorável leveza. Jô trata de monarquia como um tempo despreocupado e propício a uma boemia na qual se esbarra com figuras como o poeta Olavo Bilac numa mesa de bar ou Ernesto Nazareth ao piano num sarau chique.

Passa da meia-noite. Jô nos acompanha até a porta. Na parede do hall, há um grande painel de João Câmara de um lado e, de outro, a gigantesca estátua de um negro, com um grande sorriso no rosto, usando casaca decorada de estrelinhas e chapéu-coco, como os personagens que abriam a porta dos antigos teatros americanos. Estende a mão enluvada, e alguém deixou ali uma nota de 1 dólar. “Um amigo americano passou aqui em casa e deixou a nota aí”, diz Jô, divertido. “Eu gostei e colei”.

A história lembra outra, contada por Jô na mesma noite. Certa vez, acompanhado do compositor Jorge Mautner, ele discutiu com um negro na Washington Square, em Nova York, em meio a uma passeata de protesto contra os brancos. Tentava prova a ele que compreendia muito bem a situação dos negros nos Estados Unidos, porque, sendo de um país de Terceiro Mundo, também sentia-se discriminado. O negro americano, entretanto, fez pouco caso da conversa daquele brasileiro cordial. “Você é branco”, fuzilou ele, antes de lançar alguns impropérios e seguir na sua marcha. Jô não se conformava que o racismo pudesse ser superior àquela tentativa de aproximação.

De certa forma, em uma fértil maturidade, Jô é o tipo do homem que estaria apto a viver num mundo, passado ou futuro, onde o instrumento da moda fosse o violino, o francês a língua oficial e o fair play a regra de conduta. Infelizmente, o mundo é hoje bastante diferente – mas penso que sempre haverá algo dessa alegre aristocracia enquanto Jô estiver no nosso convívio.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Uma conversa com o presidente

 
- Vai lá! Ele adora história.

Maria João, assessora cultural do governo português, sentada à mesa comigo, me estimula a falar com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, no almoço oferecido pelo governo português dentro do Expo Center Norte, onde acontece a Bienal do Livro - e Portugal tem um pavilhão, como país convidado de honra.

Desço correndo ao piso térreo, onde ficam os estandes, compro dois de meus próprios livros de história (A Conquista e A Criação do Brasil) e volto correndo ao almoço.

- Dois? - diz o presidente, com um sorriso, quando me aproximo de sua mesa, com os livros na mão.
Explico que sou autor e editor e lançamos no Brasil o selo Assírio & Alvim, que tem em Portugal os grandes autores nacionais, e meu propósito é não apenas lançar autores portugueses aqui, como fazer com autores brasileiros o mesmo trabalho que a editora faz em Portugal.

- Mas tem de ter autor brasileiro em Portugal também, hein? - diz ele.

Sousa é muito afável e faz seu trabalho como um alegre diplomata. Conversamos sobre a política com equilíbrio, que ele tão bem representa, e o presidente me convida para visitá-lo no palácio, em minha próxima viagem a Portugal, como alguém que diz, "passa lá em casa".

Em seus discursos, falou da Bienal como se o Brasil fosse o seu país, ou ele fosse o presidente brasileiro, de tão orgulhoso da pujança do evento. Andou pelos estandes, comprou livros para uma brasileira que teve coragem de abordá-lo, fez fotografia com Deus e todo mundo, foi um sucesso.
 
Só não encontrou o presidente Jair Bolsonaro, que não foi à Bienal e desmarcou em Brasília um encontro oficial entre chefes de Estado, numa inexplicável represália pelo fato de Sousa ter encontrado Lula, na série de encontros de cortesia do presidente português com ex-presidentes brasileiros, incluindo FHC e Temer. 

Uma falta de educação tão grande, que, além de vergonhosa pelo contraste entre os dois líderes, só mostra como é difícil um real progresso num país onde não há na liderança sequer um pingo de civilidade.

Sousa é famoso em Portugal por ser uma pessoa simples e acessível. Professor, advogado e editor de origem, foi um dos fundadores do Expresso, um dos jornais mais importantes de Portugal. Na presidência, não abandonou hábitos como ir sozinho ao supermercado.

Conta-me Vasco David, editor da Assírio em Portugal, que Sousa gosta de nadar e, certa vez, no Algarve, salvou uma pessoa que se afogava, o que o transformou também em herói acidental. Certa vez, foi convidado de honra no jantar mensal de editores portugueses (algo que não existe aqui). Passou a frequentá-lo eventualmente, por genuíno interesse e prazer.

De acordo com o sistema político português, Sousa não tem funções executivas no governo, isto é, não comanda a administração. Porém, representa o Estado e tem um poder que o presidente do Brasil não tem, que é o de dissolver o Congresso e convocar novas eleições. Sobretudo, dá o tom de comportamento a um país onde o Estado fomenta a cultura, promove-a internamente e também no exterior, como o grande patrimônio nacional, a unir, identificar, valorizar a nação e fazê-la cruzar fronteiras.

Portugal é antes de mais nada o país de Camões, de Pessoa, de Saramago: orgulhos nacionais, código em comum de todos os portugueses, aprendido na escola. E que eles fazem questão de mostrar, algo que faz um país pequeno poder ser grande, como escrevo em meu livro poema, Asas sobre nós. Um exemplo inspirador, não só para o Brasil como para o mundo.

sábado, 11 de junho de 2022

Hemingway, Dos Passos e um lugar ao sol

Hemingway (esq.) e Dos Passos

Numa noite da primavera de 1937, um grupo de homens armados invadiu o apartamento em Valência, na Espanha, onde estava José Robles Pazos, professor de literatura espanhola na Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. 

Intelectual do partido comunista, Robles tornara-se homem importante na guerra civil espanhola. Era tradutor e braço direito do general russo Mikhail Koltsov, encarregado de liderar as forças internacionais que reforçavam a resistência contra as tropas do general Francisco Franco

Depois de vasculhar seus pertences, os homens da milícia levaram Robles algemado, sem mandado de prisão, acusações ou explicação, deixando para trás, em desespero, sua esposa Márgara. Naquela noite, em algum lugar perto de Valência, sem julgamento ou apelação, Robles foi fuzilado. Seu corpo jamais foi localizado.

Para entender esse crime, que permaneceu sem esclarecimento muito tempo, é preciso compreender um estranho episódio da História: uma guerra na qual o líder soviético Josef Stalin entrou nos bastidores, sem ser chamado, para defender uma nobre causa e depois abandoná-la. Depois de enviar reforços russos aos republicanos de Madri, Stalin literalmente sacrificou os homens que tinham ajudado a defender a cidade do cerco franquista ― os seus próprios homens, incluindo o general Koltsov, considerado mais tarde um traidor e executado em Moscou. Com a mesma frieza com que realizava expurgos em massa em seu país, Stalin tinha como principal interesse atrair a cobiça imperialista de Adolf Hitler para uma Espanha enfraquecida. E assim desviá-la da União Soviética.

O assassinato de Robles e dos oficiais russos na Espanha marcou também a vida de dois escritores americanos célebres, como conta o ex-professor de literatura da Universidade de Columbia Stephen Koch em seu livro O ponto de ruptura ― Hemingway, John Dos Passos e o assassinato de José Robles (Difel, 2008, 352 págs.), publicado no Brasil pela editora Difel. Amigos fraternos, até cobrirem juntos como jornalistas essa guerra insensata, John Dos Passos e Ernest Hemingway saíram da Espanha como inimigos silenciosos. E a partir dali teriam destinos opostos, na literatura e na vida.

Amigo de Robles desde seus tempos de faculdade, Dos Passos era então o romancista mais quente dos Estados Unidos ― pouco antes de viajar à Espanha, tinha sido personagem de capa da revista Time. Ao descobrir o assassinato ― e que fora patrocinado pelos chefes de sua corrente ideológica ―, ele se afastou dos quadros do partido comunista, do qual era a maior estrela entre outros intelectuais e celebridades da época. 

Ernest Hemingway, seu amigo também de longa data, foi atraído para o seu lugar, mesmo sendo menos (ou pouco) identificado com o ideário do partido. Numa descrição minuciosa, Koch narra como Hemingway teria sido manipulado por interesses que pretendiam usá-lo, primeiro, para desmoralizar Dos Passos, calando-o na perseguição aos responsáveis pela morte de Robles e de outros homens-chave da resistência. E, segundo, para colocá-lo no lugar do autor de Manhattan Transfer como símbolo da inteligência comunista.

Do livro de Koch, emerge um Hemingway hedonista, vaidoso, conturbado. Trai a mulher que lhe deu casa, comida, filhos e tranqüilidade para escrever (Pauline), por Martha Gelhorn ― uma ambiciosa candidata a celebridade que fazia o jogo do apparatschik e o atrai com as armadilhas certas (a beleza física e a bajulação). Ao mesmo tempo em que leva Martha consigo para a ribalta da intelectualidade (e a cama), Hemingway é convencido a demover Dos Passos de investigar a morte de Robles. O que ele faz, munido do mesmo fatalismo seco que encontrava nas guerras e transpunha para sua literatura.

Como compensação, além do reconhecimento de Martha, Koch mostra que Hemingway desfruta, ainda que com um certo desconforto, de novos refletores. Levado por Martha e seu círculo de amigos ligados ao aparato stalinista, que via na propaganda um instrumento de Estado, Hemingway é colocado por eles como o centro dos eventos mais barulhentos da intelectualidade da época. O Hemingway de O ponto de ruptura aceita ser usado, fisgado pelo ego, sua eterna obsessão ("a carreira, a carreira", escreve Koch, citando um conselho que dera Gertrude Stein) ― e uma bela mulher.

Ao afastar-se do comunismo stalinista, Dos Passos entrou no período de declínio de sua produção literária. Depois de cobrir como jornalista a guerra civil espanhola, e perceber como Stalin aos poucos mandava matar seus colaboradores no país, nunca mais conseguiu escrever romances com o mesmo calor. 

Por sua obra anterior, a trilogia intitulada USA, e Manhattan Transfer, Dos Passos pode ser considerado um dos romancistas mais brilhantes de sua geração nos Estados Unidos, senão o maior. Contudo, enquanto Hemingway saiu da Espanha com o esboço de um romance que o levaria mais alto no estrelato (Por quem os sinos dobram), a alma literária de Dos Passos enfraqueceu, ferida pelos estilhaços de um desapontamento vital. Nunca mais escreveu algo do mesmo nível.

Enquanto sustentou seu ponto de vista engajado, Dos Passos o usou para a crítica de um país em que cada vez menos se admite, ainda hoje, as falhas do sistema. Destruída sua visão do mundo, traído por aqueles a quem defendera e afastado de Hemingway, Dos Passos se perdeu. 

Por sua associação com o comunismo, que lhe valeu a perseguição do macartismo, e também por tê-lo deixado depois, abandonado por seus antigos companheiros de partido, caiu no ostracismo. Hoje, quando se pergunta a um americano se conhece Manhattan Transfer, talvez ele se lembre apenas de um grupo musical brega que teve seus quinze minutos de fama na década de 1980.

Para os americanos, chega a ser incômodo pensar que um de seus maiores romancistas tenha sido comunista, algo que no país patrocinador da Guerra Fria se tornou uma maldição ― mesmo que o macartismo tenha terminado, ou que Dos Passos tenha se afastado do comunismo, quando a realidade brutal do stalinismo mostrou ao lado de quem ele servia. É muito mais fácil ter como monumento literário um gênio amoral como Hemingway, que fazia do individualismo sua única bandeira, mesmo que ele tenha servido de alguma forma ao comunismo stalinista. Na sua busca incessante de servir a si mesmo, Hemingway disfarçava melhor quando servia a outros. O professor Koch, aos poucos, vai demonstrando seu ponto de vista: como Hemingway, com seu perfil duvidoso, faz o milagre de desfrutar o apoio do apparatschik, sem perder a aura de ícone da Geração Perdida, que o colocou um pedestal da América capitalista.

Homem de um tempo em que as utopias eram tomadas nas mãos de ditadores pusilânimes e sanguinários, Hemingway morou seus últimos vinte anos em Cuba. Para isso, alegou não idealismo ou lealdade a Fidel Castro, mas o fato de que a ilha era o lugar perfeito para tomar daiquiris e praticar seu esporte favorito, a pesca de bico. Matou-se com um tiro de espingarda na boca, vítima da devastação física e moral a que o levou o alcoolismo ou, antes, o verme roedor das consciências. Porém, fez da própria morte, assim como da dubiedade de suas relações, incluindo com as mulheres, parte do mistério que alimenta seu mito. Enquanto Dos Passos submergiu, ele continua o romancista mais cultuado de todos os tempos.

Sendo eu também romancista, o livro de Koch me faz pensar. A qualidade literária sobrevive às ondas da política, aos ditadores de todos os matizes e às sociedades refratárias. Hoje, quando as ideologias são tão difusas que as diferenças parecem ser apenas a da pobreza e da riqueza, do Ocidente e do Oriente, do fundamentalismo desta ou daquela religião, os intelectuais perderam participação ativa na política e nos acontecimentos do mundo, afogados na falta de ideias ou de clareza. 

Não há correntes, ideais ou mesmo partidos com que se alinhar. Esvaziada como instrumento ideológico, a literatura deixou de buscar propósitos sociais, abandonando os ideais para servir somente ao individualismo. Livre das ideologias, o egocentrismo de Hemingway saiu vitorioso.

No entanto, O ponto de ruptura traz de volta à luz o talento de um romancista que olhava para dentro, mas também olhava para os outros. Mostra que se deve recolocar John Dos Passos em seu devido lugar histórico e literário. Dos Passos foi capaz de compreender Hemingway. Chegou a enviar-lhe uma carta reconciliatória, quando Hemingway deixou a Clínica Mayo, em Havana, para tratar-se de depressão e sintomas de psicose, manifestando preocupação com sua saúde ― duas semanas antes do antigo amigo explodir a cabeça com uma espingarda de caça.

Hemingway foi grande e ainda inspira, por sua vida e seus romances, reflexões profundas sobre a condição humana. Já Dos Passos foi duplamente grande: não só por escrever belamente, mas por ter sido, embora às vezes ingênuo, um exemplar daquela gente em extinção que não abdica de princípios, mesmo à custa do sucesso.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Suave era a vida


Gerald e Sara: dinheiro e artes que marcaram época
e fizeram a fama da Riviera Francesa
 Junho de 1923, um domingo em Paris. Festa depois da estreia do balé Les Noces, de Stravinsky. Pablo Picasso e Fernand Léger, já dois astros da arte cubista, o escritor Tristan Tzara e centenas de outros convidados da nata da sociedade francesa são recebidos ao som do piano no banquete montado sobre uma barcaça no rio Sena. Há uma grande disputa pelas atenções. Com as floriculturas fechadas em dia santo, as mesas são decoradas com carrinhos, bonecas, bichos de pelúcia, palhaços e outros brinquedos.

Entusiasmado, Picasso transforma a decoração em escultura – uma pirâmide cujo topo é formado por uma vaquinha malhada na ponta da escada de um carro de bombeiros. Depois de anunciar que faltaria à celebração por motivo de doença, o cineasta Jean Cocteau irrompe, vestido de capitão, com uma lanterna nas mãos e aos gritos: “Estamos afundando!” Depois de se divertir trocando de lugar as placas com os nomes dos convidados sobre as mesas, Igor Stravinsky, o homenageado, salta dentro de uma coroa de louros gigante como um cão amestrado.

Mais que ninguém, porém, brilham os anfitriões: Gerald e Sara Murphy, um casal de americanos atirados à mais absoluta dissipação, que depois da festa faria as malas rumo a Cap D’Antibes, onde os esperava o compositor americano Cole Porter, conhecido de Gerald desde seus tempos de Yale. Porter alugara lá o Château de La Garoupe – o dono do Hôtel du Cap, Antoine Sella, que fechava o estabelecimento entre maio e setembro, abrira-lhes uma exceção, franqueando os quartos para a estadia na companhia de Picasso, sua mulher, Olga, e o filho Paulo, então com dois anos de idade.

Lá os Murphy receberiam convidados, como a escritora Gertrude Stein (a rainha da chamada “Geração Perdida”), promoveriam piqueniques na praia, passeios de barco e festas à fantasia. Antes de partir para Veneza com os Porter, hóspedes do Palazzo Barbaro, os Murphy deixariam instituído o hábito do veraneio e a atmosfera chic que tornaria famosa a Riviera Francesa. E o sobrenome do casal como símbolo de estilo e de uma forma de joie de vivre em torno do dinheiro e da arte.

Com a alegria ao redor das garrafas de champanhe sobre a mesa, dos jogos de tênis com roupa impecavelmente branca e do veraneio na praia, que Gerald frequentava com sua camiseta listrada e bengala, e Sara de maiô adornado com pérolas, flutuava no ar o perfume que se desprende do mais ideal dos paraísos.



A vida era uma festa ao redor dos Murphy. Para os americanos ricos,
os anos 20 foram feitos para viajar e festejar noite e dia



Os anos 1920 eram um tempo de inocência, de crença numa prosperidade sem limites, impulsionada pelo fim da Primeira Guerra e a ignorância dos males que levariam ao crack de 1929 – quando foram à bancarrota não somente os milionários da época, como a ilusão de toda uma era. Talvez por isso Gerald e Sara tenham brilhado tanto e continuem a atrair tanto a atenção, sobretudo dos americanos, fascinados por sua vida, retratada em uma exposição itinerante, com obras de artistas como Picasso, Juan Gris e Georges Braque, algumas delas inspiradas na convivência com o casal.

Nessa exposição, há retratos femininos de Picasso usando Sara como modelo, aquarelas dedicadas aos Murphy por Léger, desenhos de Jean Cocteau e Francis Picabia e fotografias do casal feitas por Man Ray. Além de cartas, objetos pessoais e filmes caseiros em que, entre outros, aparecem os escritores John dos Passos e Ernest Hemingway, comensais da Villa America, propriedade adquirida na Riviera quando o Hôtel du Cap já não parecia o bastante.

Os Murphy ainda representam a versão mais refinada do “sonho americano” em tempos de absoluta prosperidade. Permanecem como ícone da riqueza como desfrute, consagrada na arte produzida ao seu redor. Em especial, como inspiradores do romance Suave É a Noite, de F. Scott Fitzgerald, que assim como Herman Melville e Henry James, forma a tríade dos autores clássicos americanos.

Fitzgerald foi companheiro de tertúlias dos Murphy na Riviera, num momento em que o escritor ainda procurava manter um padrão de vida semelhante ao deles, na companhia de Zelda – a aristocrática, extravagante e perturbada mulher que ajudaria o romancista a mergulhar em dívidas, no alcoolismo e nos malefícios do cigarro, antes de morrer de um ataque cardíaco aos 44 anos. Utilizou o estilo de vida do casal para enriquecer de detalhes a obra que selou seu papel como aguçado cronista daquela América próspera – revelada também por ele no seu lado mais hipócrita.

Perpassa a obra a sensação de que toda aquela riqueza desbundante e o espírito livre escondiam em si mesmos os genes da ruína, não apenas para os ricos dessa era de ouro, como de todo o país. Scott Fitzgerald foi ao mesmo tempo o grande celebrante e satirista do sonho que virou pesadelo”, escreveu o crítico literário Harold Bloom em seu livro Gênio, sobre os maiores mestres das ideias de todos os tempos. Para ele, a obra de Fitzgerald já levantava a velha pergunta: quanto tempo pode durar essa bolha de alegria que se repete nos tempos de fartura?


Hôtel du Cap, na Riviera, onde o casal recebia amigos
para cruzeiros em seus iates no Mediterrâneo


O romance mais famoso de Fitzgerald, O Grande Gatsby, celebrado nos Estados Unidos, é definidor do caráter de uma Nação, mostra como a América da Lei seca produzia seus milionários, levando um garoto das ruas de Nova York ao sonho americano pela via do crime organizado. A apresentação da máfia como um negócio qualquer, capaz de empurrar ao sucesso um “executivo” que compra suas camisas na Inglaterra, termina de forma trágica.

Suave É a Noite, porém, é a obra em que Fitzgerald melhor capta não somente o espírito americano, como a própria alma da riqueza – uma análise que deve muito à observação dos Murphy. Não por outra razão, esse é o romance que ele mesmo considerava sua obra-prima.

No livro, Dick River é um jovem e brilhante psiquiatra que interrompe sua carreira para se casar com Nicole Warren, uma herdeira bela, rica e mentalmente perturbada, que ao seu lado encontra certo equilíbrio, embora um tanto instável. A história é vista pelos olhos de uma aspirante a estrela de Hollywood, que durante uma temporada na Riviera Francesa se apaixona não só pelo protagonista como pela imagem de perfeição produzida pelo casal.

Para sua surpresa, ela os reencontrará anos mais tarde em situação completamente diferente. Recuperada, Nicole continua a levar sua vida de distanciamento da realidade num carrossel dourado. Descartado, Dick vê seu brilho se apagar num obscuro consultório no interior dos Estados Unidos, fadado a, depois de ter vivido num círculo de sonhos, ser enviado de volta ao seu lugar.

Muito mais um retrato da própria vida de Fitzgerald com Zelda, financeiramente arruinada e internada em diversos sanatórios mentais, Suave É a Noite contém muito da beleza desesperada do estilo de vida dos Murphy. Do casal, o escritor tirou alguns detalhes marcantes, como os colares de pérolas, a casa na Riviera e a aura que a cercava, bem como a exarcebação da vida social, a ligação com a arte e uma certa despretensão que embalava de maneira elegante o hedonismo mais desbragado.

Fitzgerald extraiu dos Murphy também observações menos edificantes, como uma certa frivolidade, oculta sob uma aparente perfeição, tão sutil quanto chocante. É essa frivolidade o substrato da história que, ao ser publicada em 1935, escandalizou Sara, a ponto de se julgar traída e devassada, dada a variedade de referências diretas à sua vida privada.

Na vida real, os Murphy não fizeram muito para ganhar dinheiro. O pai de Gerald foi esperto o suficiente para perceber que os automóveis tomariam o lugar das carroças no final do Século XIX e transformou sua selaria numa fábrica de malas de viagem, bolsas e congêneres, a Mark Cross Inc. Teve dinheiro de sobra para enviar o herdeiro a Yale e sustenta-lo por um período na Europa, onde Gerald vivia à larga, enquanto procurava engrenar como artista plástico.

Sara teve menos sorte apenas que seu pai, Francis Wiborg, um fabricante de tinta para escrever que se casou com Adeline Sherman, oriunda de uma família de políticos e oficiais laureados na Guerra Civil americana – o mais perto que se podia chegar da aristocracia nos Estados Unidos, com direito à mesma vida nababesca dos agraciados com títulos, terras e brasões.



O escritor F. Scott Fitzgerad e a esposa Zelda na vida real
e uma cena do filme Suave é a Noite, baseado no estilo de vida
e personagens do universo inpsirador dos Murphy

Ela desabrochou em Dunes, mansão dentro de uma propriedade de 600 acres pertencente à família em East Hampton, mas bem cedo foi apresentada à aristocracia de verdade. Levada pela mãe, conheceu a corte do rei Eduardo VII em Londres, onde adquiriu muito do seu estilo, inspirada na duquesa Violet Ruthland – célebre na Inglaterra pós-vitoriana por seus dotes como artista plástica e a liberdade com que variava os seus amantes.

Além do comportamento que precedia o feminismo, Sara tomaria da duquesa Violet o gosto por pérolas, usadas sempre e de todos os jeitos, especialmente nos colares que caíam sobre os longos decotes nas costas, imortalizados em desenhos de Picasso.

Em Londres, ela participou da intensa vida social da mãe, celebrizada como anfitriã do Baile dos Vegetais, no qual os convidados da mais fina flor recebiam produtos hortifrutigranjeiros como brinde na entrada do hotel Ritz – a filha da duquesa de Ruthland, Alice Cooper, saiu-se a estrela da noite ao vencer a “corrida das batatas”.

Mal falada nos Estados Unidos, depois de retornar ao país com uma carga ilegal de joias na bagagem, declaradamente para uso próprio, Adeline voltou à Inglaterra em busca de um bom partido para a filha. O projeto foi interrompido por um giro pelo Oriente e o posterior reencontro de Sara com Gerald, que ela conhecia há quase uma década, desde uma festa nos Hamptons, quando tinha 21 anos e ele 16.

Ambos se consideravam “almas gêmeas”, sonhavam ser artistas e viver em liberdade absoluta, um cenário que ganhou rápida oposição familiar de ambos os lados. Para se afastar do mau humor doméstico, depois de um casamento retratado na capa da revista Town & Country, o casal deixou Nova York em 1921 com destino a Londres e a intenção de se radicar em Paris, transformando em realidade o projeto juvenil de fazer da vida “uma obra de arte”.

Além de se manter distante da censura dos pais, Gerald teria na Europa novamente o ambiente ideal para pintar e, diferente de seu país, onde reinava a proibição do álcool, exercitar-se como conhecedor do cherry e do champanhe.

Inspirado em Georges Braque, André Derain e Pablo Picasso, cujas obras conheceu junto com os autores nas galerias parisienses da Rive Gauche, Gerald chegou a pintar telas e expor, mas nunca vingou nas artes plásticas – por sorte, não dependia de dinheiro. De todo modo, atraiu os artistas para seu círculo pessoal, com grande ajuda de Sara, cuja beleza e modos encantavam a todos – especialmente Picasso, mulherengo incorrigível. O artista espanhol os convidou para ir à sua casa na Rue de La Boëtie e logo os transformou em amigos próximos.

Faziam parte desse círculo a irmã de Sara, Hoytie, lésbica assumida, esnobe e agressiva, sobretudo quando alcoolizada, e Fernad Léger, eleito por Gerald como seu guru nas artes. Seu trabalho alinhava-se com o primeiro período modernista na geometria absoluta das formas e na temática própria do período da industrialização. Entre outras coisas, Gerald retratou mecanismos de um relógio e o convés de um navio que o levara à França, sua tela mais conhecida, com a qual participou do salão de artes plásticas de Paris em 1924 ao lado dos astros da época. Suas obras, porém, ficaram mais conhecidas pelo tamanho, sugestivo da ambição do autor, que pela sua qualidade.

Depois de cinco anos sem o esperado reconhecimento, exceto pelo gripo seleto de amigos que o chamavam meio zombeteiramente de “o único pintor americano em Paris”, Gerald abandonou a carreira e as veleidades artísticas, decretando que o mundo estava “cheio demais” de candidatos a gênio como ele.

Dedicou-se, então, ao que mais gostava: o incentivo às artes e a vida social. Recebia os amigos na Riviera, hospedado com Sara no Hôtel du Cap, enquanto aguardavam a reforma do chalé La Garoupe, adquirido pelos Murphy em 1923. Os verões famosos passaram a incluir cruzeiros pelo mediterrâneo a bordo de algum dos iates da família. Discretamente, Geraldo iniciou-se em relacionamentos cujo impulso tentou abafar durante toda a vida. Seu guarda-roupa recheado de fantasias, entre as quais de caubói, gondoleiro veneziano e caçador incluía trajes que sugeriam certa tendência à homossexualidade.

Ele chegou a se aproximar de um jardineiro de Boston, Richard Cowan, seu companheiro frequente de vela, que mais trade, em 1939, se suicidou sem motivo aparente. Gerald certamente discutia sobre sexo com Fitzgerald, o que acaba por transparecer em Suave É a Noite. Inspirado em Gerald só menos que em seu criador, o personagem principal do romance é definido no texto como alguém cujo gosto por “tiras e fivelas” indicava uma personalidade “masoquista”.

Nada disso, porém, parece ter atrapalhado o relacionamento de Gerald e Sara, dentro do espírito de elegante discrição com o qual eles mantinham a fachada de um casamento mais que perfeito, tão bem retratada em Suave É a Noite. Ela fazia vista grossa à aproximação dele com o amigo Cole Porter e por seu lado, embora fiel, dava pano para o flerte com artistas ao seu redor. Teria sido por recusar os seus encantos a Picasso que este, como um gesto de vingança bem ao seu estilo, tria retratado Gerald no quadro As Flautas de pã, um clássico da pintura modernista. Picasso personifica as antigas tradições em um flautista dionisíaco, representado por ele mesmo, que toca diante das “perdições do mundo” – uma figura em que Gerald detectava seus próprios traços. Tal referência nunca foi explícita, mas, desconfiado da semelhança, ele se afastou, esfriando a relação entre ambos.

Em Paris, numa sociedade aparentemente democrática, mas que via com certo preconceito os americanos, tão endinheirados quanto desprovidos de cultura – a própria efígie do novo-riquismo -, Gerald e Sara eram algo diferente. Devotados ás artes, tão educados e encantadores quanto pródigos, integravam-se ao ambiente festivo da época com a mais magnética combinação. Entre coquetéis e passeios pela Riviera, Gerald desfilava o seu charme extravagante, que incluía posar nu para fotografias, enquanto Sara exercia o fascínio da mulher espirituosa, calorosa e capaz de falar livremente sobre tudo – uma combinação fatal, ainda mais embalada pela beleza física.


A tela As Flautas de Pã, em que Picasso retrata Gerald.
À dir. Picasso em primeiro e Gerald em segundo plano



Entre seus ardorosos fãs, estava Fitzgerald, que alugava uma villa em Cap’Antibes, mas passava a maior parte do tempo com o casal.

Em 1925, o chalé dos Murphy em La Garoupe ficou pronto. Batizado de Villa America, a casa ganhou em tamanho. Tinha tijolos negros no chão e paredes brancas, a exemplo do apartamento do casal em Paris, no bairro de Montparnasse, onde havia uma única obra de arte: uma grande bola de metal girando num pedestal ao lado do piano de ébano.

A propriedade dos Murphy na Riviera possuía um terraço nos jardins que sugeria um pedaço do paraíso e um estúdio no antigo estábulo. Uma babá, um cozinheiro, um motorista e outros criados davam conta do serviço, que incluía a manutenção dos chalés, erguidos para acomodar os convidados. Além de Picasso e dos velhos amigos, eles recebiam celebridades do mundo intelectual, como os escritores Ernest Hemingway, Robert Benchley, John dos Passos e Dorothy Parker.

Comunista engajado, dos Passos conseguiu passar na Villa America no máximo quatro dias – tomou a decisão de ir embora, com receio de se render ao capitalismo. “Era fomo viver no céu”, escreveu. “Eu tinha de voltar para a terra.”

Depois do crack de 1929, a vida dos Murphy se tornou mais difícil. Com grandes perdas nas bolsas de valores, eles tiveram de apertar o cinto. A Villa America foi alugada e eles voltaram aos Estados Unidos, onde Gerald assumiu o comando da empresa da família, que dirigiria até 1956. À depressão econômica, sobreveio a tragédia da morte sucessiva de dois de seus filhos. Baoth sucumbiu à meningite, em 1935, e Patrick à tuberculosa, em 1937, depois de uma longa batalha contra a doença. Os Murphy se retiraram da vida social, embora continuassem ligados às artes e aos amigos.

Gerald teve na maturidade a vida da qual procurara escapar, despachando em um escritório e fazendo seu almoço regularmente no mesmo lugar, enquanto Sara se dedicava ao trabalho voluntário com crianças. Jamais falavam do passado nem sobre os filhos perdidos, como se a antiga vida tivesse se espatifado feito um lustre de cristal. Terminaram ocupando um chalé em East Hampton, no que restara da antiga propriedade da família de Sara. Lá, Gerald faleceu em 1964, aos 76 anos, e Sara em 1975, aos 82. Seu casamento durara 60 anos.

As sete obras que restaram da curta produção de Gerald se tornaram peças de museu não apenas por sua raridade, como pela história que fez a sua mística. Em 1971, surgiu o primeiro livro efetivamente biográfico dos Murphy, sugestivamente intitulado Viver Bem é a Melhor Vingança, escrito por um colaborador da revista New Yorker, Calvin Tomkins. Em 1998, despontou outra biografia, Todos Eram Tão Jovens, de Amanda Vaill.

Os revisionistas dos Murphy ressaltam sua influência na cultura americana pela sua proximidade com a vanguarda das ideias e das artes que traziam para a América ao retornar de suas temporadas europeias. Loas são entoadas sobre a influência do casal na moda e nas artes. Sabe-se hoje que Coco Chanel inspirou-se no comportamento libertário dos Murphy. Le Corbusier foi um admirador da reforma na Villa America. Há quem tente atribuir a Gerald o papel do pai da pop art.

Os Murphy também teriam financiado Hemingway, sobretudo no início de carreira, no período parisiense, em que ele chegou a passar fome, comi o próprio escritor relata em Paris é Uma Festa, livro de memórias da juventude, publicado postumamente. Talvez ferido pela recepção no mercado de sua melhor obra inicial, escrita no mesmo estilo de Suave É a Noite e claramente com a intenção de superar o amigo e eternamente rival Fitzgerald, Hemingway escreveu sobre os Murphy: “Sob o efeito do charme desses milionários, eu era fiel e estúpido como um cachorro de caça. Quando eles diziam ‘está ótimo, Ernest’, referindo-se a O Sol Também se Levanta, eu balanço o rabo, em vez de pensar... Se esses bastardos gostam disso, o que há de errado com o livro?”

Como se vê, a poética “vida transformada em arte” é como o fogo: fascinante, mas também pode queimar.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Lerner e a mágica da política


(De 21 de maio de 2021)

Quando eu era editor da revista VIP, ainda um suplemento de Exame, fiz uma capa com o então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, que mais tarde seria duas vezes governador do Estado – e poucas vezes testemunhei um político tão nas graças da população.

Era uma delícia andar com ele na rua. As pessoas vinham conversar, como se encontrassem um velho amigo. Eram gratas e carinhosas. Lembro de passarmos diante da estufa de vidro que ele construíra no florido Jardim Botânico, num fim de tarde ensolarado. Crianças brincavam por ali, perto dos pais. Acho que me emocionei tanto quanto ele em ver aquilo.

Lerner, ou o Polaco, como os amigos o chamavam, era realmente especial. Identifiquei-me com ele em várias coisas. Arquiteto de formação, tinha uns caderninhos onde rabiscava projetos, anotava ideias, algumas utópicas, outras que acabavam virando projetos de governo.

Ali ele me mostrou esboços como o da Ópera de Arame e do Ligeirinho, sistema de ônibus rápido, que funcionava quase como um trem, em faixas exclusivas e com facilidades para o embarque, de modo a ganhar tempo.

Lerner, que acaba de falecer, aos 83 anos, foi um bom exemplo do que é possível fazer com a política. No governo estadual, ele acabou tendo problemas e submergiu, como acontece com muita coisa boa, submetida tempo demais aos efeitos deletérios da política.

Porém, deixa um legado, não só para o Paraná, mas de como é possível fazer algo bom e verdadeiro na política, com interesse real pelo bem coletivo. E permanece um exemplo de que a maior recompensa da vida pública não é o dinheiro, mas esse patrimônio de paz, colaboração e progresso que podemos deixar no processo da civilização.

#jaimelerner #politica #brasil #curitiba #revistavip


quarta-feira, 18 de maio de 2022

Entrevistas (quase) impossíveis

 Eu colecionei, na minha carreira de jornalista, alguma entrevistas consideradas impossíveis. Lembrei agora de algumas, porque há pouco me telefonou um jornalista,  querendo que eu contasse a história de como entrevistei o banqueiro José Safra, quando ninguém sabia quem ou como ele era, nem por fotografia.

Essa história,  pelo jeito, vai parar numa biografia de Safra, com quem almocei  sozinho, numa mesa para 50 pessoas, mas vazia, tendo ele à minha frente e ao lado apenas um mordomo de luvas brancas.

Não será a primeira vez que sai publicado um livro em que o autor se apoia no que escrevi, como entrevistador de um personagem complicado. Há algum tempo saíram duas biografias de Geraldo Vandré, quando completou 80 anos, citando uma reportagem que escrevi sobre no final dos anos 1990, mas tão rara que ainda é referência sobre ele. Tive vários encontros com Vandré, uma história surrealista, que começou depois de um mês em que eu passava bilhetes por baixo da porta da casa dele, diariamente, pois ele não tinha nem usava telefone.

Há outros casos. Fui o primeiro de dois ou três jornalistas que já entrevistaram Edir Macedo - e numa época em que ele não falava com ninguém mesmo, após ser preso. Falei com Eike Batista, quando ele ainda não dava entrevistas. E me recebeu com uma pistola em cima da mesa de trabalho.

Essas histórias estão num livro, já meio antigo e pouco conhecido: Eles me disseram, publicado pela Saraiva. Encontra-se na Amazon e algumas livrarias na seção de "linguística", sabe-se lá a razão. Acho que é para se torne tão difícil de encontrar como os personagens que me deram um trabalhão.

#thalesguaracy #jornalismo #reportagem #josesafra #edirmacedo #eikebatista #imprensa

terça-feira, 17 de maio de 2022

No Brasil (quase) intocado

Navegamos pelo rio Negro, a partir do ponto onde ele encontra o Solimões, onde nasceu a cidade de Manaus - local importante na história do Brasil e de grandes aventuras, narradas em A Criação do Brasil (1600-1700). 

Aqui passou Orellana, na primeira expedição que, vinda da América Espanhola, alcançou a foz do Amazonas, jornada entre as mais extraordinárias da história da humanidade.

Caminho feito duas vezes pelo bandeirante Pedro Teixeira, com cerca de 2 mil pessoas, que subiram o rio de Belém até Quito, no Equador, num tempo em que portugueses eram perseguidos pela inquisição nas cidades de colonização espanhola. 

Expulso de volta para o Brasil, fez todo o caminho de volta vigiado por dois padres. E deixou por aqui um marco de pedra, encontrado, anos mais tarde, na célebre e quase esquecida expedição de Raposo Tavares, que definiria  o tamanho do território brasileiro atual.

Esta era uma terra infestada de perigos, incluindo os temíveis omáguas, índios antropófagos, com a cabeça quadrada, formatada em uma caixa de madeira quando crianças, que deixaram poucos traços. 

A beira do Amazonas era então povoada de índios, muitos deles hostis, e dizia-se do Negro, um rio de pouca vida, animal e fluvial, que escondia grandes tesouros, possivelmente o Eldorado.

Para mim a experiência foi um tesouro, e os amigos que dela partilharam sabem.

@raphaelmontes
@aliceruizs
#acriacaodobrasil