domingo, 29 de janeiro de 2023

O destino dos nossos sonhos


Eu já acreditei que poderíamos melhorar o Brasil, que com democracia e liberdade teríamos mais igualdade e este país se tornaria de primeiro mundo. Também acreditei em sonhos de amor, com aquela energia transformadora que se confunde com a energia da juventude.

As coisas não saíram como eu pensava, para mim e para o mundo, e creio que divido esta sensação com muitos da minha geração. Todos os nossos esforços, baseados nos melhores sentimentos, por vezes parecem desperdiçados. Não sei se isto é amadurecer, um ciclo em que o mundo se mostra autônomo outra vez e foge ao nosso controle, aos nossos projetos, à nossa vontade. Sobretudo de paz, amor e felicidade, individual e coletivamente.


Não sei,  mas a história do que vivemos  me deu este livro: Asas sobre nós. É um poema, do tamanho de um livro, que pode ser lido aos pedaços ou corrido. Um livro de história, mas não a história dos fatos, que estão no Google, mas a história dos nossos desejos, dos nossos sonhos, do nosso esforço de transformação - o  espírito do nosso tempo.

Creio que fala a muita gente, embora hoje eu saiba que as pessoas que pensam, refletem, cultivam a civilização sejam sempre poucas, no conjunto da sociedade. É a verdadeira elite. Talvez Asas sobre nós seja mesmo um livro para poucos. Talvezcru seja um autor para poucos. Porém, reflete o meu desejo de que possa um dia ser para muitos - e teremos, aí, o mundo com que sonhamos, de fato.


terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Aquela hora


Aquela era a hora de você me dizer eu te amo

aquela era a hora de dizer quero ficar com você

naquela hora

eu teria feito qualquer coisa para ficar do seu lado

naquela hora eu te amaria para sempre


Naquela hora você decidiu ir embora

naquela hora você mostrou que nada era real

aquela hora

que eu ainda sinto agora

fez nossa vida virar do bem para o mal


Naquela hora eu ainda te amava

e depois sofri tanto que já nem sei

depois daquela hora nunca mais eu fiz planos

nunca mais eu sonhei

amaldiçoei meus grandes enganos

naquela hora tirei minha coroa de rei

 

E se hoje não vejo mais o que havia de belo

e encarar a verdade é como morrer

desejando ter sido tudo só um pesadelo

que apenas fosse um pesadelo que eu pudesse esquecer

Thales Guaracy, 

siga @livroespelho

sábado, 10 de dezembro de 2022

Você conhece um psicopata?

 Você conhece um psicopata? Com certeza, só que provavelmente não sabe.

Por recomendação de uma amiga psicóloga, vejo os vídeos esclarecedores sobre psicopatas, da Dra Ana Beatriz Barbosa, psiquiatra, autora de Mentes perigosas: o psicopata mora ao lado.

Imaginamos um psicopata como o serial killer dos filmes, um criminoso frio, sanguinário e serial. Bem, ele existe, mas são os casos mais extremos. O psicopata, porém, não precisa matar ninguém para ser psicopata. Ele pode ser apenas frio e relevar o sentimento alheio, fingindo afeto, por um interesse próprio. Pode não cometer nenhum crime, mas estraga a vida de muita gente. E pode ser uma mulher.

O “psicopata afetivo”, como Ana Beatriz chama essa espécie mais genérica, representa cerca de 4% da população. “Estatisticamente, numa família, ou no trabalho, sempre tem alguém assim”, diz ela.

O psicopata não tem empatia com o outro. Tem lógica, mas não tem afeto. Não sente culpa, ou remorso. Dentro de uma relação afetiva, é um manipulador. Finge um afeto que não existe. É um mentiroso contumaz. “Para o psicopata, mentir é um jogo, em que o outro cai, e por meio do qual ele reafirma a sua inteligência.”

Pode ser sedutor (ou sedutora). Uma pessoa “maravilhosa, o melhor sexo que existe”, diz ela. Isto porque o sexo, para o psicopata, é um instrumento de envolvimento, de sedução.  “Ele pratica o sexo que você quer receber”, diz ela.  “É um grande ator”, diz ela. Ou atriz.

Esse transtorno de personalidade faz com que a pessoa se torne uma máquina programada para obter, sempre, na relação com o outro, “status, poder, prazer e diversão”. A outra pessoa é um objeto, ou um veículo para o psicopata chegar a esse objetivo.

“É uma relação inglória”, afirma Ana Beatriz. A outra pessoa existe para ser usada. Psicopatas constituem família para dar satisfação à sociedade e ter algum ganho pessoal. Se a outra pessoa pode proporcionar algum tipo de status, poder ou diversão, o psicopata vai atrás daquilo que a pessoa pode lhe dar.

Quando não há mais interesse, ele desliga. Desaparece. E tenta não deixar traços. Vai mudar para outra pessoa, ser outra pessoa, então corta antigos vínculos, testemunhas do passado.

O psicopata é uma maneira de ser. Vê o mundo de outra forma. É difícil imaginar uma pessoa sem afeto, pois trata-se de uma minoria. Por onde passa, porém, deixa um rastro de destruição, financeira e nas pessoas que fez acreditarem nele.

Como identificar um psicopata? “Atitudes maldosas, praticadas de forma repetitiva, o sarcasmo, fazer o outro se sentir inferior, ou culpado, até pelas coisas que o próprio psicopata fez”, explica Ana Beatriz. “A encenação, se fazer de vítima: ele está sempre contando uma história triste, como tendo sido prejudicado por outros, para que se tenha complacência com ele.” Porque a pena é um dos sentimentos que mais fragilizam os outros. Ao causar pena, a outra pessoa se torna manipulável.

A presa mais fácil do psicopata, diz ela, são as pessoas generosas, que têm brilho próprio, alguma coisa bonita. Psicopatas são parasitas, ou insetos em volta da lâmpada: se aproximam  de alguém que brilha. Ele vai na pessoa para sugar o que ela tem de melhor.

“Uma pessoa que se relaciona com um psicopata, se relaciona com um vampiro”, diz ela. “Eles são vampirizadores. Vão tirando a energia do outro: a gente vê a pessoa perdendo o brilho, a alegria. A dominação deles é essa.”

Entram na vida de um homem ou mulher, fazendo o outro achar que é o homem ou mulher da sua vida, sempre entusiasmado, porque o psicopata representa muito bem esse papel. Ele é alegre, é gentil, ele faz tudo. “É um camaleão”, diz ela, por apresentar-se da forma como a outra pessoa deseja que seu companheiro seja.

Quando o psicopata vê que alguém caiu na sedução, seduz também amigos e parentes. Porém, começa a se mostrar na intimidade. Para fora, continua fazendo pose, mas, por dentro, o relacionamento se torna tóxico: tudo o que faz, sempre dá um jeito de a outra pessoa ser a culpada.

Se não consegue jogar a culpa em mais alguém, o psicopata faz a vitimização, para que tenham pena dele. Assim a outra pessoa lhe dá mais uma chance, e depois outra.

O psicopata, ou a psicopata, sabe que é assim, e que se utiliza das pessoas. Não ama, mas se liga pelo “jogo do controle, ou ter a vida do outro sob seu controle".


Antes de sair da relação, é melhor não entrar – é preciso identificar o comportamento pela história patológica pregressa da pessoa. Psicopatas repetem os mesmos erros, porque a memória é marcada pela emoção - se não sofre com os erros, e não se arrepende, ele os repete. Por isso, também, cedo ou tarde acabam sendo descobertos.

O relacionamento com o psicopata é sempre abusivo. Uma pessoa aberta a amar se relaciona a alguém que não amará ninguém, nunca. E apenas a usa, ou abusa. Não tem cura, porque não é doença, é maneira de ser.

Quem se relaciona com um psicopata sofre, porque se relaciona com alguém que faz com que o outro tenha sempre sentimento de culpa. O psicopata nunca erra: é sempre o outro, e ele faz com que o outro se sinta um incapaz. O outro acha estar com aquela pessoa maravilhosa, que é do jeito que ela quer, e isso é corroborado pelo fato de que até seus próprios parentes aprenderam a gostar dela. A realidade, porém, é bem outra.

O outro se apaixona por quem o psicopata se apresenta, mas essa pessoa não é ele. A grande dificuldade de quem se apaixona por um psicopata é admitir que aquilo que ela achava que era amor nem sequer existiu. “Não existe amor com quem não sente amor”, diz Ana Beatriz.

De novo: você conhece um psicopata?

sábado, 3 de setembro de 2022

Dez livros importantes

Uma lista dos dez obras literárias que mais me influenciaram (não necessariamente as melhores,  porém as mais importantes para mim):

1. Quo vadis. Poderia ser Ben Hur, mas este livro, escrito por um polonês de nome impronunciável, ainda no século XIX, foi o primeiro romance que li, ainda criança, e me fez gostar de ler, transportado  no tempo até a Roma de Nero e dos escravos cristãos.

2. Sidarta. Do mestre do romance espiritualizado, cujas imagens uso em minha obra até hoje: Herman Hesse.

3. Tia Julia e o Escrevinhador, de Llosa. Como não querer viver escrevendo depois disto? Vou espremer aqui Dossiê Odessa, de Frederick Forsyth: como não querer ser jornalista, depois deste romance sobre um repórter solteiro, dono de um Jaguar,  com a namorada mais bonita de Munique, e que larga tudo diante da oportunidade que lhe cai nas mãos de fazer... Justiça?

4. Dom Casmurro, Machado de Assis. Admiro o refinamento intelectual, e o conteúdo, tão verdadeiro: aprendi com ele as sutilezas da alma humana e, sobretudo, o quanto a felicidade pode ser enganosa.

5. Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. É uma grandiosa parábola do Brasil, sobre uma cidade onde o passado fantasmagoricamente  não larga o presente. Mas quando o li, aos 14 verdes anos, o que me impressionou, mesmo,  foi a putaria.

6. Metamorfose. Poderia ser qualquer livro de Kakfa, mas este é o que mais me fez entender o coração (quero dizer, o meu).

7. 1984. O romance sombrio, estranho e profético desse gênio, ícone do engajamento da literatura com a vida e vice versa, para mim talvez ao lado de Kafka o maior escritor da era contemporânea: Orwell.

8. Folhas da relva, de Walt Whitman. Toda a vida dentro de um livro. Fica na minha cabeceira, como uma oração.

9. A Bíblia. Li três vezes inteira, de cabo a rabo, parte de minha pesquisa para o romance O Homem que Falava com Deus. O grande épico mitológico da história da Humanidade, com lindas passagens (destaco o Gênesis, os Salmos, o Livro da Sabedoria, o Livro de Jó) e a história de Jesus, o maior revolucionário de todos os tempos, pregando a simples ideia de que todos somos iguais.

10. Os últimos deveriam ser os primeiros: Fédon, o diálogo de Platão que narra a morte (e última aula) de Sócrates, o Jesus dos intelectuais.

Hum... deu 11, e é pouco.🤣


sábado, 6 de agosto de 2022

No mundo do criador. Meu perfil de Jô Soares, para VIP, novembro de 1995

Embora fosse o entrevistador mais célebre do Brasil, o showman Jô Soares raramente concedia entrevistas. Em 1995, abriu-se a janela para uma delas, quando ele promovia o lançamento de seu primeiro romance, o policial satírico O Xangô de Baker Street. Em seu apartamento no bairro de Higienópolis, Jô recebeu a mim e ao diretor de redação de Vip na época, Marco Antônio Rezende, com a condição de que somente poderíamos publicar a reportagem depois que passasse pela sua leitura. No início, pensei ser algo inaceitável na imprensa. Hoje, vejo o pedido dele mais como uma gentileza entre colegas de profissão.

Jô concordou em falar sobre tudo, até mesmo seu filho Rafa, sobre quem sempre deu poucas declarações. Posou de bom grado para uma sessão de fotografias, com o tradicional terno e gravata borboleta, conjunto ao qual fez questão de acrescentar um charuto. Muito cioso e experiente no controle da própria imagem, queria surgir no seu coté mais intelectual.

Voltamos à casa de Jô uma segunda vez com o texto pronto, para o momento delicado da leitura por parte do personagem.

– “Luzinhas piscam”? – disse ele, repetindo em voz alta a primeira frase, com uma careta. – É assim que começa?

– É – respondi.

Jô seguiu em frente e o resultado pareceu agradá-lo. Não fez qualquer reparo ou pedido de modificação do texto, nem sobre as tais luzinhas. Eu e Marco Antonio voltamos para a redação aliviados. Tínhamos a capa da revista, sem brigar com o Jô.

O texto original da revista foi publicado num livro de perfis de pessoas célebres, que publiquei pela editora Saraiva (Eles me disseram). Jô virou amigo. Fui entrevistado por ele duas vezes em seu programa, a última delas em 2015, quando lancei A Conquista do Brasil. Eventualmente conversávamos. Jantávamos no Jardim de Nápoli, porque, lá, ele não pagava a conta. E eu aceitava, para pegar carona  na gentileza do dono da casa. Eram jantares sempre divertidos, em que gostávamos especialmente de trocar histórias sobre gente de imprensa - ele conhecia muitas, e era uma delícia ouvi-lo contar.

Estranho que o texto termine falando de uma certa aristocracia que só acabaria junto com Jô. Ele acaba de falecer, para tristeza geral, e, tantos anos depois, continuo pensando a mesma coisa. E este perfil, construído no seu auge intelectual e criativo, ainda me parece o melhor Jô. 

 

(texto)

No mundo do criador

Luzinhas piscam como vaga- lumes eletrônicos na escuridão. Jô Soares acende a luz e aparece a grande biblioteca de seu apartamento, em Higienópolis  São Paulo. Nas estantes de madeira patinada, sob inspiração do arquiteto Sig Bergamin, acomoda-se 2000 livros, a maioria encadernados —sem contar os que há em sua casa de Petrópolis. Como o comandante de uma espaçonave, Jô instala-se na mesa em semicírculo ao fundo do salão. Sobre ela, o elemento mais proeminente é uma elegante caixa umidificadora de charutos, de rádica. De um conjunto de som, faíscam as luzinhas sequenciais. À direita, um poderoso microcomputador Pentium, tela gigante, um aprelho de TV Philips, e a janela onde pousam duas corujas espanta-pombos , de cerâmica, com vista para o bairro arborizado.

            Na parede do outro lado repousa um quadro a óleo em estilo pop de autoria do próprio Jô. É uma caricatura dele mesmo, gostosamente refestelado numa poltrona, com a roupa do Super—Homem e chinelas. Dorme segurando os classificados de um jornal, ao pé do retrato emoldurado de um sujeito bigodudo. “O nome do quadro é O retrato de Nietzsche na casa de seu filho”, explica.

            Não é só auto-ironia que quebra a perfeita organização do ambiente. Pelos cantos, há algumas pilhas do livro que Jó lançou recentemente: O Xangô de Baker Street, sua estréia como romancista. A história, um policial protagonizado pelo legendário detetive Sherlok Holmes no Rio de Janeiro do Segundo Império, é claramente algo com a marca de Jô. Na trama, personagens reais e fictícios se misturam com a naturalidade que ele imprime às suas mais finas criações. Para quem se espantou ao ver Jô romancista,diga-se que o livro já era um sucesso no lançamento.  Nas primeiras três semanas, foram vendidos cerca de 130 000 exemplares de Xangô. Nesse pouco tempo, ele quase alcançou a marca final de Agosto, último romance de um especialista no ramo, o escritor Rubem Fonseca( 160 000exemplares vendidos). E aproximou-se a passos rápidos dos recordistas da sua editora, a Companhia das Letras( Estorvo, de Chico Buarque, e Paratii, de Amyr Klink, com 200 000 exemplares). “Este vai ser o nosso melhor ano”, proclama o normalmente comedido editor Luiz Schwarcz.

            O Jô romancista cavalga com desenvoltura um sucesso do mesmo tamanho do Jô da TV. Mas a nova encarnação de Jô, literato, explodiu de modo um tanto inesperado, até para o editor Schwarcz, que ao lhe pedir um livro sugerira um compêndio sobre a história da televisão brasileira. “Não sei porque estranharam que eu tivesse escrito um romance”, diz Jô, enquanto solicita uma ajudante doméstica, ainda fardada para o seu plantão noturno, uísque com gelo para os seus convidados. Para ele mesmo pede um imbatível guaraná diet- bebida predileta dentre as que se permite. “Isso é um prolongamento da atividade do artista”, prossegue. “Se eu fosse engenheiro ou neurocirurgião , aí talvez se justificasse algum espanto”.

            Não se pode dizer , também, que Jô seja um neófito nas pretinhas, como os jornalistas costumavam chamar a máquina de escrever na era pré- computador. “Eu trbalhei pela primeira vez em jornal em 1961, quando escrevia uma coluna diária no Última Hora”, conta Jô, entre goladas de guaraná. “Era uma coluna com pessoas, artistas e espetáculos.” Na época, como era costume entre a elite do jornalismo paulistano, ficava até altas horas da madrugada em debates boêmios no velho restaurante Gigetto com os colegas da redação .

            De certa forma, nem mesmo os oito anos em que Jô confirmou-se como o melhor entrevistador da televisão brasileira, no seu tradicional programa Onze e Meia, ou escrevendo na coluna semanal na revista Veja, foram suficientes para encobrir sua imagem como humorista e homem de TV e teatro, onde ainda atrai multidões com seu one- man- show Um gordo em Concerto. Até porque ele faz questão de dizer que como jornalista seu principal elemento é também o humor.

            Pode-se ver muita coisa do Jô intelectual em Xangô. Persiste no seu livro a graça com que ele coloca um clássico personagem dos romances policiais, o detetive Sherlock Holmes, e seu amigo, o doutor Watson, a investigar uma série de crimes no Rio de Janeiro do Imperador Pedro II. Ao recriar os personagens a seu modo, inventar outros e ainda entronizar uma participação especial de personagens históricos, como a atriz Sarah Bernhardt e o próprio Dom Pedro, ele se diverte misturando ficção ao documento minucioso da época, o que imprime ao livro uma interessante mistura de graça e erudição.

            Com seus dedinhos , JÔ saca um Hoyo de Monterrey, doble corona, fura a ponta e o acende com prazerosas fumaradas. Diz que este é um velho hábito seu, embora só tenha vindo a aparecer publicamente empunhando charutos agora que está lançando o livro, na condição de entrevistado, e não na de entrevistador. Jô entende de imagens como poucos—e quer mostrar seu lado sério para que não levem seu livro na brincadeira. “Gosto muito de charutos, embora não tenha preferência por nenhum”, ele diz. “Fumo cubanos, porque eles realmente são algo diferente. É como vinho francês e pastel e sanduíche de botequim. O sanduíche em casa nunca é igual ao do bar. Faltam os germes, as bactérias e a mão suja de quem faz”.

            Entre uma e outra baforada, ele se entrega com evidente prazer à tarefa de recompor seu percurso profissional e intelectual. Lembra que em 1965 chegou a passar um dia prestando depoimento no Dops por participar de reunião de intelectuais de apoio à classe teatral, quando esteve entre os integrantes da mesa. Diverte-se ao lembrar: “O policial que me interrogou me perguntou, com grande seriedade: “O senhor sabe que intelectual é palavra inventada pelos comunistas?”

                                                                                                                                    De uma gaveta bem à mão, JÔ saca uma pasta com cópia de sua ficha nos récem – abertos arquivos do Dops paulista, retirada por um amigo. Põe-se a ler, quase embaraçado pela estupidez de uma era passada e obscura: “Elemento  nomeado ministro extraordinário da eucaristia, formado por Dom Helder Câmara...”Explica: “Eu fazia espetáculo no Brasil todo e ajudava na eucaristia. Achava que o leigo deveria participar mais da Igreja e fiz curso em São Paulo com Dom Lucas Moreira Neves. Estive com Dom Helder apenas quando fiz um show no Recife”.

Ele assesta os óculos e prossegue na leitura: “Autor da música Liberdade, proibida pelo Dops”... Nova explicação: “Fiz para o Ari Toledo. A letra dizia que ele queria morar na Liberdade (o bairro de São Paulo), que a rua tal e tal ia dar na Liberdade, mas que a Brasil e a Estados Unidos não iam dar na Liberdade... Claro que a gente fazia oposição como podia”. Jô chegou a ser processado quando trabalhou no Pasquim, naqueles tempos brabos, por causa de um artigo chamado “A cama”. “Dizia que a cama chamava-se cama por causa de seu suposto inventor, um homossexual assumido e famoso chamado Giovanni Cama”, explica Jô. “Daí a frase: Crie fama e deite-se no Cama”. Ri. “Não tinha nada demais, mas era o Pasquim, e qualquer coisa servia de pretexto para censurar a esquerda e podar a livre criação.”

 Talvez Jô acabasse conquistando fama no jornalismo se não tivesse iniciado a carreira de ator no filme “O homem do Sputnik”, em 1958, e começado a trabalhar na TV Rio na mesma época. Depois, foi convidado para a TV Globo pelo amigo Max Nunes, cardiologista que nas horas vagas tornou-se um dos mais talentosos autores de rádio e televisão do país. O mesmo Max Nunes, agora com 73 anos, aposentado da Medicina, com quem Jô ainda faz parceria – é seu co-autor na TV, em caráter de exclusividade. “Fizemos o Faça Humor, Não faça Guerra, ele escrevendo, eu escrevendo e fazendo personagens”, diz. Ele olha para o seu Pentium e lamentou que ainda não estivesse à sua disposição naquela época. “Escrever naquelas máquinas era um trabalho estivador”, diz Jô. “Principalmente a Família Trapo, um programa semanal de 2 horas. E ainda tínhamos de escrever tudo naquelas folhas de mimeógrafo. Ao final, estávamos completamente azuis”. Mas não se pense que o Pentium escreve sozinho. “O ato de escrever”, diz o novo romancista, “é como parir sem ser mãe”.

Jô fez incursões variadas também por outras searas artísticas, nem sempre com o mesmo sucesso, diga-se. Foi o caso, por exemplo, de seu único filme como diretor: “O pai do povo”, de 1975. “Foi uma frustração ter feito um filme que ninguém viu. Pelo menos, virou um cult às avessas”, disse. O Jô artista plástico participou em 1967 da 9ª. Bienal de Artes Plásticas de São Paulo, que ficou conhecida como a Bienal da Pop Art .

O ecletismo de Jô na área artística encontrou correspondência em outros aspectos de sua vida. Declara descaradamente que prefere um gorduroso cheeseburger às iguarias dos melhores restaurantes, embora tenha as de sua predileção, como o boeuf bourguignone do restaurante Daniel e o hambúrguer do P.J. Clark’s, em Nova York, ou o chucrute da Mansion d ‘Alsace, em Paris.

No Rio, Jô aprecia o cardápio do Hipopótamus e a carne seca e desfiada do Pantagruel. Em São Paulo, gosta do Massimo e é fã do polpettone al sugo de pomodoro do Jardim de Nápoli, que oferece a vantagem adicional de ser perto de sua casa. Jô é consumidor voraz também de livros. Entre suas leituras prediletas, relaciona clássicos como Eça de Queiroz, Ernest Hemingway e Dostoiévski, mas também escritores marginais. Como Frederic Brown, autor de contos curtos que ele degusta com prazer, e de um romance intitulado “Os Marcianos Se divertem”. Trata-se da narrativa de uma invasão de “marcianinhos verdes super cafajestes”, descreve Jô, que perseguem as pessoas em toda parte, inclusive na cama.

“Brow tem um humor ferino de que gosto muito”, diz ele. “Acho que os gremlins são fruto direto dos marcianinhos dele.” Para provar que está falando sério, Jô se dirige ao Pentium e tenta puxar o nome do escritor nos arquivos da Enciclopédia Britânica em versão CD—ROM. Nada. “Ele é tão marginal que nem na Britânica está”, diz. Depois, olhou para os livros em sua estante, levanta e busca um volume em francês onde consta uma brevíssima biografia de Brow. “Está vendo?”

Ao passar da bancada do entrevistador para o entrevistado, na esteira do romance, descobre-se um Jô Soares um pouco diferente daquele que todos acham conhecer da televisão. A começar pelas idéias, que muitas vezes deixa filtrar no seu programa, mas que só então aparecem inteiramente explicitadas.  Sua declarada posição ideológica, por exemplo: “Eu sou o anarquista que todo artista deveria ser”, diz. “Preservo a capacidade de criticar a quem quiser.” Essa profissão de fé tem seu lado muito prático. Jô, por exemplo, foi uma das primeiras - e poucas - personalidades a disparar contra o presidente Fernando Henrique Cardoso, uma unanimidade entre seus pares no mundo intelectualizado, ainda antes das eleições para a presidência da República, em 1993, quando decidiu aliar-se ao PFL: “Sou um democrata enraizado”, diz. “Essa aliança com o PFL incomodou todo mundo. E não era necessária”.

Ele também tem opiniões bastante singulares sobre o seu próprio meio. Acha bobagem, por exemplo, a conversa muito freqüente segundo a qual a TV imbeciliza o povo. “A função dela é pegar coisa de fora e levar para dentro da sua casa. Se você não ligar o aparelho , não será nociva, mas também não trará nenhum benefício - nem notícias, entretenimento, filmes. Nada. Na verdade, ela democratizou a informação, que antes era elitizada de modo indiscutível. Tenho empregados que às vezes estão mais bem informados do que eu sobre o que está acontecendo na economia.”

Casado pela terceira vez, com Flávia, Jô cultiva a discrição em relação à sua vida particular. Nas últimas semanas, expondo-se na nova faceta de escritor, acabou tendo de falar de assuntos que antes tenderiam a permanecer no terreno estritamente privado, como religião. Declara-se devoto de Santa Rita de Cássia, de quem tem uma imagem de meio metro de altura bem ali, em seu escritório. Diz que é assim desde criança, por influência da mãe. “Acho que Santa Rita me protege”, afirma. “Como tudo que é irracional, não tem muita explicação.”

Durante um programa Roda Viva, da TV Cultura, o momento mais emotivo foi aquele em que respondeu à pergunta de um telespectador sobre se tinha filhos. “Eu tenho um, hoje com 31 anos, o Rafael”, diz Jô. Rafael, que mora com a mãe, Tereza Austregésilo, com quem Jô se casou aos 21 anos, tem problemas semelhantes aos do personagem autista interpretado por Dustin Hoffman no filme “Rain Man”, embora ele evite mencionar o nome médico para o assunto. “O Rafinha tem um talento enorme para a música, toca piano e compõe”, disse no programa. “Mas ao mesmo tempo não consegue fechar sozinho o botão da camisa.” Alguns dias depois, entrevistado por Marília Gabriela, disse que para ele o problema de Rafinha era “bem resolvido até onde pode ser bem resolvido. Ter filhos com dificuldades é algo difícil de administrar. Mas eu não gostaria de ter outro filho  que não fosse o Rafa”.

Boa parte do dia, Jô passa ali no escritório mesmo, seu reino encantado, onde se sente muito à vontade. Acorda às 11 horas da manhã e dorme às 4 da madrugada. “Leio, vejo vídeos”, relata ele. Às segundas e terças, grava o Onze e Meia. Faz entrevistas também para os demais dias da semana. Grava ainda um programa de rádio, “Jô Soares Jam Session”, e de sexta a domingo apresenta no teatro “Um Gordo em Concerto”. Tira férias da metade de dezembro até março e procura não manter horários rígidos. “Tenho um problema com a pontualidade”, disse.

Nas férias, vai com freqüência a Nova York, onde se hospeda em flats alugados. Da última vez, em janeiro do ano anterior, acabou trabalhando na confecção de Xangô. “Quando estava escrevendo, fui ao Argosy, um sebo fantástico, com computador, na Rua 59, entre a Lexington e a Park Avenue”, disse ele. Lá, comprou a coleção completa dos livros de Sherlock Holmes. “Mas sou cliente fiel da Barnes & Noble, na Broadway com 83”, emenda. Em Manhattan, freqüenta cinema e teatro. “Aqui no Brasil, as salas são pequenas. A shopping não dá para ir, porque quando apareço começa aquela algazarra. Mas não fujo das pessoas, ao contrário, porque sou exibido à beça. Em viagem, ao contrário de muitos artistas que adoram o anonimato, eu fico carente. Sinto falta das pessoas que cruzam comigo sorrindo e me cumprimentando. Fico pensando: o que será que eu fiz de errado?”

Como se veste um escritor grande como Jô Soares? Ele usa jeans feito na Exss, que fabrica jeans de lycra, stone washed, especialmente para ele. Faz seus ternos com a VR. Depois, por amizade ao falecido Rafael Minelli, que confeccionava suas roupas desde a década de 1960, continuou freguês da alfaiataria paulista que leva seu nome. Gosta de gravata borboleta de dar laço — “nunca pinga nada nela” — e cultiva com gosto hábitos europeus, algo muito apropriado para quem estudou na Suíça até a adolescência. “Em Paris, vou à Brasserie Lipp”, diz. “Era amigo do antigo proprietário, falecido monsieur Casè, um fumante de charuto que proibia fumar cachimbo, dizendo que atrapalhava o apetite alheio com aquele ‘perfume adocicado’. Mas ele deixava os charuteiros completamente à vontade” diz Jô, e ri deliciado.


 Mesmo sendo amante de charutos, ele afirma que não tema outras grandes manias, como a de procurar “aquele” charuto. “Eu invejo as pessoas que não têm a menor fixação por objetos, como o Max Nunes”, afirma. “Uma vez lhe perguntei qual a cor de carro de que ele mais gostava. Sabe o que ele respondeu? Nenhuma, eu vou dentro.” Jô gosta de objetos bonitos, mas não faz questão de quantidade. Adora relógios, mas só tem três - o preferido era um Cartier modelo Pachá, de ouro maciço. Carros, também possui três: um Jaguar, um BMW 750 “longo” e um Mercedes conversível. “Tinha uma paixão pelas motos Harley que, como toda paixão, era patológica”, diz. Ela acabou depois de um par de tombos que deixou algumas seqüelas. Jô se levanta, vai até uma parede e empurra o braço contra ela, até conseguir alçá-lo apontando para o alto, único jeito de fazer movimento. Na primeira queda de moto, quebrou um braço. Na segunda, quebrou os dois. “O Max diz que motocicleta, por ter duas rodas, foi inventada para cair”, diz. “Um dia, ela te vence”.

O ar enfumaçado pelo charuto favorece temas mais profundos, de maneira que mudamos de assunto, para falar sobre seu método de criação. Talvez a principal característica de Jô seja a capacidade de reciclar o que vê à sua volta, transformando tudo sob sua ótica bem-humorada, como fazia com seus personagens da TV — alguns extraídos da realidade. Era o caso do português que exclamava “Q’ erias !”, um bordão que ao seu tempo se tornou muito famoso. “Eu estava com papai e mamãe numa estação de águas na Itália, num hotel deslumbrante”, conta Jô. “Havia lá um português grossíssimo e engraçado. Certa vez, vi uma bela italiana ralhando com ele: ‘Farabutto! Mascalzone!’ Era uma daquelas moçoilas que ficavam no hotel à caça dos ricaços que andavam por ali e cobravam 20 000 liras por serviço prestados.” Nesse ponto, Jô imita a reação do português: “’Q’erias! Q’erias vinte, zero é o que vales. Dei-te cinco, lucraste cinco. Q’erias!’  Contei essa história para o Max Nunes e ele achou que tínhamos ali um tipo já pronto”.

Essa característica de Jô também está presente em Xangô, além de um certo romantismo, pela maneira com que ele retrata o Brasil monárquico - cheio de nódoas sociais, mas também dotado de uma adorável leveza. Jô trata de monarquia como um tempo despreocupado e propício a uma boemia na qual se esbarra com figuras como o poeta Olavo Bilac numa mesa de bar ou Ernesto Nazareth ao piano num sarau chique.

Passa da meia-noite. Jô nos acompanha até a porta. Na parede do hall, há um grande painel de João Câmara de um lado e, de outro, a gigantesca estátua de um negro, com um grande sorriso no rosto, usando casaca decorada de estrelinhas e chapéu-coco, como os personagens que abriam a porta dos antigos teatros americanos. Estende a mão enluvada, e alguém deixou ali uma nota de 1 dólar. “Um amigo americano passou aqui em casa e deixou a nota aí”, diz Jô, divertido. “Eu gostei e colei”.

A história lembra outra, contada por Jô na mesma noite. Certa vez, acompanhado do compositor Jorge Mautner, ele discutiu com um negro na Washington Square, em Nova York, em meio a uma passeata de protesto contra os brancos. Tentava prova a ele que compreendia muito bem a situação dos negros nos Estados Unidos, porque, sendo de um país de Terceiro Mundo, também sentia-se discriminado. O negro americano, entretanto, fez pouco caso da conversa daquele brasileiro cordial. “Você é branco”, fuzilou ele, antes de lançar alguns impropérios e seguir na sua marcha. Jô não se conformava que o racismo pudesse ser superior àquela tentativa de aproximação.

De certa forma, em uma fértil maturidade, Jô é o tipo do homem que estaria apto a viver num mundo, passado ou futuro, onde o instrumento da moda fosse o violino, o francês a língua oficial e o fair play a regra de conduta. Infelizmente, o mundo é hoje bastante diferente – mas penso que sempre haverá algo dessa alegre aristocracia enquanto Jô estiver no nosso convívio.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Uma conversa com o presidente

 
- Vai lá! Ele adora história.

Maria João, assessora cultural do governo português, sentada à mesa comigo, me estimula a falar com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, no almoço oferecido pelo governo português dentro do Expo Center Norte, onde acontece a Bienal do Livro - e Portugal tem um pavilhão, como país convidado de honra.

Desço correndo ao piso térreo, onde ficam os estandes, compro dois de meus próprios livros de história (A Conquista e A Criação do Brasil) e volto correndo ao almoço.

- Dois? - diz o presidente, com um sorriso, quando me aproximo de sua mesa, com os livros na mão.
Explico que sou autor e editor e lançamos no Brasil o selo Assírio & Alvim, que tem em Portugal os grandes autores nacionais, e meu propósito é não apenas lançar autores portugueses aqui, como fazer com autores brasileiros o mesmo trabalho que a editora faz em Portugal.

- Mas tem de ter autor brasileiro em Portugal também, hein? - diz ele.

Sousa é muito afável e faz seu trabalho como um alegre diplomata. Conversamos sobre a política com equilíbrio, que ele tão bem representa, e o presidente me convida para visitá-lo no palácio, em minha próxima viagem a Portugal, como alguém que diz, "passa lá em casa".

Em seus discursos, falou da Bienal como se o Brasil fosse o seu país, ou ele fosse o presidente brasileiro, de tão orgulhoso da pujança do evento. Andou pelos estandes, comprou livros para uma brasileira que teve coragem de abordá-lo, fez fotografia com Deus e todo mundo, foi um sucesso.
 
Só não encontrou o presidente Jair Bolsonaro, que não foi à Bienal e desmarcou em Brasília um encontro oficial entre chefes de Estado, numa inexplicável represália pelo fato de Sousa ter encontrado Lula, na série de encontros de cortesia do presidente português com ex-presidentes brasileiros, incluindo FHC e Temer. 

Uma falta de educação tão grande, que, além de vergonhosa pelo contraste entre os dois líderes, só mostra como é difícil um real progresso num país onde não há na liderança sequer um pingo de civilidade.

Sousa é famoso em Portugal por ser uma pessoa simples e acessível. Professor, advogado e editor de origem, foi um dos fundadores do Expresso, um dos jornais mais importantes de Portugal. Na presidência, não abandonou hábitos como ir sozinho ao supermercado.

Conta-me Vasco David, editor da Assírio em Portugal, que Sousa gosta de nadar e, certa vez, no Algarve, salvou uma pessoa que se afogava, o que o transformou também em herói acidental. Certa vez, foi convidado de honra no jantar mensal de editores portugueses (algo que não existe aqui). Passou a frequentá-lo eventualmente, por genuíno interesse e prazer.

De acordo com o sistema político português, Sousa não tem funções executivas no governo, isto é, não comanda a administração. Porém, representa o Estado e tem um poder que o presidente do Brasil não tem, que é o de dissolver o Congresso e convocar novas eleições. Sobretudo, dá o tom de comportamento a um país onde o Estado fomenta a cultura, promove-a internamente e também no exterior, como o grande patrimônio nacional, a unir, identificar, valorizar a nação e fazê-la cruzar fronteiras.

Portugal é antes de mais nada o país de Camões, de Pessoa, de Saramago: orgulhos nacionais, código em comum de todos os portugueses, aprendido na escola. E que eles fazem questão de mostrar, algo que faz um país pequeno poder ser grande, como escrevo em meu livro poema, Asas sobre nós. Um exemplo inspirador, não só para o Brasil como para o mundo.

sábado, 11 de junho de 2022

Hemingway, Dos Passos e um lugar ao sol

Hemingway (esq.) e Dos Passos

Numa noite da primavera de 1937, um grupo de homens armados invadiu o apartamento em Valência, na Espanha, onde estava José Robles Pazos, professor de literatura espanhola na Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos. 

Intelectual do partido comunista, Robles tornara-se homem importante na guerra civil espanhola. Era tradutor e braço direito do general russo Mikhail Koltsov, encarregado de liderar as forças internacionais que reforçavam a resistência contra as tropas do general Francisco Franco

Depois de vasculhar seus pertences, os homens da milícia levaram Robles algemado, sem mandado de prisão, acusações ou explicação, deixando para trás, em desespero, sua esposa Márgara. Naquela noite, em algum lugar perto de Valência, sem julgamento ou apelação, Robles foi fuzilado. Seu corpo jamais foi localizado.

Para entender esse crime, que permaneceu sem esclarecimento muito tempo, é preciso compreender um estranho episódio da História: uma guerra na qual o líder soviético Josef Stalin entrou nos bastidores, sem ser chamado, para defender uma nobre causa e depois abandoná-la. Depois de enviar reforços russos aos republicanos de Madri, Stalin literalmente sacrificou os homens que tinham ajudado a defender a cidade do cerco franquista ― os seus próprios homens, incluindo o general Koltsov, considerado mais tarde um traidor e executado em Moscou. Com a mesma frieza com que realizava expurgos em massa em seu país, Stalin tinha como principal interesse atrair a cobiça imperialista de Adolf Hitler para uma Espanha enfraquecida. E assim desviá-la da União Soviética.

O assassinato de Robles e dos oficiais russos na Espanha marcou também a vida de dois escritores americanos célebres, como conta o ex-professor de literatura da Universidade de Columbia Stephen Koch em seu livro O ponto de ruptura ― Hemingway, John Dos Passos e o assassinato de José Robles (Difel, 2008, 352 págs.), publicado no Brasil pela editora Difel. Amigos fraternos, até cobrirem juntos como jornalistas essa guerra insensata, John Dos Passos e Ernest Hemingway saíram da Espanha como inimigos silenciosos. E a partir dali teriam destinos opostos, na literatura e na vida.

Amigo de Robles desde seus tempos de faculdade, Dos Passos era então o romancista mais quente dos Estados Unidos ― pouco antes de viajar à Espanha, tinha sido personagem de capa da revista Time. Ao descobrir o assassinato ― e que fora patrocinado pelos chefes de sua corrente ideológica ―, ele se afastou dos quadros do partido comunista, do qual era a maior estrela entre outros intelectuais e celebridades da época. 

Ernest Hemingway, seu amigo também de longa data, foi atraído para o seu lugar, mesmo sendo menos (ou pouco) identificado com o ideário do partido. Numa descrição minuciosa, Koch narra como Hemingway teria sido manipulado por interesses que pretendiam usá-lo, primeiro, para desmoralizar Dos Passos, calando-o na perseguição aos responsáveis pela morte de Robles e de outros homens-chave da resistência. E, segundo, para colocá-lo no lugar do autor de Manhattan Transfer como símbolo da inteligência comunista.

Do livro de Koch, emerge um Hemingway hedonista, vaidoso, conturbado. Trai a mulher que lhe deu casa, comida, filhos e tranqüilidade para escrever (Pauline), por Martha Gelhorn ― uma ambiciosa candidata a celebridade que fazia o jogo do apparatschik e o atrai com as armadilhas certas (a beleza física e a bajulação). Ao mesmo tempo em que leva Martha consigo para a ribalta da intelectualidade (e a cama), Hemingway é convencido a demover Dos Passos de investigar a morte de Robles. O que ele faz, munido do mesmo fatalismo seco que encontrava nas guerras e transpunha para sua literatura.

Como compensação, além do reconhecimento de Martha, Koch mostra que Hemingway desfruta, ainda que com um certo desconforto, de novos refletores. Levado por Martha e seu círculo de amigos ligados ao aparato stalinista, que via na propaganda um instrumento de Estado, Hemingway é colocado por eles como o centro dos eventos mais barulhentos da intelectualidade da época. O Hemingway de O ponto de ruptura aceita ser usado, fisgado pelo ego, sua eterna obsessão ("a carreira, a carreira", escreve Koch, citando um conselho que dera Gertrude Stein) ― e uma bela mulher.

Ao afastar-se do comunismo stalinista, Dos Passos entrou no período de declínio de sua produção literária. Depois de cobrir como jornalista a guerra civil espanhola, e perceber como Stalin aos poucos mandava matar seus colaboradores no país, nunca mais conseguiu escrever romances com o mesmo calor. 

Por sua obra anterior, a trilogia intitulada USA, e Manhattan Transfer, Dos Passos pode ser considerado um dos romancistas mais brilhantes de sua geração nos Estados Unidos, senão o maior. Contudo, enquanto Hemingway saiu da Espanha com o esboço de um romance que o levaria mais alto no estrelato (Por quem os sinos dobram), a alma literária de Dos Passos enfraqueceu, ferida pelos estilhaços de um desapontamento vital. Nunca mais escreveu algo do mesmo nível.

Enquanto sustentou seu ponto de vista engajado, Dos Passos o usou para a crítica de um país em que cada vez menos se admite, ainda hoje, as falhas do sistema. Destruída sua visão do mundo, traído por aqueles a quem defendera e afastado de Hemingway, Dos Passos se perdeu. 

Por sua associação com o comunismo, que lhe valeu a perseguição do macartismo, e também por tê-lo deixado depois, abandonado por seus antigos companheiros de partido, caiu no ostracismo. Hoje, quando se pergunta a um americano se conhece Manhattan Transfer, talvez ele se lembre apenas de um grupo musical brega que teve seus quinze minutos de fama na década de 1980.

Para os americanos, chega a ser incômodo pensar que um de seus maiores romancistas tenha sido comunista, algo que no país patrocinador da Guerra Fria se tornou uma maldição ― mesmo que o macartismo tenha terminado, ou que Dos Passos tenha se afastado do comunismo, quando a realidade brutal do stalinismo mostrou ao lado de quem ele servia. É muito mais fácil ter como monumento literário um gênio amoral como Hemingway, que fazia do individualismo sua única bandeira, mesmo que ele tenha servido de alguma forma ao comunismo stalinista. Na sua busca incessante de servir a si mesmo, Hemingway disfarçava melhor quando servia a outros. O professor Koch, aos poucos, vai demonstrando seu ponto de vista: como Hemingway, com seu perfil duvidoso, faz o milagre de desfrutar o apoio do apparatschik, sem perder a aura de ícone da Geração Perdida, que o colocou um pedestal da América capitalista.

Homem de um tempo em que as utopias eram tomadas nas mãos de ditadores pusilânimes e sanguinários, Hemingway morou seus últimos vinte anos em Cuba. Para isso, alegou não idealismo ou lealdade a Fidel Castro, mas o fato de que a ilha era o lugar perfeito para tomar daiquiris e praticar seu esporte favorito, a pesca de bico. Matou-se com um tiro de espingarda na boca, vítima da devastação física e moral a que o levou o alcoolismo ou, antes, o verme roedor das consciências. Porém, fez da própria morte, assim como da dubiedade de suas relações, incluindo com as mulheres, parte do mistério que alimenta seu mito. Enquanto Dos Passos submergiu, ele continua o romancista mais cultuado de todos os tempos.

Sendo eu também romancista, o livro de Koch me faz pensar. A qualidade literária sobrevive às ondas da política, aos ditadores de todos os matizes e às sociedades refratárias. Hoje, quando as ideologias são tão difusas que as diferenças parecem ser apenas a da pobreza e da riqueza, do Ocidente e do Oriente, do fundamentalismo desta ou daquela religião, os intelectuais perderam participação ativa na política e nos acontecimentos do mundo, afogados na falta de ideias ou de clareza. 

Não há correntes, ideais ou mesmo partidos com que se alinhar. Esvaziada como instrumento ideológico, a literatura deixou de buscar propósitos sociais, abandonando os ideais para servir somente ao individualismo. Livre das ideologias, o egocentrismo de Hemingway saiu vitorioso.

No entanto, O ponto de ruptura traz de volta à luz o talento de um romancista que olhava para dentro, mas também olhava para os outros. Mostra que se deve recolocar John Dos Passos em seu devido lugar histórico e literário. Dos Passos foi capaz de compreender Hemingway. Chegou a enviar-lhe uma carta reconciliatória, quando Hemingway deixou a Clínica Mayo, em Havana, para tratar-se de depressão e sintomas de psicose, manifestando preocupação com sua saúde ― duas semanas antes do antigo amigo explodir a cabeça com uma espingarda de caça.

Hemingway foi grande e ainda inspira, por sua vida e seus romances, reflexões profundas sobre a condição humana. Já Dos Passos foi duplamente grande: não só por escrever belamente, mas por ter sido, embora às vezes ingênuo, um exemplar daquela gente em extinção que não abdica de princípios, mesmo à custa do sucesso.