Caminho com a artista plástica Denise Milan pelas ruas arborizadas de Higienópolis, em nossas conversas sobre o mundo da criação, quando ela sempre me surpreende. Denise tem suas obsessões, mas, dentro delas, é sempre capaz de inventar algo novo. E a tarefa mais difícil de um artista é inventar, quando está procurando a essência, o fundamento, o mais importante – não na arte, que é mero meio de expressão, mas na vida.
É isso o que ela faz na sua nova exposição, que não por acaso batizou de Elementares, e também não por acaso aberta ao público a partir de 29 de maio no Museu de Arte Sacra, em São Paulo, onde se guardam obras de arte dedicadas ao sagrado.
Denise trata a natureza como objeto sacro – não a pedra, mas a vida em si, dentro de seu tempo de milhões de anos, sua verdadeira matéria-prima. Mistura arte e ciência para criar um efeito transcendental. Como ciência, lembra que a beleza mineral não é algo inerte: apenas se forma numa existência mutante em milhões de anos que não podemos enxergar. Como arte, testemunha que essa beleza só existe porque ela lhe dá significado. De fato, nenhuma beleza eterna existe sem o olho do ser humano, este irmão efêmero da pedra, ser de vida curta, mas sublime.
Entendimento do essencial, do que somos, de onde viemos, para onde vamos. É este lugar onde Denise nos leva. Consola saber que fazemos parte dessa beleza universal, que aparece em formas mágicas: a pedra que lembra o útero feminino; imagens humanas; o “elemento” comum na origem de todos os seres, moldados da mesma forma, como um só e infinito organismo.
As pedras de Denise são pedra e são gente e estrelas: têm cor, têm luz, e cada uma, nas diferentes seções da exposição, é eflúvio de aspectos diversos de uma vida única. Remetem não ao fundo da terra ou ao espaço sideral, mas a um lugar subterrâneo de nós mesmos, ao mesmo tempo que nos projetam para um futuro sem fim, em contínua transformação.
– O título da exposição é tão simples e tão certo – eu lhe digo. – Resume a sua obra. Você é um gênio.
É isto o que me ocorre quando vejo o que faz Denise, que está entre os poucos artistas brasileiros realmente universais, com uma mensagem ao mesmo tempo contemporânea e atemporal, e obras em espaços públicos tão diversos como Chicago, nos Estados Unidos, e Assis, na Itália. Porém, cada um pode ir a Elementares e ter sua própria impressão. A arte provoca em cada um o que lhe diz mais respeito. Uma coisa, no entanto, é certa: diante de Elementares, a gente sai como se tivesse rezado: encontro com Deus.
(publicado originalmente na Revista DasArtes)

Nenhum comentário:
Postar um comentário