segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Toda uma vida num instante


O fotógrafo Jairo Goldflus, um dos profissionais mais requisitados por revistas de estilo e pelo mundo da publicidade no Brasil, especializou-se numa grande arte: retratar celebridades, na maioria das vezes tiradas de seu contexto, para contar algum tipo de história. Ao colocá-las em lugares estranhos, com roupas pouco usuais, ou em qualquer situação que nos faça ver celebridades de uma outra forma, Jairo sempre deu um toque especial e surpreendente àquilo que todos acham conhecer.

Ao decidir passar um período sabático em Nova York, supostamente para não fazer nada além de ir à Broadway ou aos shows do Village, aconteceu com ele o que acontece quando também somos tirados do lugar: passamos a ver a nós mesmos - e aos outros - com olhos diferentes. O descanso se tornou novamente trabalho, resultado da inquietação que segue todo artista. E essa mudança de perspectiva produziu algo extraordinário, que ele mais uma vez colocou em forma de livro.

Em You Are Not Here (Editora do Autor, R$ 160), Jairo mostra o que fez ao longo de dois anos na capital metropolitana do mundo. Dia após dia, dedicou-se a retratar gente dentro de um vagão de trem do metrô: o mesmo banco, do mesmo vagão, do mesmo trem, no mesmo horário. Ao todo, retratou 1.500 pessoas, das quais aparecem 456, após um processo de edição que faz do livro uma galeria em papel.

Inversão de pensamento, de ponto de vista, talvez de valores, Jairo usou Nova York para mudar, ou reciclar-se. Em vez de colocar gente conhecida em um lugar e papel desconhecidos, fez precisos retratos de gente desconhecida no seu lugar de sempre. E o resultado é extraordinário, não apenas pelo tempo e esforço empregados, que dificilmente outro fotógrafo um dia repetirá.

You are Not Here é estranho, insólito e impactante. Para muita gente, conhecer alguém é algo que leva tempo. Para isso, queremos saber quando e onde a pessoa nasceu, seu nome, onde vive. Ouvimos suas histórias. E passamos a gostar ou não do resultado. Jairo, no entanto, mostra que um estranho, ou toda uma vida, se pode conhecer apenas num instante.

Produz perfis fotográficos que, ainda que sempre no mesmo cenário, contam em silêncio uma infinidade de histórias. A biografia de cada retratado está inscrita nas rugas, nas marcas do corpo, nas roupas, no gesto, no olhar. Não precisamos perguntar seu nome, endereço e história de vida para sabermos quem são.

A diversidade humana desfila diante das lentes do fotógrafo secretamente instalado no trem. São todos literalmente passageiros, mas naquele momento se transformam em estátuas de si mesmos. As imagens impressionam, não somente pelas emoções mudas que transpiram de cada um. Mostram uma espécie de determinismo da alma, onde a psiquê predomina de tal forma que aflora em todo o nosso exterior.

Um bom exemplo disso, tirado entre minhas fotos favoritas do livro, são as imagens de um mesmo homem, fotografado em duas estações do ano, distintas como o verão e o inverno, com roupas completamente diferentes, de acordo com a época. Mudou a propaganda atrás dele no vagão, o dia, o clima, a roupa, a estação, mas o homem, de volta ao mesmo lugar meses depois, permanece o mesmo - a mesma expressão vazia, invariável, de desesperança, ou enfado. Difícil descrever, porque as imagens aqui são melhores que as palavras, para nos fazer sentir.

Se por um lado podem condoer, os retratos de Jairo por outro também comovem com a alegria despreocupada, a energia, a esperança e uma série de outras emoções que carregamos todos os dias simplesmente ao ir para o trabalho. Tatuagens, chapéus, sapatos: cada elemento com que alguém compõe a si mesmo se torna revelador dos mais diferentes impulsos.

Depois de Público, seu livro de retratos de personalidades, e Privado, em que desnuda as celebridades, suas fantasias que mostram gente midiática como algo real, Jairo virou a si mesmo no avesso. E, curiosamente, continua sendo Jairo. Reúne mais uma vez elementos da literatura e do jornalismo, fantasia e realidade, em fotografia impressa.

Seu livro é grande, custa caro, e para muita gente pode parecer desses que servem apenas para enfeitar a mesa de centro de uma sala fastidiosa. Prestar atenção nele, porém, é como abrir as portas para o ser humano, sua diversidade, e o que há de extraordinário na sua mundanidade. Sugere também que olhemos o espelho, onde podemos fazer sobre nós mesmos o exercício que Jairo inventou para fazer pensar seu leitor. Pode ser assustador.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Por que Hefner continua importante

A morte do editor Hugh Hefner, que fundou a revista Playboy em 1953, pode parecer mais um marco do fim de uma era da imprensa e de certos costumes, enterrados na era digital. Não é. A grande virtude de Hefner, e o filão que ele descobriu e explorou, ainda estão aí e fazem pensar. Hefner foi embora, mas o que ele vislumbrou continua vivo.

Num mundo em que as feministas tomaram a voz e qualquer coisa que defenda os homens - seres humanos que também possuem direitos - é tachada como machismo, Hefner continua a ser revolucionário. Foi ele quem descobriu que uma revista podia defender o público masculino, não no sentido político, ou como um movimento, mas da única forma possível - estando ao seu lado, compreendendo, estimulando e sobretudo aliviando suas agruras, com um pouco de ironia sobre ele mesmo.

Homens estatisticamente possuem uma vida mais curta que as mulheres, sobretudo por conta de doenças cardiovasculares. Hoje, como nunca, suportam uma grande pressão financeira e social. Hefner foi o primeiro a perceber que precisavam de um local de descanso, onde a auto-indulgência lhes fosse permitida. Não é pouca coisa. Isso criou um fenômeno mundial. Dessa forma, Hefner institucionalizou um ícone de liberdade, a ponto das célebres orelhinhas serem uma marca mais conhecida no mundo que a Coca-cola.

Por isso, Hefner definia Playboy não como uma revista de mulheres nuas, e sim de estilo de vida. Trazia para a vida dos homens o mundo do sonho, em que não apenas se conseguia ver as mulheres mais deslumbrantes, como sonhar com a vida que contrastava com seu cotidiano: o chefe em cima do seu pescoço, o cuidado dos os filhos, as expectativas e exigências da mulher, a falta de perspectivas no trabalho e na carreira.

Playboy era o sonho: belas mulheres, grandes carros, maravilhosas viagens. Tudo isso com um humor fino, quase britânico, a mostrar que tudo aquilo era possível e mesmo assim não era grande coisa.

Resumir Playboy a uma revista de "mulher pelada" é uma forma fácil de escamotear o principal: rotulando-a como puro machismo, evitou-se falar sobre os problemas dos homens e suas necessidades. Hefner não teve medo de fazê-lo nem de ostentar isso publicamente. Entendia a necessidade de uma válvula de escape para uma vida aborrecida e de quem não pode nem mesmo reclamar. Serviu um instrumento de auto-indulgência e de liberdade. Um espaço irmanado por todos os homens do qual as mulheres não precisavam, nem deviam participar.

A era digital envelheceu o negócio revista, assim como o tempo envelheceu Hefner, que procurou fazer de si mesmo um símbolo desse espírito de auto-indulgência, do estilo de vida que procurava vender - não o sonho americano, e sim o sonho masculino, nutrido pelo homem médio, o trabalhador, o pai de família, sem rotas de fuga. Tornou-se um senhor meio excêntrico, que morava na mansão de Playboy, cercado de coelhinhas, com uma fila de ex-mulheress, exibindo-se sempre num robe de seda ou com um quepe de capitão. Ao se tornar um tanto caricato, favoreceu o enxovalhamento do que seu projeto tinha de melhor.

Não há mais Hefner, e tampouco futuro para as revistas impressas, especialmente masculinas, com a facilidade de reprodução digital. Os homens, porém, permanecem com os mesmos problemas e continuam sendo um grande mercado para veículos de estilo de vida interessados em colocar-se ao seu lado. Esse caminho, o achado empresarial onde Hefner se fez pioneiro, ainda é o mesmo. E nenhum discurso politicamente correto foi ou será capaz de fazê-lo desaparecer.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Moisés e a vitória dentro da derrota do Palmeiras na Libertadores

O jogo se mostrava enrolado, difícil, com os mesmos problemas de sempre: time desentrosado, afoito, dependente de centros sobre a área desde o primeiro minuto. O estilo de Cuca, de fazer os jogadores correrem até seu limite, mostrava-se mais uma vez ineficiente diante de um adversário bem armado, que defendia bem e contra atacava com perigo. O torcedor em suspense, aflito pela necessidade da vitória por pelo menos 1 gol para manter as esperanças, foi para o intervalo com os olhos redondos como o zero a zero no placar. Mas, no segundo tempo, como um toureiro na arena, entrou Moisés.

Em todo este ano, Moisés havia jogado apenas meio tempo, na semana anterior. Vindo praticamente da fisioterapia, depois de uma cirurgia com recuperação longa e delicada, foi colocado às pressas, como se faz somente nos momentos de desespero. Expuseram Moisés a um sacrifício alarmante, perigoso, irresponsável.

Mas Moisés entrou. Na partida decisiva do campeonato, oito meses depois de iniciado o ano, ele fazia sua estreia de verdade. E tudo mudou de repente.

Clarividente, Moisés tomou conta do jogo. No lugar do velho time de Cuca, onze correndo atrás da bola, a bola é que começou a correr. Passava dos pés de Moisés de um lado a outro do campo. Achava o espaço antes inexistente. Como no toque de trivela que, em curva, passou atrás do zagueiro e encontrou, lá na frente, Dudu. Este fez a volta, devolveu a bola para a área, para encontrar quem? Mais uma vez, Moisés, que correu para receber.

A bola veio, rolando na área, até os pés do camisa 10. Num jogo em que se precisava desesperadamente do gol, a torcida, naquele ínfimo de segundo, engolia sem nem tempo de soltar o grito: "chuta!" Moisés, não. Com a calma do craque, a tranquilidade que vem da categoria, aplicou a finta seca. O zagueiro, ludibriado, foi ao chão. Com o terreno limpo à sua frente, Moisés então estufou a rede.

Moisés foi o grande jogador do Palmeiras na campanha que levou o Palmeiras ao título brasileiro em 2016. Em apenas quinze minutos, se tornou também o melhor jogador do Palmeiras em 2017. O time cresceu. Uma bola na trave de Keno. Parecia algo que sua torcida já conhecia: o Palmeiras, o Palmeiras de verdade, e não aquele Bragantino de verde, que come grama por cada centímetro, para vencer campeonatos arrebentando jogadores (somente ontem, estouraram dois: Mina e Dudu). O Palmeiras da categoria, o Palmeiras da Academia, o Palmeiras do grande futebol, como a torcida quer ver.

E então, de repente, Moisés se apagou. Procura-se Moisés em campo, e lá está ele, praticamente sem andar. Puxa a perna, massageia o joelho. Quinze minutos de jogo, era o que ele tinha. E o Palmeiras, então, jogou o resto do segundo tempo com dez.

O apito final, para os palmeirenses, sob a pressão do adversário, acabou sendo um alívio.  A decisão seguiu para os pênaltis. Puxando a perna, quase perneta, mas sereno, com a confiança monstruosa de quem é a estátua moral de uma equipe, Moisés bateu seu pênalti. E converteu o gol. Mas o Palmeiras, o Palmeiras de Cuca, inseguro e extenuado pelo ritmo que impõe o esquema de jogo de seu comandante, rendeu-se ao adversário: bravo, bem treinado, fisicamente dosado e sem medo.

Desclassificado, o Palmeiras perdeu. Perdeu, mas em certo sentido ganhou. Com sua passagem em campo, Moisés nos lembrou qual é o Palmeiras que queremos, e que Cuca ficou devendo.

Não é possível gastar 100 milhões em contratações e depender, no jogo que importa, do herói combalido, que vem do tratamento para o sacrifício. Moisés foi sacrificado, diante de 38 mil pessoas. Saiu mais uma vez consagrado, diante de um público reconhecido e grato. E foi um mensageiro. Mostrou que, além dele, o Palmeiras, com todo seu dinheiro, nada fez no ano. Enquanto o Corinthians, cujo elenco custou menos que Borja, treinou um time que faz a bola jogar, aposta no conjunto, e não depende de nenhum herói, nós dependemos de um homem só.

(O Palmeiras dependia de outro, Fernando Prass, o defensor de pênaltis, o homem das decisões. Mas Cuca o colocou inexplicavelmente no banco).

Cuca mostrou em uma partida como se joga um ano no lixo, mas Moisés nos mostrou que quinze minutos podem valer um ano também. Quem assistiu esse jogo, por causa de Moisés - e que Deus permita que a contusão não tenha voltado seriamente - pode dizer que ontem, enfim, vislumbrou novamente (por 15 minutos) o seu time do coração. Essa foi a nossa vitória.




domingo, 2 de julho de 2017

Um jornalista no próprio centro

Lá pelos anos 90, Paulo Nogueira queria ser escritor. Escrever ficção, romances policiais, aqueles tipo B (era fã confesso de Graham Greene). Não deu certo: a carreira executiva o ocupava demais, foi mais longe do que o costume para quem gostaria apenas de ficar escrevendo. Ele também não recebeu atenção das editoras. E desistiu.
Vivia me dizendo que ficção não dava dinheiro e, a única mágoa que escondia, não quis mais saber do assunto, nem quando dirigiu uma editora de livros inteira (a Globo) para publicar o que quisesse. Preferiu lançar um romance meu, Campo de Estrelas, que, não por coincidência, fala do câncer.
Como pequena compensação, ou por diversão, lá nos anos 90, quando desistiu do romance (e de outras coisas) criou um pseudônimo, Fabio Hernández, que colocou como colunista primeiro na antiga revista VIP, que dirigia, para falar o que ele achava serem as verdades masculinas. Especialmente na boca de um tio, que não sei se era verdadeiro ou um alter ego dele mesmo.
Minha homenagem pelo seu passamento é essa pequena revelação da sua identidade (nem tão secreta assim) e a sugestão de leitura de um texto típico de Paulo Nogueira/Hernandez, onde ele fala mais de si mesmo do que qualquer outro poderia.
(Veja ao final link do site El Hombre, por sinal de um filho dele, que parece seguir bem os passos do pai. Certamente o Paulo ficará lá, na arquibancada).
Eu e o Paulo divergimos em muita coisa, mas aprendi a respeitá-lo. Assim como acho que ocorreu pelo lado dele. (Suas últimas palavras para mim, depois que lhe mandei a capa de meu romance Anita, foram, pelo Messenger: "looks good".
Passei a respeitar Paulo, primeiro, por sua humanidade e solidariedade na doença (quando eu fiquei doente, depois dele, quando adoeceu a primeira vez). Era surpreendente como alguém que podia ser às vezes tão prepotente podia também ser tão afetuoso. Algo que hoje, olhando para o exemplo dele, já não me parece um paradoxo.
Segundo, respeitei Paulo pelo talento para escrever. Era um jornalista que, contrariando um princípio da profissão, não entrevistava ninguém: seguia suas próprias ideias. Dirigia revistas e inventou um site de sucesso sem praticamente sair da sua cadeira.
Inicialmente um blog, o Diário do Centro do Mundo referia-se a Londres, onde ele foi morar, quando todas as caravelas que podia pegar no Brasil estavam para ele queimadas. Mas, para quem o conhecia, o nome era uma irônica referência a ele mesmo. O centro do mundo tinha nome e sobrenome. E assim, do seu centro particular, gostando-se do conteúdo ou não, ele conseguiu fazer um site que no último mês de vida de seu criador teve mais de 3 milhões de visitas, com 15 minutos de média de leitura por view.
Paulo foi ainda, e não menos importante, um esportista apaixonado, que jogava futebol e tênis mesmo puxando um pouco de uma perna, o que eu achava ser essencial e simbólico em sua biografia. Paulo lutou por sua vida e suas ideias com paixão, acima dos seus defeitos, das mazelas humanas e da opinião alheia.
Sim, paixão. Aquela força que é a razão de todos os sucessos, assim como de todos os fracassos, que ele igualmente conheceu.

http://www.elhombre.com.br/a-maior-plateia-de-um-homem-e-seu-pai/







terça-feira, 6 de junho de 2017

Giorgio, os protonerds e a marca de uma geração

Outro dia falei para minha mulher de Giorgio, de sua importância musical, de tudo o que representava para mim - e o mundo. Cleci nunca tinha ouvido falar dele. Tirando os óculos escuros, minha mulher não deixa nada esquecido: descobriu que ele daria um show em São Paulo, comprou os ingressos de surpresa e lá fomos nós, algumas outras pessoas e muita coisa envolvida ao encontro do velho mago.

A caixa negra do espaço das Américas se abriu ao som e luzes de um dos artistas mais importantes para toda uma geração e cuja amplitude somente agora se vai descortinando. O inventor da música eletrônica, e agora pai da música digital, virou novamente moda, trazido de volta por adolescentes e jovens para quem, de repente, ele tem tudo a ver com os novos tempos. E como.


A plateia, não muito grande, que deixava espaços abertos na pista para dançar, era seleta e de todas as idades: não somente pais que levavam os filhos para ver o monstro sagrado, como jovens que descobriram Giorgio pelo fato dele ser hoje o que há de mais contemporâneo na música. Para minha surpresa, verifiquei que ele se encontra presente em grandes sucessos, num tempo em que a era digital faz uma releitura da base eletrônica que ele criou.

No Spotify, sua marca aparece desde no trabalho de seus seguidores, como David Guetta e Chainsmokers, até astros que foram atrás de sua mágica para criar grandes parcerias musicais, como Rihanna (That's what you came for"), Kylie Minogue (Right here, right now), Phil Oakey (Together in Electric Dreams) e Sistar (One more day).

Como ele mesmo ironizou em uma música de três anos atrás, "74 is the new 24". Agora, Giorgio tem 77 anos - e seu legado, assim como a marca dessa geração, se confunde com os tempos. Posso dizer isso de um ponto de vista muito particular.

Quando Giorgio começou a fazer sucesso, entre 1977 e 1980, eu fazia o segundo grau, curso de eletrônica, no Liceu Coração de Jesus. Naqueles três anos, formou-se a irmandade que completou o curso no célebre 3o. TRA, uma classe só de homens, amigos entre os 14 e 17 anos, para muitos dos quais ele se tornou um ídolo.

Numa época em que, como acontece com toda juventude, pouca gente nos entendia, Giorgio era como nós: a novidade surgindo pela tecnologia. As escolas então eram obrigadas por lei a dar um curso profissionalizante, e eu, achando que em Exatas se exigia mais dos alunos, juntei-me àquela turma de protonerds que rabiscavam circuitos eletrônicos em cadernos pautados, adoravam se meter nas galerias intrincadas da rua Santa Efigênia, então já a meca dos artigos eletrônicos em São Paulo, que ficava a curta distância do colégio - e descobriam de repente aquele sujeito que fazia música com máquinas ancestrais do computador.

Giorgio foi o primeiro a utilizar o sintetizador, um misturador de sons, por meio do qual os computadores faziam vozes que substituíam ou se mesclavam à voz humana. O resultado dava à música um poder e uma profusão muito maiores que os da velha guitarra, instrumento que Giovanni Giorgio chegou a tocar quando era ainda um músico imberbe.

Foi esse efeito que produziu aquele ídolo impossível, quando estouraram seus primeiros sucessos: não era apenas música, era o surgimento de um mundo novo, onde um sujeito que não sabia cantar, não tinha banda e era feio de doer, com seu bigode obsceno, podia se tornar um popstar. Sucessos como From Here To Eternity, hino eletrônico em que o grande astro não era de carne e osso, e sim a voz metalizada e incorpórea que anunciava o futuro, passou subitamente a dominar as rádios e mexia com a nossa imaginação.

Nós, os garotos estranhos que gostavam de coisas que ninguém ainda entendia, éramos feios de doer, desajeitados de dar dó e como consequência morríamos de medo das garotas em geral, passamos a ver o mundo a nosso favor. Giorgio nos dava energia, nos fazia interessantes, nos dava esperança. O mundo começava ali de um jeito diferente, e o futuro, de grandes mudanças, éramos nós.

Éramos protonerds, mas não alienados - éramos rebeldes. No colégio salesiano, submetido à rígida disciplina dos padres, estávamos sempre girando a roda no sentido contrário. Pela manhã, às vezes ainda escuro, fazíamos fila no pátio para ouvir o sermão, em geral do padre bedel, o implacável Perini, ou do padre Anderson, o reitor. Uniforme, missa, carteirinhas carimbadas. Não podíamos encostar nas garotas da Patologia e da Administração na hora do pátio: a vigilância era constante. Na sala de aula, com o bedel passando pelo corredor, olhando pelas janelas internas, ninguém podia dar um pio. Mas a gente não se conformava. O velho mundo seria sacudido como nunca.

Localizado nos Campos Elíseos, que já naquela época deixara de ser o antigo bairro dos casarões nobres de São Paulo, perto do centro e da antiga rodoviária, cheia de mendigos, bêbados e putas, os TRAs estavam sempre nos lugares errados, nas horas incertas. Às nove da manhã, um grupo podia ser encontrado num bar ali perto, tomando cerveja, ou comprando a revista Playboy de um jornaleiro que tornava as coisas mais fáceis, quando ver mulheres peladas, para adolescentes, ainda era uma coisa quase impensável.

Às vezes, conseguíamos escapar para ir aos cinemas do centro, que já funcionavam desde cedo, para assistir na sessão da nove da manhã pornochanchadas brasileiras ou filmes de putaria nos cinemas da Avenida Ipiranga. Foi assim que assistimos a obras-primas da velha adolescência como A Superfêmea, com Vera Fischer, Garganta Profunda e  120 Dias de Sodoma, que chegavam aos cinemas brasileiros com atraso, depois de vencer os surreais trâmites da censura da ditadura militar. Contávamos então com a vista grossa dos funcionários dos cinemas, que não ligavam para quem estava pagando ingresso, fossem os bêbados e vagabundos ou aqueles menores franzinos com uniforme de colégio.

Era uma turma estranha, divertida e unida. Até choque tomávamos juntos. Nas grandes mesas do laboratório de eletrônica, em grupos de seis, sentados na bancada lado a lado, quando alguém levava uma descarga elétrica de um lado, todos pulavam, em sequência, com uma onda serial de gritos. Os que eram pegos de surpresa ficavam putos, é claro. Mas era engraçado.

No terceiro ano, atingimos o nível infernal de comportamento. Quando os professores saíam da classe, fazíamos guerras de papel e queimávamos caneta com chiclete para jogá-las e grudá-las no teto de pé direito alto. Certo dia, fui pego subindo na torre da igreja pelo corredor do dormitório dos padres com duas garotas, na tentativa de ver a cidade do sino da torre. Não sei como, escapei de um severo castigo - talvez por ser protegido de um padre, primo de meu pai, muito influente por lá.

Enfrentávamos o sistema de todas as formas. Algumas delas era picarescas, como o dia em que eu, como entregador das cadernetas para o carimbo de presença, saí da secretaria com uma cópia mimeografada da prova de Televisão dentro da cueca. Televisão era uma matéria difícil como o diabo, que havia encarnado no professor, também um demônio. Vi o maço de folhas ao lado do mimeógrafo e não tive dúvida: me aproveitei do fato de que não havia ninguém ali no momento para surrupiar o documento.

Saí pé ante pé, para que a prova não fizesse barulho de papel amassado por baixo da calça. Depois de comprovar que aquela era mesmo a prova de Televisão, passei uma semana de medo, com receio de que alguém contasse o número de cópias da prova e desse pelo fato de que faltava uma. O professor de Televisão, um sujeito que nos odiava, porque criticávamos suas faltas constantes e transformávamos suas ausências em verdadeiros comícios para demiti-lo, tinha preparado um teste praticamente insolúvel com a clara intenção de nos prejudicar.

Fiz a única coisa que, depois daquele pequeno delito, me pareceu certa. Comuniquei que roubara a prova a todos da classe. Formamos um comitê com os alunos mais brilhantes de eletrônica para resolver as questões: Sérgio Soares (Cabelinho), Maurício Grego (o Grilo), Edgar Giorgiante (Dumdum) e Sergio Cabete (que não precisava de apelido). Levaram a semana inteira para concluir o que oficialmente teríamos apenas 40 minutos de prova para fazer.

Colamos, coletivamente. Cada um decorou as respostas, não podia dar nada errado. Quando as notas vieram, para nosso espanto, o homem nos dera de zero a 3 (nota máxima entre trinta alunos). Reclamamos. Eu, a essa altura na liderança do levante, com a ousadia de alguém que faz pose cheia de razão mesmo tendo um delito como base, demonstramos que as respostas seguiam o livro recomendado pelo professor e exigimos dos padres a revisão das notas.

Foi uma aula memorável. O professor, sentado à mesa, chamou os alunos um por um e revisou as notas. Tiramos todos entre 9 e 10 (menos o Eduardo Reis, hoje eminente advogado, tão averso à eletrônica que nem colar soube). O professor acusou outro - Miltão, mestre de administração, que havia fiscalizado a prova - de nos deixar colar, gerando a fúria do colega. Por fim, para nosso gaúdio, pressionado de todos os lados, Mr. TV pediu demissão.

O final do 3o TRA teve muitos lances memoráveis. No pátio, fazíamos pirâmides humanas. No esporte, ganhávamos de todos: as disputas eram entre nós. A final do campeonato de futebol daquele ano foi o time A do 3o. TRA contra o time B, supostamente mais fraco, onde eu me encontrava (os times eram cores, e o nosso era o Laranja, que logo apelidaram de Laranja Mecânica, como a Holanda maravilhosa da Copa de 1974, então o time mais famoso).

Depois de uma campanha gloriosa, em que marquei um gol sem tê-lo visto (um chute do meio de campo, num escuro fim de tarde, que dei sem os óculos de 5 graus, e só soube do resultado depois que os outros saíram pulando em comemoração), vencemos o time A da nossa própria classe num sábado pela manhã, pelo placar histórico de 3 a 1. Foi uma vingança interna: os rejeitados do "B" venceram os "craques" do A, que nunca aceitaram a derrota.

Nenhum evento, porém, foi maior que a Maratona Cultural, evento que incluía uma gincana de perguntas e respostas de várias matérias (eu respondia sobre literatura) e a apresentação de um espetáculo artístico. Era muito competitiva e eu queria ganhar, depois de perder da Patologia no campeonato benemérito de recolhimento de artigos para a caridade. Nós conseguíramos comida e cobertores para a campanha dos salesianos, mas a Patologia acabou vencendo com uma trapaça - trouxeram um caminhão cheio de papel higiênico e ficaram com mais pontos, porque o regulamento estabelecia o vencedor pela contagem de unidades.

Depois de muita discussão, num debate que substituiu uma aula de matemática de Mario Omura, com o consentimento do professor que até hoje nos ilumina com a paciência e a sabedoria dos chineses, eu assumi o comando do que iríamos apresentar na competição. Reuni textos de poetas brasileiros e, como não tínhamos mulheres na classe, com uma suada vaquinha compramos uma. Era uma estátua de jardim, réplica de uma escultura grega, uma musa de nariz reto e seios provocadores que se encontravam ligeiramente à mostra.

Tive muitos embates sem sucesso para fazer passar os textos dos poetas brasileiros pela censura dos padres, que não permitiam a declamação das partes mais picantes. Nossa musa, que pesava uma tonelada, saiu a muito custo de uma kombi para dentro do teatro, envergando um casaco militar, emprestado do figurino do teatro, para encobrir a sua nudez. Apareceram colaboradores de última hora. eduardo Bucciarelli, que no começo tinha sido contra a ideia do espetáculo, foi seu principal executivo. Cabelinho, que desaparecera misteriosamente, apareceu como por milagre para operar o gelo seco na hora H. E tudo funcionou.

No dia marcado, com a plateia lotada, a dissipação do gelo seco revelou a imagem, quando para já era tarde demais para qualquer reação dos censores. Assisti ao espetáculo que tínhamos ensaiado da boca de cena. Reinaldo Lino, Márcio Dudu Duailibi e outros desfiaram Vinícius de Moraes e o que de melhor pudemos salvar da poesia brasileira para aquela apresentação depois da censura religiosa. Quando o espetáculo terminou, senti meu corpo erguido no ar: Bahia e outros vinham me colocar em triunfo. Que pouco durou. Com um palhaço cantor, e um banco de praça num musical cheio de mulheres de carne e osso que encerrou a série de espetáculos, as meninas da Patologia levaram novamente o troféu, nos deixando o segundo lugar.

(Aprendi isso aí: as mulheres sempre ganham.)

Foram todos embora, enquanto eu fiquei. Sentei no banco da praça, deixado pelos concorrentes sobre o palco, olhando o teatro vazio. Estava triste, frustrado, exausto. O desgaste da luta contra o sistema se somara à derrota no fim para me liquidar. Nesse instante, porém, senti que não estava sozinho. Sentou ao meu lado Celso de Mello, professor de português, nosso ídolo e incentivador.

Ele, que nos divertia com suas histórias de literatura, subira ali para colocar a mão no meu ombro. Não disse nada. Somente na aula seguinte, sem mencionar o nome de ninguém, fez um discurso pintando a cena de um guerreiro, sentado num banco, depois da batalha, para dizer que nenhum luta era vã.

Foi assim que eu tive certeza de que meu caminho era o das letras, onde as lutas nunca estão perdidas, pois no mundo das ideias há sempre esperança para as boas causas e a necessidade de guerreiros que se lançam ao bom combate. Fui para um lado e meus amigos para outro. Estávamos todos, porém, cumprindo a profecia da nova era. O mundo avançaria, com a tecnologia e as ideias, o binômio indissociável e transformador.

No último dia de aula, depois de um jogo de futebol que encerrou as festividades de fim de ano, eu caminhava com um de meus colegas, o baixinho Ademir, com o calção e os meiões enrolados debaixo do braço. Íamos juntos pela calçada que dava na Avenida Rio Branco, onde ambos tomávamos o ônibus que levava para a Casa Verde, onde eu morava. Ademir estava triste: tinham acabado as aulas e não sabia qual seria o seu futuro. Achava que não entendia de eletrônica, sentia-se incapaz de passar no vestibular e o fim daqueles tempos parecia-lhe realmente um fim.

Um ano depois, quando eu cursava Ciências Sociais na USP e me preparava para prestar o vestibular de Comunicação, encontrei Ademir na Brunella, então famosa sorveteria da Avenida Sumaré. En quanto eu ainda andava pendurado pelo lado de fora dos ônibus lotados, porque não tinha dinheiro para pagar o bilhete, e assim podia descer no ponto sem entrar e passar na catraca, ele apareceu numa motocicleta Honda CB 250, novinha em folha.


Com um grupo de colegas da nossa classe, tinha sido convidado por um de nossos professores de eletrônica, Jefferson, para trabalhar na Itautec. Era a empresa que começava, no Itaú, a instalação pioneira de caixas eletrônicos e a substituição das filas bancárias pelo auto-atendimento. Um trabalho que fez muitos de meus amigos, ainda nem entrados na faculdade, praticamente ricos. Viajavam de cidade em cidade, instalando equipamentos nas agências - um processo que se tornava irrecorrível, obrigaria muitos bancários a mudar de emprego e mudaria o comportamento e a sociedade.

Na música, Giorgio também entrava em novas eras e capitalizava seu momento. Ajudou a impulsionar a onda Disco, um dos maiores fenômenos sociais da história. Foi ele que usou a voz de Donna Summer, futura rainha da era Disco, como mais um elemento sintético no som transcedental de I Feel Love. Seu sintetizador esteve por trás da voz de Summer em muitos outros sucessos, elevando a energia daquela extraordinária mulher a uma potência cósmica. A tecnologia criava também uma força impulsionadora na vida de todos nós.

Giorgio fez muita coisa que atravessou nossa juventude. Da trilha sonora de Top Gun ("Take My Breath Away) à criação de uma nova figura: sem ele, não teriam existido as subsequentes gerações de DJs, que começaram a tocar música em festas e clubes com novos recursos e mais tarde passaram a produzir música original, tornando-se astros como ele. A era eletrônica evoluiu para a digital e a música de Giorgio continuou inovadora e atual.

Outros ídolos se juntaram para mim a Giorgio, na música e na vida. Com Cazuza, Legião Urbana, David Bowie e tantos outros embalamos grandes mudanças, no mundo e no Brasil, da antiga ditadura militar à democracia, ao restabelecimento do Estado de Direito, a estabilização econômica e por fim a luta que perdura rté hoje, de um maior equilíbrio econômico e social. A tecnologia mudou o mundo, assim como as ideias, que são o começo de todas as transformações. Mas nem tudo foi resolvido.

Muita gente não conhece bem Giorgio e o que aconteceu nessa geração. Eu mesmo ouço novamente Giorgio e só agora alcanço a dimensão do que fizemos. Mais: entendo que não envelhecemos. A base do que lançamos, ainda é que faz germinar o futuro. O que nós sonhamos na juventude ainda é o que move o mundo. A tecnologia. E as ideias.

Todos nós do 3o. TRA ficamos mais velhos. Mas nunca nos separamos: entre nós, falamos dos membros da classe como os "irmãos". Estamos sempre em contato e de vez em quando nos reunimos em encontros carinhosos e barulhentos. Giorgio também envelheceu. Seu proverbial bigode hoje está branco como seus cabelos. Mas ele ainda mostra o caminho. Eu tenho 53 anos e saí de seu show pensando que 53 é o novo 23. Nessa geração, o mundo mudou muito, mas o que fazemos, a mudança que iniciamos, ainda está em curso. Este mundo ainda precisa de guias, de criadores, de gente com grandes certezas, que espera completar a missão de transformação. Precisa de nós. E disso, estou certo, só sairemos para a eternidade.


Nossa musa, que hoje ainda repousa no jardim da família do Lino

A pirâmide, símbolo das nossas ambições

A pirâmide registrada de baixo

O 3o TRA alinhado nas velhas arcadas

Festa de despedida que nunca aconteceu

No centro, embaixo, Celso de Mello, o mestre

Eu aí à direita, agarrado ao Luís Bucciarelli, entre amigos tão caros: Celso ao centro e Mané, completando a fileira central, Fossa e Rogério (agachados), atrás, Mauricio Fortes e marco Antonio Rocco



quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um menino vai a Paris

Minha mãe estava já na fase terminal do câncer quando lhe mostrei aquela folha, a avaliação escolar de meu filho André, então com apenas dois anos de idade. Dona Marlene, professora primária, educadora a vida inteira, apanhou a folha nas mãos e chorou.

(Acho que a vi chorar apenas duas vezes na vida. A outra foi na morte de um cachorro.)

Este sábado, meu filho, que agora tem dez anos, embarca com a escola para Paris. Fez com seus coleguinhas um filme que será apresentado num festival da Academia Francesa, na Cinemateca de Paris, com a abertura feita pelo cineasta grego Costa-Gavras. André trabalhou no filme como ator, roteirista e editor. E só consigo pensar no que minha mãe sentiria, se estivesse viva.

Dona Marlene era apaixonada por Costa-Gavras. Talvez hoje pouca gente o conheça, mas ele é um dos cineastas mais importantes para toda uma geração. Z, filme da década de 1960, tornou-se um símbolo de liberdade, não apenas na Grécia, como em todo o mundo e especialmente no Brasil, onde sua exibição foi proibida pela ditadura militar. Eu era ainda criança quando minha mãe me levou para, afinal, assistir Z. As cenas de combate entre a polícia e o povo na rua, que pichava o asfalto com a letra que dá nome ao filme, ficaram na minha memória para sempre. Quando penso na luta contra o arbítrio, penso em Z: Z de Zorro, o Z grego de liberdade.

Tentei explicar a André quem é Costa-Gavras. Ele nasceu num país democrático e livre e procurei mostrar a ele como foi difícil chegar até aqui e quanto esforço, coração e mesmo a vida de muita gente foram empenhados nisso. Quando André embarcar para Paris, tenho certeza de que vou ter de segurar uma vontadinha de chorar. Não por ele, que aos dez anos é cidadão do mundo e está acostumado a viajar. É por minha mãe - e pensar que, em algum lugar, ela estará chorando pela terceira vez.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

O futuro da democracia: onde estamos, para onde iremos

Nestes tempos de incerteza, em que a presidente Dilma Rousseff caiu com o impeachment, e surge a questão do que fazer com seu sucessor, Michel Temer, a democracia brasileira parece colocada sob teste. Depois do fim da ditadura militar, da volta ao estado de Direito, da redemocratização plena, da estabilidade econômica e da preocupação com o avanço da justiça social, nos vemos diante de uma enorme crise e de antigos fantasmas. O momento de tensão faz perguntar o que há de errado, se somos nós ou o sistema - especialmente a nossa Constituição Cidadã, ou  melhor, a nossa democracia. E qual a saída para essa cilada ampla, geral e irrestrita, que mistura política e economia.

A democracia brasileira parece não ter resolvido antigas dissensões e as mesmas forças que levaram aos choques no passado. Ao contrário, permitiu o crescimento da corrupção sistêmica, que quebrou o Estado e causa indignação. As dissensões sociais são ainda mais aciduladas numa era em que os meios virtuais colocam as diferenças humanas a céu aberto e em conflito diário.

O brasileiro médio se encontra sem dinheiro, sobrecarregado de impostos e obrigações e emparedado entre duas facções violentas e arbitrárias. De um lado, cresceu o PT, nos anos em que usou a máquina pública para sua máquina partidária, com seu projeto de poder que usa os meios democráticos somente quando estão a seu favor. De outro, estão as velhas oligarquias, que sempre desfrutaram da simbiose do capitalismo tupiniquim com o cofre público.

A origem do poder de ambas as facções é distinta. O PMDB está enraizado na máquina do poder há muito tempo, herdeiro da antiga aristocracia escravagista e selvagem do capitalismo primitivo brasileiro, que se servia das "Câmaras dos homens bons" para favorecer seus negócios. Utiliza a máquina pública para a perpetuação no poder, financiando empresas e campanhas políticas para continuar ocupando os estamentos do Estado, especialmente no legislativo. As velhas oligarquias assim se adaptaram à democracia na era contemporânea, e mantiveram seu status quo.

O PT é fruto de outro fenômeno, um pouco menos arcaico, mas também já antigo na história da democracia no Brasil. Sobretudo para o Executivo, o voto democrático permitiu a chegada ao poder de grupos que, mesmo minoritários na sociedade, podem momentaneamento eleger-se em postos chave por meio do dircurso populista e demagógico. Dão a impressão de que representam a maioria, e desejam governar para todos, especialmente os mais pobres, quando desejam na realidade implantar projetos políticos de uma minoria, quando não de um líder carismático: o demagogo clássico.

Ao chegar ao governo federal, por meio da eleição de Lula, e depois sua sucessora eleita, o novo poder (do PT) teve que compôr-se com o poder tradicional para governar. Esse acordo de exploração do Estado brasileiro, como uma aceleração metabólica de ambos, acabou resultando num desvio padrão de enormes proporções, com consequências desastrosas para o país.

O problema, porém, não está na democracia. Antes de ser julgada pela Justiça, a ação dos governantes deveria ter encontrado bloqueio preventivo na administração federal. É um problema da falta de controle do Estado sobre si mesmo, que existia desde os tempos do Brasil colônia, quando havia a figura do ouvidor-mor, que fiscalizava mesmo os ricos e todo-poderosos senhores de engenho, sob a égide da coroa portuguesa. Os partidos não podem dispôr do Estado como bem entenderem. Isso falta na legislação da administração federal, assim como sistemas eficazes de controle da corrupção, para evitá-la ou cortá-la no ato de sua instalação.

Resta a crise política. Ela, também, não é cria da nova democracia brasileira - ao contrário, é fruto do que veio ainda do passado, e que se leva provavelmente muito tempo para erradicar. Hoje, assistimos à disputa entre ambas as facções pelo binômio poder e dinheiro, desde que foi rompido o pacto entre PT e PMDB, com a derrubada de Dilma, que selava a repartição do butim. Não importa que seus elementos estejam sendo caçados pela Justiça. As bases do sistema não ruíram. As forças em combate ainda estão vivas.

O fato de políticos e empresários estarem indo para a cadeia mostra apenas que a democracia brasileira está funcionando, graças ao princípio republicano da independência dos poderes. E a Constituição prevê saídas mesmo para a crise em que esse combate nos deixou.

Os brasileiros emparedados intimamente gostariam de se livrar de gregos e troianos que hoje se enfrentam diretamente, como aconteceu ontem, na batalha campal da esplanada dos Ministérios, entre as forças sindicais ligadas ao PT, de um lado, e as Forças Armadas convocadas pelo presidente Temer, numa demonstração de força que pareceu tão desproporcional quanto o vandalismo praticado pelos supostos defensores da campanha de "diretas-já". Quem não está de um lado nem de outro gostaria apenas de ficar em paz, na via democrática e com um Estado voltado para o bem coletivo, e não projetos de perpetuação da espécie, à esquerda e à direita, capazes de chegar a esse grau de violência.

Esse embate, enquanto durar, colocará o Brasil fora do caminho do progresso, que, como mostra nossa história, depende essencialmente de estabilidade. Basta seguir o livrinho da Constituição e começar a fazer o que deixamos de fazer: priorizar as medidas de bom senso. 

No impedimento de Temer, hoje um presidente que não governa, desmoralizado pela gravação de suas conversas na calada da noite com um empresário réu e criminoso confesso, a regra democrática diz que haveria a escolha de um presidente-tampão, eleito pelo Congresso, até as próximas eleições. Os antagonistas já negociam uma saída pelo meio - alguém de centro para substituir Temer, neutramente, até a próxima eleição. O que é a saída constitucional e única ponte aceitável para o futuro próximo.

É preciso encontrar essa liderança de consenso, não para agradar os lados litigantes, e sim para recolocar o Estado na normalidade civil e democrática e devolver o Brasil aos brasileiros. Espera-se que, depois desse aprendizado, não que se mude o sistema democrático, e sim que amadureça o eleitor brasileiro. Espera-se que ele se conscientize de que não pode ser mais uma vez hipnotizado pelas promessas vãs daqueles que querem o poder para si mesmos, e não para servir.

A democracia brasileira é das mais avançadas do mundo, capaz de suportar até mesmo esta crise em que estamos. E espera-se com isso, da mesma forma que chegamos a outros avanços, erradicar com o tempo essas antigas forças que nos arrastam para o atraso e nos impedem de decolar para o futuro que todos vislumbramos.