sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A nova história do Brasil

Quando comecei a escrever meu primeiro livro de História, A Conquista do Brasil, há quatro anos, não imaginei entrar num território absolutamente novo - uma vez que a história pressupõe ser algo já conhecido. Porém, verifiquei que a História brasileira estava por ser ainda contada direito, desde o seu princípio. Aquilo que aprendemos nos livros escolares nada tinha a ver com o que eu descortinava na pesquisa de documentos originais e na visita a lugares onde se desenrolou o nosso passado.

Hoje, uma geração de jornalistas e historiadores tem se dedicado, com ajuda da internet, que nos dá acesso mais fácil a documentos no Brasil e no exterior, a reescrever a nossa história . Com um ponto de vista contemporâneo e mais realista. Entre os jornalistas, estão Laurentino Gomes e Jorge Caldeira. Dos historiadores, destaco o excelente Ronaldo Vainfas.

No meu caso, resolvi começar do começo. Com esse espírito de rever e revirar tudo, escrevi primeiro A Conquista do Brasil - 1500-1600: um sucesso imediato. 

Primeiro, o surpreendente: entendemos o quão pouco sabíamos da nossa história e, portanto, de nós mesmos. Não admira que tenhamos tão pouco entendimento dos nossos problemas - e tanta dificuldade em resolvê-los.

O ótimo resultado de A Conquista do Brasil fez com que a editora Planeta me pedisse um segundo livro, que contasse o século seguinte. Foram três anos de trabalho para escrever e publicar A Criação do Brasil- 1660-1700, que está chegando às livrarias.

Se o primeiro livro descortina como a costa do Brasil não foi ocupada de forma tranquila pelos portugueses, e sim à custa de uma verdadeira guerra, o segundo livro mostra um período política e religiosamente conturbado. Depois da dominação espanhola e holandesa, os portugueses conseguiram  empreender não apenas a consolidação da colônia como estendê-la continente adentro, graças a uma elite emergente enraizada no próprio Brasil.

Embora ao final favorecesse Portugal, gerou-se nesse século uma certa identidade nacional - e uma extraordinária resiliência diante das influências externas e modos de governo ao longo do tempo. Esta é ao mesmo tempo a razão dos nossos atrasos e o lastro da nossa identidade.

O surgimento de uma Nação é algo tão complexo quanto seus personagens. Descobri que heróis nacionais, como Raposo Tavares, eram na verdade bárbaros assassinos. Os bandeirantes não eram nada do que eu pensava. A invasão e depois expulsão dos holandeses, também. 

O padre Antonio Vieira, uma mente iluminada para sua época, capaz de derrubar a Inquisição em Portugal, defender os judeus e a liberdade dos escravos, tanto negros quanto indígenas, mesmo contra a própria ordem dos jesuítas, à qual pertencia, foi também autor de obras dignas de um louco e outras tantas iniquidades.

Nada é plano e simples como contam os livros de história. Vi que somos formados não somente da nossa célebre multiplicidade racial, como de uma trajetória também multifacetada, contraditória, conturbada e por vezes brutal.

O Brasil do carnaval, samba e futebol não existe. Hoje olho as pessoas na rua, os políticos, a fila do supermercado e vejo um outro Brasil, não o que se mostra, e sim a matriz daquilo que somos.

E é preciso que mais gente veja, se é que queremos, realmente, mudar.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A Criação do Brasil: para entender e mudar um país

Já está em pré-venda nas livrarias A Criação do Brasil (1600-1700), meu novo livro, que revela o lado pouco conhecido, violento e surpreendente da expansão brasileira continente adentro, no nosso segundo século de colonização.

Quando comecei a pesquisa, acreditei que já sabia bastante sobre esse período da história. O começo do bandeirantismo, as invasões holandesas - aquilo que se ensina nas escolas, como coisas sem relação entre si. Imaginei um ano de trabalho e foi o que prometi à editora Planeta.

Como estava enganado! Em tudo - incluindo o tempo que levaria para concluir o trabalho, que foi três vezes maior.

A pesquisa me levou a uma barafunda de documentos antigos, atas perdidas, tudo em papel. À vastidão dos sermões e a míriade de cartas pessoais do padre Antônio Vieira. A obras de autores espanhóis, relatos de jesuítas e muitas outras fontes que revelaram uma história muito mais profunda e bastante diferente do que lemos nos livros escolares.

Fui também a campo, descobrindo às vezes lugares perdidos no meio da selva cosmopolita, que revelam grandes histórias. Como o Mont Serrat e o Forte São João, em Santos, para onde fui acompanhado da @clecileao e do meu filho André. Assim, além de trabalho, a reportagem virou para mim diversão. E, para ele, também uma forma interessante de aprender história do Brasil ao vivo.

Ao fim e ao cabo, descobri que nada ou pouco sabia sobre o que aconteceu, na realidade. Primeiro, porque esse período da história sempre foi bastante negligenciado pelos historiadores.

Para começar, precisei entender que durante 60 anos o Brasil foi espanhol. A importância desse fato, ignorada pelos livros escolares, sempre foi deixada de lado pelos portugueses, pela vergonha de terem pertencido à Espanha, e pelos espanhóis, por terem perdido Portugal.

Tive que retroceder no tempo e analisar a formação de ambas as Nações, tão próximas na língua, na origem e na trajetória, onde poder e religião se mesclaram para a afirmação e expansão imperialista com um sentido sagrado, ou missionário.

Aprofundar o que a União Ibérica mudou na realidade daquela época me fez reinterpretar todas as coisas acontecidas nesse século e explica muito do Brasil: o avanço dos bandeirantes pelo sertão, agora sob uma só coroa, embora infringindo os limites administrativos do novo e imenso império; as invasões holandesas, que se deram não apenas por cobiça, mas para enfrentar o poderio espanhol, de quem os Países Baixos tinham se separado na Europa; a perseguição aos portugueses, que se tornaram mais numerosos em Lima e Buenos Aires, por exemplo, que os próprios castelhanos; o papel da Inquisição, mesclada a interesses econômicos.

A volta do Brasil ao domínio de Portugal não foi nada simples, depois de décadas que forjaram toda uma geração nascida sob o signo do "império onde o sol nunca se põe". E a então nascente elite brasileira teve papel fundamental na chamada Restauração portuguesa.

Foi surpreendente descobrir que os holandeses não foram expulsos do Brasil por Portugal, que fomentou a revolta discretamente, por ser aliado da Holanda na Europa contra a Espanha, e sim pelos senhores de engenho radicados no Brasil.

A nascente elite brasileira, que abria caminho para as riquezas espanholas, patrocinava o contrabando, produziu a expulsão dos holandeses e a retomada do império para Portugal, adquirindo um novo poder, nova identidade e influência sobre a própria Metrópole.

Nesse processo foram chave personagens extraordinários, alguns tão desconhecidos quanto fundamentais na formação brasileira, como Salvador Correia de Sá, espanhol de nascimento que foi o grande articulador da retomada do império português para Portugal, a começar pelo Brasil.

E o padre Antonio Vieira, português cri
ado no Brasil, que, muito mais que os Sermões, clássico da literatura barroca luso-brasileira, foi um importante articulador político, colaborador direto do rei,. Criou para Dom João IV um plano econômico e, com sua influência e persuasão, chegou a abolir em Portugal a Inquisição.

Os bandeirantes não eram nem sombra do que eu pensava. Nada dos heróis que viraram estátua. Eram gente que andava na mata de pé no chão, falava tupi e misturava a temeridade sanguinária dos índios canibais com a organização militar portuguesa: a gente mais feroz e inclemente que já existiu na face da terra. 

Causam horror os relatos dos jesuítas espanhóis, verdadeiros templários do trópico, que  organizaram exércitos para combatê-los, numa guerra cujos detalhes macabros a história brasileira convenientemente varreu para baixo do tapete.

O Brasil, em resumo, não era nada do que eu pensava. E aos poucos as coisas foram se aclarando - não apenas sobre o passado, como sobre o presente. 

Como nos enganamos a nós mesmos! Imaginamos, por exemplo, que os índios desapareceram da nossa vida. Hoje vejo, porém, como deixaram para nós muito mais que o nome de ruas e cidades. Estão no nosso DNA, propositalmente esquecido.

E a política? Aos poucos, criou-se aqui uma elite que não tem fidelidade a ninguém. Num século dominado por portugueses, depois espanhóis, holandeses e novamente portugueses, eles aprenderam a viver com as mudanças e enraizaram-se num sistema de poder por meio do qual mandam geração após geração, imunes às mudanças do tempo. Assim passaram por diferentes impérios, regimes, sistemas econômicos e chegaram até aqui.

Assim como a dominação da costa brasileira pelos portugueses, contada no primeiro livro, A Conquista do Brasil (1500-1600), percebi como o segundo século da história brasileira é contado de forma tão superficial pelos livros escolares e pouco entendido de maneira geral.

A Criação do Brasil vai do contexto ao detalhe para a compreensão do vértice de todo o nosso passado, a gênese da nossa sociedade e sobretudo da elite brasileira.

O DNA que persiste no Brasil até hoje está aí, nesse século fundamental para a formação brasileira - como digo no livro, "raiz dos nossos mais monstruosos males e incomparáveis virtudes".

Não é possível entender o Brasil sem entender sua infância, que se manifesta no adulto, ainda que de forma pouco consciente. É o que se descortina com este livro. Meu desejo é que todos possam, com ele, ver, entender e sentir o que vivi.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Troia Canudos: viagem através da Humanidade

Conheci o jornalista e poeta Jorge da Cunha Lima há muito tempo, quando eu era apenas um jovem repórter estreante, numa noite inesquecível para muitos: o coquetel num bufê de Higienópolis onde seria a festa da vitória do então candidato a prefeito de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, e acabou sendo a "festa da derrota", depois que ele perdeu numa virada de último minuto para Jânio Quadros, no já distante ano de 1985.

Era para ser uma noite de gala, no salão enfeitado, recheado de celebridades. Com o tiro pela culatra, FHC, mesmo, não apareceu. Ficaram políticos, artistas e outros apoiadores, tomando champanhe e dando entrevistas sobre aquela inesperada catástrofe política. O então candidato favorito da fina flor da inteligência nacional tomara da velha raposa uma lição - e planava um clima de espanto e consternação.

No meio daquela gente, eu ainda era um rapazote assustado. Mas lembro bem de ter conversado com Jorge, o cavalheiro amável que ali pareceu o único interessado em saber quem era aquele novato desajeitado (eu). Ele, e a Maitê Proença.

Mais tarde, nas vezes todas em que cruzamos na vida, Jorge se mostraria para mim exatamente como naquela noite. Enquanto a maioria das pessoas vive centrada em si mesma, Jorge se interessa realmente pelos outros. Quando soube que eu escrevia romances, ainda mais.

Enquanto a maioria dos escritores se volta para o próprio umbigo, ele tem aquele tipo mais raro de generosidade, desprendida de vaidade, e se permite reconhecer e valorizar a virtude no que os outros fazem.

Vindo do mundo cavalheiresco, uma civilização mais avançada, Jorge talvez sinta falta daquela antiga solidariedade entre artistas, que antes fazia a força da cultura brasileira. Lamenta discretamente a diáspora dos intelectuais, cada qual isolado no seu próprio círculo, o que divide e enfraquece a cultura como um todo.

Jorge foi muitas coisas, como presidente da fundação que dirige a TV Cultura, secretário de governo, entre outras funções, creio, por um esforço real de querer mudar esse estado de coisas, mesmo contra as tendências, e contribuir para a coletividade. Favorecer a cultura e melhorar o Brasil.

O mesmo tipo de generosidade que ele manifestava comigo era também o que ele espalhava no trabalho, com os poderes que sua eventual proximidade com o mundo da política lhe concedeu.

Porém, nunca deixou sua essência, que é a do escritor e a do poeta. E eu, que sei bem como é sustentar uma vida executiva, ou de jornalista, ao mesmo tempo em que não se pode deixar de escrever premido pelas questões da alma, nunca deixei de admirá-lo por isto.

O exercício de outras funções nunca o tirou da escrita. Artista por essência, Jorge desenha e, sempre, escreve (a perda de um computador lhe tirou da vida anos de trabalho). Por quarenta anos, porém, dedicado a outras coisas, deixou de publicar poesia - silêncio entrecortado por um romance, o Jovem K, lançado pela antiga editora Siciliano.

E então, depois de tanto tempo, já tão longe de Ensaio Geral, Mão de Obra e Véspera de Aquarius, veio este Troia Canudos.

Viagem pelos personagens, ideias e sentimentos da obra basilar da poesia, da história e da própria cultura ocidental, o poema de Jorge não reconta a obra de Homero: é uma viagem pelas reflexões de Jorge sobre ela, poesia gerada por poesia, que leva às questões fundamentais do homem.

Uma visão tão pessoal que, dali, como sugerido nos Sertões euclidianos, ele viaja para a "Troia brasileira" - Canudos, uma história igualmente épica, com outro tipo de heróis e heroísmos, que traduz a grandeza da resistência existente na miséria brasileira.

Esse paralelo na história, entre tempos tão diferentes, lugares tão diferentes, passa a fazer completo sentido. É o sentido que lhe dá o poeta, que na realidade pensa além de Troia, além de Canudos.

O que há no livro é o mundo de Jorge, seus interesses, suas preocupações, nascidas desde o tempo em que ele, ainda aos 13 anos de idade, escrevia na escola sobre "o notável cerco que serviu de inspiração a todos os cercos possíveis da História, inclusive a nossa infeliz Canudos, a Troia de Taipas".

Seu mundo é de heroismo, de beleza, de poesia sobre poesia. E de constatações que, mesmo com a formação não diplomada ou oficial da poesia, têm algo de ciência política e sociologia:

"Pobre nação a que precisa de heróis
e de homens inteligentes;
bem mais pobre a que não os tem,
nem por acidente"

A construção do mundo pela civilidade é atributo glorioso do homem. Ele, porém, é o elemento que coloca tudo a perder: contradição entre o amor e a guerra, a oposição que fez a grandiosidade da obra da Homero. O amor de Jorge é pela civilização, ao mesmo tempo que é dela que sai sua melancolia e seu desalento:

"Só o homem
produz desertos"

Troia Canudos termina, mas não o livro, nem o mundo de Jorge, que em seguida nos leva a outros tempos e lugares,  que são todos Jorge: as Américas, a Europa, a Ásia, amplas paisagem e pequenos detalhes.

Jorge tira de cada lugar aquilo que o espírito lhe traduz, com graça e originalidade, como no momento em que fala da Espanha:

"Un hombre en España es España.
Una mujer es mucho más:
es una mujer."

Atravessa o mito fundador da América Inca, no poema-conto Tahina Can. Muda de lugar e de língua, para chegar mais perto do sentimento daquilo que está falando: mais que as palavras certas, cada poema, ou sentimento, pede o seu idioma, a sua linguagem própria. E é na língua dos conquistadores que ele tece a vida dos conquistados:

"Cada hombre
en pie
es el atestado
de su propria integridad."

Troia Canudos não e, enfim, sobre poesia, tempo ou lugar. É sobre a essência da própria Humanidade.

Demorei para acabar o livro de Jorge; apesar de ser em poema, cada página pede tempo; para o desfrute, e para pensar. Avançamos lenta, mas prazerosamente; é entretenimento fácil, mas, para o prazer completo, é preciso ir com calma, passo a passo.

E poucas coisas me deram tanto prazer este ano quanto ler este livro, um recanto de tranquilidade, de paz, erudição e refinada reflexão neste mundo em crise e meio caótico. Jorge reordena o mundo dentro dele mesmo: repõe as coisas nos seus lugares, devolve sentimento ao homem, reativa o gosto pela cultura, pelas ideias, pelos princípios. E que beleza sentar nesse trem e se deixar levar de estação em estação.

Troia foi ao chão nove vezes, mas só uma reconstrução interessa, que é a reconstrução da própria civilização. É imensa a tarefa de recolocar a educação, o cavalheirismo e o respeito ao sentimento alheio em primeiro lugar.

Jorge é avis rara, mas é isso o que faz dele também um poeta único e, neste momento, mais do que nunca, indispensável. Mais que um simples livro que surge e morre por aí, Troia Canudos é dessas obras que vêm para ficar e por onde todo mundo, desde a escola, pelo menos uma vez na vida, deveria passar, como um degrau importante para a salvação geral da espécie humana.



domingo, 29 de outubro de 2017

Carille e o que falta para um campeão

O técnico do Corinthians, Fabio Carille, foi neste domingo para casa com muito o que pensar.

Estrela ascendente do futebol brasileiro, surpreendeu a todos ao levar um time sobre o qual todos tinham poucas expectativas a vencer o campeonato paulista deste ano e fazer um primeiro turno assombroso no Campeonato Brasileiro, com 82% de aproveitamento.

E então o imbatível Corinthians de Carille só amealhou 33% dos pontos do segundo turno até aqui.

Carille vai para casa. O Corinthians teve uma semana de descanso. Tinha o time completo. E perdeu para a Ponte Preta. Terceira derrota seguinte. A diferença para o Palmeiras de 16 pontos caiu para 6 e pode ir a 3 amanhã, o que geraria um clássico dramático semana que vem.

Como explicar?

Ele me lembra uma conversa que tive certa vez com Muricy Ramalho, hoje comentarista do Sportv. Muricy passou muito tempo como um bom treinador, conhecido por fazer times que jogavam muito bem, mas não ganhava campeonatos. Levou muito tempo para se tornar um técnico campeão. Perguntei a ele o que havia mudado do Muricy que merecia, mas batia na trave, para o Muricy vencedor.

- Nada - disse ele. - Eu continuo fazendo as mesmas coisas.

Seria apenas sorte, então? Manter o bom trabalho é uma forma de dizer que, quando a sorte virar um pouco para o seu lado, você estará preparado para aproveitá-la. Mas hoje acho que há algo mais.

Existem ótimos treinadores e profissionais competentes que fazem um bom trabalho, mas não são vencedores. O futebol está cheio deles. Dorival Júnior, por exemplo. Fez ótimos trabalhos - neste momento mesmo, está salvando o São Paulo do rebaixamento. Seu Santos jogava muito bem. Tirou também o Palmeiras da queda na segunda divisão. Mas há um detalhe. Dorival nunca ganhou um título importante. É um grande treinador. Mas, como técnico de futebol, algo faltou.

Tite por muito tempo foi só um bom treinador. Fez campanhas pífias, como no Palmeiras. Foi no Corinthians que algo nele mudou. Ganhou a Libertadores e um mundial. Foi para a seleção e agora onde põe a mão parece virar ouro. Tornou-se um vencedor.

Existe algo que Carille e o Corinthians agora precisam enfrentar. Uma coisa é chegar perto, a outra é ganhar. É preciso aquela energia a mais, na hora H, capaz de decidir. Essa diferença é a mentalidade do vencedor.

Jogadores de tênis conhecem isso muito bem. A força mental, num jogo física e tecnicamente muito equilibrado, faz toda a diferença no final. Não basta ser bom. É preciso ter o que os americanos chamam de right stuff - aquele algo a mais, que faz a mentalidade vencedora.

Carille tem pouco tempo como técnico. Ainda não foi testado nesse ponto. É jovem, inteligente e corajoso. Esta é a hora de sabermos se ele e o seu Corinthians têm aquele algo a mais.

No campeonato brasileiro do ano passado, o Palmeiras vacilou na reta final. Mas encontrou essa força para afastar de novo os concorrentes. Encontrou o seu modo vencedor.

Não é assim tão fácil. O Corinthians tinha um campeonato já nas mãos. Mas chegar perto não é chegar. Sem essa estamina extra, muita gente boa, que talvez até merecesse, já morreu na praia.

O campeonato paulista foi ganho quando os outros grandes times prestavam atenção em outras competições, especialmente a Libertadores. Agora que a maioria deles - Palmeiras, Santos, Flamengo, Botafogo - só pensa no Brasileiro, viraram concorrência séria. Os jogos estão mais duros, incluindo contra os times na parte baixa da tabela, que lutam contra o rebaixamento. E o Corinthians começou a perder.

É hora de Carille e seu time mostrarem se têm essa energia moral para embicar a aeronave em franca queda para cima de novo.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Toda uma vida num instante


O fotógrafo Jairo Goldflus, um dos profissionais mais requisitados por revistas de estilo e pelo mundo da publicidade no Brasil, especializou-se numa grande arte: retratar celebridades, na maioria das vezes tiradas de seu contexto, para contar algum tipo de história. Ao colocá-las em lugares estranhos, com roupas pouco usuais, ou em qualquer situação que nos faça ver celebridades de uma outra forma, Jairo sempre deu um toque especial e surpreendente àquilo que todos acham conhecer.

Ao decidir passar um período sabático em Nova York, supostamente para não fazer nada além de ir à Broadway ou aos shows do Village, aconteceu com ele o que acontece quando também somos tirados do lugar: passamos a ver a nós mesmos - e aos outros - com olhos diferentes. O descanso se tornou novamente trabalho, resultado da inquietação que segue todo artista. E essa mudança de perspectiva produziu algo extraordinário, que ele mais uma vez colocou em forma de livro.

Em You Are Not Here (Editora do Autor, R$ 160), Jairo mostra o que fez ao longo de dois anos na capital metropolitana do mundo. Dia após dia, dedicou-se a retratar gente dentro de um vagão de trem do metrô: o mesmo banco, do mesmo vagão, do mesmo trem, no mesmo horário. Ao todo, retratou 1.500 pessoas, das quais aparecem 456, após um processo de edição que faz do livro uma galeria em papel.

Inversão de pensamento, de ponto de vista, talvez de valores, Jairo usou Nova York para mudar, ou reciclar-se. Em vez de colocar gente conhecida em um lugar e papel desconhecidos, fez precisos retratos de gente desconhecida no seu lugar de sempre. E o resultado é extraordinário, não apenas pelo tempo e esforço empregados, que dificilmente outro fotógrafo um dia repetirá.

You are Not Here é estranho, insólito e impactante. Para muita gente, conhecer alguém é algo que leva tempo. Para isso, queremos saber quando e onde a pessoa nasceu, seu nome, onde vive. Ouvimos suas histórias. E passamos a gostar ou não do resultado. Jairo, no entanto, mostra que um estranho, ou toda uma vida, se pode conhecer apenas num instante.

Produz perfis fotográficos que, ainda que sempre no mesmo cenário, contam em silêncio uma infinidade de histórias. A biografia de cada retratado está inscrita nas rugas, nas marcas do corpo, nas roupas, no gesto, no olhar. Não precisamos perguntar seu nome, endereço e história de vida para sabermos quem são.

A diversidade humana desfila diante das lentes do fotógrafo secretamente instalado no trem. São todos literalmente passageiros, mas naquele momento se transformam em estátuas de si mesmos. As imagens impressionam, não somente pelas emoções mudas que transpiram de cada um. Mostram uma espécie de determinismo da alma, onde a psiquê predomina de tal forma que aflora em todo o nosso exterior.

Um bom exemplo disso, tirado entre minhas fotos favoritas do livro, são as imagens de um mesmo homem, fotografado em duas estações do ano, distintas como o verão e o inverno, com roupas completamente diferentes, de acordo com a época. Mudou a propaganda atrás dele no vagão, o dia, o clima, a roupa, a estação, mas o homem, de volta ao mesmo lugar meses depois, permanece o mesmo - a mesma expressão vazia, invariável, de desesperança, ou enfado. Difícil descrever, porque as imagens aqui são melhores que as palavras, para nos fazer sentir.

Se por um lado podem condoer, os retratos de Jairo por outro também comovem com a alegria despreocupada, a energia, a esperança e uma série de outras emoções que carregamos todos os dias simplesmente ao ir para o trabalho. Tatuagens, chapéus, sapatos: cada elemento com que alguém compõe a si mesmo se torna revelador dos mais diferentes impulsos.

Depois de Público, seu livro de retratos de personalidades, e Privado, em que desnuda as celebridades, suas fantasias que mostram gente midiática como algo real, Jairo virou a si mesmo no avesso. E, curiosamente, continua sendo Jairo. Reúne mais uma vez elementos da literatura e do jornalismo, fantasia e realidade, em fotografia impressa.

Seu livro é grande, custa caro, e para muita gente pode parecer desses que servem apenas para enfeitar a mesa de centro de uma sala fastidiosa. Prestar atenção nele, porém, é como abrir as portas para o ser humano, sua diversidade, e o que há de extraordinário na sua mundanidade. Sugere também que olhemos o espelho, onde podemos fazer sobre nós mesmos o exercício que Jairo inventou para fazer pensar seu leitor. Pode ser assustador.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Por que Hefner continua importante

A morte do editor Hugh Hefner, que fundou a revista Playboy em 1953, pode parecer mais um marco do fim de uma era da imprensa e de certos costumes, enterrados na era digital. Não é. A grande virtude de Hefner, e o filão que ele descobriu e explorou, ainda estão aí e fazem pensar. Hefner foi embora, mas o que ele vislumbrou continua vivo.

Num mundo em que as feministas tomaram a voz e qualquer coisa que defenda os homens - seres humanos que também possuem direitos - é tachada como machismo, Hefner continua a ser revolucionário. Foi ele quem descobriu que uma revista podia defender o público masculino, não no sentido político, ou como um movimento, mas da única forma possível - estando ao seu lado, compreendendo, estimulando e sobretudo aliviando suas agruras, com um pouco de ironia sobre ele mesmo.

Homens estatisticamente possuem uma vida mais curta que as mulheres, sobretudo por conta de doenças cardiovasculares. Hoje, como nunca, suportam uma grande pressão financeira e social. Hefner foi o primeiro a perceber que precisavam de um local de descanso, onde a auto-indulgência lhes fosse permitida. Não é pouca coisa. Isso criou um fenômeno mundial. Dessa forma, Hefner institucionalizou um ícone de liberdade, a ponto das célebres orelhinhas serem uma marca mais conhecida no mundo que a Coca-cola.

Por isso, Hefner definia Playboy não como uma revista de mulheres nuas, e sim de estilo de vida. Trazia para a vida dos homens o mundo do sonho, em que não apenas se conseguia ver as mulheres mais deslumbrantes, como sonhar com a vida que contrastava com seu cotidiano: o chefe em cima do seu pescoço, o cuidado dos os filhos, as expectativas e exigências da mulher, a falta de perspectivas no trabalho e na carreira.

Playboy era o sonho: belas mulheres, grandes carros, maravilhosas viagens. Tudo isso com um humor fino, quase britânico, a mostrar que tudo aquilo era possível e mesmo assim não era grande coisa.

Resumir Playboy a uma revista de "mulher pelada" é uma forma fácil de escamotear o principal: rotulando-a como puro machismo, evitou-se falar sobre os problemas dos homens e suas necessidades. Hefner não teve medo de fazê-lo nem de ostentar isso publicamente. Entendia a necessidade de uma válvula de escape para uma vida aborrecida e de quem não pode nem mesmo reclamar. Serviu um instrumento de auto-indulgência e de liberdade. Um espaço irmanado por todos os homens do qual as mulheres não precisavam, nem deviam participar.

A era digital envelheceu o negócio revista, assim como o tempo envelheceu Hefner, que procurou fazer de si mesmo um símbolo desse espírito de auto-indulgência, do estilo de vida que procurava vender - não o sonho americano, e sim o sonho masculino, nutrido pelo homem médio, o trabalhador, o pai de família, sem rotas de fuga. Tornou-se um senhor meio excêntrico, que morava na mansão de Playboy, cercado de coelhinhas, com uma fila de ex-mulheress, exibindo-se sempre num robe de seda ou com um quepe de capitão. Ao se tornar um tanto caricato, favoreceu o enxovalhamento do que seu projeto tinha de melhor.

Não há mais Hefner, e tampouco futuro para as revistas impressas, especialmente masculinas, com a facilidade de reprodução digital. Os homens, porém, permanecem com os mesmos problemas e continuam sendo um grande mercado para veículos de estilo de vida interessados em colocar-se ao seu lado. Esse caminho, o achado empresarial onde Hefner se fez pioneiro, ainda é o mesmo. E nenhum discurso politicamente correto foi ou será capaz de fazê-lo desaparecer.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Moisés e a vitória dentro da derrota do Palmeiras na Libertadores

O jogo se mostrava enrolado, difícil, com os mesmos problemas de sempre: time desentrosado, afoito, dependente de centros sobre a área desde o primeiro minuto. O estilo de Cuca, de fazer os jogadores correrem até seu limite, mostrava-se mais uma vez ineficiente diante de um adversário bem armado, que defendia bem e contra atacava com perigo. O torcedor em suspense, aflito pela necessidade da vitória por pelo menos 1 gol para manter as esperanças, foi para o intervalo com os olhos redondos como o zero a zero no placar. Mas, no segundo tempo, como um toureiro na arena, entrou Moisés.

Em todo este ano, Moisés havia jogado apenas meio tempo, na semana anterior. Vindo praticamente da fisioterapia, depois de uma cirurgia com recuperação longa e delicada, foi colocado às pressas, como se faz somente nos momentos de desespero. Expuseram Moisés a um sacrifício alarmante, perigoso, irresponsável.

Mas Moisés entrou. Na partida decisiva do campeonato, oito meses depois de iniciado o ano, ele fazia sua estreia de verdade. E tudo mudou de repente.

Clarividente, Moisés tomou conta do jogo. No lugar do velho time de Cuca, onze correndo atrás da bola, a bola é que começou a correr. Passava dos pés de Moisés de um lado a outro do campo. Achava o espaço antes inexistente. Como no toque de trivela que, em curva, passou atrás do zagueiro e encontrou, lá na frente, Dudu. Este fez a volta, devolveu a bola para a área, para encontrar quem? Mais uma vez, Moisés, que correu para receber.

A bola veio, rolando na área, até os pés do camisa 10. Num jogo em que se precisava desesperadamente do gol, a torcida, naquele ínfimo de segundo, engolia sem nem tempo de soltar o grito: "chuta!" Moisés, não. Com a calma do craque, a tranquilidade que vem da categoria, aplicou a finta seca. O zagueiro, ludibriado, foi ao chão. Com o terreno limpo à sua frente, Moisés então estufou a rede.

Moisés foi o grande jogador do Palmeiras na campanha que levou o Palmeiras ao título brasileiro em 2016. Em apenas quinze minutos, se tornou também o melhor jogador do Palmeiras em 2017. O time cresceu. Uma bola na trave de Keno. Parecia algo que sua torcida já conhecia: o Palmeiras, o Palmeiras de verdade, e não aquele Bragantino de verde, que come grama por cada centímetro, para vencer campeonatos arrebentando jogadores (somente ontem, estouraram dois: Mina e Dudu). O Palmeiras da categoria, o Palmeiras da Academia, o Palmeiras do grande futebol, como a torcida quer ver.

E então, de repente, Moisés se apagou. Procura-se Moisés em campo, e lá está ele, praticamente sem andar. Puxa a perna, massageia o joelho. Quinze minutos de jogo, era o que ele tinha. E o Palmeiras, então, jogou o resto do segundo tempo com dez.

O apito final, para os palmeirenses, sob a pressão do adversário, acabou sendo um alívio.  A decisão seguiu para os pênaltis. Puxando a perna, quase perneta, mas sereno, com a confiança monstruosa de quem é a estátua moral de uma equipe, Moisés bateu seu pênalti. E converteu o gol. Mas o Palmeiras, o Palmeiras de Cuca, inseguro e extenuado pelo ritmo que impõe o esquema de jogo de seu comandante, rendeu-se ao adversário: bravo, bem treinado, fisicamente dosado e sem medo.

Desclassificado, o Palmeiras perdeu. Perdeu, mas em certo sentido ganhou. Com sua passagem em campo, Moisés nos lembrou qual é o Palmeiras que queremos, e que Cuca ficou devendo.

Não é possível gastar 100 milhões em contratações e depender, no jogo que importa, do herói combalido, que vem do tratamento para o sacrifício. Moisés foi sacrificado, diante de 38 mil pessoas. Saiu mais uma vez consagrado, diante de um público reconhecido e grato. E foi um mensageiro. Mostrou que, além dele, o Palmeiras, com todo seu dinheiro, nada fez no ano. Enquanto o Corinthians, cujo elenco custou menos que Borja, treinou um time que faz a bola jogar, aposta no conjunto, e não depende de nenhum herói, nós dependemos de um homem só.

(O Palmeiras dependia de outro, Fernando Prass, o defensor de pênaltis, o homem das decisões. Mas Cuca o colocou inexplicavelmente no banco).

Cuca mostrou em uma partida como se joga um ano no lixo, mas Moisés nos mostrou que quinze minutos podem valer um ano também. Quem assistiu esse jogo, por causa de Moisés - e que Deus permita que a contusão não tenha voltado seriamente - pode dizer que ontem, enfim, vislumbrou novamente (por 15 minutos) o seu time do coração. Essa foi a nossa vitória.