quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pensar é perigoso


Reflexos na vida cotidiana desse hábito revolucionário


Quando eu levantava algumas dúvidas sobre a vida e questionava nosso relacionamento, minha primeira mulher olhava para mim, com seus olhos cinzentos, e dizia, com uma ponta de desdém: “Você pensa demais”.


Levei algum tempo para entender o que ela queria dizer. Só hoje percebo melhor o alcance e as consequências do fato de que minha vida é pensar. Pensar, mas não apenas pensar: pensar para a ação.

Por pensar demais, deixei para trás uma porção de simplificações – a começar pelas da minha ex-mulher. Hoje entendo que por trás da crítica ao intelectual, interpretado como um mero e inútil criador de caso, havia algo mais. Melhor do que eu, minha ex-mulher intuía algo bem concreto. Pensar é perigoso. No fundo, creio é que ela tinha medo disso.

Pensar é perigoso porque o indivíduo que pensa se abre a possibilidades. Analisa, compara, estuda mudanças, novos caminhos. E é mais perigoso ainda quando quem pensa levar a sério o resultado do seu pensamento, transformando idéias e sentimentos em atitudes muito práticas.


Quem pensa - e age em função dessa força inquietante - é uma perturbação para quem precisa de segurança, sobretudo aqueles que dependem ou estão ligados a nós de forma permanente, como supostamente deve ser o casamento. Pensar é um hábito revolucionário. É o princípio das revoluções, das políticas às mais pessoais.

Um romancista é um pensador, um indivíduo sempre nômade, que analisa e explora possibilidades. Na pele de seus personagens, fala coisas diferentes do que diria na vida normal, passa por outras experiências e testa suas consequências num empirismo imaginário.

Não se trata apenas de fantasia. A ficção é invenção, mas a emoção colocada nos personagens é real, assim como os problemas da vida que os envolvem. Como um ator que se transforma em assassino, estuprador, vigarista, ou travesti, o romancista vive diversas vidas e procura encontrar o que há dentro dele algo que torne verossímil a sua criação.

Essa experiência pode ser perturbadora, não apenas para quem cria, como para aqueles à sua volta. A maioria das pessoas não quer ver destruído o mundo organizado a duras penas no qual elas se sentem mais seguras, confortáveis e por vezes mais felizes. A idéia de que é melhor não saber para nao ter que mudar é um padrão de muita gente.

Para os mais conservadores, a sensação é de que nunca se conhece realmente o indivíduo que pensa. Porque quem pensa pode sempre mudar, quebrar regras, subverter os padrões. Não se sabe exatamente em que mundo ele está ou a que tipo de ação suas divagações podem levar. O pensador é uma encarnação de variáveis.

Pensar – isto é, admitir mudanças – não significa que faremos coisas contra o bom senso, que mudaremos mesmo, ou que estaremos em mudança permanente. Mas pensar, em si, é uma forma de trair, pela simples aceitação das alternativas.

Existe uma diferença entre pensar e fazer, ou pensar e ser. Não há nada melhor do que pensar e não mudar, o que seria uma escolha mais consciente pela estabilidade, mas a natureza do pensador assusta, assim como onde seu pensamento pode parar.

Um exemplo. Há pessoas que leram meus romances e já me disseram coisas do tipo: “Como você pôde pensar naquilo, é tão cruel!” Como se alguém capaz de pensar em uma situação onde a crueldade se manifesta de maneira chocante faça parte de quem a criou.

Romancistas tiram da realidade a maior parte das coisas que não conhecem, não sentem ou não lhe pertencem, como um empréstimo. Eles não são seus personagens, elementos construídos para fazer sentido em si mesmos. Porém, a partir do momento em que aquilo foi recriado dentro de um livro, passou também a pertencer ao seu criador. E a simples ligação da criatura com seu criador, o fato de um ter saído do outro, já é suficiente para assustar outras pessoas.

A mente inquisitiva não pode ser vista apenas como uma ameaça que carregamos ao entes queridos e pessoas próximas. A mudança é também o que nos faz melhorar, criar coisas boas e atrair para as pessoas de que gostamos algo melhor – inclusive de nós mesmos.

Por trás das boas mudanças do mundo, desde as revoluções libertárias aos grandes engenhos, há uma história do pensamento e de pensadores que utilizaram sua inquietação permanente para fazer o mundo melhor. Isso funciona também no microcosmo onde vivemos. Um pensador procura, antes de tudo, se tornar um ser humano melhor. E isso faz com que todos os que estão à sua volta, de uma forma ou outra, acabem por se beneficiar.


Quem não aceita o pensamento escamoteia o fato de que a vida é mutante. E, na tentativa conservadora ou amedrontada de congelar no tempo, renuncia à vida.

3 comentários:

  1. Encontrei por acaso numa das andanças sem fim pela rede. Lá como aranha amarrada vi este texto. MUITO BOM, logo expressei. Parece coisa de adulto, mais jovem menos velho. Algo como no ponto, ou como os americanos diriam um verdadeiro Steak well-done.

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  2. Tks Pedro Paulo, deixamos deixa ro steak no ponto... abraços

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  3. acho que penso demais...me senti menos ET lendo vc.rs. Perfect!

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