terça-feira, 26 de abril de 2016

Pela democracia, pela tolerância

Quando eu era diretor da Playboy, eu costumava deletar do facebook uns caras que apareciam só para me xingar. Achavam que sabiam o que fazer no meu emprego, mais do que eu, e descontavam em mim seu fracasso existencial. Senti compaixão pelo técnico da seleção brasileira. Escreviam baixarias e eu, se fosse tirar satisfação com todo mundo, estaria na cadeia até o Século 23.

Ofensa gratuita é uma coisa, opinião é outra. Nunca deletei ninguém nem jamais censurei comentário de gente que diverge de mim. Como jornalista, ganhei com a equipe da revista onde trabalhava um prêmio Esso pela cobertura da eleição que trouxe de volta a democracia plena ao Brasil. Na imprensa, trabalhei anos a fio, de madrugada, à custa da saúde e da diversão, ao lado de muitos outros brasileiros, para a gente poder ter essa liberdade. Não darei exemplo aos que desejam tirá-la. Não se exclui ninguém por divergência política ou de opinião. Democracia é a convivência dos contrários.

A intolerância cresce, não só neste ambiente aqui, em que muitos se julgam protegidos para julgar e agredir os outros, como nas ruas. O confronto do ator Zé de Abreu num restaurante e o comportamento do deputado Jean Willys, tanto quanto o casal ofensor e o provocador Bolsonaro, revela que todos os envolvidos nesta guerra perderam a razão junto com a compostura. Os defensores de cusparadas e outras impropriedades mostram que a cizânia está saindo do mundo virtual para a microfísica do cotidiano.

Vejo amigos experimentados na vida defendendo boicote a empresas "de oposição" publicamente, o que configura crime, e não deixa de ser crime pela internet. Outros, do lado oposto, generalizam a pecha de "ladrão" aos integrantes do governo e seus apoiadores, tanto quanto estes atribuem a condição de "golpista" a quem apenas deseja o cumprimento da lei e o bom trato do dinheiro público.

Os intolerantes, felizmente minoria, continuam sendo os que mais fazem barulho. No final, como aquele vizinho chato e agressivo, incomodam o cidadão pacífico, democrático, que apenas quer ver o Brasil dentro da lei e desfrutar das possibilidades de progresso que este país oferece quando a gente não estraga tudo.

A aparição da "primeira dama" do turismo deu margem a mais intolerância. De um lado, aqueles moralistas que acham o fim da picada a mulher do ministro aparecer de decote tirando foto deslumbrada no ministério. E os moralistas defensores do governo, que se acham de esquerda, mas são tão patrulheiros da liberdade quanto os extremistas que defendem o velho dístico da tradição, família e propriedade.

O moralismo existe, faz parte da sociedade, e como tudo tem de ser tolerado. O direito à liberdade, de fazer humor com o governo, de publicar o que se quiser, porém, está na essência da prática democrática. Qualquer tipo de censura e patrulhamento é que deve ser combatido. Como dizia o velho lema, é proibido proibir. A não ser, claro, aquilo que está estritamente fora da lei.

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