sábado, 30 de agosto de 2025

15 minutos com Luis Fernando Verissimo

Fui certa vez visitar o escritor Luis Fernando Veríssimo em sua casa, no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre. Tinha colaborado comigo na revista VIP, do grupo Exame, escrevendo uma crônica para uma série que inventei, dentro de uma seção chamada Viagem Inteligente, em que punha escritores para falar de seus lugares favoritos. Antonio Callado escreveu sobre Roma; Ligia Fagundes Telles, sobre Estocolmo; João Ubaldo, Berlim; e assim por diante. Veríssimo escreveu sobre Paris.

O texto era sobre o que se podia fazer em um dia na cidade, caminhando. O título, "Paris aos nossos pés", foi da jornalista @mariellalazaretti, que trabalhava na revista. Eu queria fazer mais coisas com ele, um dos mais brilhantes cronistas brasileiros de todos os tempos. Divertido e sagaz, tinha a capacidade rara de tocar em temas profundos com leveza. Escrevia alguns textos hilariantes, como as crônicas de O Analista de Bagé.

Fiquei na casa de Veríssimo 15 minutos. Pessoalmente, aquele senhor tão divertido de ler era, embora afável, tão lacônico que a conversa não andava. Respondia por monossílabos. Nada parecia importante. Apareceu diante de mim o personagem que ele mesmo descrevia como o sujeito que só  chegava mais perto da natureza "quando usava bermuda".

Ainda assim, foi uma conversa interessante por outra razão. Veríssimo conservava a casa tal qual lhe deixou se pai, Érico Veríssimo,  por quem tenho paixão, desde que li aos 14 anos Incidente em Antares e publiquei meu primeiro texto na imprensa -- uma crítica do livro, para a revista Visão.

Parecia que eu conhecia a casa, porque li também O Homem ao Espelho (ou "Solo de clarineta"), umas memórias em que Érico a descreve, porque a cada livro publicado (Clarissa, Olhai os Lírios do Campo etc) corresponde algo que compra para ela -- a mesa de jantar, o aparador, e assim por diante. Era, assim, estranhamente tudo muito familiar.

Veríssimo preservava a memória e a vida do pai daquela forma. Tinha com ele um diálogo misterioso. Achava que jamais seria um romancista do mesmo calibre. Na crônica, achou o seu espaço.

De vida meio reclusa, com seus sorrisos meio envergonhados, só estava totalmente à vontade na arte, escrevendo, tocando sax numa banda de jazz, outro meio de se expressar, ou desenhando. Na imprensa, fez parte de uma geração de cartunistas que  colaborou para o progresso da democratização, onde a sátira fazia também o papel de demolir a ignorância e obscurantismo.

Honrou, ao final, a linhagem. Há agora dois Veríssimo no panteão de Petrópolis.


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