Um deles é um amigo de colégio, a quem eu não via há muitos anos. Lembro de tê-lo visto pela última vez na estação do metrô, trinta anos atrás; usava uma roupa toda branca, como um pai de santo, dizia ter encontrado a "luz", não matar mais baratas e que tinha seguidores perto do campus onde tinha ido estudar Física. Desapareceu por três décadas e muitos de nós, colegas de classe, eu inclusive, o julgávamos morto, de tal forma estava desaparecido. Reapareceu uns três meses atrás, bem vivo, dono de empresas em vários lugares, morando em outro estado, com quatro filhos de diferentes casamentos e uma biografia digna de filme.
Outro dia ele, ele me mandou do nada uma pergunta pelo what'sapp: você conhece o paradoxo de Fermi? Sim. O paradoxo de Fermi, formulado pelo grande cientista e pensador Enrico Fermi, é a estranheza de não haver vida perto da Terra, já que os mecanismos de criação da natureza são os mesmos em todo lugar.
Meu amigo faz a gente pensar. A meu ver, o paradoxo de Fermi não existe, ou melhor, não é um paradoxo; certamente há vida em outros lugares do universo, criados da mesma forma, talvez em condições semelhantes às da Terra. Recentemente, cientistas alemães disseram ter reproduzido em laboratório a "criação" da matéria orgânica, uma troca de calor em nível molecular que gera uma célula auto-reproduzível, a que chamamos de vida. O que está errado, para mim, é a noção de "perto". No universo infinito, uma galáxia distante pode ser "perto". Fermi não considerou a relatividade do espaço.
Isso me deu ideias para um romance, que já vinha acalentando desde que vi Lucy, o filme com Scarlett Johanson, a mulher que se torna um computador, como método de autopreservação da vida: o filme lembra que inteligência não é o que produz a mente, nem é mesmo necessariamente orgânica: o homem é um computador vivo, e poderia ser eterno se pudesse transportar sua mente para a natureza ou a máquina. Esse talvez seja o sentido religioso da eternidade, como uma volta à natureza, uma forma maior de inteligência, da qual fazemos parte; a vida teria, portanto, um sentido mais amplo, parte de um conjunto que faz sentido; haveria uma "inteligência" da natureza, ou do próprio universo, a que podemos chamar de Deus.
Pensar diferente é ser um pouco louco? A loucura, nesse caso, é um contribuinte importante para a criação e a própria ciência. Pensar como já se pensou é a melhor maneira de chegar sempre ao mesmo lugar. Se queremos avançar, é bom termos um pouco de loucura, ao menos uma pitada a cada dia. Mesmo quando não dá resultado, é um pouco de saúde, faz a vida melhor.

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