quarta-feira, 3 de abril de 2013

Quanto uma casa pode valer



Ernest Hemingway tinha uma casa em Key West, ilha na costa da Flórida, cercada por belos jardins, que se pode visitar hoje em dia, como a um museu. Ali, ao lado da piscina, há uma moedinha encravada no cimento, da qual se conta uma história. Ao construir a piscina, a primeira e única em sua época na ilha, encerrando a obra que lhe custara uma pequena fortuna, Hemingway tirou a moeda do bolso, quando o cimento ainda estava fresco. E a jogou ali, enquanto contemplava a obra. “Tome”, disse ele. “Leve também o meu último penny.”

Escritores têm uma relação forte com a casa, o ambiente onde juntam suas coisas e se recolhem num mundo próprio e caloroso, favorável à criação. Existe nisso uma certa paixão obsessiva, ou uma compulsão, porque, por mais que se gaste todo o dinheiro na “casa dos sonhos”, essa compulsão nunca termina – o escritor parace um eterno insatisfeito, como se, para receber novamente a energia que o levará a um livro novo, precisasse também de uma casa nova, de novos ares.

Assim como Picasso, Hemingway trocava de casas e mulheres a cada fase literária. Não deve ser coincidência. Sem ser nenhum Hemingway, muito menos Picasso, sei muito bem como é isso. Já me mudei várias vezes, e nem quando morava sozinho em uma casa grande, com piscina e palmeiras imperiais, me dava também por contente. Para escritores, casas são um pouco como livros: quando você completa um, está ávido, ou quase aflito, por escrever o seguinte. E o mundo ao redor tem de girar em função disso. A gente faz girar.

Pouca gente entende esse processo. Assim como poucos entendem o sacrifício que fazemos para escrever um livro, não entendem como podemos abandonar tudo aquilo que outros já acham muito bom e parecia definitivo para buscar algo diferente. Isso cria muitos problemas com as pessoas que convivem mais de perto. Tenho a sorte de ter encontrado uma mulher que aceita meus ímpetos e está disposta a embarcar comigo nessas reviravoltas impulsionadas pelo coração, sem pesar tanto os recursos e os aspectos práticos. Não que ela não seja pragmática, ao contrário. Mas tem as duas moedas no bolso: a do cérebro e a do coração.

Assim como não se olha o preço que pagamos para escrever um livro, que nos custa literalmente um pedaço da vida – meses de trabalho, muitas vezes sem saber se teremos retorno -, não olhamos também o preço que o sonho imobiliário pode custar. Fala mais o coração. A maioria das pessoas faz muitas contas e evitar gastos desnecessários, pechincha ou procura saber se o preço pedido por um imóvel é justo. Escritores, não. Pagam o preço que for, certos de que somente ali serão felizes. E quanto maior o preço, melhor. Significa que o vendedor dá alto valor àquilo que ele está vendendo. E esse julgamento é o que vale.

O preço de um imóvel, como muita gente diz, é o de mercado. Eu vejo no imóvel um outro valor: aquilo que ele representa para o proprietário. Muitas vezes, o dono de um imóvel joga o preço lá para cima por conta da dificuldade de se desligar do lugar onde passou momentos felizes ou onde abrigou seus sonhos por um período da vida. Esses lugares não têm preço.

Há dois meses, encontrei um homem que está se separando de sua casa. Pediu por ela um preço exorbitante, para o lugar, para o tamanho, para o mercado. Ali ele vivia com seus cães, com uma mulher que o abandonou, com o nascer do sol e o café da manhã no meio da mata. Está ficando cego, devido a uma isquemia.

Este homem vende sua casa como quem abandona a vida. Talvez ele imaginasse que nunca encontraria comprador para a casa, nas condições que impõe. Eu nunca penso muito no dinheiro, mas na vida: daqui a alguns anos, será na experiência vivida que estará o patrimônio, e não no dinheiro investido.

Caminhando pela propriedade, deparei-me com um canil, pnde um cachorro cinzento saiu sem fazer barulho. “Ele está cego”, disse o funcionário que me acompanhava. O cão cego de um dono que está ficando cego. Pensei no futuro, quando eu também, velho ou doente, cego ou entrevado, terei de sair dali. Casas pedem muito da gente, dão trabalho, são uma alegria para a juventude. Ainda estou em tempo, penso, e minha vontade de viver a vida passa por cima de qualquer obstáculo bancário.

Sim, o homem cego achou o cliente que nõ queria. E só nós dois, o que vende e o que compra, sabemos o que está realmente acontecendo. Que ele fique com meu último centavo.

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