sábado, 30 de agosto de 2025

15 minutos com Luis Fernando Verissimo

Fui certa vez visitar o escritor Luis Fernando Veríssimo em sua casa, no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre. Tinha colaborado comigo na revista VIP, do grupo Exame, escrevendo uma crônica para uma seção que inventei, chamada Viagem Inteligente, em que punha escritores para falar de seus lugares favoritos. Antonio Callado escreveu sobre Roma; Ligia Fagundes Telles, sobre Estocolmo; João Ubaldo, Berlim; e assim por diante. Veríssimo escreveu sobre Paris.

O texto era sobre o que se podia fazer em um dia na cidade, caminhando. O título, "Paris aos nossos pés", foi da jornalista @mariellalazaretti, que trabalhava na revista. Eu queria fazer mais coisas com ele, um dos mais brilhantes cronistas brasileiros de todos os tempos. Divertido e sagaz, tinha a capacidade rara de tocar em temas profundos com leveza. Escrevia alguns textos hilariantes, como as crônicas de O Analista de Bagé.

Fiquei na casa de Veríssimo 15 minutos. Pessoalmente, aquele senhor tão divertido de ler era, embora afável, tão lacônico que a conversa não andava. Respondia por monossílabos. Nada parecia importante. Apareceu diante de mim o personagem que ele mesmo descrevia como o sujeito que só  chegava mais perto da natureza "quando usava bermuda".

Ainda assim, foi uma conversa interessante por outra razão. Veríssimo conservava a casa tal qual lhe deixou se pai, Érico Veríssimo,  por quem tenho paixão, desde que li aos 14 anos Incidente em Antares e publiquei meu primeiro texto na imprensa -- uma crítica do livro, para a revista Visão.

Parecia que eu conhecia a casa, porque li também O Homem ao Espelho (ou "Solo de clarineta"), umas memórias em que Érico a descreve, porque a cada livro publicado (Clarissa, Olhai os Lírios do Campo etc) corresponde algo que compra para ela -- a mesa de jantar, o aparador, e assim por diante. Era, assim, estranhamente tudo muito familiar.

Veríssimo preservava a memória e a vida do pai daquela forma. Tinha com ele um diálogo misterioso. Achava que jamais seria um romancista do mesmo calibre. Na crônica, achou o seu espaço.

De vida meio reclusa, com seus sorrisos meio envergonhados, só estava totalmente à vontade na arte, escrevendo, tocando sax numa banda de jazz, outro meio de se expressar, ou desenhando. Na imprensa, fez parte de uma geração de cartunistas que  colaborou para o progresso da democratização, onde a sátira fazia também o papel de demolir a ignorância e obscurantismo.

Honrou, ao final, a linhagem. Há agora dois Veríssimo no panteão de Petrópolis.


sábado, 2 de agosto de 2025

José Roberto Guzzo, in memoriam

Comecei a trabalhar em Veja em 1986, como repórter da seção de economia, num tempo em que revista era o maior e mais influente veículo impresso do país, com alcance nacional e mais de 1 milhão de exemplares vendidos a cada semana, dos quais cerca de 800 mil iam para assinantes.

Como diretor de redação, José Roberto Guzzo comandava o que considero a mais brilhante equipe de jornalistas de todos os tempos, que contava com Elio Gaspari (diretor adjunto) Dorrit Harazim (redatora-chefe), Henrique Caban e um time de editores que mais tarde daria continuidade ao sucesso da revista, dentro de uma escola de jornalismo da qual me orgulho muito em pertencer.

Guzzo, em particular, era aquele em quem eu mais me espelhava. Dirigia um negócio nevrálgico para a Editora Abril e o Brasil  como se não fosse nada -- parecia fazer até pouco caso das decisões difíceis que tomava, das brigas que comprava, e das grandes coisas que fazíamos.

Passei a ter mais contato direto com ele quando comecei a escrever capas. No processo de trabalho de Veja, cada texto passava por várias mãos: do relatório da sucursal para o subeditor em São Paulo, depois o editor,  e por fim o editor executivo. A capa, porém, ia sempre para mais uma leitura: a de Guzzo.

Eu ainda o vejo sentado em sua cadeira giratória, dedos cruzados sobre a barriga, esperando chegar o texto da capa, geralmente alta madrugada. Aí ele se encontrava no que parecia talhado para fazer desde o nascimento.

Guzzo era famoso na redação de Veja por "consertar" textos com problemas de entendimento e dar estilo e graça a assuntos complicados, com grande facilidade, em leves canetadas (sim, ainda escrevíamos em papel, na velha máquina datilográfica).

Com sua caneta Bic, Guzzo fazia suas intervenções com letra de professor; eram uma aula de redação e edição. Por essa habilidade,  era chamado na redação pelo apelido de "mão peluda" -- muito embora as tivesse lisas, com dedos longos e delgados e unhas bem cortadas, como os de uma moça.

Tinha a visão clara do negócio: a revista tinha de estar ao lado do leitor. Isso determinava o que escolhia como capa, à frente dos editores que discutiam os temas da semana e apresentavam a ele suas ideias, na reunião de pauta das segundas-feiras e, na quinta-feira, quando tudo era reavaliado.

Elio era o editor-repórter; genial e genioso, mente ativa, buscador incessante da notícia, o atacante rompedor. Guzzo era o fechador: tinha visão do que estava acontecendo, e  equilíbrio; enquadrava a notícia, mostrando o contexto, os bastidores, o que ninguém pensava, o que ninguém tinha visto. 

Guzzo e Elio se completavam, na dupla a meu ver mais icônica da imprensa brasileira. Com Roberto Civita, dono da Abril, que os respeitava como iguais, davam a Veja a importância que a revista adquiriu, especialmente no período de redemocratização do Brasil, quando teve um papel fundamental.

Veja produziu grandes marcos da imprensa na época. Um deles foi a reportagem sobre a morte do jornalista Alexandre Baumgarten, que quebrou o silêncio sobre as execuções nos porões da ditadura. Foi um momento corajoso e determinante dentro do processo de abertura, que, de uma hora para outra, mudou o Brasil. Dali em diante, a volta à democracia ainda demandou muito trabalho, mas se tornou apenas uma questão de tempo.

A clareza de Guzzo se manifestava em tudo o que escrevia ou mandava fazer. Lembro de uma reportagem sobre o aumento do salário mínimo, fechada pelo meu chefe na época, Fernando Pacheco Jordão. Fernando redigiu uma longa matéria sobre os efeitos do aumento na economia e, ao final, um pequeno box (texto em destaque) sobre o custo das empregadas domésticas para as famílias de classe média. Guzzo mandou Pacheco inverter tudo: ao leitor de Veja, o que interessava eram as empregadas domésticas, que viraram a matéria principal, enquanto todo o raciocínio econômico foi o box do final.

Passei a trabalhar mais diretamente com ele quando me tornei subeditor de economia e depois editor de Brasil. Guzzo era um chefe descomplicado: não dava bronca, não brigava, não perdia tempo; dizia o que queria, mas deixava as pessoas trabalharem, e sempre defendia e recompensava o mérito.

Certa vez, já como editor de Assuntos Nacionais (Brasil), fui encarregado de fazer um perfil de Zélia Cardoso de Melo, assessora do recém-eleito Fernando Collor, que ainda não escolhera seu ministro na área econômica. A matéria era delicada: Zélia aceitou me dar a entrevista, morrendo de medo: o que eu escreveria decidiria o seu destino (é bom lembrar que foi Veja quem lançou Collor no plano nacional, ao escrever sobre um então jovem e promissor governador de Alagoas, para quem criou, pelo título de capa, a alcunha de "caçador de marajás").

Na reunião de pauta, apresentei minha ideia para o texto e o título da minha matéria sobre Zélia -- "o coringa de Collor". Os outros editores torceram o nariz -- acharam aquilo muito enigmático. Guzzo, porém, aprovou.

-- Tem uma esperteza aí.

De fato: a gente não sabia o que Collor decidiria, mas a matéria indicava que Zélia seria influente no governo de qualquer forma, onde quer que estivesse (o coringa). Se não fosse ministra da economia, acabaria como uma sombra para qualquer outro. A revista saiu no sábado.  Na segunda, Zélia foi anunciada como titular do ministério econômico.

(Ninguém imaginava o que aconteceu depois: o choque perpetrado por Zélia -- o Plano Collor, que sequestrou o dinheiro da conta bancária dos cidadãos --, e as denúncias que levaram ao impeachment do presidente, cuja investigação,  por sinal, Veja liderou, até a célebre entrevista de Pedro Collor, irmão do presidente).

Guzzo via em mim um pouco do que ele mesmo era -- um " resolvedor de problemas", como se chamava na Abril, por inspiração de Roberto Civita, aquele jornalista para trabalhos complicados. Sabia com quem podia contar, por exemplo, para entregar em Veja  uma matéria de última hora na madrugada de sexta-feira, ciente de que eu não iria ficar "rolando na lama" -- o jargão da redação para aqueles que se viam em dificuldades e demoravam para entregar o texto.

Era comum, pela pressão do tempo e da qualidade, alguém entrar em pânico. Muita gente da redação temia como um pesadelo a possibilidade de entrar uma nova matéria na sexta-frira, dia de fechamento, ou acontecer algo que mudava tudo, na última hora, por vezes alta madrugada de sexta para o sábado. Meu batismo literalmente de fogo nisto foi escrever a dramática história dos incêndios nos grandes edifícios em São Paulo para a Vejinha, numa noite de sexta-feira, quando queimou o Shopping Center 3 na Avenida Paulista, em 1987.

Dado o "pescoção" das madrugadas, cada edição de Veja equivalia ao jet lag de viajar ao Japão semanalmente, virando e desvirando a noite, e isto por meses, anos a fio. Mas era um trabalho que fazíamos de forma missionária, abnegada, um sacrifício justificado. Acreditávamos que daquela forma estávamos mudando o Brasil para melhor-- e estávamos, mesmo.

Eu adorava aquela vida, mas ela era terrivelmente desgastante. Saí de Veja para um período sabático,  e voltei à Abril mais tarde, a convite mais uma vez de Antonio Machado, desta feita para Exame, cuja direção Guzzo passara a acumular, de forma a desenvolvê-la. Como editor-executivo de Exame, eu era encarregado de VIP,  então um suplemento da revista-mãe. Com a saída de Machado, Guzzo passou a me deixar a fazer a revista sozinho -- eu apenas o informava da pauta e lhe mostrava a capa, ao final.

Guzzo valorizava o trabalho, era objetivo, generoso e usava sua ironia até para fazer o bem. Uma vez me chamou na sala dele com um pedido.

-- Tem um velho jornalista, fulano de tal, que já trabalhou aqui, um sujeito meio encrenqueiro, mas que está doente, precisando de dinheiro. Você não consegue arrumar qualquer coisa para ele aí?

Sugeri criarmos uma coluna na revista sobre livros, poderíamos dar a ele, algo que ele poderia fazer de casa.

-- Ótimo --, disse Guzzo, com um sorriso leve sob o bigode. E, quando eu já saía da sala, completou: -- Provavelmente nos arrependeremos depois.

*

O que eu não sabia é que Guzzo já tinha feito algo parecido com meu pai -- e, de certa forma, por mim. Essa história, sobre a qual nenhum dos dois falava, eu só soube por meu pai,  muito tempo depois.

Em 31 de março de 1964, meu pai, Alípio do Amaral Ferreira,  era chefe de redação de Última Hora em São Paulo. O jornal foi empastelado pelos militares no golpe e, do dia para a noite, ele se viu sem emprego, sendo que tinha um bebê de 15 dias para criar -- eu. Guzzo, com quem meu pai havia trabalhado no jornal A Hora, estava numa editora de revistas especializadas -- o Grupo Lund -- e o socorreu com um emprego salvador.

Mais tarde, quando Guzzo foi para Veja, chamou meu pai para trabalhar com ele. Meu pai chegou a ficar uma semana na revista, mas achou o trabalho muito duro, sobretudo pelas madrugadas de fechamento, que eram um sacrifício físico muito grande. Voltou para o velho emprego, onde tinham lhe deixado a porta aberta.

Comecei minha carreira na Gazeta Mercantil; de lá, fui para Veja, por motivo que nada teve a ver com Guzzo e meu pai.  O editor de economia, Antônio Machado, leu uma reportagem que escrevi, na Gazeta, sobre economistas dos governo Sarney, que davam entrevistas no mesmo dia, em cidades diferentes. Em vez de reproduzir o que diziam, como os demais, escrevi que aquele era um movimento coordenado no governo para obter apoio ao Plano Cruzado, num momento crítico. Era uma matéria típica de Veja, embora feita para um jornal.

Fui trabalhar em Veja, sem saber da história de Guzzo com meu pai, apenas porque queria escrever mais, e dessa forma me desenvolver. Com Guzzo, e as equipes brilhantes que consolidaram em Veja uma cultura de trabalho incomparável na imprensa brasileira, aprendi muito do que usei pela vida inteira, até hoje.

Só não sabia o quanto havia do dedo de Guzzo não apenas no que aprendi,  como jornalista e editor, mas na minha vida pessoal. Ainda mais pela forma silenciosa com que trabalhamos juntos tantos anos, sem que eu soubesse daquela ligação anterior. Para mim, além de tudo, Guzzo cultivava o princípio da verdadeira generosidade, de quem faz o bem sem ver a quem, e sem nem mesmo falar sobre isso depois.  

Fora de cargos de chefia, tornou-se um colunista muito lido; era crítico permanente do governo de plantão,  por ora do PT, razão pela qual passou a ser taxado como radical de direita, bolsonarista e afins. Creio, porém,  que não defendia pessoas ou partidos, mas princípios e ideias, que tenderam cada vez mais ao conservadorismo liberal, mas essencialmente não mudaram tanto. 

Defendia sua independência e, como jornalista, acima de tudo colocava-se contra correntes, fosse de que lado fossem, fiel a um princípio de Veja, que é investigar a quem seja, mesmo os bons.

Chamamos a este campo irrotulável não de convicção ideológica,  embora de certa forma seja, mas é mais a atitude do pensador coerente consigo mesmo, oponente obstinado da corrupção, da incompetência e dos discursos vazios, venham de onde vierem.

Com este habilidoso espadachim da palavra, que brandiu sempre ao serviço do Brasil e do bem comum, fica minha amizade, minha gratidão eterna e seu legado: um país muito melhor,  que ele defendeu e ajudou a construir como ninguém.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Uma luz sobre o caos mundial


Muita gente não está entendendo o que tem a ver o tarifaço de Trump com a política no Brasil, assim como a relação meio esquizofrênica do presidente americano com Elon Musk e Putin, a quem durante a campanha eleitoral tinha prometido apoio na guerra contra a Ucrânia -- e, agora no governo, ameaça, oferecendo mísseis Patriot à Ucrânia por meio da OTAN.

Salvem Bolsonaro e acaba o tarifaço, diz Trump? Processo contra o ministro do STF Alexandre Moraes nos Estados Unidos? Acabem com o pix no Brasil? Vamos chutar todos os estrangeiros e proibir funcionários do governo americano de usar palavras como “feminismo” e “diversidade”? O que está por trás dessa metralhadora política e econômica em escala global?

Parece que o presidente de cabelo laranja aposta no caos. E de certa forma é isso mesmo: ele ataca a ordem mundial, para instalar outra, que lhe interessa.

Tudo isso se entende com a leitura de A Era da Intolerância, um livro meu pouco observado, mas que começa a ganhar espaço nas universidades, adotado por professores para discussão em sala de aula, e que fala da origem desta crise mundial, em que mesmo os organismos internacionais perderam sua capacidade de negociação e mediação de crises.

O problema é mais que econômico, é sistêmico: estamos assistindo a uma reação à era da liberdade, em que empresas transnacionais passaram a fugir aos controles dos estados nacionais, incluindo a taxação, derrubaram empregos, impostos, e enfraqueceram os estados nacionais, tanto na sua capacidade de taxar quanto legislar.

Os estados nacionais agora buscam taxar a internet na fonte da venda, para evitar evasão de divisas; há um retrocesso conservador geral, um grande refluxo contra o globalismo, que afeta todas as áreas da atividade humana – a política, a economia, o judiciário, e mesmo as relações humanas e sociais.

A origem, ou as causas, e uma radiografia da natureza do problema, onde a intolerância é “a febre” causada pela doença, conforme digo no livro, estão lá. Assim como algumas indicações do que pode ser o futuro.

@matrixeditora
#economia
#aeradaintolerancia


terça-feira, 22 de abril de 2025

O Papa que sabia sorrir

O Papa morreu. Viva o Papa.

Um Papa vem atrás do outro, a história segue, mas um Papa não é igual ao outro.

Francisco morreu, mas não tem outro igual. Era latino americano, uma outra visão do mundo. Voltada para o lado mais pobre do mundo. Voltada para os erros da Igreja, que ele nunca escondeu. Ao contrário, procurou consertar.

Não fugiu do escândalo dos padres acusados de crimes sexuais. Enfrentou a mazelas da igreja. E as próprias, desde seu tempo de bispo na ditadura militar argentina, brilhantemente retratadas no belo filme de Fernando Meirelles, Dois Papas. 

Ele se opôs à guerra e não temia os senhores da guerra, os poderosos armados, que combatia com a autoridade de quem leva o Anel do Pescador, e a postura de amor, serenidade e uma certa leveza. Um pouco de saúde, uma presença curativa, restauradora, num mundo envenenado pelo ódio.

Ele olhava para os mais pobres e queria que a Igreja colaborasse com uma economia transnacional participativa, quase uma guerrilha contra o capitalismo digital, voltada para a simplicidade, a produção e a erradicação da miséria pelo mundo. 

Nadava contra a corrente de um capitalismo tecnológico que cada vez mais concentra a riqueza e exclui o ser humano.

Era um papa, sim, humano, que aproximou as pessoas de novo da Igreja, ou a Igreja das pessoas. Falava de futebol, da vida. Era um Papa que sorria. O Papa sabia sorrir.

Essa presença equilibrada, esse bálsamo num mundo belicoso e feroz, onde o estresse vai levando muita gente à loucura, e a violência, a mentira, o absurdo se tornam normais, simplesmente se foi. Como tudo. 

Num mundo de retrocessos, a Igreja com Francisco avançou. Por mim, ele podia ficar como Papa eterno, assim como Jesus. Mas até Jesus é usado hoje para defender interesses e promover o ódio. Jesus.

Fique com Deus, meu caro Bergoglio. Você mostrou que é possível seguir o bom caminho. É triste, porém, que bons Papas morram; hoje, quando duvido de tudo, eu penso: e agora, o que será de nós?


quarta-feira, 16 de abril de 2025

O estrangulador e o jornalismo


Parece um filme sobre um psicopata, mas é sobre jornalismo. E que grande filme. aqueles de final imprevisível, apesar de contar uma história real da década de 1960. E de eu já ter visto um outro filme, há muito tempo, como Tony Curtiss como o “estrangulador”. Não é uma refilmagem. Nem uma reinterpretação. É uma outra história.

Ridley Scott faz blockbusters, como Gladiador II: a fórmula de fim previsível, apesar de bem feita, entretenimento para as grandes audiências. No estrangulador, como produtor, Scott faz cinema profundo, questionador, perturbador, essencial.

O papel da mulher e do Jornalismo se mesclam numa sociedade em que se perdeu o valor da mulher, do trabalho, e do Jornalismo. O estrangulador de Boston conta essa história, como um resgate.

A repórter da seção de estilo de vida de um jornal americano que resolve desvendar uma série de crimes bárbaros em Boston move todas as camadas da sociedade: fala sobre a mulher no trabalho; fala de chefes com preguiça de fazer o seu serviço; fala da polícia e do sistema judiciário; fala sobretudo da sociedade, seus criminosos e seu jeito estranho de lidar com eles.

Para jornalistas, como eu, é um filme arrepiante. Para quem não quer dar as costas para a realidade, que o Jornalismo traz à tona, é um repasto. O papel do jornalismo; o amadurecimento da repórter; a descoberta de como as coisas funcionam, que se confunde com o amadurecimento da própria vida humana: está tudo lá.

Por esta razão, o repórter tem de ser jovem: tem o entusiasmo e sobretudo a ignorância necessários para fazer o seu trabalho. Ele ainda quer saber, ao contrário dos velhos chefes, que já viram de tudo, e querem apenas a segurança do emprego, chegar em casa e tirar os sapatos.

Jovens ainda têm o gosto da busca pela notícia: querem construir seu espaço, fazer algo de seu; rompem regras, restrições; rompem preconceitos, rompem suas limitações. É o que se exige do trabalho de reportagem.

Poucos jornalistas ficam na reportagem para sempre, especialmente na desgastante área criminal. Alguns vão para cargos de chefia, outros se afastam da profissão, ou procuram uma atividade correlata no mundo da comunicação.

Já o repórter é a alma do Jornalismo. É preciso que ele mantenha seu entusiasmo juvenil pelo mundo; precisa da inocência, que o faz querer perguntar sobre tudo, sem saber a quem vai ofender ou ameaçar, seja pessoa, interesse ou autoridade.

A vida se repete, o jornalismo também, cansa e parece que morre, mas cada vez que nele entra um jovem disposto a dar um furo, o Jornalismo renasce.

quinta-feira, 20 de março de 2025

O Brasil passado a limpo

Com A Exploração do Brasil (1700-1800), a narrativa do terceiro século da colonização portuguesa, completo meu mergulho na origem do nosso atraso crônico -- do Brasil e de Portugal também.

Como reportagem histórica, procurei investigar o nosso DNA, onde estão nossos maiores males - e também nossas virtudes. Não foi nada fácil chegar o mais perto possível da realidade da época, nos seus menores detalhes, e ao mesmo tempo o conjunto, a conexão entre os fatos, o movimento da história.

Para escrever A Exploração do Brasil, no início enfrentando todas as dificuldades da pandemia Covid-19, fui a muitos lugares. Andei nas minas subterrâneas de Ouro Preto; fui de Olinda e Recife ao sertão de Pernambuco e Alagoas; aproveitando convite da Livraria da Vila para participar da sua Flip sobre as águas, o Navegar é preciso, subi o Rio Negro a partir de Manaus. Andei na mata amazônica, e nos antigos campos de garimpo no cerrado de Goiás.

Em Lisboa, estive nas ruínas da igreja do Carmo, remanescentes do terremoto que destruiu a cidade no meio do século XVIII, e na Praça do Comércio, marco da reconstrução da Baixa, com dinheiro sobretudo da elite colonial brasileira.

Ao par da reportagem de campo, fiz um extenso trabalho de pesquisa, dada a farta documentação da época. Ainda assim, percebi como, apesar de contados e recontados tantas vezes, episódios como o da Inconfidência Mineira ainda são pouco compreendidos.

A própria natureza de uma conspiração oferece pistas falsas e desentendimentos; isto desenredado, porém, a narrativa envolvendo os "poetas e os endividados", como chamo este capítulo do livro, surge como uma eletrizante novela da história e, ao contrário do que procuram dizer alguns revisionistas, de grande significado.

Como nos livros anteriores, saí dessa experiência fascinado e ao mesmo tempo impressionado sobre o quanto sabemos pouco sobre o passado e nós mesmos. O que não se aprende na escola, sobretudo, é qual a relação desse passado nem tão distante com a realidade de hoje.

O Brasil do século XVIII fecha esta trilogia com a missão cumprida: entender a causa do nosso atraso crônico e ao mesmo tempo oferecer reflexão para o nosso desenvolvimento.

Um presidente americano já disse que os Estados Unidos não têm nenhum defeito que não possa ser resolvido com as suas qualidades. Este também é o nosso caso.

terça-feira, 18 de março de 2025

O livro proibido, em A exploração do Brasil (1700-1800)

"Pode vir", disse a bibliotecária do Museu da Inconfidência, pelo WhatsApp, e eu rodei 700 km de São Paulo a Ouro Preto, e outros 700 km de volta, apenas para ver um livro - isto mesmo, um livro.

Mas que livro! Sua história valeria por si outro livro. O Recueil des Loix des Etats-Unis, compilação das leis dos estados confederados americanos, era proibido na França absolutista, onde foi impresso numa editora clandestina.

​O Livro Proibido, cuja simples posse era crime de traição à Coroa, punível com a morte, veio para o Brasil no bolso de um futuro inconfidente, que conheceu o novo governador Barbacena na viagem de navio e tornou-se preceptor de seu filho. Passava o dia no palácio, onde morava. De noite, conspirava.

O Recueil passou pelas mãos de Tomás Antonio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa - poetas, conspiradores e bacharéis, encarregados de usá-lo como base para escrever uma constituição da República das Minas Gerais e Rio de Janeiro. 

O livro esteve no bolso também de Tiradentes, que o repassava a outros conspiradores. Quando todos foram presos, estava com Amaral Gurgel. Foi juntado ao inquérito, como prova material.

E eu o segurava ali, agora, com luvas de borracha. Queria saber o que estava rabiscado nele à mão, vê-lo, senti-lo: o livro que podia ter mudado por completo a história do Brasil.

Mais uma vez, tudo o que eu achava que sabia sobre a história mudou por completo. Toda a trama da Inconfidência, o contexto e seus detalhes estão em A Exploração do Brasil (1700-1800). Para mim, uma descoberta de quão pouco eu sabia da realidade desse século e sua influência para o Brasil até hoje, simbolizada para mim neste livro que cabe na palma da mão.

Suspeito que os leitores e A Exploração do Brasil, passando pela experiência de estar diante da realidade que se materializa como o livrinho que eu tive o privilégio de ter nas mãos, levarão o mesmo choque eu levei.