sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Dos editores, o maior


Dou uma rara paradinha no livro que estou escrevendo agora para comentar a biografia de #RobertoCivita, do jornalista #CarlosMaranhão, que acaba de ser publicada pela #CompanhiadasLetras - um livro muito importante pela figura que retrata, essencial na história da imprensa brasileira e da História do país numa época chave, que vai do final da ditadura à estabilização democrática. Vou lendo um trecho aqui e ali, fora de ordem, por diversão.

E, claro, comecei pelo pedacinho que me coube, e diz respeito ao que Maranhão chama de "a mais difícil" transição de comando na revista #Veja- um pedaço muito interessante não apenas da história da revista como marco de uma mudança na imprensa, da qual pude participar. E ele usa para isso uma pequena anedota que circulou na empresa naquela ocasião, segundo a qual Roberto Civita escolheu para dirigir a revista "dos Tales o menor" - uma referência a mim, que tenho 1,74, e meu caro amigo Tales Alvarenga, dez centímetros mais baixo.

Maranhão teve diante de si uma tarefa por um lado ingrata. É muito difícil escrever um livro recheado de gente viva, entre as quais estão muitos amigos, incluindo eu. É complicado ser incisivo quando se pode ferir suscetibilidades. Como diz meu querido amigo Fernando Morais, um mestre da reportagem em livro, "escrever é fazer inimigos". Maranhão tem uma qualidade na qual é insuperável: é um verdadeiro lorde, perfeccionista e diplomata, que consegue ir contornando esses perigos sem fugir ao assunto.

É preciso retroceder um pouco no tempo, para entender tudo. Em 1999, eu voltei a trabalhar em Veja, onde já tivera uma passagem de quatro anos, entre 1986 e 1991. Nessa primeira encarnação, eu passei de um eficiente repórter de economia, treinado nas fileiras da então venerável Gazeta Mercantil, a repórter, depois subeditor de economia e por fim editor de Assuntos Nacionais (Brasil) da revista. Comecei em Veja na redação mais brilhante da revista e dal qual já participei, com José Roberto Guzzo, Elio Gaspari, Dorrit Arazim e editores que teriam papel importante, como Mario Sergio Conti, editor de variedades, e Euripedes Alcantara, então editor de geral. Foi para mim uma universidade.

Lá desenvolvi a habilidade de ir mais fundo nas histórias, aperfeiçoar o texto e, conforme a grande máxima do Roberto, "transformar o importante em interessante". Ganhamos muitos prêmios e tive o prazer e o privilégio de, no cargo de editor da seção de política mais influente do país na época, participar da cobertura da primeira eleição democrática para presidente em 30 anos: o fim da ditadura militar.

Nesse período, entre outras coisas, descobri que Roberto pouco ou nada interferia. Em todo o tempo em que fiquei no cargo, ele me chamou uma única vez. Com tantos assuntos importantes, ele pediu para acompanhá-lo numa visita à Câmara dos deputados em São Paulo, solicitada pelos parlamentares, que queriam mais cobertura da revista em assuntos paulistas. Uma embaixada que tiramos de letra. Ele mesmo não fez nada. Apenas pediu que eu (eu!) explicasse a eles como Veja funcionava. Por sorte eu fizera há pouco uma reportagem sobre a política paulista, mesmo sendo Veja nacional. Saiu todo mundo satisfeito - e eu, que sabia como eram perigosos aqueles testes do Roberto, aliviado.

Em 1991, esgotado pelo trabalho, resolvi tirar um ano de férias. Aos 25 anos, eu era muito jovem para tamanha responsabilidade e aquilo pesava. Via meus amigos se divertindo enquanto eu virava madrugadas escrevendo, na crença de que estava mudando o país (bem, estávamos mudando o país). Foi um período missionário, muito duro fisicamente. Eu dormia de madrugada e depois de quatro horas de sono estava tomando um avião para seguir um candidato do outro lado do país. Voltava para fechar minha seção, madrugadas adentro. "Brasil" jamais voltaria a ter tantas páginas em Veja. Eu gostava daquilo, mas era realmente desgastante. E eu já flertava com a ideia de ficar apenas escrevendo livros.

Pedi demissão. O editor executivo Paulo Moreira Leite, com quem eu trabalhava diretamente, chegou a me oferecer a correspondência da revista em Paris, para que eu ficasse. Agradeci, mas disse não. Gostaria de ir a Paris, mas não conseguia mais trabalhar.

Da segunda vez, foi diferente. Depois de voltar do meu período sabático, e descobrir que escrever livro não era tão fácil assim, fui editor senior no Estado de S. Paulo e, a convite de Antonio Machado, editei durante seis anos a revista VIP, então um suplemento de Exame. Era um emprego divertido, em que eu precisava viajar para lugares maravilhosos, comer e beber do melhor. A revista ia muito bem, tanto que foi separada de Exame para se tornar independente. Mas eu passei a me subordinar a outras pessoas e estava um pouco cansado de publicações de estilo de vida. Queria fazer hard news novamente.

Fui pedir emprego a Veja. Podia ter falado com Mario Sergio Conti, que era o diretor de redação, com quem ja havia trabalhado diretamente. Mas preferi procurar Tales. Além do nome, tínhamos outras coisas em comum. Eu trabalhara com ele num período difícil. Guzzo, que cuidava pessoalmente da seção de economia, tinha saído para reformular Exame. Não havia editor de economia, pois Antonio Machado também tinha ido para a revista irmã. Eu, como subeditor, por algum tempo fechei a seção sozinho, com 24 anos de idade. E Tales ficou encarregado por Mario Sergio de supervisionar aquela área.

Na convivência, nos demos muito bem. Uma parte, é verdade, foi por causa do nome - não havia como ele me ignorar. "Se não mudar de nome, muda de comportamento", brincava ele. Guzzo dizia que éramos homônimos homófonos, e que eu tinha um "H" a mais que ele. "Mas é uma letra muda", acrescentava. Tales ria. Era autoconfiante demais para ser ciumento.

Eu o ajudei, com o que sabia de economia, que não era a sua praia, enquanto ele tomava aulas às sextas-feiras com Delfim Netto. E nós nos dávamos bem. Eu gostava dele por algumas boas razões. Não tinha problema algum de dizer que não sabia algo. Era duro, mas justo. Reconhecia o trabalho alheio. E fazia bem o que eu admirava: antes de mais nada, era um fechador.

No jargão do jornalismo, o fechador é aquele sujeito que transforma todo o conteúdo desorganizadamente recebido de repórteres e fotógrafos e o transforma em algo publicável. Tales era, mias que fechador, um grande editor. Quando fui promovido para Brasil, abandonada numa madrugada estafante por Mario Rosa, que eu fechei no lugar dele em regime de emergência, eu o ajudei a formar quadros para me substituir, indicando dois jornalistas que ele passou a tratar com carinho especial, Antenor Nascimento, que veio da Istoé, e Ricardo Galuppo, cujo texto eu apreciava, quando me enviava relatórios da sucursal de Belo Horizonte.

Tales foi conversar com Mario Sergio. Tinha o projeto de escrever reportagens de fundo sobre personagens da economia, e como eu disse que queria ser apenas repórter, sem o ônus da edição, que havia me deixado alquebrado anos antes, achava que eu me encaixaria naquilo. Ou criou aquela função apenas para me ter de volta - não sei. Mario Sergio concordou, mas exigiu que eu, que tinha cargo de editor executivo na empresa, ficasse três meses recebendo como frila, para burlar algo ilegal pela lei trabalhista - ser contratado como repórter, um cargo menor, com um salário menor. Concordei.

Durante um curto período, fui repórter especial de Veja. Porém, certo dia, ao entrar na sala de Mario Sergio, encontrei-o com Tales, ambos de semblante carregado. Ali, Mario me comunicou que estava de saída. E que Roberto cogitava colocar no seu lugar o jornalista Paulo Nogueira, que conhecíamos da própria Veja.

Havia uma resistência muito grande ao nome de Nogueira dentro da redação. No livro, Maranhão diz que outros nomes foram consultados, como Roberto Pompeu de Toledo, mas para Tales, que havia trabalhado com Nogueira na Vejinha São Paulo, onde tinha sido seu chefe, aquela era a grande preocupação.

A reação da redação ao nome de Nogueira foi das piores que se pode imaginar. Paulo Moreira, então redator-chefe, juntou-se ao coro dos descontentes. Os editores execiutivos da revista se opunham. Não posso dizer como foi a conversa com Civita, mas estou certo de que o nome de Nogueira, indicado por Guzzo, não vingou porque toda a cúpula da redação de Veja se declarou praticamente demissionária.

Esse é um dos pontos sobre essa delicada passagem na biografia de Roberto em que Maranhão andou sobre brasas. Ele afirma no livro que a preocupação de Roberto era com a chegada de Época, a revista semanal anunciada pela editora Globo para ser sua principal concorrente. Porém, acredito que Roberto queria também retomar o controle da redação. Mario Sergio, um homem brilhante, era também temperamental. Com ele, talvez Roberto tivesse mais dificuldade de impor suas ideias na revista. E mudá-la, para enfrentar a possível concorrência. Ele precisava de um diretor de redação politicamente mais fraco, intelectualmente menos complicado e capaz de manter a sintonia com a vontade do leitor, mais do que com suas próprias ideias.

Não sei como foi a conversa de Tales e Roberto, mas estou certo de que o bloqueio da redação foi decisivo. Como Tales me confidenciou mais tarde, Roberto concordou em colocá-lo no lugar de Mario Sérgio. Porém, lhe deu um período fixo - três anos - para mostrar resultados. Talvez porque ele mesmo se achava na falta de ideias. Se a "redação" acreditava que podia resolver a coisa sozinha, teria sua oportunidade.

Entrei na sala do Tales para a nossa conversa diária e o encontrei mais preocupado do que nunca.

- Mas você não conseguiu o cargo que queria?

- Sim - disse ele -, mas o problema começa agora: o que fazer?

- Mas qual é dificuldade?

- A dificuldade é que a gente não pode falar mal do Fernando Henrique. E sabemos que revista só cresce fazendo denúncia.

Entendi por aí que aquilo tinha sido parte da conversa de Tales com Roberto: uma condição. Naquela fase, o Brasil entrava num período florescente. O controle da inflação, depois de anos a fio de pesadelo puro, era visto como a salvação nacional. Fernando Henrique tinha sido eleito por conta do plano de estabilização, o Real, e era popular. Todo mundo, inclusive Roberto, o considerava intocável. Ninguém queria desetabilizar o governo num momento em que o país rumava afinal para a tranquilidade.

Foi aí que eu disse a frase que está no livro. Tendo voltado para revista fazia pouco tempo, numa publicação sem política e de muito sucesso, eu tinha uma outra visão sobre o público leitor, que apenas começava a viajar com cartão de crédito internacional e a comprar carros importados. Afirmei a Tales que a política já não era importante. Que tudo ali estava meio resolvido e as pessoas estavam mais interessadas em si mesmas, como se via pelo sucesso dos livros de autoajuda, naquele tempo vendidos aos milhões de exemplares. E sugeri que o crescimento da revista poderia ser por esse caminho.

Passaram-se dois dias. Daquela vez, foi Tales que mandou me chamar, pela secretária.

- Ok, autoajuda - disse ele. - Você deu a ideia, você que vai fazer.

Assim eu, que tinha voltado a Veja apenas para escrever minhas reportagens, acabei assumindo uma editoria que não tinha nome, uma espécie de Geral II, criada por Tales para executar ideias de crescimento da revista. Uma dessas ideias, que era dele mesmo, além de fazer textos mais curtos para aumentar o índice de leitura, era fazer uma cobertura mais ampla do Brasil. Subiu o número de susursais de nove para 13. Não sei se chegou a discutir com Roberto a ideia de fechar a sucursal de Brasília, como está no livro. Para mim, como aconteceu de fato, dizia que queria aumentar.

Abrimos sucursais em cidades como Belém e Fortaleza. Ao mesmo tempo, passei a escrever reportagens sobre qualquer tipo de assunto que achava ser do interesse pessoal do leitor na época. Fizemos uma capa sobre o novo parque africano na Disney. Outra sobre "O caos aéreo", uma confusão nos aeroportos brasileiros. Com minha equipe, escrevi uma reportagem de ciências sobre o cérebro ("O poder da mente") que entrou para a lista das 30 mais vendidas da história da revista - à frente dela estavam apenas reportagens com denúncias de corrupção e desastres aéreos.

Naquela época, quem dirigia a seção de geral em Veja era Laura Capriglione, brilhante jornalista, que fazia um grande trabalho. Foi sob sua batuta que a repórter de Veja, cujo nome Maranhão não menciona no livro, entrou no presídio disfarçada e obteve do chamado Maníaco do Parque a célebre frase: "Fui eu".

É verdade, como diz Maranhão, que demorou a sair a primeira capa sobre Fernando Henrique. Porém, essa não foi bem a primeira capa sobre política na gestão de Tales, como ele afirma. Foi dele mesmo, na habitual reunião de pauta das segundas-feiras, depois de consultar todos os editores, quem mandou fazer uma reportagem sobre Sérgio Naya, deputado federal, dono da construtora cujo prédio acabara de desabar.

Não era assunto da minha área, mas Tales mandou me chamar na sexta-feira e me fez reunir todos os relatórios e escrever a matéria. Na minhas mãos, o que seria apenas a notícia de um acidente virou também uma reportagem política, ou mais: falava sobre o descaso da elite brasileira, representada por um empresário que também era deputado, símbolo de qual era o maior problema nacional. Não tínhamos falado mal de Fernando Henrique, mas achávamos um jeito de alavancar as vendas com escândalos políticos. E defender a classe média consumidora, nosso público leitor.

Aos poucos, meu relacionamento com Tales se desgastou. Eu tinha aceitado um salário menor por menos trabalho e acabava trucidado por uma montanha de tarefas. Reclamei - e ele se aborreceu. Para se livrar de mim, ou me colocar de castigo, fez com que eu ficasse subordinado ao editor-executivo Laurentino Gomes, deixando de responder a ele diretamente. Foi um bom período de convivência com Laurentino, de quem me tornei amigo e admirador. Mas eu não estava satisfeito. Aos poucos, Tales foi tirando as coisas que me dera: as sucursais, que passaram a ser geridas pela jornalista Flavia Varella, e mesmo as seções da revista. E não falou mais de salário.

Talvez até fosse o que eu queria, mas ele me provocava. Numa das reuniões de pauta, diante de todos os editores, Tales, que era conhecido por gostar de causar embaraços aos subordinados na frente dos outros, declarou, na minha vez de dar sugestões de pauta: "Agora vamos ouvir o Guaracy, que veio me dizer o que fazer no meu emprego". Como se ele mesmo não tivesse me perguntado, nme se beneficiado daquilo. Aborrecido, saí para um emprego onde iria ganhar o dobro. Entrei na sala dele e comuniquei minha demissão.

Levou algum tempo para falarmos novamente. Com o tempo o aborrecimento passou e voltamos a conversar. Eu o encontrei num hotel em Campos do Jordão, num seminário de intelectuais para discutir o futuro do Brasil. Jantamos, rimos, contamos velhas histórias. Ele já deixara a direção de Veja, mas mantinha uma coluna na revista, assim como em Exame. Estava mais leve, assim como eu. No ambiente de pressão em que se vivia em Veja, ninguém era normal. Eu entendia isso e o perdoei. E foi muito oportuno, porque eu ficaria muito mal sem tê-lo feito, já que Tales faleceu precocemente logo depois

Com todas as medidas que eu ajudei a implementar, como toda a redação de Veja, Tales conseguiu obter o resultado esperado por Roberto. A revista Época veio, mas não incomodou - Veja cresceu, em vez de perder leitores. Maranhão não conta no livro quem fez a frase de que o escolhido por Roberto para digirir Veja era "dos Tales, o menor". (Eu desconfio). Mas uma coisa eu sei: pelo que Roberto fez, e também pelo que deixou de fazer e permitiu fazer, era, dos editores, o maior.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Antimemória

Raízes primeiras extremas
De onde nem há memória
O passado dos filósofos orientais
A alquimia genética
O encontro de raças
A combinação de histórias
A formação determinista do que somos
Antes mesmo de ser
Resultante do que trazemos sem saber
Escrito na terra
Na mão lavrada dos ancestrais
Nos amores perdidos
Nos sonhos perdidos
Nas vontades primevas
No acaso certeiro
Daqueles que vieram primeiro
Prepararam terreno
Jogaram a semente
Até que de repente
Brotou o que achamos ser
Nosso livre arbítrio
Fihos do vento
Filhos do tempo
Filhos da coincidência
Filhos de gente
Filhos do amor
Tanto o de mentirinha
Quanto do amor verdadeiro
Do amor enganado e desenganado
Do amor roubado
Do amor proibido
Do amor ganho e perdido
Qualquer amor que gerou amor que gerou amor
E moldou o que somos e seremos
E fez me de mim desbravador
Herdeiro de antigas e violentas paixões
De conquistadores da terra
Homens ardentes
Barqueiros ao leme rumo à Guiné
De velhos guerreiros
De homens sem fé
De mães sagradas
E mulheres profanas
De obscuras ciganas
E valquírias aladas
Filho do amor que veio do amor
Um amor que ainda não entendo qual é (...)

(Minha homenagem neste dia às crianças que ainda temos dentro de nós)


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Como se corrompe um país

Muita gente, que escreve na imprensa ou nas redes sociais, afirma que o desastre econômico a que nos levou o PT é o fim da esquerda no Brasil. Não é. A esquerda, no Brasil, ainda nem começou.

No governo, o PT não foi esquerda, entendida como uma corrente política preocupada com menos pobreza e a justiça social. O PT fez um discurso de esquerda para tomar o poder e o tocou com a direita: fez um governo populista, entendido como o modelo demagógico e eleitoreiro de agradar o povo a qualquer preço para se perpetuar no poder e obter vantagens pessoais. O que sempre termina mal.

Nem mesmo o chamado marxismo populista o PT praticou, ou algo que se aproxima do chavismo, o modelo que seus intelectuais tanto admiram. O PT esteve mais para o velho coronelismo clientelista, que dá o vale no lugar do salário, para manter o trabalhador em regime de escravidão.

Toda política assistencialista cria uma rede de privilégios que onera o Estado e não faz promoção social. Pior: cria uma ilusão. Que, como toda ilusão, um dia desilude os iludidos.

Se você tem uma boa rede pública de ensino básico, como há na Europa e alguns lugares dos Estados Unidos, dá oportunidade igual a todos - lá estudam o rico, o pobre, o classe média. Mesma coisa com a saúde. Uma saúde de qualidade desonera a classe média dos caros planos de saúde, que estão todos aí falindo junto com ela hoje no Brasil. Atende o pobre e mesmo ao rico. Isso é dar oportunidade igual, dar ganho de renda e fazer promoção social.

O PT não fez isso. Preferiu distribuir dinheiro, em vez de melhorar o serviço público e promover o ganho real. Criou uma massa de dependentes do governo, de um lado, e de outro uma massa raivosa de quem s´pagou a conta e não viu contrapartida. Gastou nisso a rodo, a ponto de quebrar o caixa federal e levar junto os governos estaduais, que ameaçam declarar calamidade pública - consequência da calamidade financeira.

Quando você dá dinheiro a alguém porque é pescador, ou preto, ou qualquer coisa assim, cria apenas um privilégio. Fica difícil depois retirar esse privilégio. É a ilusão. O ganho de renda que se obtém com o estímulo ao consumo dessa gente é temporário, porque não houve crescimento da riqueza.

Quando vem a crise, na forma de falência do Estado promotor do crescimento, do desemprego e da inflação, todos perdem. Perdem tanto quanto ganharam artificalmente no passado. E perdem todos: o empresário, a classe média, e sobretudo o mais pobre.

Estamos nesse ponto. O fim da ilusão. E do desespero daqueles que não querem ver estourar sua bolha de sabão, junto com a raiva de quem pagou a conta do sonho de verão.

Toda a lógica da promoção social do PT está equivocada e seguir nisso, ou voltar a isso, é prosseguir no caminho de um desastre que já se mostra de enormes proporções, independentemente de ter sido acompanhado de enorme roubalheira. Não importa neste momento quem vai fazer esse trabalho, se o Temer ou o próprio demônio. Mas tem que ser feito, urgente, ainda que contra toda a turbulência dos apaniguados que o PT fidelizou com o dinheiro, da mesma forma que fez com o Congresso no mensalão. Assim o partido corrompeu mais que o Legislativo. Corrompeu o país.

domingo, 11 de setembro de 2016

O que você faria se soubesse que tem pouco tempo?

O que você faria se soubesse que tem pouco tempo?

Em 2003, depois de um período de trabalho que faria de qualquer um a pior pessoa do mundo, eu estava sentado diante da mesa do urologista Eric Wroclavski, que anunciou assim a descoberta casual de um tumor na minha bexiga, com um sorriso no rosto:

- Você teve sorte.

Sorte? Eu, com 36 anos, tinha um tumor. Sorte?

- Teve sorte, porque descbriu por acaso um tumor a tempo de poder se curar - disse ele.

Tumores são assintomáticos, daí que muita gente os descobre quando é tarde demais. Tempo é essencial. Eric marcou a operação para dali alguns dias, apesar de sua agenda estar cheia. "Não vou deixar ele com esse pólipozinho aí", disse a um assistente. Fui operado, fiz o tratamento, duro, e cinco anos de acompanhamento. Foi o mesmo Eric que me deu a notícia da cura. E recomendou que eu ficasse sempre de olho. Para não depender da sorte.

O que eu não sabia é que, na mesma época, Eric tinha descoberto que ele mesmo tinha um tumor. Na próstata. O mal que ele operava. Só que ele, Eric, o tinha descoberto tarde demais. Eric não contou a ninguém. Não contou à família: a mulher, também médica, e os filhos, médicos. Nem mesmo os médicos que trabalhavam em sua equipe sabiam. Conversava com colegas sobre seu caso nos Estados Unidos. E, sendo médico, se automedicava.

Tínhamos, em nossas consultas, longas conversas sobre a  doenaç e a vida. Ele dizia admirar o meu humor - um tanto ácido, é verdade - quando eu falava das fatalidades prosaicas da existência. Eu admirava sua vontade de trabalho. Eric era incansável. Perdi a conta de consultas das quais saí às duas horas da manhã, depois de esperar minha vez, sem reclamar, horas a fio.

Eu o respeitava, porque era um missionário. Atendia o maior número de pacientes que podia, incansavelmente. Horas depois, às seis da manhã, estava já no Einstein, fazendo cirurgia. Parecia numa jornada insana para salvar o maior número de pessoas que pudesse - dar a elas a chance que não tivera para si. Frequentemente tinha os olhos vermelhos: praticamente não dormia. E engordava a olhos vistos. Eu não sabia, mas era por conta dos remédios, com os quais procurava atrasar o progresso inevitável da doença.

Eric me fez viver, e estava morrendo. E só ele sabia disso. Quando um dia não aguentou mais as dores, e entrou no Einstein, dessa vez não como médico, mas para se internar, fiquei estarrecido. Todas as nossas conversas de repente mudaram de sentido. A começar pela frase: "Você teve sorte". Sim, entendi que tivera sorte, a sorte que lhe faltara.

Percebi que as muitas perguntas que ele me fazia não eram somente por minha causa, para saber como eu lidara com a doença. Eram perguntas do interesse dele mesmo, Eric.

Escrevi um romance em que coloquei a história do tratamento ficcionalmente. Em Campo de Estrelas, Eric aparece com o nome de Roger (na verdade, seu nome do meio). Fui visitá-lo no hospital e levei o livro. Eric estava na cama. De ótimo humor. Dali, ele despachava assuntos da associação dos urologistas, que presidia. Mesmo da cama, comandava tudo: seu tratamento, os enfermeiros, seu consultório.

Li para Eric, ao lado da cama, os trechos do romance em que ele aparecia. Primeiro ele fez uma queixa: "Por que você não colocou meu nome de verdade?". (Mais tarde, eu saberia que esse romance já foi muito lido para pacientes internados em hospitais). E eu também fiz uma queixa.

- Por quê você não me contou que estava doente?

Ele disse então que tinha descoberto a doença tarde demais e não queria viver sob o seu signo: os outros olhando para ele como doente. Queria ter uma vida normal, o mais que pudesse. Perguntei também por que ele, sabendo que tinha pouco tempo, trabalhava tanto, e não tinha usado seu dinheiro para viajar, ficar mais com a família ou fazer outra coisa qualquer. Ele me respondeu com uma pergunta.

- Se você soubesse que tem pouco tempo de vida, faria o quê?

Não precisei pensar muito.

- Acho que continuaria escrevendo. O mais que pudesse.

Ele falou, mas eu já sabia o que iria dizer.

- Então. Fiz o máximo o que sempre quis fazer.

Fui embora pesaroso. Foi a última vez em que o vi. Ao me despedir, eu o agradeci. E disse, apontando o livro, com um pouco de raiva:

- Vocês médicos não sabem nada. Eu sou o único que dá a vida eterna.

Eric morreu em 2009 e sua presença ainda não está só nos livros, mas em todas as pessoas que ajudou, seus familiares, amigos e em mim, que ainda estou por aqui. Com frequência penso nele e confiro se estou usando bem o tempo que me resta. É doloroso perder um grande homem e, posso dizer, um inesperado amigo. Acho que devo ainda escrever uma continuação de Campo de Estrelas e contar o resto da história. Afinal, é o que eu faço e farei, como ele, até não poder mais.

E você?  O que você faria se soubesse que tem pouco tempo?

sábado, 3 de setembro de 2016

Um processo capenga deixa Temer sobre brasas

A decisão de não tirar os direitos políticos de Dilma Rousseff, tomada pelo Senado e referendada pelo ministro do STF Ricardo Lewansdowski, foi um daqueles movimentos que nos fazem duvidar da sorte do Brasil como Nação. Se o Senado aprovou o impeachment, Dilma não podia sair sem a pena correspondente. Tirar a pena, conforme a Constituição, é negar o próprio reconhecimento dos seus crimes por "responsabilidade".

É possível entender que os senadores tenham legislado em causa própria, sob a orquestração do presidente da casa, Renan Calheiros, ele próprio na fila da frente do banco do réus. Como a maioria deles está na mira da lei, criar esse precedente faz supor que, mesmo interditados, poderão reclamar igual direito de continuar concorrendo a cargos públicos. O que não se entende é como o ministro Lewansdowski, que não é senador, e estava lá como representante do STF, pode ter chancelado uma gambierra política desse quilate.

Segundo jornalistas têm publicado, após conversar com gente próxima a outros ministros do STF, a participação de Lewansdowski no processo de impeachment onstrangeu o tribunal. Claro que nenhum ministro do STF falará abertamente sobre isso. Mas ninguém pode e dever estar satisfeito. A decisão do Senado, na sessão presidida pelo representante do STF, mancha todo o processo do impeachment, colocando-o mesmo em xeque. O que era um processo constitucional acaba, mesmo, com cara de farsa.

Isso terá sérias consequências para o governo que fica. A bordo de um partido abalroado pelas mesmas denúncias de corrupção que emborcaram o PT, e a cavaleiro de um processo que acabou saindo capenga, Michel Temer depende de uma única coisa para ficar no cargo: sucesso na economia. Se conseguir debelar a crise, ainda será tolerado. Caso a crise se aprofunde, ele e o PMDB irão se arrepender amargamente de ter tomado o governo de Dilma. Ficarão com todo o ônus do ajuste, e do fracasso, sem, em qualquer hipótese, conseguir livrar-se da Justiça.

Para o PT, nada poderia ser melhor do que o afastamento de Dilma. Agora, o partido está no papel onde sempre viveu tão à vontade: o de pedra na vidraça. Um fracasso de Temer recolocará o PT, com Lula ou qualquer outro, em boas condições de disputar as próximas eleições. E o abacaxi que Dilma deixou na economia já não será seu problema.

A situação de Temer tem semelhanças e diferenças com a de Itamar, quando sucedeu a Fernando Collor. Itamar também tinha de debelar uma enorme crise econômica. Errou várias vezes e levou tempo, até convidar Fernando Henrique, que não queria ir para o ministério de jeito nenhum - foi, sim, mas praticamente numa camisa de força. Conseguiu estabilizar a economia, com o Plano Real, e acabou presidente.

Essa é a semelhança: se Temer resolver a crise, o que não é fácil, pois terá de fazer uma profunda mudança no modelo criado pelo PT em 12 anos, incluindo uma maciça reforma do Estado que deve levar temporariamente a mais recessão, saíra com grande força no final do processo e Henrique Meirelles poderá ser o próximo presidente do Brasil.

A diferença é que Itamar, como vice, tinha se mantido longe do poder. Collor era tão autocrático que ninguém achava que Itamar tinha algo a ver com seus desmandos. Não pesavam sobre ele as acusações e desconfianças que hoje sobram para Temer e o seu entorno. Collor era de um partido de ocasião, o PRN, que, despojado do poder, desapareceu. Dilma é diferente. O PT é um partido que, embora pequeno e pouco representativo das forças políticas nacionais, na oposição é uma organização barulhenta e impertinente, treinada para causar transtornos e, como a TFP, dar a impressão de ser maior do que é.

Incomoda, sobretudo num período de crise, em que é preciso união e tranquilidade para sair da dificuldade. O PT claramente está agitando suas bandeiras para transformar a gestão Temer no período mais turbulento que puder. E se possível em confronto com a polícia, para piorar o quadro de instabilidade.

Outra diferença em relação a Itamar é que Collor renunciou, justamente para não ficar oito anos inelegível, e não havia qualquer questionamento sobre a legitimidade do processo. Essa foi a contribuição ruinosa de Lewansdowski e dos senadores. Mais que nunca, eles deixam a impressão de que o Brasil é governado na base de conluios, negociatas espúrias, na quais o próprio STF se envolve, em vez de pairar com a devida isenção da magistratura.

É um fator terrível de desestabilização que o próprio sistema se mostre suscetível a interesses políticos e pessoais, mais do que ao interesse da Nação.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Dilma e Collor: o que leva ao impeachment de um presidente

Desde que a democracia foi plenamente reinstaurada no Brasil, em 1991, com a eleição para presidente de Fernando Collor, já temos dois presidentes que sofreram o processo de impeachment: o próprio Collor, que renunciou antes do impedimento, para não perder seus direitos políticos, e agora Dilma Rousseff. Muita coisa para uma jovem democracia? Há algo de errado com as instituições?

O discurso de defesa de Dilma no Senado, dentro do processo que ela resolveu levar às últimas consequências, mesmo sabedo do resultado, mostrou o que há de comum entre ela e Collor, capaz de levar um presidente ao impeachment. No seu arrazoado, Dilma jogou a conta pela crise brasileira no quadro internacional - que não mudou desde o tempo em que ela e seu partido gabavam-se de não interferir no país. 

Na sua própria conta, e do PT, nada. Para ela, a corrupção que assolou sua gestão é uma distante paisagem. A administração ruinosa que acabou com os ganhos alardeados por seu partido, também. Em vez de um mea culpa, ou um plano qualquer, desfilou os dois atributos que marcaram sua gestão: a arrogância e o divórcio com a realidade.

Foi o mesmo que aconteceu com Collor. Propelido à presidência num grande movimento cívico, num país inebriado com a volta à democracia, Collor entrou no governo a cavaleiro de um imenso apoio popular. A sensação de era de que podia fazer qualquer coisa. E Collor fez: sequestrou o dinheiro dos cidadãos, em nome de debelar a inflação galopante, herdada de José Sarney. Mais, deixou rolar a corrupção, em negociatas nas quais aparecia somente um velho testa de ferro, Paulo César Farias, que já lhe prestara o mesmo serviço nos seus tempos de governador, em Alagoas.

O delírio do poder, que dá a impressão a um presidente de que pode fazer tudo, sempre leva ao desastre. Assim como Dilma, Collor jamais foi ao Congresso pedir apoio para seus projetos. Canetava decretos como um imperador. Quando a crise econômica sobreveio, graças à ruinosa gestão da economia, os podres do de seu governo vieram à tona. Ambos os fatores, a crise econômica e a corrupção, que não andam juntas por acaso, se uniram para o Congresso, com enorme apoio popular nas ruas, defenestrá-lo.

O mesmo aconteceu com Dilma. O apoio popular obtido com o modelo demagógico do PT deu, primeiro a Lula, e depois à própria Dilma, a falsa ideia de que podiam fazer o que quisessem, até as raias do absurdo. As estatais foram espoliadas. Na sua sanha de "distribuir renda", levaram muito além da conta sua política populista de dar dinheiro aos mais pobres, sem pensar no crescimento exponencial da dívida pública, que levou o Estado praticamente à falência, E ainda estenderam suas benessses a governos ideologicamente alinhados - como a Bolívia e a Venezuela.

Ao transformar o Estado no motor do crescimento da economia, e quebrar o motor, Dilma subiu ao cadafalso. É extraordinário verificar que a primeira vez em que entrou no Congresso em seis anos foi para o julgamento do impeachment. Mostrou que não conhecia os limites de um presidente: seu discurso imperial, onde não há espaço para encarar os próprios erros e a realidade, foi coerente somente com a arrogância de um partido para o qual os fins justificam os meios, e, se a lei se interpuser no caminho, errada está a lei - "é golpe".

O problema não são as instituições, ou a democracia brasileira, ou a Justiça. São essas instituições que vem garantindo ao Brasil conter os delírios de poder daqueles que, eleitos pelo povo, em nome dele procuram exercer um poder que não possuem. Pois mesmo um presidente eleito legitimamente pelo povo tem limites. Um deles, o que estabelece a necessidade de diálogo com o Parlamento, controlador da outra casa, assim como o Judiciário.

O Brasil não está assistindo a um "golpe", o bordão que Dilma cansa de repetir, para desautorizar o processo que a tira de seu trono imaginário. O Brasil está, isto sim, se protegendo de um golpe de Estado, em que um partido e seus representantes, a começar de Lula, podem tudo - de desviar dinheiro público em proveito próprio  a impôr qualquer política sem passar pelo Congresso ou mesmo contra a lei. As instituições estão, portanto, em funcionamento.

Michel Temer e o PMDB, que assumem o governo com a saída de Dilma, têm uma diferença em relação ao PT e por isso são mais tolerados. Estão enrolados tanto quanto o Lula e o PT nas falcatruas que colaboraram para levar o país à bancarrota. Porém, mostram que estão um pouco mais perto da realidade: reconhecem a necessidade de fazer um ajsute, para estancar a inflação e o desemprego galopantes. Entre um governante corrompido e alienado no poder e outro apenas corrompido, a segunda opção parece mais aceitável, sobretudo por ser provisória.

O delírio do poder sempre acaba entrando em conflito com a realidade. E a realidade sempre vence. Os membros do PT, que há muito já enfrentam problemas com a Justiça, seguem no caminho da punição pelos termos da lei, o seu choque de realidade. Lula, já indiciado, está no mesmo caminho. Eduardo Cunha também.

O Brasil, com sua democracia, se mostra capaz de regular desmandos. Conta com o movimento nas ruas, que já expressou de sobejo seu repúdio a Dilma, com a Justiça e o Congresso, mesmo contaminado pela farta distribuição de dinheiro com o qual o PT procurou comprar sua boa vontade ao longo dos últimos doze anos. Espera que o povo brasileiro continue a fazer sua parte, depois de mais um banho de realidade que toma ele próprio, ao confirmar que não adianta acreditar em mágicas políticas - a conta acaba chegando, e desta vez será muito alta.








segunda-feira, 22 de agosto de 2016

O saldo da festa é a saudade do futuro

Como o palhaço de circo, o Brasil lava a cara depois do espetáculo

Medalhista olímpico, Stefan Henze, de 35 anos, técnico de canoagem na delegação alemã, morreu durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro dentro de um táxi que bateu em um poste. O taxista fugiu e, uma semana depois, ainda continua desaparecido. Culpa do Rio de Janeiro? Mero acidente? Destino?

Não importa. A Olimpíada brasileira teve uma porção de notas desagradáveis: o superfaturamento das obras, a não concretização de várias metas olímpicas, em especial o saneamento da água, que breve voltará a ficar como antes, a finalização das obras de infra-estrutura, a mudança no quadro da segurança pública.

Para complicar, o país se encontra na mais grave crise econômica desde os idos da falida dittadura militar, o que transmitiu ao mundo a imagem de um país na miséria, gastando o dinheiro que não tem para receber os ricos na sua casa.

Porém, não importa. O espetáculo foi bonito: nas festas de abertura e encerramento, nos momentos esportivos que passaram para a história. O fulgurante fim de carreira de dois dos maiores, se não os maiores, astros do esporte olímpico, recordistas em desempenho e em premiações: Michael Phelps e Usain Bolt. O brilho de uma estrela da ginástica,com quatro medalhas de ouro: Simone Biles. O primeiro ouro olímpico do futebol brasileiro, levantado do descrédito da própria Nação. E o esforço individual de tanta gente com histórias cativantes e inspiradoras, na maior confraternização entre Nações da Terra.

O saldo da festa não é a saudade destas duas semanas, e sim a saudade do futuro: aquilo que poderíamos ser e realizar, se tivéssemos feito as coisas direito, mas não seremos ou fafemos. Não nas Olimpíadas, e sim neste país. Está provado que o brasileiro é capaz de grandes realizações, mas só apresenta sua melhor face quando exposto aos olhos do mundo, para agradar o estrangeiro, mostrar uma cara que não tem. Com a saída dos visitantes, voltamos a ser apenas nós mesmos, como o palhaço que lava a cara depois do espetáculo.

Dentro de casa, olhando no espelho, o Brasil é aquele outro, o do motorista que foge do acidente de trânsito, do dirigente que superfatura a obra, do torcedor que vaia o adversário na entrega de medalha, como aconteceu com o francês Lavillanie, prata no salto com vara.

Um país que não vai adiante, atolado na corrupção cotidiana, cujos tentáculos formam uma malha paralisante, que perpetua a roubalheira, a inércia e a desesperança, inutilizando o trabalho de todos aqueles que procuram fazer algo construtivo.

Sim, o Brasil é bom  de festa, com o samba, suas mulatas, a simpatia esquizofrênica de seu povo, que é tão fácil com o visitante, tão duro consigo mesmo, e tão leniente com nossos descalabros. O Brasil é bom de festa e ruim de vida, que começa dura novamente, nesta segunda-feira de cinzas.