A decisão de não tirar os direitos políticos de Dilma Rousseff, tomada pelo Senado e referendada pelo ministro do STF Ricardo Lewansdowski, foi um daqueles movimentos que nos fazem duvidar da sorte do Brasil como Nação. Se o Senado aprovou o impeachment, Dilma não podia sair sem a pena correspondente. Tirar a pena, conforme a Constituição, é negar o próprio reconhecimento dos seus crimes por "responsabilidade".
É possível entender que os senadores tenham legislado em causa própria, sob a orquestração do presidente da casa, Renan Calheiros, ele próprio na fila da frente do banco do réus. Como a maioria deles está na mira da lei, criar esse precedente faz supor que, mesmo interditados, poderão reclamar igual direito de continuar concorrendo a cargos públicos. O que não se entende é como o ministro Lewansdowski, que não é senador, e estava lá como representante do STF, pode ter chancelado uma gambierra política desse quilate.
Segundo jornalistas têm publicado, após conversar com gente próxima a outros ministros do STF, a participação de Lewansdowski no processo de impeachment onstrangeu o tribunal. Claro que nenhum ministro do STF falará abertamente sobre isso. Mas ninguém pode e dever estar satisfeito. A decisão do Senado, na sessão presidida pelo representante do STF, mancha todo o processo do impeachment, colocando-o mesmo em xeque. O que era um processo constitucional acaba, mesmo, com cara de farsa.
Isso terá sérias consequências para o governo que fica. A bordo de um partido abalroado pelas mesmas denúncias de corrupção que emborcaram o PT, e a cavaleiro de um processo que acabou saindo capenga, Michel Temer depende de uma única coisa para ficar no cargo: sucesso na economia. Se conseguir debelar a crise, ainda será tolerado. Caso a crise se aprofunde, ele e o PMDB irão se arrepender amargamente de ter tomado o governo de Dilma. Ficarão com todo o ônus do ajuste, e do fracasso, sem, em qualquer hipótese, conseguir livrar-se da Justiça.
Para o PT, nada poderia ser melhor do que o afastamento de Dilma. Agora, o partido está no papel onde sempre viveu tão à vontade: o de pedra na vidraça. Um fracasso de Temer recolocará o PT, com Lula ou qualquer outro, em boas condições de disputar as próximas eleições. E o abacaxi que Dilma deixou na economia já não será seu problema.
A situação de Temer tem semelhanças e diferenças com a de Itamar, quando sucedeu a Fernando Collor. Itamar também tinha de debelar uma enorme crise econômica. Errou várias vezes e levou tempo, até convidar Fernando Henrique, que não queria ir para o ministério de jeito nenhum - foi, sim, mas praticamente numa camisa de força. Conseguiu estabilizar a economia, com o Plano Real, e acabou presidente.
Essa é a semelhança: se Temer resolver a crise, o que não é fácil, pois terá de fazer uma profunda mudança no modelo criado pelo PT em 12 anos, incluindo uma maciça reforma do Estado que deve levar temporariamente a mais recessão, saíra com grande força no final do processo e Henrique Meirelles poderá ser o próximo presidente do Brasil.
A diferença é que Itamar, como vice, tinha se mantido longe do poder. Collor era tão autocrático que ninguém achava que Itamar tinha algo a ver com seus desmandos. Não pesavam sobre ele as acusações e desconfianças que hoje sobram para Temer e o seu entorno. Collor era de um partido de ocasião, o PRN, que, despojado do poder, desapareceu. Dilma é diferente. O PT é um partido que, embora pequeno e pouco representativo das forças políticas nacionais, na oposição é uma organização barulhenta e impertinente, treinada para causar transtornos e, como a TFP, dar a impressão de ser maior do que é.
Incomoda, sobretudo num período de crise, em que é preciso união e tranquilidade para sair da dificuldade. O PT claramente está agitando suas bandeiras para transformar a gestão Temer no período mais turbulento que puder. E se possível em confronto com a polícia, para piorar o quadro de instabilidade.
Outra diferença em relação a Itamar é que Collor renunciou, justamente para não ficar oito anos inelegível, e não havia qualquer questionamento sobre a legitimidade do processo. Essa foi a contribuição ruinosa de Lewansdowski e dos senadores. Mais que nunca, eles deixam a impressão de que o Brasil é governado na base de conluios, negociatas espúrias, na quais o próprio STF se envolve, em vez de pairar com a devida isenção da magistratura.
É um fator terrível de desestabilização que o próprio sistema se mostre suscetível a interesses políticos e pessoais, mais do que ao interesse da Nação.
sábado, 3 de setembro de 2016
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Dilma e Collor: o que leva ao impeachment de um presidente
Desde que a democracia foi plenamente reinstaurada no Brasil, em 1991, com a eleição para presidente de Fernando Collor, já temos dois presidentes que sofreram o processo de impeachment: o próprio Collor, que renunciou antes do impedimento, para não perder seus direitos políticos, e agora Dilma Rousseff. Muita coisa para uma jovem democracia? Há algo de errado com as instituições?
O discurso de defesa de Dilma no Senado, dentro do processo que ela resolveu levar às últimas consequências, mesmo sabedo do resultado, mostrou o que há de comum entre ela e Collor, capaz de levar um presidente ao impeachment. No seu arrazoado, Dilma jogou a conta pela crise brasileira no quadro internacional - que não mudou desde o tempo em que ela e seu partido gabavam-se de não interferir no país.
Na sua própria conta, e do PT, nada. Para ela, a corrupção que assolou sua gestão é uma distante paisagem. A administração ruinosa que acabou com os ganhos alardeados por seu partido, também. Em vez de um mea culpa, ou um plano qualquer, desfilou os dois atributos que marcaram sua gestão: a arrogância e o divórcio com a realidade.
Foi o mesmo que aconteceu com Collor. Propelido à presidência num grande movimento cívico, num país inebriado com a volta à democracia, Collor entrou no governo a cavaleiro de um imenso apoio popular. A sensação de era de que podia fazer qualquer coisa. E Collor fez: sequestrou o dinheiro dos cidadãos, em nome de debelar a inflação galopante, herdada de José Sarney. Mais, deixou rolar a corrupção, em negociatas nas quais aparecia somente um velho testa de ferro, Paulo César Farias, que já lhe prestara o mesmo serviço nos seus tempos de governador, em Alagoas.
O delírio do poder, que dá a impressão a um presidente de que pode fazer tudo, sempre leva ao desastre. Assim como Dilma, Collor jamais foi ao Congresso pedir apoio para seus projetos. Canetava decretos como um imperador. Quando a crise econômica sobreveio, graças à ruinosa gestão da economia, os podres do de seu governo vieram à tona. Ambos os fatores, a crise econômica e a corrupção, que não andam juntas por acaso, se uniram para o Congresso, com enorme apoio popular nas ruas, defenestrá-lo.
O mesmo aconteceu com Dilma. O apoio popular obtido com o modelo demagógico do PT deu, primeiro a Lula, e depois à própria Dilma, a falsa ideia de que podiam fazer o que quisessem, até as raias do absurdo. As estatais foram espoliadas. Na sua sanha de "distribuir renda", levaram muito além da conta sua política populista de dar dinheiro aos mais pobres, sem pensar no crescimento exponencial da dívida pública, que levou o Estado praticamente à falência, E ainda estenderam suas benessses a governos ideologicamente alinhados - como a Bolívia e a Venezuela.
Ao transformar o Estado no motor do crescimento da economia, e quebrar o motor, Dilma subiu ao cadafalso. É extraordinário verificar que a primeira vez em que entrou no Congresso em seis anos foi para o julgamento do impeachment. Mostrou que não conhecia os limites de um presidente: seu discurso imperial, onde não há espaço para encarar os próprios erros e a realidade, foi coerente somente com a arrogância de um partido para o qual os fins justificam os meios, e, se a lei se interpuser no caminho, errada está a lei - "é golpe".
O problema não são as instituições, ou a democracia brasileira, ou a Justiça. São essas instituições que vem garantindo ao Brasil conter os delírios de poder daqueles que, eleitos pelo povo, em nome dele procuram exercer um poder que não possuem. Pois mesmo um presidente eleito legitimamente pelo povo tem limites. Um deles, o que estabelece a necessidade de diálogo com o Parlamento, controlador da outra casa, assim como o Judiciário.
O Brasil não está assistindo a um "golpe", o bordão que Dilma cansa de repetir, para desautorizar o processo que a tira de seu trono imaginário. O Brasil está, isto sim, se protegendo de um golpe de Estado, em que um partido e seus representantes, a começar de Lula, podem tudo - de desviar dinheiro público em proveito próprio a impôr qualquer política sem passar pelo Congresso ou mesmo contra a lei. As instituições estão, portanto, em funcionamento.
Michel Temer e o PMDB, que assumem o governo com a saída de Dilma, têm uma diferença em relação ao PT e por isso são mais tolerados. Estão enrolados tanto quanto o Lula e o PT nas falcatruas que colaboraram para levar o país à bancarrota. Porém, mostram que estão um pouco mais perto da realidade: reconhecem a necessidade de fazer um ajsute, para estancar a inflação e o desemprego galopantes. Entre um governante corrompido e alienado no poder e outro apenas corrompido, a segunda opção parece mais aceitável, sobretudo por ser provisória.
O delírio do poder sempre acaba entrando em conflito com a realidade. E a realidade sempre vence. Os membros do PT, que há muito já enfrentam problemas com a Justiça, seguem no caminho da punição pelos termos da lei, o seu choque de realidade. Lula, já indiciado, está no mesmo caminho. Eduardo Cunha também.
O Brasil, com sua democracia, se mostra capaz de regular desmandos. Conta com o movimento nas ruas, que já expressou de sobejo seu repúdio a Dilma, com a Justiça e o Congresso, mesmo contaminado pela farta distribuição de dinheiro com o qual o PT procurou comprar sua boa vontade ao longo dos últimos doze anos. Espera que o povo brasileiro continue a fazer sua parte, depois de mais um banho de realidade que toma ele próprio, ao confirmar que não adianta acreditar em mágicas políticas - a conta acaba chegando, e desta vez será muito alta.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
O saldo da festa é a saudade do futuro
Como o palhaço de circo, o Brasil lava a cara depois do espetáculo
Medalhista olímpico, Stefan Henze, de 35 anos, técnico de canoagem na delegação alemã, morreu durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro dentro de um táxi que bateu em um poste. O taxista fugiu e, uma semana depois, ainda continua desaparecido. Culpa do Rio de Janeiro? Mero acidente? Destino?
Não importa. A Olimpíada brasileira teve uma porção de notas desagradáveis: o superfaturamento das obras, a não concretização de várias metas olímpicas, em especial o saneamento da água, que breve voltará a ficar como antes, a finalização das obras de infra-estrutura, a mudança no quadro da segurança pública.
Para complicar, o país se encontra na mais grave crise econômica desde os idos da falida dittadura militar, o que transmitiu ao mundo a imagem de um país na miséria, gastando o dinheiro que não tem para receber os ricos na sua casa.
Porém, não importa. O espetáculo foi bonito: nas festas de abertura e encerramento, nos momentos esportivos que passaram para a história. O fulgurante fim de carreira de dois dos maiores, se não os maiores, astros do esporte olímpico, recordistas em desempenho e em premiações: Michael Phelps e Usain Bolt. O brilho de uma estrela da ginástica,com quatro medalhas de ouro: Simone Biles. O primeiro ouro olímpico do futebol brasileiro, levantado do descrédito da própria Nação. E o esforço individual de tanta gente com histórias cativantes e inspiradoras, na maior confraternização entre Nações da Terra.
O saldo da festa não é a saudade destas duas semanas, e sim a saudade do futuro: aquilo que poderíamos ser e realizar, se tivéssemos feito as coisas direito, mas não seremos ou fafemos. Não nas Olimpíadas, e sim neste país. Está provado que o brasileiro é capaz de grandes realizações, mas só apresenta sua melhor face quando exposto aos olhos do mundo, para agradar o estrangeiro, mostrar uma cara que não tem. Com a saída dos visitantes, voltamos a ser apenas nós mesmos, como o palhaço que lava a cara depois do espetáculo.
Dentro de casa, olhando no espelho, o Brasil é aquele outro, o do motorista que foge do acidente de trânsito, do dirigente que superfatura a obra, do torcedor que vaia o adversário na entrega de medalha, como aconteceu com o francês Lavillanie, prata no salto com vara.
Um país que não vai adiante, atolado na corrupção cotidiana, cujos tentáculos formam uma malha paralisante, que perpetua a roubalheira, a inércia e a desesperança, inutilizando o trabalho de todos aqueles que procuram fazer algo construtivo.
Sim, o Brasil é bom de festa, com o samba, suas mulatas, a simpatia esquizofrênica de seu povo, que é tão fácil com o visitante, tão duro consigo mesmo, e tão leniente com nossos descalabros. O Brasil é bom de festa e ruim de vida, que começa dura novamente, nesta segunda-feira de cinzas.
Medalhista olímpico, Stefan Henze, de 35 anos, técnico de canoagem na delegação alemã, morreu durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro dentro de um táxi que bateu em um poste. O taxista fugiu e, uma semana depois, ainda continua desaparecido. Culpa do Rio de Janeiro? Mero acidente? Destino?
Não importa. A Olimpíada brasileira teve uma porção de notas desagradáveis: o superfaturamento das obras, a não concretização de várias metas olímpicas, em especial o saneamento da água, que breve voltará a ficar como antes, a finalização das obras de infra-estrutura, a mudança no quadro da segurança pública.
Para complicar, o país se encontra na mais grave crise econômica desde os idos da falida dittadura militar, o que transmitiu ao mundo a imagem de um país na miséria, gastando o dinheiro que não tem para receber os ricos na sua casa.
Porém, não importa. O espetáculo foi bonito: nas festas de abertura e encerramento, nos momentos esportivos que passaram para a história. O fulgurante fim de carreira de dois dos maiores, se não os maiores, astros do esporte olímpico, recordistas em desempenho e em premiações: Michael Phelps e Usain Bolt. O brilho de uma estrela da ginástica,com quatro medalhas de ouro: Simone Biles. O primeiro ouro olímpico do futebol brasileiro, levantado do descrédito da própria Nação. E o esforço individual de tanta gente com histórias cativantes e inspiradoras, na maior confraternização entre Nações da Terra.
O saldo da festa não é a saudade destas duas semanas, e sim a saudade do futuro: aquilo que poderíamos ser e realizar, se tivéssemos feito as coisas direito, mas não seremos ou fafemos. Não nas Olimpíadas, e sim neste país. Está provado que o brasileiro é capaz de grandes realizações, mas só apresenta sua melhor face quando exposto aos olhos do mundo, para agradar o estrangeiro, mostrar uma cara que não tem. Com a saída dos visitantes, voltamos a ser apenas nós mesmos, como o palhaço que lava a cara depois do espetáculo.
Dentro de casa, olhando no espelho, o Brasil é aquele outro, o do motorista que foge do acidente de trânsito, do dirigente que superfatura a obra, do torcedor que vaia o adversário na entrega de medalha, como aconteceu com o francês Lavillanie, prata no salto com vara.
Um país que não vai adiante, atolado na corrupção cotidiana, cujos tentáculos formam uma malha paralisante, que perpetua a roubalheira, a inércia e a desesperança, inutilizando o trabalho de todos aqueles que procuram fazer algo construtivo.
Sim, o Brasil é bom de festa, com o samba, suas mulatas, a simpatia esquizofrênica de seu povo, que é tão fácil com o visitante, tão duro consigo mesmo, e tão leniente com nossos descalabros. O Brasil é bom de festa e ruim de vida, que começa dura novamente, nesta segunda-feira de cinzas.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
A olimpíada dos selvagens
Em A Conquista do Brasil, está contada uma história nada edificante sobre a origem dos brasileiros. Ali se mostra, por exemplo, como os tupinambás fundavam sua sociedade na rivalidade entre as tribos, faziam da guerra um sistema de vida e cultivavam a raiva vingativa até as raias do absurdo. Desde pequenos, os curumins eram ensinados a ter raiva do "inimigo" e a não perdoar ou poupar ninguém. Para demonstrar seus estado de espírito em relação a qualquer oponente, matavam a dentadas os piolhos que catavam na cabeça.
Com o passar dos séculos, e não foram tantos assim, ocultamos ou esquecemos essas origens, sem enxergar o que há dessa herança dentro de nós: a sociedade brasileira. Uma boa demonstração da nossa índole raivosa e selvagem está sendo dada na Olimpíada, um congraçamento entre os povos, que coloca acima de tudo a igualdade, a esportividade e o fair play. Mas nada disso influencia a torcida brasileira, que vem chocando os povos ditos civilizados.
Que o diga o francês Renaud Lavillenie, que tem a vilania até no nome, mas não podia ter sido apupado na disputa do salto com vara, como foi. Além das vaias durante a competição, foi vaiado no pódio, ao receber a medalha de prata. Num momento que deveria ser de glória, e de valorização e respeito a um adversário, o atleta chorou. De tristeza. O brasileiro Thiago Braz, medalha de ouro, tentou consertar, pedindo aplausos à plateia.
O comportamento da arquibancada, que invariavelmente se manifesta nos jogos como está acostumada em jogos de futebol, onde nunca prima o fair play e o respeito ao adversário, acabou tirando um pouco do brilho da extraordinária vitória de Braz. E demonstra qual é o principal problema brasileiro, fonte de todas as nossas crises, políticas, econômicas e sociais: a falta de educação.
Quem está nos estádios olímpicos não é a massa ignara dos grotões. É gente que pode pagar 900 reais por um ingresso para cada membro da família. É a elite brasileira, que em matéria de civilidade se compara ainda aos seus ancestrais de cocar e bodoque nos lábios.
Os brasileiros resolveram participar dos jogos como um cão feroz, presente em todas as disputas, mesmo as que não envolvem a camisa amarela. No atletismo, o astro Usain Bolt, preferido pelo público, manifestou sua estranheza quando a plateia apupou seu maior rival, o americano Justin Gatlin. "Nunca vi nada parecido", disse ele. Antes de correr, Bolt se acostumou a colocar um dedo nos lábios, mandando a torcida que o adotou calar a boca.
Só isso bastaria para passarmos vergonha, ainda mais vindo o gesto de um homem que não tem uma origem menos humilde que a do nosso próprio povo. A histeria brasileira, porém, é imune a lições de moral. Incomodou até mesmo os atletas da natação. Michael Phelps declarou que nunca ouviu tanto barulho na vida - mesmo numa disputa dentro da água.
Em qualquer esporte, o brasileiro põe para fora o velho índio que mora dentro dele. Não respeita o esforço dos competidores, quaisquer que sejam. Idolatra os vencedores, e condena os perdedores à execração, como se não tivessem valor e fossem zeros à esquerda.
O brasileiro só quer e respeita a vitória. Sua pressão, em vez de útil, se torna contraproducente; coloca uma carga absurda sobre a maioria dos atletas brasileiros. Além do desafio natural das provas, eles têm que lidar ainda com o humor de um país que não perdoa, tantos os inimigos quanto a derrota.
Estaria errado, mesmo que funcionasse. O agravante, porém, é que nem funciona. Se dependesse do furor da torcida, o Brasil é que teria goleado a Alemanha na Copa do Mundo, há dois anos, por 7 a 1. Mas não foi o que aconteceu. Derrotado fragorosamente dentro e fora de campo, o brasileiro, na sua brutal ignorância coletiva, mostra nos Jogos Olímpicos que não entendeu nada. Nem mesmo do que se trata no evento que está patrocinando.
Com o passar dos séculos, e não foram tantos assim, ocultamos ou esquecemos essas origens, sem enxergar o que há dessa herança dentro de nós: a sociedade brasileira. Uma boa demonstração da nossa índole raivosa e selvagem está sendo dada na Olimpíada, um congraçamento entre os povos, que coloca acima de tudo a igualdade, a esportividade e o fair play. Mas nada disso influencia a torcida brasileira, que vem chocando os povos ditos civilizados.
Que o diga o francês Renaud Lavillenie, que tem a vilania até no nome, mas não podia ter sido apupado na disputa do salto com vara, como foi. Além das vaias durante a competição, foi vaiado no pódio, ao receber a medalha de prata. Num momento que deveria ser de glória, e de valorização e respeito a um adversário, o atleta chorou. De tristeza. O brasileiro Thiago Braz, medalha de ouro, tentou consertar, pedindo aplausos à plateia.
O comportamento da arquibancada, que invariavelmente se manifesta nos jogos como está acostumada em jogos de futebol, onde nunca prima o fair play e o respeito ao adversário, acabou tirando um pouco do brilho da extraordinária vitória de Braz. E demonstra qual é o principal problema brasileiro, fonte de todas as nossas crises, políticas, econômicas e sociais: a falta de educação.
Quem está nos estádios olímpicos não é a massa ignara dos grotões. É gente que pode pagar 900 reais por um ingresso para cada membro da família. É a elite brasileira, que em matéria de civilidade se compara ainda aos seus ancestrais de cocar e bodoque nos lábios.
Os brasileiros resolveram participar dos jogos como um cão feroz, presente em todas as disputas, mesmo as que não envolvem a camisa amarela. No atletismo, o astro Usain Bolt, preferido pelo público, manifestou sua estranheza quando a plateia apupou seu maior rival, o americano Justin Gatlin. "Nunca vi nada parecido", disse ele. Antes de correr, Bolt se acostumou a colocar um dedo nos lábios, mandando a torcida que o adotou calar a boca.
Só isso bastaria para passarmos vergonha, ainda mais vindo o gesto de um homem que não tem uma origem menos humilde que a do nosso próprio povo. A histeria brasileira, porém, é imune a lições de moral. Incomodou até mesmo os atletas da natação. Michael Phelps declarou que nunca ouviu tanto barulho na vida - mesmo numa disputa dentro da água.
Em qualquer esporte, o brasileiro põe para fora o velho índio que mora dentro dele. Não respeita o esforço dos competidores, quaisquer que sejam. Idolatra os vencedores, e condena os perdedores à execração, como se não tivessem valor e fossem zeros à esquerda.
O brasileiro só quer e respeita a vitória. Sua pressão, em vez de útil, se torna contraproducente; coloca uma carga absurda sobre a maioria dos atletas brasileiros. Além do desafio natural das provas, eles têm que lidar ainda com o humor de um país que não perdoa, tantos os inimigos quanto a derrota.
Estaria errado, mesmo que funcionasse. O agravante, porém, é que nem funciona. Se dependesse do furor da torcida, o Brasil é que teria goleado a Alemanha na Copa do Mundo, há dois anos, por 7 a 1. Mas não foi o que aconteceu. Derrotado fragorosamente dentro e fora de campo, o brasileiro, na sua brutal ignorância coletiva, mostra nos Jogos Olímpicos que não entendeu nada. Nem mesmo do que se trata no evento que está patrocinando.
domingo, 24 de julho de 2016
A Grande Depressão e o futuro do Brasil
Reportagem de hoje da Folha de S. Paulo mostra Dilma Rousseff no Alvorada, na sua rotina de andar de bicicleta, ver filmes no Netflix e, de quando em vez, conversar com seu advogado. Seu plano se resume a enviar um discurso ao Senado na véspera da votação final do impeachment para "defender sua biografia". Mas não tem esperança de recuperar o cargo.
Dilma na prática continua atrasando o país. Depois de fazer a economia brasileira mergulhar no caos, e assistir seu governo virar um verdadeiro pantagruel da corrupção, dá sua última contribuição para a Grande Depressão que construiu como sua obra prima: faz todo mundo esperar até o último minuto pelo começo de soluções para os enormes problemas que temos. E por vaidade. Fernando Collor, que na posição dela já tinha renunciado, teve mais decência.
O presidente interino Michel Temer nada faz até que Dilma saia. Como político daquele estilo do qual estamos cansados, aguarda sem desagradar ninguém, para não perder votos. Quer ver Dilma fora para agir. Para não pagar seu preço pessoal, deixa que o Brasil continue pagando o preço coletivo. Reforma previdenciária, saneamento das contas públicas, medidas de reativação da economia e do emprego irão esperar a política pequena. Assim é o Brasil.
A Grande Depressão está aí. Os negócios estão paralisados. No último levantamento, os desempregados eram 11 milhões. As contas públicas são a origem e o retrato do desastre, com um déficit orçamentário maior que a o PIB da maioria dos países do mundo. O real sofreu uma desvalorização brutal. O Brasil passou a valer uma banana. A mendicância na rua se tornou alarmante. O centro de São Paulo, por exemplo, parece um cenário de guerra. E a falta de perspectivas lança uma sombra sinistra sobre esse cenário tumular.
Aí fica claro qual o nosso maior problema: falta grandeza ao político brasileiro. Até mesmo para renunciar. Falta vergonha. Falta honestidade. Falta iniciativa. Falta espírito público. Falta uma conduta construtiva. Falta patriotismo. Falta moral.
O Brasil é governado ainda hoje por gente do mesmo tipo que veio a este país no tempo das caravelas: saqueadores interessados apenas no butim. Teve espasmos de civilidade, de crescimento, de formação nacional, mas são ciclos temporários, porque a índole da nossa elite, incrustrada desde os primórdios, nos joga de novo na valeta da exploração barata e do desgoverno. O povo brasileiro se ilude com alguns períodos de melhoria e não trata de construir algo sólido para evitar novamente a instabilidade. Mas a história mostra como ela é certa. E dura.
Quando vemos Lula à frente nas pesquisas de intenção sobre a próxima eleição, é de se perguntar realmente se este país tem saída. Porque a falta de perspectivas, geradora dos líderes e dos movimentos messiânicos, que trazem os desastres ainda maiores, são o sinal do fracasso daqueles que procuram construir o progresso de forma concreta. O Brasil ainda é o atraso e será Terceiro Mundo por muito tempo. Talvez para sempre.
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| Foto: Orlando Brito |
Dilma na prática continua atrasando o país. Depois de fazer a economia brasileira mergulhar no caos, e assistir seu governo virar um verdadeiro pantagruel da corrupção, dá sua última contribuição para a Grande Depressão que construiu como sua obra prima: faz todo mundo esperar até o último minuto pelo começo de soluções para os enormes problemas que temos. E por vaidade. Fernando Collor, que na posição dela já tinha renunciado, teve mais decência.
O presidente interino Michel Temer nada faz até que Dilma saia. Como político daquele estilo do qual estamos cansados, aguarda sem desagradar ninguém, para não perder votos. Quer ver Dilma fora para agir. Para não pagar seu preço pessoal, deixa que o Brasil continue pagando o preço coletivo. Reforma previdenciária, saneamento das contas públicas, medidas de reativação da economia e do emprego irão esperar a política pequena. Assim é o Brasil.
A Grande Depressão está aí. Os negócios estão paralisados. No último levantamento, os desempregados eram 11 milhões. As contas públicas são a origem e o retrato do desastre, com um déficit orçamentário maior que a o PIB da maioria dos países do mundo. O real sofreu uma desvalorização brutal. O Brasil passou a valer uma banana. A mendicância na rua se tornou alarmante. O centro de São Paulo, por exemplo, parece um cenário de guerra. E a falta de perspectivas lança uma sombra sinistra sobre esse cenário tumular.
Aí fica claro qual o nosso maior problema: falta grandeza ao político brasileiro. Até mesmo para renunciar. Falta vergonha. Falta honestidade. Falta iniciativa. Falta espírito público. Falta uma conduta construtiva. Falta patriotismo. Falta moral.
O Brasil é governado ainda hoje por gente do mesmo tipo que veio a este país no tempo das caravelas: saqueadores interessados apenas no butim. Teve espasmos de civilidade, de crescimento, de formação nacional, mas são ciclos temporários, porque a índole da nossa elite, incrustrada desde os primórdios, nos joga de novo na valeta da exploração barata e do desgoverno. O povo brasileiro se ilude com alguns períodos de melhoria e não trata de construir algo sólido para evitar novamente a instabilidade. Mas a história mostra como ela é certa. E dura.
Quando vemos Lula à frente nas pesquisas de intenção sobre a próxima eleição, é de se perguntar realmente se este país tem saída. Porque a falta de perspectivas, geradora dos líderes e dos movimentos messiânicos, que trazem os desastres ainda maiores, são o sinal do fracasso daqueles que procuram construir o progresso de forma concreta. O Brasil ainda é o atraso e será Terceiro Mundo por muito tempo. Talvez para sempre.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
O espetáculo da loucura e o esgotamento do capitalismo
Atiradores percorrem as ruas de Munique, matam gente dentro de um shopping, a cidade fecha, escondida atrás das portas. Um jovem de 17 anos invade um trem em Wurzburg e ataca os passageiros com um machado. Quatro pessoas ficam feridas e o atacante, que teria jurado lealdade ao grupo terrorista Estado Islâmico, é morto pela polícia.
Um homem aluga um caminhão para matar quase uma centena de pessoas na orla de Nice. No Brasil, dez pessoas foram presas depois de trocar mensagens digitais em favor do Estado Islâmico e sugerindo à Polícia estar preparando um atentado na Olimpíada. Este ano, atentados em Bruxelas e Istambul também deixaram mortos em nome do Terror.
O que está acontecendo? Pelo que se sabe, o Estado Islâmico não tem uma rede Internacional. Seus "agentes" seriam recrutados pela Internet. Isso não é recrutamento.
O que está acontecendo é um sintoma da crise da sociedade contemporânea. Num mundo em crise, sem oportunidades, especialmente os jovens perdem o sentido de viver. A espetacularização da midia digital lhes dá uma oportunidade. Dá sentido pelo menos à sua morte. O El representa hoje o protesto contra o sistema. Poderia ser qualquer outra coisa.
Gente que, sob qualquer pretexto, vai para rua para matar ou morrer está no limite da loucura. A ideia de pertencer a um grupo suicida lhes dá força. E saber que a ação lhes dará notoriedade, dá coragem.
Isso só acontece num mundo em que a vida não vale nada. Os valores que são sentido à existência - o amor, o trabalho, a conquista, a recompensa, o conforto familiar, os sonhos de felicidade - não existem ou não têm importância. Hoje qualquer um aparece na mídia mas entra apenas na bacia das almas que é o mundo digital.
Um homem aluga um caminhão para matar quase uma centena de pessoas na orla de Nice. No Brasil, dez pessoas foram presas depois de trocar mensagens digitais em favor do Estado Islâmico e sugerindo à Polícia estar preparando um atentado na Olimpíada. Este ano, atentados em Bruxelas e Istambul também deixaram mortos em nome do Terror.
O que está acontecendo? Pelo que se sabe, o Estado Islâmico não tem uma rede Internacional. Seus "agentes" seriam recrutados pela Internet. Isso não é recrutamento.
O que está acontecendo é um sintoma da crise da sociedade contemporânea. Num mundo em crise, sem oportunidades, especialmente os jovens perdem o sentido de viver. A espetacularização da midia digital lhes dá uma oportunidade. Dá sentido pelo menos à sua morte. O El representa hoje o protesto contra o sistema. Poderia ser qualquer outra coisa.
Gente que, sob qualquer pretexto, vai para rua para matar ou morrer está no limite da loucura. A ideia de pertencer a um grupo suicida lhes dá força. E saber que a ação lhes dará notoriedade, dá coragem.
Isso só acontece num mundo em que a vida não vale nada. Os valores que são sentido à existência - o amor, o trabalho, a conquista, a recompensa, o conforto familiar, os sonhos de felicidade - não existem ou não têm importância. Hoje qualquer um aparece na mídia mas entra apenas na bacia das almas que é o mundo digital.
O homem é insignificante.
Pode parecer estranho, mas a maneira de combater o terror, além de abater na rua os loucos que saíram do armário, é atacar as raízes dessa crise. Um mundo com oportunidades de emprego, de crescimento, e relações interpessoais melhores, numa era de individualização extrema. O problema não é o El, o Islamismo, ou o Oriente. É um certo esgotamento do capitalismo, agora que entra na sua fase digital, pedindo um novo modelo para viabilizar novamente o futuro.
Pode parecer estranho, mas a maneira de combater o terror, além de abater na rua os loucos que saíram do armário, é atacar as raízes dessa crise. Um mundo com oportunidades de emprego, de crescimento, e relações interpessoais melhores, numa era de individualização extrema. O problema não é o El, o Islamismo, ou o Oriente. É um certo esgotamento do capitalismo, agora que entra na sua fase digital, pedindo um novo modelo para viabilizar novamente o futuro.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
O meu Poema Sujo, ou a arte de escrever para ninguém
- A gente precisa mudar.
- Eu sei, mas mudar como?
- A gente devia parar de ficar escrevendo para ninguém.
- Mas escrever para ninguém é a única coisa que eu sei fazer.
- Eu sei, mas mudar como?
- A gente devia parar de ficar escrevendo para ninguém.
- Mas escrever para ninguém é a única coisa que eu sei fazer.
Minha mulher sempre tem razão. Mesmo assim eu vou contra - como diria o Llosa, sigo seguindo contra vento e maré. Secretamente venho escrevendo recentemente muito para mim mesmo, ou para ninguém. Escrevo sobre a infância, aquilo em que mais penso, quanto mais idade tenho.
Isso acabou me tomando a cabeça, um tempo enorme, as vontades: da evocação de um tempo sem palavras, começou a surgir um poema, e foi ficando tão longo que virou um poema-livro, o meu "poema sujo", sem nenhuma pretensão de comparações com o grande Ferreira Gullar.
Fico olhando isso e penso se é mesmo para ninguém: talvez possa ser para alguns, pelo menos as pessoas que nasceram como eu na década de 1960, que conheceram uma certa São Paulo, um certo país, um certo tempo. E suas mudanças: nos costumes, na família, na política, na informação. Na sociedade, ou no homem, enfim.
Aqui um trechinho, agora que começo a revisar o texto; e vou pensando em todas as coisas importantes que eu tinha a fazer e, no final, deixei de fazer; de todas, no fim, esta é a única que importa, ainda que seja para ninguém.
(...)
Raízes primeiras extremas
De onde nem há memória
O passado dos filósofos orientais
A alquimia genética
O encontro de raças
A combinação de histórias
A formação determinista do que somos
Antes mesmo de ser
Raízes primeiras extremas
De onde nem há memória
O passado dos filósofos orientais
A alquimia genética
O encontro de raças
A combinação de histórias
A formação determinista do que somos
Antes mesmo de ser
Resultante do que trazemos sem saber
Escrito na terra
Na mão lavrada dos ancestrais
Nos amores perdidos
Nos sonhos perdidos
Nas vontades primevas
No acaso certeiro
Daqueles que vieram primeiro
Prepararam terreno
Jogaram a semente
Até que de repente
Brotou o que achamos ser
Nosso livre arbítrio
Escrito na terra
Na mão lavrada dos ancestrais
Nos amores perdidos
Nos sonhos perdidos
Nas vontades primevas
No acaso certeiro
Daqueles que vieram primeiro
Prepararam terreno
Jogaram a semente
Até que de repente
Brotou o que achamos ser
Nosso livre arbítrio
Fihos do vento
Filhos do tempo
Filhos da coincidência
Filhos de gente
Filhos do amor
Tanto o de mentirinha
Quanto do amor verdadeiro
Do amor enganado e desenganado
Do amor roubado
Do amor proibido
Do amor ganho e perdido
Filhos do tempo
Filhos da coincidência
Filhos de gente
Filhos do amor
Tanto o de mentirinha
Quanto do amor verdadeiro
Do amor enganado e desenganado
Do amor roubado
Do amor proibido
Do amor ganho e perdido
Qualquer amor que gerou amor que gerou amor
E moldou o que somos e seremos
E fez me de mim desbravador
Herdeiro de antigas e violentas paixões
De conquistadores da terra
Homens ardentes
Barqueiros ao leme rumo à Guiné
De velhos guerreiros
De homens sem fé
De mães sagradas
E mulheres profanas
De obscuras ciganas
E valquírias aladas
Filho do amor que veio do amor
Um amor que ainda não entendo qual é (...)
E moldou o que somos e seremos
E fez me de mim desbravador
Herdeiro de antigas e violentas paixões
De conquistadores da terra
Homens ardentes
Barqueiros ao leme rumo à Guiné
De velhos guerreiros
De homens sem fé
De mães sagradas
E mulheres profanas
De obscuras ciganas
E valquírias aladas
Filho do amor que veio do amor
Um amor que ainda não entendo qual é (...)
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