sexta-feira, 13 de maio de 2016

Carta aberta a Lula

Caro Lula,

Ontem o governo do PT chegou ao fim. Graças à indignação de milhões de brasileiros, não apenas os de oposição, como aqueles que se sentiram traídos pelo PT, um partido nascido na luta e organização do trabalhador, identificado com a valorização da classe operária, de onde você veio. Especialmente aqueles brasileiros que pertencem à imensa parcela miserável da nossa população.

Sim, o PT ainda tem muitos partidários. Mas estes fazem parte daquela pequena elite histórica do partido, mantida pela fidelidade pecuniária ou um certo fanatismo religioso, travestido de materialismo dialético.

É uma minoria: não foi essa gente que o colocou na presidência, nem repetiu seu voto de confiança, quando você apresentou como sucessora a agora defenestrada Dilma Rousseff.

O povo traído é muito maior, mais amplo, menos afeito a modelos ideológicos. Foi atraído pelo seu discurso, que pareceu tão verdadeiro, e hoje se tornou apenas mais um exemplo da demagogia que já fez tanto mal ao nosso país.

Aquele povo que teve com você um breve interlúdio de esperança. Que viu no seu passado de pau de arara a garantia de que manteria, no poder, os pés no chão, a sua humildade original. Que via na sua biografia e nas suas ideias um antídoto contra os delírios do poder e as práticas das castas políticas que você sempre combateu e estamos cansados de rever desde o Brasil-colônia.

O povo traído é aquele que você fez experimentar o gosto do que podia ser. Porém, como farsa: mais uma breve e eleitoreira ilusão. Enquanto dava ao povo migalhas, você e seu partido conspiravam com os velhos lobos da política em proveito próprio. E você não hesitou em sustentar a farsa tão longe quanto pôde, para garantir a sucessão.

O povo foi traído, mas a maior traição é a do homem que trai a si mesmo. Você teve a grande chance de passar para a História como o transformador de um país. Levado talvez pela falsa sensação de impunidade conferida pela popularidade, trocou isso por um sítio com churrasqueira e pedalinho. Uma casa na praia e um frigorífico. Coisas assim.

Sim, nada disso está no seu nome, e sim no de amigos e familiares. Porém, faz parte do delírio de onipotência subestimar a inteligência alheia. Pode ser que a Justiça não tenha meios de julgar se as propriedades em questão são suas, exceto talvez pela sonegação. Pode ser que você não seja diretamente implicado em todo o vasto esquema de corrupção do PT, do mensalão ao saque das estatais. Pode ser que outros sejam sacrificados no seu lugar, para proteger covardemente o seu nome. Mas o julgamento ético, moral e político, diferente do criminal, não precisa dessas evidências para se estabelecer. Esse já aconteceu.

Você podia ter sido grande, mas mostrou aos pobres que eles só podem ambicionar pouco no Brasil. Porque ser rico é pouco, quando se tem a possibilidade da eternidade como um estadista, o transformador de um país, um verdadeiro benfeitor.

Você poderia entrar na história como gigante, e por mesquinharias, por fraqueza, entrará como mais um daqueles ratos que sempre combateu. A máquina que você construiu massacrou sua sucessora e você também. Porque não há futuro político para um traidor.

Você podia ter mudado a política brasileira. Ao governar com os lobos da política, porém, se tornou mais um deles. Serviu a eles, e não ao eleitor que o levou ao poder. E, no poder, envergonhou o povo. Nem um lobo de verdade foi. Sua matilha se contentou com Atibaia, enquanto os lobos históricos iam para a Suíça, iam para Paris. Até mesmo na riqueza, você se comportou como o retirante que não aspira nada mais que a vida da classe média. Podia ter mais, muito mais. Mas esse já não é um caso da política. É um caso para a polícia.

Como jornalista, não posso declarar meu voto. Posso dizer, no entanto, em quem jamais votei. Jamais votei em você, mas confesso que seu carisma sempre me encantou. Em 1989, quando eu era editor de política em Veja, tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e de perto, na campanha para presidente que marcou a volta da democracia plena ao Brasil. Em duas ocasiões, pude admirá-lo em todo o seu esplendor.

A primeira delas, assim que saiu o resultado do primeiro turno, fui em sua casa, no ABC, já então "emprestada" de um empresário amigo, Roberto Teixeira. Fiquei surpreso quando você manifestou a certeza, na entrevista, de que todos os partidos derrotados no primeiro turno se juntariam ao seu redor numa coalizão contra Fernando Collor. Você teve essa visão primeiro e estava certo: o político intuitivo, o político nato.

A segunda vez que você mostrou-se a mim foi na única entrevista exclusiva que concedeu a alguém da imprensa, no segundo turno. Dentro do carro que o levava para casa, depois de um comício, comentei como seria extraordinária a história de um ex-pau de arara chegar a presidente.

Você respondeu que extraordinário era ter virado metalúrgico, e que a distância percorrida entre o pária e o profissional especializado era muito maior que entre o operário e o presidente. "Você jamais entenderá isso, porque para entender precisa vir de onde eu vim", você me disse, frente a frente, na solidão do banco de trás de um carro trafegando em alta velocidade.

Nunca me esqueci daquilo, mas você mesmo se esqueceu. Nunca votei em você, mas eu acreditava nos seus propósitos, e por isso, diante do grande desapontamento da sua era no poder, eu me sinto também um pouco perdedor. Você traiu as duas coisas que tinha de mais importante e o transformaram na esperança do Brasil: o senso político e o compromisso com sua própria origem. Isso entristece a mim, entristece a nós.

Sim, eu entendi você, antes. O que não entendi, ou melhor, não aceito, é aquilo em que você se transformou.

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Carta aberta a Dilma Rousseff

Cara Dilma,

O dia amanheceu frio e cinzento em São Paulo, tem a cara deste momento, em que você sai do Palácio do Planalto, concluído o afastamento pelo processo de impeachment, segundo votou na madrugada o Senado.

Ouvi cedo lá fora os rojões de muitos brasileiros, que passaram a odiar seu governo e o do PT e têm razões para acreditar que tudo isso é justo e certo e que as coisas vão melhorar. Mas eu continuo cinzento e triste como o dia.

Estou cinzento e triste por conta da decepção. Porque o fim do seu governo, pelo qual votaram 54 milhões de brasileiros na última eleição, representa não apenas o afastamento da presidente, mas a conclusão de uma era, o fim de um sonho, da esperança de ver as coisas mudarem no Brasil.

Essa era começou com Lula e termina com Lula e você. Uma era em que se tinha esperança de uma política diferente, de um partido que sempre se opôs à corrupção e defendeu a melhoria da qualidade de vida dos mais pobres. Um projeto de gente com história pessoal que assegurava a honestidade de propósitos. Um projeto destinado a diminuir as desigualdades sociais e instalar uma nova forma de fazer política, em que a corrupção, o conchavo em benefício de interesses particulares, daria lugar ao espírito público e ao interesse da esmagadoria maioria pobre do povo brasileiro.

Quando assumiram o poder, já na primeira gestão Lula, vocês sabiam que tinham essa responsabilidade histórica. E tinham a força do voto popular para implantar seu projeto. Não podiam errar. E o primeiro erro foi colocar na mesma canoa o PMDB, representante da velha política brasileira. Tinha de dar certo. Porque, se desse errado, o Brasil cairia novamente no colo dos mesmos de sempre - e de um jeito pior.

E vocês erraram. Deixaram que a corrupção partisse do próprio núcleo do Estado, primeiro pela sistemática de pagar em moeda sonante por apoio político: o mensalão.


Daí em diante, as portas da corrupção foram se escancarando. A Petrobras, considerada uma empresa inexpugnável, foi sugada até a inanição. Arruinou-se o BNDES. Onde se olha no governo do PT, em seu quarto mandato, se vê a associação espúria com o velho Brasil.

Os ganhos sociais, que começaram a aparecer no governo Lula, foram perdidos. A ideia de programas assistencialistas não podia existir sem outras providências: o controle do gasto público, o investimento em saúde, educação, emprego.

Por algum tempo, vocês tiveram o sonho nas mãos. Mas, como em todo sonho, acreditaram que podiam ficar nele, sem manter um pé na realidade. Foram intoxicados, inebriados pelo sucesso no poder, algo proverbialmente sempre tão passageiro. Não, vocês não pensaram nisso. Seguiram o fácil, seguiram gastando. Deixaram que as alas radicais do partido impedissem que o pé voltasse ao chão. E vocês, que tinham a responsabilidade da gestão pública, perderam o pé.

Com essa administração ruinosa de qualquer ponto de vista, seja ético, administrativo, político e econômico, surgiu uma brecha escandalosa para a volta do velho, agora travestido com a roupa missionária do salvador da pátria. Os lobos em pele de cordeiro. Mas foram vocês que deixaram isso acontecer.

Isto é o que faz o dia cinzento e triste. Não é só o Brasil que está perdendo. É a própria ideia de que se pode atingir o progresso com promoção social. O que vocês fizeram foi abalar a esperança de um Brasil melhor, sob o governo de uma esquerda responsável, que permitisse manter e assegurar o ganho do mais pobres.

Agora, você sai do Palácio com 11 milhões de desempregados e uma administração ruinosa em todos os sentidos, que nos joga para trás quinze anos na economia e muito mais que isso na História. Teria custado controlar o gasto público? Teria custado passar a mão na caneta para demitir os corruptos por improbidade?

Ao deixar de fazer o que devemos, a tarefa acaba caindo para os outros. Os lobos, que sempre viveram debaixo da sua cama, vão tomar conta do Palácio. Fazem isso não porque têm um projeto para o Brasil, ou se interessam pelo destino do povo brasileiro. Vão assumir para, com o poder, continuar a proteger seus interesses, ainda mais agora, que estão sob a luz das investigações policiais.

Talvez as coisas melhorem, pois até os lobos sabem que em terra arrasada não há comida para ninguém. Porém, sabemos que a riqueza que eles criam é para eles, e não para ser distribuída entre aqueles que trabalham: o povo brasileiro batalhador e sofrido que votou em você e depositou, em você, as suas esperanças.

Eu não posso perder as minhas. Este é meu país, onde estão as pessoas de quem gosto, a família, as raízes. Cresci ouvindo minha mãe cantar o hino nacional e chorar pelos mais pobres, a quem ela, professora primária, procurava dar alguma vida nas escolas da periferia de São Paulo, pelo ponto de partida: a alfabetização.

Eu não posso desistir, não posso perder a esperança. É preciso reconstruir a esquerda, ou melhor, criar uma nova esquerda, sólida, responsável, sem esses fanáticos que acham que oposição é agitar bandeira vermelha na rua e, em nome de ideias caducas, inspiram somente o caos.

Eu quero uma esquerda sólida, democrática, responsável, que tenha um projeto de poder voltado para a promoção social, de forma efetiva e duradoura. Que tenha compromisso com a responsabilidade fiscal. Com o trato correto do dinheiro público. Que não ceda a pressões espúrias. Que foque seu trabalho  nas verdadeiras funções sociais do Estado, especialmente a promoção do emprego, a moradia, a saúde e a educação.

Eu gostaria de dizer até breve, mas prefiro dizer adeus, porque o que estávamos procurando era outra coisa. Sei que passará muito tempo até termos outra oportunidade como a que foi perdida. Mas, como dizem os chineses, para cumprir uma longa jornada, é preciso dar novamente o primeiro passo. E, provavelmente, atravessar alguns pântanos. De novo.

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

O impeachment de Dilma: as instituições funcionam

A crise não é das instituições. As instituições é que estão funcionando para resolver o dano que indivíduos e grupos causaram ao país.

Toda vez que há uma crise política e econômica, levanta-se a tese de que o Brasil passa por uma "crise institucional". Isto, é, que estaria no sistema institucional, na fórmula da democracia brasileira, a raiz dos nossos problemas. E não seria, portanto, uma responsabilidade individual ou dos partidos.

Aqueles que criticam o sistema, porém, estão sendo desmentidos mais uma vez, com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Estão aí todos os elementos para demonstrar que o Brasil funciona. E que os delitos cometidos, assim como a crise econômica, são produto de gente de carne e osso, a caminho da devida punição.

Desde a volta da democracia plena ao país, dois presidentes já tiveram processos de impeachment levados adiante: Fernando Collor e a própria Dilma. Dois presidentes de coloração política inversa, o que mostra que o impeachment não é instrumento de golpe desta ou aquela corrente. O que ambos os casos têm em comum, e motiva o impeachment, é a administração ruinosa - tanto por promover a corrupção como pelo descarrilhamento da economia, duas coisas que geralmente andam juntas.

Aqueles que dizem que o Congresso teria praticado um "golpe" contra um governo legitimamente eleito nas urnas, o bordão passado para ser repetido pelas hostes do PT, deixam de lado as duas questões reais. Uma é o descalabro total da administração pública federal, ignorado apenas por quem não quer ver. Além disso,  no sistema republicano, de equilíbrio entre os Três Poderes, cabe ao Judiciário, Legislativo e Executivo fiscalizarem um ao outro. O Legislativo é eleito também de forma legítima pela população. Com mandato, inclusive, para instaurar processo de impeachment do presidente, quando for o caso.

O que está acontecendo, na prática, não é uma ineficiência ou crise das instituições. Ao contrário, é o seu funcionamento prático, diante de atos de indivíduos e grupos que devem ser responsabilizados criminal e administrativamente, depois de formarem uma verdadeira rede construída para saquear o Estado brasileiro.

O governo produziu o mais volumoso escândalo de corrupção de todos os tempos no país e a maior recessão desde a década de 1980. Interromper a caminhada para o caos é não apenas facultado ao Judiciário e ao Legislativo, como é seu dever constitucional. E o Legislativo entra como instituição, que está funcionando, apesar da corrupção de muitos de seus membros.

Se houve alguma falha das instituições, se deve à extrema tolerância típica do brasileiro. Quando Fernando Henrique era governo, já se falava em corrupção na Petrobras. Na primeira gestão de Lula, já estava a céu aberto o mecanismo do mensalão. Porém, a economia ia melhorando. E, com isso, preferiu-se fazer vista grossa ao que ia acontecendo. Não se queria, com o justo cumprimento da lei, atrapalhar o momento político, ou colocar crise num momento de bonança econômica.

Esse foi o erro. Falhou a imprensa, ao deixar de denunciar desvios já desde a gestão do PSDB, onde nasceu a raiz dos males que acometem estatais como a Petrobras, catapultados pelo PT à terceira potência. Falhou a Justiça, que deixou de investigar e punir com a devida ênfase  e presteza a corrupção desde o início, não cortando o mal pela raiz. E falhou o próprio Legislativo, levado pelo canto da sereia dos mensalões. Em vez de cumprir o seu papel, contaminou-se com as falcatruas do executivo até a medula.

Agora, diante da crise, e depois da chacoalhada geral com a série de manifestações que cobriram o país de norte a sul desde o ano passado, a polícia está fazendo seu trabalho, assim como procuradores e juízes. A imprensa também. E mesmo o Legislativo, com todas as suas mazelas, despertou para a necessidade de fazer alguma coisa, diante do caos que ajudou a criar.

As instituições têm de funcionar independentemente da economia. Se há crime, não importa se o governo vai bem ou não. É preciso agir. A consequência na demora da ação é o volume de corrupção, que chegou a montantes jamais vistos no Brasil. O dinheiro desviado da Petrobrás equivale ao produto interno de muitos países pelo mundo.

Na democracia brasileira, o mecanismo do impeachment serve para barrar o descalabro. Não é válido dizer que é golpe qualquer movimento para tirar um presidente do poder, porque todo presidente é eleito por eleição direta. Isso não lhe dá, porém, plenos poderes para deixar a roubalheira comer solta, nem sustenta politicamente alguém que à frente de como um Estado quebrado e inerme.

Apesar da tardança, o Brasil mostra que é capaz de reagir a situações de crise, utilizando justamente mecanismos institucionais democráticos. Ninguém falou em ditadura. Ninguém viu tanque na rua. A presidente, seu partido e colaboradores terão agora de fazer um exame de consciência. Porque os crimes que foram cometidos não o foram pelas instituições. E sim por indivíduos que quiseram não só roubar como institucionalizar o roubo.

Dilma não pode dizer, como disse, que a corrupção apareceu porque seu governo a combateu. Ela nunca segurou a caneta para demitir alguém por improbidade. Seus malfeitores favoritos só foram cerceados pela Polícia.

Sua única ação administrativa foi para proteger um deles da lei: Lula, o padrinho. Lógico que suas digitais não estão nos crimes em si. Há sempre alguém para segurar a caneta no lugar da presidente. Tudo porém passa sob o seu queixo. Por isso o processo do impeachment é por definição mais político que jurídico. Interessa menos a digital que as responsabilidades.

Certa vez, o então presidente americano Bill Clinton disse que os americanos não tinham "nenhum defeito que não pudessem resolver com as suas virtudes". No Brasil, os males são grandes. Mas nossas virtudes, a começar pelas instituições, também.

terça-feira, 3 de maio de 2016

O governo sacrifica a rainha para continuar no jogo

Que ninguém se engane.

O impeachment não é o fim deste governo e começo de outro. Se há um golpe, é do próprio governo, para poder continuar. E manter a maioria dos envolvidos no escândalo - leia-se Eduardo Cunha, Renan Calheiros e companhia - em ação.

Como no xadrez, estão apenas sacrificando a rainha para continuar no jogo.

Dilma está a caminho do cadafalso, com o andamento do processo de impeachment impulsionado pelo Congresso, que agora vai ao Senado. Mas o governo não mudou. Michel Temer, vice do PMDB, é do governo. Sempre foi. O governo não é do PT, ou somente do PT. É do PT com seus aliados. Tendo à frente o PMDB.

Temer foi eleito também, como vice de Dilma, para o caso justamente do seu "impedimento". Sem Dilma, este mesmo governo quer ganhar fôlego para continuar. Os personagens são praticamente os mesmos. Temer quer colocar como bedel da economia o banqueiro Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central na gestão Lula. Era o homem que Lula sugeriu a Dilma para a economia no seu segundo mandato. Mas ela fez questão de recusar.

Temer vai fazer o que Dilma não quis fazer. Se o governo for um pouco melhor, e a crise diminuir, espera reduzir a pressão em torno dos demais envolvidos nos escândalos de corrupção. Todos os que estão de certa forma enrolados com o governo, não apenas do PT, como fora dele. A começar pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cobra criada na simbiose com o Executivo sob as rédeas do PT.

Dilma não está sendo sacrificada porque é mulher, ou do PT. Sim, ela criminalmente não responde a nada, até porque é velho o truque de manter as digitais do presidente fora das negociatas. Será difícil encontrar vestígio de Dilma no Petrolão, entre outros escândalos. Há sempre uma mão para segurar a caneta no seu lugar. Talvez ela seja apenas refém do partido e do esquema de corrupção que foi montado ainda na gestão de Lula, do qual ela também participou de forma proeminente. O que não quer dizer que ela não sabia de nada. Nem deixa de ter responsabilidade.

A presidente cometeu dois erros. O primeiro foi animar-se com a reeleição. Em vez de sustentar o ministro Levy, promessa da austeridade, indicado pelo Bradesco, cedeu à pressão do próprio partido e o deixou ir embora. O PT, fiel às suas crenças mais cegas, recusou-se a entregar alguns aneis de seu projeto político para não perder os dedos. Colocou-se acima de todos, acima do bem e do mal, e de lá caiu. A parte do governo que viu o PT levando todo mundo junto para o buraco rebelou-se. O governo se bipartiu. E a parcela com os olhos mais abertos prevaleceu, apesar dos protestos petistas, no campo onde justamente tem mais força: o tapetão.

O aprofundamento da crise fez Dilma perder aquilo que manteve Lula no cargo, mesmo com denúncias de corrupção ao seu redor: a perspectiva de crescimento e a solidez econômica. Sem pulso, seu governo saiu do trilho. Agora, ela pagará por esse descontrole. Por ceder ao PT, perdem ambos o espaço no próprio governo. Mas isso não quer dizer que ele acabou. Apenas entra na fase em que já deveria ter entrado quando Dilma foi reeleita. Com um atraso que agravou a situação.

A saída de Dilma permite que o governo tenha uma sobrevida. É possível que até mesmo o PT volte a ele. Temer faz um aceno ao PSDB, mas o PSDB sabe que, por maior que seja a crise, e maior seja a necessidade de união nacional para debelá-la, seu lugar ainda é na oposição. Como parte e sustentação do atual governo, o PMDB terá de salvá-lo com outros partidos já comprometidos com a atual gestão.

Por fora do processo político, corre a Justiça. Não é porque saiu Dilma que as investigações policiais contra os colaboradores do atual governo podem e devem parar.  Os indigitados continuam todos lá, especialmente os colaboradores do governo no Congresso. Se a economia melhorar, ou quando melhorar, a pressão popular pode até diminuir, mas isso não serve como desculpa para deixar de fazer a lei.

Veremos então a força das instituições. Sobretudo, se o Judiciário, que há muito espera para examinar o caso do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cumprirá o seu papel. O processo político encontrou sua saída e o jogo de xadrez vai continuar, na tentativa de proteger politicamente as outras peças do jogador que está perdendo. Mas a Justiça tem a obrigação de retirar as pedras que se mexem fora da regra. E cabe ao eleitor, na próxima eleição, fazer uma limpeza final nisso tudo que está aí.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Pela democracia, pela tolerância

Quando eu era diretor da Playboy, eu costumava deletar do facebook uns caras que apareciam só para me xingar. Achavam que sabiam o que fazer no meu emprego, mais do que eu, e descontavam em mim seu fracasso existencial. Senti compaixão pelo técnico da seleção brasileira. Escreviam baixarias e eu, se fosse tirar satisfação com todo mundo, estaria na cadeia até o Século 23.

Ofensa gratuita é uma coisa, opinião é outra. Nunca deletei ninguém nem jamais censurei comentário de gente que diverge de mim. Como jornalista, ganhei com a equipe da revista onde trabalhava um prêmio Esso pela cobertura da eleição que trouxe de volta a democracia plena ao Brasil. Na imprensa, trabalhei anos a fio, de madrugada, à custa da saúde e da diversão, ao lado de muitos outros brasileiros, para a gente poder ter essa liberdade. Não darei exemplo aos que desejam tirá-la. Não se exclui ninguém por divergência política ou de opinião. Democracia é a convivência dos contrários.

A intolerância cresce, não só neste ambiente aqui, em que muitos se julgam protegidos para julgar e agredir os outros, como nas ruas. O confronto do ator Zé de Abreu num restaurante e o comportamento do deputado Jean Willys, tanto quanto o casal ofensor e o provocador Bolsonaro, revela que todos os envolvidos nesta guerra perderam a razão junto com a compostura. Os defensores de cusparadas e outras impropriedades mostram que a cizânia está saindo do mundo virtual para a microfísica do cotidiano.

Vejo amigos experimentados na vida defendendo boicote a empresas "de oposição" publicamente, o que configura crime, e não deixa de ser crime pela internet. Outros, do lado oposto, generalizam a pecha de "ladrão" aos integrantes do governo e seus apoiadores, tanto quanto estes atribuem a condição de "golpista" a quem apenas deseja o cumprimento da lei e o bom trato do dinheiro público.

Os intolerantes, felizmente minoria, continuam sendo os que mais fazem barulho. No final, como aquele vizinho chato e agressivo, incomodam o cidadão pacífico, democrático, que apenas quer ver o Brasil dentro da lei e desfrutar das possibilidades de progresso que este país oferece quando a gente não estraga tudo.

A aparição da "primeira dama" do turismo deu margem a mais intolerância. De um lado, aqueles moralistas que acham o fim da picada a mulher do ministro aparecer de decote tirando foto deslumbrada no ministério. E os moralistas defensores do governo, que se acham de esquerda, mas são tão patrulheiros da liberdade quanto os extremistas que defendem o velho dístico da tradição, família e propriedade.

O moralismo existe, faz parte da sociedade, e como tudo tem de ser tolerado. O direito à liberdade, de fazer humor com o governo, de publicar o que se quiser, porém, está na essência da prática democrática. Qualquer tipo de censura e patrulhamento é que deve ser combatido. Como dizia o velho lema, é proibido proibir. A não ser, claro, aquilo que está estritamente fora da lei.

Para quem escreve livro...

Para quem escreve livro, o expediente nunca acaba.

quarta-feira, 30 de março de 2016

O PMDB e a volta dos que não vão

Sai o PMDB do governo, para voltar daqui a pouco.

E o PT volta a ser apenas o PT. Um partido pequeno, embora barulhento, capaz de encher uma rua de bandeiras vermelhas, ocupar uns sindicatos e instrumentalizar o movimento sem-terra. Provavelmente sairá desse episódio muito avariado, sem nem mesmo conseguir de vez em quando pegar uma ou outra prefeitura mais importante.

Isso acontece quando o presidente não é de um partido majoritário. Não adianta o presidente ser popular e seu partido não ter representação no Congresso. Esse paradoxo só é possível em países cujas instituições favorecem o surgimento de líderes populistas, tanto quanto o encastelamento das elites no poder. Uma democracia de difícil digestão.

Lula conquistou as massas para o PT, mas não conseguiu fazer seu partido ser majoritário no Congresso e o apoiou em bases espúrias. Deveria ter tentado de outro jeito, talvez, e foi refém do próprio PMDB que agora deixa o PT ruir sozinho. Caiu na bandalheira do mensalão e outros "ãos" que o puseram a perder e deixaram os mesmos com o poder novamente à sua mercê.

As elites ainda estão incrustradas nos estamentos do poder. E mesmo um líder popular só governa no Brasil quando também serve a elas. Quando a elite deixa de ganhar dinheiro, é ela, a elite, e não a plebe insatisfeita, que força a troca de mandatário.

Anti-democracia? Não. Apenas a democracia à brasileira. O impeachment está virando instituição. É a forma substitutiva do que acontece no parlamentarismo: quando um governo vai mal, o primeiro-ministro cai. Muda o governo sem eleição e sem abalar as estruturas. No Brasil, é impeachment.

Dilma, abandonada, fica agora sem saída. Andará pelos corredores do Planalto como o personagem de Garcia Marquez em "Ninguém Escreve ao Coronel". Ainda há tempo de renunciar. Mas talvez ela ache que ser imolada a fará mártir algum dia.

Único no PMDB que garante sua permanência no governo, para poder tomar o poder lá na frente, Temer provavelmente sabe que precisa consertar as coisas rápido, ou toda essa manobra de nada adiantará. É um desafio e tanto. O PMDB também é réu e a pressão da Justiça vai continuar. A mudança do presidente, porém, pode trazer alguma reação no terreno da economia, onde a paralisia de Dilma vai transformando o desastre em catástrofe.

O sistema partidário no Brasil precisa melhorar. E fica o desafio para a reconstrução da esquerda, entendida como uma força política a favor de mais justiça social num país de desigualdades tão gritantes. O que, da forma como estamos, abre tanto espaço para líderes populistas e candidatos a ditador de opereta quanto para coronéis que cobram seu apoio político em dinheiro.

Isso precisa acabar e só acabará quando a esquerda se organizar solidamente de forma partidária. Uma esquerda que vá além do PT, mais moderada, mais democrática, menos sujeita a acordos espúrios e com um programa mais sólido, que possa garantir de fato uma reforma social bem sucedida a longo prazo.

No momento, mais urgentemente, o que precisamos não é de um governo de esquerda ou de direita. É de um choque de gestão na administração pública. Um governo capaz de combater a crise. Como foi o de Itamar Franco, um vice que chegou também atrás de um processo de impeachment e, saindo do quase anonimato, cometeu um erro atrás do outro, mas não desistiu até consertar a economia, desfigurada pela superinflação.

Era um tipo esquisito, e o Brasil sacudiu como um caminhão numa estrada de terra, mas foi o melhor presidente que o Brasil já teve desde que a democracia voltou.