sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Mais romancista que repórter: meu placar no skoob



Roberto Civita, falecido dono da editora Abril, onde trabalhei muitos anos, certa vez encontrou o banqueiro Armando Conde, do BCN, que lhe disse estar em contato comigo, para que eu pudesse ajudá-lo a escrever seu livro de memórias. E perguntou o qeu Civita achava sobre mim.  "Péssimo jornalista", disse Roberto, com seu ar sempre blasé. "Mas é um grande contador de histórias..."

Fui pesquisar no Skoob meu placar junto aos leitores, para saber como avaliaram meus livros. E verifiquei, agora em números, que de fato sou mais romancista que repórter - os meus romances são mais bem avaliados que os livros de não ficção.

O primeiro da lista é Filhos da Terra, meu primeiro romance, que com 20 avaliações recebeu 5 estrelas de 60% dos leitores. Entre quatro e cinco estrelas, são 80% de aprovação.

No mesmo plano está O Homem que Falava com Deus, com 14 avaliações, que recebeu cinco estrelas de 64% dos leitores. Com 14% de 4 estrelas, o índice vai a 78% de aprovação.

Amor e Tempestade, meu romance mais recente, publicado originalmente pela Objetiva/Suma de Letras, tem 77% de aprovação, mas quase o mesmo número de avaliações de quatro e cinco estrelas (33% e 38%, respectivamente).

Os livros de não ficção não são tão festejados, mas também estão muito bem avaliados. O Sonho Brasileiro, biografia de Rolim Amaro, fundador da TAM, tem 70% de aprovação, entre 4 e 5 estrelas, por 25 avaliadores. A Conquista do Brasil é muito recente e recebeu por enquanto apenas 2 avaliações: uma de quatro e outra de cinco estrelas. Promete.

Se você já leu alguns desses livros, vá ao Skoob e vote! O autor aqui agradece o interesse. Isso nos ajuda a continuar trabalhando. O leitor é que manda! Meu próximo livro, por sinal, será um romance. Assim como Conquista do Brasil, será lançado pela editora Planeta.

http://www.amazon.com/Filhos-Terra-Portuguese-Thales-Guaracy-ebook/dp/B00EDXV2UW/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1439582147&sr=8-2&keywords=filhos+da+terra

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A única razão do impeachment


Discute-se por aí se a crise instaurada no governo Dilma é mais política ou econômica. Simpatizantes do governo (os que restam) alegam perseguição; dizem que se investigaram  esta gestão, e não as anteriores, é porque é do PT - como se apenas um governo "popular", de pobres para pobres, fosse passível de cadeia (ainda que os ricos das empreiteiras tenham sido os primeiros a conhecer o xadrez). E que gestões anteriores, especialmente de Fernando Henrique, foram beneficiadas pela vista grossa da polícia, atribuindo à Justiça um viés partidário.

A realidade é que a crise é econômica, como sempre foram todas as crises no Brasil. A ditadura militar não caiu por motivos ideológicos. Caiu porque o "milagre econômico" desaguou num país altamente endividado, arruinado pela inflação e sem perspectivas. Depois veio a gestão civil e retornamos à democracia, não porque gostamos tanto da democracia, e sim porque a inflação batia em 80% ao mês e ela, a democracia, era a única coisa que não havia sido realmente tentada.

Não foi a polícia que deixou de investigar as contas de Fernando Henrique: foi a imprensa, as entidades civis, o Brasil. O motivo: as coisas estavam indo bem. A inflação tinha sido debelada, o governo se retirava da produção e dos serviços, havia espaço para trabalhar e perspectiva de crescimento. Ninguém tinha interesse em desestabilizar um governo que estava tirando o país do buraco.

O Brasil não investigou o governo Lula, nem na primeira como na segunda gestão, quando já se desenhava bem o cenário da corrupção galopante e do aparelhamento do Estado. O motivo é que as coisas continuavam indo bem: o Brasil finalmente crescia e o povo estava satisfeito porque podia comprar iogurte, geladeira e TV no supermercado.

O brasileiro não se importa tanto com a ética na política; ao menos, tanto quanto se importa com o seu bolso. Se o PT tivesse roubado mais discretamente, em lugar de promover o tsunami que praticamente quebrou o Estado, e o país continuasse em crescimento, ninguém estaria falando em impeachment da presidente. Ocorre que a corrupção, quando não se cortam os braços, estende tentáculos de polvo. E isso contribuiu pesadamente para a crise abrupta e profunda que já está aí.

Além de não ver a importância da ética na política, o problema do Brasil é essa crise, surgida justamente pelo fato de não termos cuidado da ética lá atrás. Ela não será pequena, nem breve. Durante alguns anos, o governo teve a chance de aproveitar seu bom momento para plantar as bases do crescimento sustentado. Um modelo não alimentado somente pela transferência de renda, na forma da taxação da classe média em favor da chamada classe C. Como foi essa política de renda populista da era petista, na forma de um mensalinho para os mais pobres,

Nos dois mandatos de Lula e no primeiro de Dilma, o PT no governo deu dinheiro aos ricos e esmola aos pobres. Manteve a elite e o povo satisfeitos, mas não plantou as bases para o progresso duradouro. Com o esgotamento do modelo, os ricos deixaram de ganhar e vêem a volta atrás como cenário. Os pobres já olham preocupados para a inflação que corrói o pouco que avançaram. E a classe média urbana espoliada já está louca com esse governo há muito tempo. O cenário completo para o apoio incondicional e geral ao impeachment.

Pode-se mudar Dilma de lugar, mas a questão é: mudar para o quê? É tarde, mas as reformas estruturais ainda estão por fazer  A maior delas no momento é o reenquadramento do Estado, seu desinchamento, para que volte a ser operacional. Isso no primeiro instante significa mais crise econômica, pela retirada do Estado como agente alimentador da renda e do mercado.

Com o tempo, porém, o Estado poderá recuperar sua capacidade de investimento, para investir no que realmente lhe cabe, que é a verdadeira promoção social. Em especial, em educação, que realmente dá igualdade de oportunidade para todos e faz alguém mudar de vida, com um novo patamar de renda. Somente com a qualificação o cidadão dá o salto desejado na sua vida.

Educação é um processo de longo prazo, capaz de levar um país a outro estágio de desenvolvimento. O trabalhador qualificado, o empresário bem formado e o cientista e pesquisador são os elementos que colocam um país no primeiro mundo, e não um governo demagogo, corrupto e perdulário.

Com a qualificação, o valor agregado do produto aumenta, a produção também, e por conseguinte a renda cresce. Perdemos doze anos nessa direção. Levaremos outros doze se começarmos agora.

O Brasil é um país imediatista, que não planeja e vive de sucessos a curto prazo. Por isso, está destinado a viver em ciclos de progresso alternado com grandes abismos. Um planejamento de quinze anos, que deveria ser seguido em linhas gerais mesmo com a troca de governo, como acontece em países como a Alemanha, é essencial para qualquer partido que deseja fazer uma plataforma eficaz de governo com vistas ao progresso para o país. E para isso deve funcionar por regras transparentes, porque a corrupção não somente esgota os recursos do governo, como mina a confiança do empresário, do investidor e do cidadão, instaurando as leis da máfia como regra.

Esse planejamento deve ser da economia, da infra-estrutura, dos transportes, das comunicações, da tecnologia, do meio ambiente, da educação. Só com um trabalho coerente de cada área e de seu conjunto ao longo do tempo se pode fazer um Brasil à altura do que queremos. Sem os espasmos que parecem ameaçar a única coisa de bom que realmente fizemos nas últimas décadas: a democracia, capaz de dar ao povo o poder de depurar a política, mudar e melhorar um país.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A influência do índio no Brasil - de hoje

Um antigo companheiro da revista Veja, amigo de longa data, assiste à minha entrevista ao Jô Soares, e manda pelo Facebook uma pergunta com aquela pimentinha típica: "Só não entendi essa história de 'como o índio entrou no brasileiro'. "

E a resposta está na sua própria pergunta.

Realmente nós, brasileiros, temos uma enorme dificuldade de comprender como a sociedade brasileira incorporou o índio. Para nós, o povo massacrado pelos portugueses no Século XVI é uma coisa do passado, e hoje se resume àquela gente que sobrou, circunscrita aos recônditos da Amazônia ou ao Parque Nacional do Xingu, a célebre reserva indígena criada pelos irmãos Villas-Boas. Nada portanto a ver conosco.

O fato, porém, é que ó índio está no nosso DNA, como bem mostra A Conquista do Brasil, onde está claro o esforço não só para exterminar o índio como apagar os vestígios de sua influência. Apesar do empenho do colonizador imperialista e sanguinário em exterminar aquela gente insubmissa, o índio não contribuiu apenas com os nomes de lugares, ruas e cidades por todo o país. Sua cultura e seu comportamento estão arraigados na sociedade brasileira. De uma forma tão profunda que nem chegamos a perceber, porque já é quase impossível dissociá-la da nossa personalidade como Nação.

Como mostra a malícia da pergunta do amigo, o  brasileiro gosta de fazer pouco das coisas, de desvalorizá-las, de falar mal dos outros. Isso chega a extremos. Quando morre alguém conhecido, ou há alguma crise, no instante seguinte o brasileiro está fazendo piada. Esse é um comportamento típico do índio brasileiro. Não respeitamos nem gente que morre em desastre aéreo.

Assim como o índio, o brasileiro não gosta de autoridade. Nas sociedades indígenas, incluindo aquelas que os portugueses encontraram no Brasil ao desembarcar, o chefe é um servidor da comunidade e na realidade tinha pouco poder. Para os índios, o chefe servia para lhes dar presentes. E nem por isso lhes deviam servidão ou sequer reconhecimento. Uma atitude muito típica do brasileiro, que quer que o governo proveja tudo, mas está sempre pouco disposto a colaborar.


Os índios eram uma sociedade de subsistência, que viviam na abundância e não viam sentido em acumular riqueza nem planejar  o futuro. O brasileiro não planeja o futuro. Isso tem consequências em todos os planos. O brasileiro quer comprar uma geladeira e uma TV de última geração assim que recebe um dinheiro, mas não guarda recursos para a aposentadoria, como fazem outros povos, dos Estados Unidos ao Japão. De maneira geral, o brasileiro é consumista e imediatista.  Junta para o dia. Há algo do índio aí.

O índio não tem responsabilidade com as coisas. Faz coisas graves como se não tivessem efeito. Pode matar um ser humano e em seguida sair dando risada, como testemunha muita gente, incluindo os próprios irmãos Villas-Boas, no seu livro A Marcha para o Oeste. Assim como o índio, o brasileiro é inconsequente. Estes dias em que nos deparamos com os bilhões roubados da Petrobras e de outros estamentos da administração federal, nos perguntamos como alguém pode ser inconsequente a ponto de achar que ninguém descobriria uma roubalheira desse tamanho, maior que o PIB de muitos países, capaz de levar estatais à bancarrota e à falência de toda a administração pública. É nossa mentalidade silvícola na gestão pública.

A corrupção não é um problema do governo, é da sociedade que a permite. Ela se instala de forma generalizada e custa a deixar o nosso dia a dia porque está enraizada. Contagia a todos, do alto escalão da administração federal ao fiscal de rua. No setor privado, desce do capitão de indústria, que concorda em pagar propina para obter preferência na obra pública, até o cidadão que ultrapassa o outro na fila, trafega pelo acostamento para evitar o engarrafamento ou tenta dar o célebre "jeitinho", sempre alguma forma de se livrar dos pequenos regulamentos que põe ordem ao dia a dia.

Isso é resultado da porção silvícola em nossas veias, em nosso comportamento, em nossa sociedade. Gostamos de ver o lado bom da nossa porção indígena, que ajudou o brasileiro a ser um povo alegre, que enfrenta as dificuldades com certa leveza, que não se preocupa tanto e consegue ser mais flexível e tolerante com regras e pessoas. Porém, não gostamos de olhar para o lado negativo desse mesmo comportamento, que nos leva a ser uma sociedade desorganizada, propensa à corrupção, à falta de planejamento e que gosta de criticar a si mesma sem se corrigir de fato.

A melhor maneira de melhorar é entendermos a nós mesmos, sem receio de olhar para  nossas mazelas. Ao fazer um mergulho no passado, A Conquista do Brasil propicia também o exercício de psicanálise de uma Nação, trazendo do berço seus traumas e características. Somente essa terapia pode nos ajudar a entender cada um que cria o país adulto de hoje e trabalhar de forma coerente para melhorá-lo.



A Conquistado Brasil: entrevista a Jô Soares

http://globotv.globo.com/rede-globo/programa-do-jo/v/jo-soares-entrevista-o-jornalista-e-escritor-thales-guaracy/4375541/

terça-feira, 28 de julho de 2015

A cultura do apedrejamento


Quando a gente publica um livro ou faz qualquer coisa que seja pública tem de estar preparado para tudo. Há os amigos, os fãs, os leitores que podem gostar ou não, assim como há também um tipo de gente raivosa que gosta de atingir os outros, uma raiva aparentemente gratuita. Estava demorando, mas outro dia apareceu um desses na Amazon, fazendo um comentário sobre A Conquista do Brasil, usando porém o livro para me ofender, sabe-se lá o motivo. Depois o post foi retirado, creio que pelo próprio autor, mas ele dizia em palavras bem baixas, resumindo, que ler o livro era perda de tempo e eu sou um zero à esquerda.

Ninguém faz mal aos outros de propósito, acredito, e menos provavelmente se faz mal a gente que nem se conhece, mas parece que há pessoas que se comprazem em atacar os outros gratuitamente, talvez para descarregar seus complexos. O rancor do leitor desconhecido é da mesma categoria que tem como maiores vítimas o presidente da República, o técnico e o juiz de futebol. E agora também o jornalista, que anda recebendo sua cota parte da hidrofobia alheia.

Mais recentemente, quando aceitei o desafio de dirigir a revista Playboy num momento já muito crítico das finanças da publicação, sofri bastante recebendo mensagens ou lendo coisas de "leitores" aos quais eu nem podia responder, porque a gente precisa manter a compostura, do cidadão e do profissional. Cansei de ler barbaridades que deixariam qualquer um abismado, só por estar num lugar de visibilidade para os apedrejadores randômicos. Me xingavam, me chamavam de burro, faziam acusações obscenas, me denegriam. Ao mesmo tempo, exigiam que eu escutasse a eles, blogueiros, como se fosse não um funcionário da Editora Abril, mas um criado deles, que se arvoravam o papel de representantes dos leitores. E faziam demandas irrealizáveis, do tipo "se o Corinthians não contratar o Neymar é porquesão todos uns idiotas". Sem conhecer nada, especialmente a realidade, a situação, e sobretudo a pessoa.

Ao chegar, tive de saída que demitir metade dos profissionais da redação para acertar as contas da publicação, algo que já é muito desgastante, não só para quem sai, como para quem fica. Precisava fazer uma revista melhor, que vendesse mais, num mercado declinante, com metade do dinheiro e do pessoal. Tive que diminuir drasticamente o cachê das mulheres que posavam para a revista, com uma dificuldade e um desgaste enormes de convencimento . Conseguimos algo: tivemos novamente repercussão, Playboy teve ótimos resultados para o momento, com as melhores vendas em muito tempo e ganhou uma sobrevida, num momento em que a própria empresa já ia anunciando o seu fim. Mesmo assim, fui tratado por alguns blogueiros e afins como se fosse mais um culpado pela decadência da publicação que dizem amar. Coloco "dizem" porque esses eram os mesmos que faturavam em cima de notícias sobre Playboy e pirateavam as fotos da revista, e dessa forma eram muito mais responsáveis pelas suas dificuldades do que seus salvadores.

Em Playboy, passei a sentir na pele como vivem os profissionais de futebol, como Muricy Ramalho, com seu propalado mau humor, fama que o acompanha muito por conta do tratamento ríspido que ele dispensa aos jornalistas. Conheço Muricy pessoalmente, é uma pessoa alegre e amável. Mas é submetido diariamente à crítica, muitas vezes irracional, tanto de torcedores quanto da própria imprensa. Isso acaba envenenando o ser humano, por melhor que seja, ainda mais alguém sensível, como ele - Muricy é uma pessoa amorosa, afetiva, e que, mesmo sendo reconhecidamente um vencedor, sente a necessidade de criar uma carapaça para sobreviver ao veneno destilado ao seu redor.

Esse aprendizado reforçou em mim uma convicção. Eu já fui duro como crítico de futebol, mas revi minha postura. Não falo mal de técnico de futebol. Não acho que todo mundo tem obrigação de ganhar. Entendo a paixão clubística, mas acho que ela não está acima do respeito às pessoas. Campeão só tem um. Se não soubermos reconhecer o mérito também dos outros, praticamente ninguém tem valor.

Esse é o defeito maior da sociedade americana, que cultua a divisão do mundo entre os célebres "loosers" e "winners". Como os "winners" são poucos, gera-se uma sociedade de perdedores, ou que se acham perdedores. Com isso, cria-se a animosidade geral e um clima de guerra em que sobretudo os homens vão se tornando profundamentes infelizes, rancorosos e amargurados. E projetam seu fracasso nos outros, exigindo que vençam por eles, para se sentirem menos mal.

Falar mal dos outros, como dono da razão e da moral, parece ser uma atitude muito típica do brasileiro. Para o brasileiro, mais até do que para o americano, só presta o vencedor. E muitos acham que a rede social é como futebol, em que o torcedor já vai para o estádio preparado para xingar o juiz, chamar o técnico de burro e coisas piores sem consequência. E todo mundo acha isso normal.

O mesmo se pode dizer de boa parte dos críticos no Brasil - e falo dos criticos em geral, do futebol à literatura. Eles pensam pouco no esforço de quem produz e não valorizam o brasileiro produtivo. Com duas canetadas, querem provar sua superioridade sobre quem faz, sua inteligência superior. Falar mal é uma norma. A menos que se trate de uma celebridade já formada. Quando já existe o sucesso, o crítico demolidor se transforma num dócil gatinho. São dois lados de uma mesma postura acovardada: a truculência contra os "fracos" e a subserviência aos "fortes".

Eu acho que está na hora de combatermos a cultura do apedrejamento. Primeiro, porque a raiva causa mais mal a quem a sente. O perdão não é feito para quem recebe, e sim para quem o dá. Este é o maior ensinamento das Escrituras. O perdão alivia o peso que a pessoa com raiva sente, com possíveis consequências para a própria saúde, já que não é possível alcançar o bem estar vivendo envenenado.

A raiva incubada no indivíduo se estende para toda a sociedade, que vai se tornando disfuncional, insatisfeita e, no limite, violenta. Hoje essa violência latente se propaga nas redes sociais, tem se manifestado na violência das ruas e me dá a impressão de que vivemos num caldeirão de ressentimento e intolerância: enquanto a tecnologia avança para o futuro, em mentalidade a Humanidade continua a mesma da Idade da Pedra, com a diferença de que o barbarismo agora é manifesto e catalputado pelos novos meios digitais e em tempo real. É como colocar metralhadoras na mão dos guerrilheiros tribais africanos. Eles continuam tribais, só que agora matam muito mais do que no tempo em que tinham apenas um chuço.

Eu preferia que o post rancoroso estivesse lá, na Amazon. Não só porque ele não me preocupa, nem por falta de comentários elogiosos. Há um impressionante boca a boca a favor do livro que, já em reimpressão, é um sucesso de vendas. É que sou do tipo que acha que nos definimos mais pelos inimigos do que pelos amigos. Eles mostram quem somos. Eles nos dão força. O post do meu desafeto involuntário falava mal, na verdade, dele mesmo. Acho que ele percebeu, e por isso retirou o que escreveu.

A raiva, o ressentimento e a intolerância se tornaram doenças contemporâneas. O remédio não é a repressão, porque não há como ser contra a liberdade, ao menos a de expressão. Pode-se impedir um sujeito de sair nas ruas jogando coquetéis molotov, mas não se pode proibir os xiitas sociais de falarem o que pensam, por pior que seja. O que fazer? Pessoalmente, eu recebo elogio e crítica da mesma forma, agradecido, quando tudo é tratado com educação. E é com educação também que procuro neutralizar os cães ladradores. Eles nos lembram da necessidade da sobriedade e nos ajudam a passar adiante enquanto fazem seu barulho.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Kindl Direct publishing: vale a pena?

Aproveitei o concurso de contos da Amazon para conhecer melhor o Kindle Direct Publishing, o sistema de autopublicação da Amazon, que permite a qualquer pessoa publicar um texto na maior loja de livros virtuais do mundo, agora em funcionamento no Brasil. Usei para isso um conto de um futuro livro policial que pretendo lançar, com o título de O Profissional. Foi uma experiência muito interessante – especialmente para ajudar a entender como será possível vender livros no futuro próximo.
http://www.amazon.com/O-profissional-Portuguese-Thales-Guaracy-ebook/dp/B010QZISGG/ref=sr_1_fkmr0_1?ie=UTF8&qid=1436895143&sr=8-1-fkmr0&keywords=o+profisisonal+thales+guaracy
O prêmio, em si, não é lá essas coisas: você pode ganhar um Kindle e ver seu texto publicado no Jornal O Globo. O concurso claramente tem o propósito de dar algum estímulo ao maior número possível de pessoas para entrar no sistema. O regulamento favorece os não profissionais. O tamanho do texto é limitado a 6.000 caracteres com espaço – algo muito pequeno, mesmo para um conto. Mas o KDP realiza a mágica da Amazon – permite a qualquer um entrar no terreno antes habitado somente pelos escritores profissionais.
O teste do sistema apresenta algumas verdades e mentiras. A mentira é que autor fica com 70% do dinheiro da venda. Essa margem de direitos autorais vale apenas em vendas em países como a Rússia e o Japão. Onde interessa, especialmente o Brasil e os Estados Unidos, o autor fica com 30% do preço final do livro. Na editora Copacabana, pagamos ao autor 25% do preço de capa. Porém, o livro é publicado em todas as plataformas, e não somente na Amazon.
Essa é a maior limitação do KDP. Embora a Amazon seja a maior plataforma de venda de livros digitais, não é a única. Pela minha experiência como editor digital, o Google hoje vem em segundo lugar, graças aos mecanismos de busca, que jogam leitores também para a compra do livro. Em terceiro, está a Saraiva. A Apple Store, que foi tão bem com a música, se mostra menos eficaz quando se trata de livros. Fica em quarto lugar.
A vantagem do KDP é que é muito simples. Qualquer um pode fazer uma capa, preencher os metadados, subir o texto e ter o livro no ar em até 48 horas. Não há regra para o tamanho da obra: em tese, você pode publicar uma capa para um simples haikai. O cenário que se coloca é que hoje qualquer um pode publicar o “seu livro”. Isso tende a promover uma grande reviravolta do mercado.
A facilidade de autopublicação permite que uma geração de jovens autores, que sabem se mexer melhor no meio virtual que os velhos medalhões do meio impresso, ganhem espaço pelo simples fato de ocupá-lo. O padrão de qualidade se tornará menos exigente. Como o livro digital é produzido mais rápido e consumido também mais rápido, é certo que o mercado do livro digital não apresentará obras da mesma qualidade que o do livro impresso, produto no qual se trabalhava muito mais até estar em condições de publicação.
As editoras se tornarão certamente menos importantes. Hoje acredita-se que a queda na venda de livros impressos não se deve ao livro digital, já que ela acontece sem que as vendas digitais cresçam substancialmente. Porém, é evidente que o mercado do livro impresso tende a encolher ainda mais e cada vez mais rapidamente. A lógica indica que no futuro será muito mais fácil comprar um livro digital a preço baixo que aguardar um livro impresso a preço bem mais alto. E as editoras convencionais têm a mesma dificuldade de se tornarem “virtuais” quanto outras empresas convencionais que hoje sofrem a concorrência da internet.
 As editoras terão dificuldade de sustentar o seu catálogo num mundo em que autores podem ganhar mais se virando sozinhos. E lançando produtos a preços mais competitivos do que os do velho mundo. Por enquanto, elas têm procurado se agrupar, para engrossar seu catálogo e manter a massa de vendas, capaz de compensar a queda geral do mercado. Porém, esse jogo defensivo tende a ser um buraco negro, com uma editora engolindo a outra até que no final pouco restará para a autofagia.
Para os autores, o futuro não promete ser mais risonho. É muito difícil ser notado na Amazon, embora a própria Amazon coloque como atrativo sua capacidade de cruzar autores, títulos e informações como uma ferramenta poderosa de venda. A infinidade de títulos faz com que o livro digital mergulhe numa verdadeira bacia das almas. O leitor pode escolher o que quiser, mas já não será tão fácil saber o que é bom, nem fazer grandes sucessos. Como em tudo, o que determinará a venda é a capacidade do autor de construir uma rede pessoal de alcance global.
Em definitivo, a chave para vender livros, como a maioria dos produtos, já não está mais nos meios convencionais de marketing, como resenhas em revistas e jornais. Nem no espaço real das livrarias, onde se tomava conhecimento dos lançamentos por aquilo que se encontrava nas prateleiras. A disputa pela atenção do leitor e a venda se trava no terreno virtual., E é o que abastece os cofres bilionários de empresas como o Google e o Facebook. Autores contemporâneos tendem a desaparecer se não investirem nesse caminho. E autores clássicos tendem a integrar as prateleiras a custo zero, isto é, sem nenhum ganho para um editor.
Com o selo Copacabana (www.editoracopacabana.com.br), tenho procurado investir numa empresa que está entre a autopublicação e uma editora convencional. Para o autor, o ganho é semelhante ao da autopublicação. Com a vantagem de que o livro pode ser publicado em todas as plataformas, inclusive a própria Amazon. Ainda assim, a venda dependerá cada vez menos da editora e mais do próprio autor. A editora será cada vez mais uma parceira, dando acesso ao mercado, para que o próprio autor possa se vender. Por isso, a editora não atua mais como um filtro para a entrada no mercado, e sim como um facilitador.

terça-feira, 7 de julho de 2015

O estilo no seu estado mais elementar - e belo

"Privado", de Jairo Goldflus - ou um fotógrafo, o nu e um duplo mortal carpado




Especialista em retratar moda e celebridades usando a moda, Jairo Goldflus sempre disse que tinha dois bloqueios: fazer um livro e registrar mulheres nuas. O receio de fazer um livro ele me revelou quando fez o primeiro, Público, para o qual escrevi uma breve apresentação. O outro receio, de fotografar mulheres nuas, ele confessou no restaurante Maní, em São Paulo, num almoço em que o procurei para colaborar comigo, quando assumi a responsabilidade de editar a revista Playboy no Brasil.

Seu pé atrás se explica. Antes de mais nada, Jairo é um perfeccionista. A possibilidade de fazer algo abaixo de suas próprias expectativas faz um terreno novo, talvez oposto ao que teoricamente seja o seu trabalho da vida inteira, ser um campo minado. Porém, Jairo tem uma qualidade excepcional. Ele assume seu medo. No final, vai atrás do que tem medo. Enfrenta o campo minado. Passa por ele, não sabemos se com uma explosão ou outra. E sai do outro lado impecável, com sua blusa preta e tênis All Star coloridos.

Agora, Jairo pegou o desafio duplo, da mesma forma que um ginasta tenta pela primeira vez o duplo mortal carpado: fazer um livro novo - e de nus. O título: "Privado". Já seria uma boa ideia, em contraste com o "Público", mas Jairo testou o perfeccionismo, e a iniciativa de desafiar territórios antes proibidos, como a alma da  criação. O homem retrata o nu desde os tempos das cavernas e essa história já passou pela escultura grega clássica e o renascentismo, até chegar aos grandes fotógrafos contemporâneos. Como fazer algo novo? Como mostrar algo que ninguém viu?

Não importa se os objetos da lente de Jairo são celebridades, gente rara da qual ele se aproxima pelo trabalho em revistas de estilo de vida. Quando uma mulher está nua, celebridade ou não, se reduz à natureza elementar. E a resposta para o novo, para a beleza inédita, é o ponto de vista muito pessoal de Jairo: a diferença está no olho, na maneira de ver, na interpretação do nu. Ao lançar o foco sobre a mulher, Jairo eliminou tudo o mais. A roupa. O cenário. Trabalhou apenas com o fundo infinito. Em preto e branco. O que se vê é apenas, e realmente: a mulher. Como ele a vê.

A técnica, a inspiração, aquilo que fez dele uma dos fotógrafos de estilo mais respeitados do país, celebram agora uma beleza anterior, desmascarada de tudo, especialmente daquilo que aparentemente sempre foi o foco de seu trabalho: a roupa. Jairo mostra agora que a moda, na realidade, não é nada senão a extensão de quem a veste. O estilo, ou melhor, a beleza, já estão lá. No seu estado estado mais elementar. E belo. Ao tirar a roupa de suas modelos, Jairo continua fazendo a mesma coisa. Igual. Talvez, melhor.