segunda-feira, 6 de maio de 2013

Escritos com o tempo

Certa vez, há muito tempo, visitei o escritor Luis Fernando Veríssimo em sua casa no bairro de Petrópolis, em Porto Alegre. A conversa, em si, foi muito desinteressante; embora seja muito produtivo e divertido quando escreve, Veríssimo é pessoalmente um sujeito lacônico - o encontro não durou mais que quinze minutos, por falta de assunto. Entrar na casa dele, porém, foi algo fascinante. Eu tinha a sensação de que a conhecia - e, aos poucos, entendi que a conhecia mesmo.

Trata-se da mesma casa onde morou seu pai, Erico, que o filho deixara exatamente como estava, e é descrita num livro de memórias que já foi publicado com dois títulos diferentes: Solo de Clarineta, ou O Homem no Espelho. Lá, Erico vai falando de como cada livro lhe permitia comprar algo para a casa. Cada peça da mobília representava um livro; quando olhava para o sofá, a cômoda, os tapetes, ia vendo... Clarissa, Olhai os Lírios do Campo...

Os objetos contam também uma história, ainda mais aqueles que nos permitem escrever os livros, e com os livros refletir sobre a vida - além, claro, de pagar as contas. Estou mudando de casa, e na mudança me dei conta de que guardei a maioria das máquinas de escrever com que trabalhei. Vou colocando as peças lado a lado, agora em cima de uma nova estante, e vejo um filme; cada uma vai contando a história de algum livro que escrevi e de um tempo que vivi. A cada máquina, um livro; a cada livro, um pedaço de memória, da minha vida e de uma época. São também um retrato da extraordinária evolução do próprio próprio instrumento da escrita, desde a velha máquina de escrever ao laptop contemporâneo. Minha sensação é de que a vida vai virando história. O tempo é vertiginoso; que esforço enorme de trabalho em meio a tantas mudanças!

Tiro a poeira que recobre a capa da Olivetti-Underwood Studio 44, a primeira máquina em que escrevi. Lembro da sensação de trabalhar nela, do orgulho; sonhava com ela desde menino, quando entrava no escritório de meu pai, enfumaçado por horas por seu cachimbo recheado do fumo achocolatado que incensava o lugar. Eu navegava entre as brumas até encontrá-lo, guiado apenas pelo tacleteclaque familiar que vinha da mesa onde ele trabalhava. Meu pai escrevia, sozinho, na sua neblina; essa lembrança me acompanhou quando comecei a transcrever na sua Studio, aos 17 anos de idade, as gravações das histórias que meu avô contava, e que, mais tarde, eu transformaria em meu primeiro romance, Filho da Terra.

Desenhada por um arquiteto, o italiano Marcello Nizzoli, com o engenheiro Giuseppe Beccio, a Studio 44 era fabricada em Barcelona, na Espanha. Tinha qualidades incomparáveis; era uma máquina de design harmonioso, com linhas que carregam a personalidade dos anos 1960, a última década realmente classuda da História; era pesada o suficiente para se manter firme na mesa, com teclas que pareciam impulsionadas por algo além dos dedos: um conjunto com o equilíbrio perfeito para se escrever.

Como lembrança, guardo ainda algumas páginas originais de Filhos da Terra, um livro que levaria sete anos para ser concluído. Comecei a escrevê-lo ainda na casa de meu pai, na mesma máquina que ele usava. Eu o terminaria em outras máquinas, quando já morava sozinho, mas compraria para mim, já numa loja de antiguidades, uma Olivetti igual.

Mesmo no tempo da máquina de escrever, eu já gostava da ideia de pode escrever em qualquer lugar. Admirava por isso Jack London, que dizia que o escritor é o único trabalhador a levar o "escritório embaixo do chapéu". Na verdade, aonde ele ia, seguia atrás seu fiel criado, o japonês Nakato, carregando a máquina de escrever do patrão. Sem poder me dar a esse luxo, antes de chegar ao lap top, ainda experimentei a Olivetti Lettera 82, cópia da Hermes Baby, com o mesmo design, menor e mais leve que a Studio: foi a primeira máquina de escrever realmente portátil.

O que parecia uma vantagem, porém, era o seu maior defeito; suas teclas não tinham força para bater no papel e o carro era tão leve que o conjunto pulava sobre na mesa, dificultando o trabalho. Foi lançada em 1983, e tentei fazer nela alguns trechos de Filhos da Terra, mas não rendia muito; assim, voltei à velha Studio 44, onde escreveria a segunda versão do texto, já convertido de mera transcrição das fitas de meu avô em um verdadeiro romance.



Passei então a uma Olivetti Praxis 20, animado com a ideia das máquinas elétricas, que pareciam um grande avanço sobre as mecânicas; as teclas eram mais suaves e acreditei que com isso escreveria mais rápido. Escaldado pelo meu primeiro romance, que anunciara um autor caudaloso, ueria algo que tornasse menos cansativas as horas e dias e semanas a fio de trabalho. Era uma máquina pesada como uma bigorna, e na realidade não representava real avanço sobre a velha e charmosa Studio 44, que recuperou novamente seu lugar.



A era que precedeu o computador foi bastante experimental; comprei, ainda, uma invenção de pouca duração, que hoje pode ser considerada uma raridade de museu: uma Panasonic Thermalwriter KX-W50TH, máquina que escrevia com raios de calor. Apresentava até 15 caracteres na tela de LCD, que podiam ser corrigidos antes de passarem para o papel. Imprimia o texto em papel sensível à luz, como o do fax. Logo se relevou inviável, porque o papel de fax era caro, e incômodo: vinha enrolado e se prestava, no máximo, a escrever bilhetes. Abandonei-a rapidamente, deixando-a quase sem uso; hoje é uma espécie de mosca branca da coleção.



Terminei de fato Filhos da Terra já na era do computador; um desktop montado no Brasil com peças importadas e marca balão que se tornou velharia pouco tempo depois de ser montado. E depois, numa Toshiba 1.000, o Fusca dos primeiros laptops. Quase não tinha memória interna; na tela negra funcionava o antigo sistema DOS, pré-história das telas contemporâneas com sistema Windows. Ele se desvalorizaria tão rápido e tanto que um amigo, ao colocá-lo à venda pela seção de classificados de um jornal, receberia em troca, como a melhor oferta, uma gaiola de passarinho. O meu deve ter ido para o lixo, desfalcando assim o meu acervo de uma peça fundamental.

Meu livro seguinte de ficção, A Quinta Estação, de 2003, foi escrito num já "ultramoderno" Canon Innova Boook 10C. Tinha um processador Intel de 33 MHZ, 170 Mega no HD, 4 Mega de RAM e, espetacular para a época, tela colorida. Além de ser pequeno e prático, apresentava uma grande novidade - foi o primeiro a ter Mouse embutivo no teclado, uma bolinha do tamanho da unha. Quase não possuía memória interna - ela ficava num disco externo. Seria o precursor do Compaq aonde eu escreveria o Sonho Brasileiro e terminaria gloriosamente Amor e Tempestade.



As máquinas de escrever possuem um estranho poder. É como se tivessem um pouco de vida própria; nos conectamos a elas, como um amigo ou parceiro que escreve junto com a gente; é como se lhe devessemos algum crédito pela obra concluída. Lembro das horas em que escrevia no Compaq, em pé, no quarto do apartamento onde morava em Nova York; eu tinha fortes dores nas costas, depois de meses de trabalho, e já não podia me sentar; fiquei tanto tempo olhando para aquela máquina que provavelmente é a coisa para a qual mais olhei na vida; só podia me enamorar. Não consigo achá-lo, como acontece com um amor perdido, e ele me faz falta.

Claro que a mágica da escrita se realiza dentro da nossa cabeça; é confortador, porém, pensar que há uma máquina capaz de nos ajudar. Hoje escrevo meu próximo livro num laptop Toshiba, que comprei há cerca de 6 anos, quando ainda morava nos Estados Unidos; trata-se de uma evolução miraculosa do Toshibinha que valia uma gaiola de passarinho, embora eu saiba que já padece de uma certa caduquice tecnológica. É bom trabalhar numa máquina com a qual temos familiaridade, como uma calça velha e sapatos confortáveis. Cato milho, como se dizia antigamente, quer dizer, escrevo com apenas quatro dedos; sou escritor, e não datilógrafo. A máquina, porém, favorece o trabalho; é relativamente pesada para um computador portátil, e suave ao teclar. A máquina de escrever ganhou infinitas outras funções com a tecnologia, mas para mim o que importa ali é o milagre básico, que ainda se realiza todos os dias, quando sentamos, eu e ela, na solidão que só nós conhecemos tão bem.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Caminhando com as estrelas


Há alguns anos, sentado na mesa do bar São Cristóvão, em São Paulo, meu pai disse que gostaria de fazer a caminhada de Compostela, aquela mesma, celebrizada por escritor Paulo Coelho, e que virou uma espécie de clichê da paregrinação nos últimos anos. Como sempre, meu pai fizera o convite daquela forma ("eu vou, quem quiser vai comigo"), eu sabendo que o "quem quiser" era comigo. Passamos uma porção de tempo planejando a viagem, mas, por motivos que eram dele, aquilo era sempre adiado.

Isso resultou num romance, publicado em 2007 pela Editora Globo, chamado Campo de Estrelas. Contava a história de um "publicitário", recém saído da luta contra um tumor na bexiga, que encontra o pai num bar e planeja, por sugestão do pai, a viagem a Compostela. O livro acaba e a viagem nunca acontece. É lembrada uma outra viagem, que realmente fiz com meu pai aos 16 anos, quando ele estava na idade que tenho hoje, 48. Foi uma jornada que fizemos de São Paulo a macchu Picchu, or terra, uma aventura de adolesc~encia, inesquecível para ambos. No livro, como na vida real, a caminhada de Compostela, mesmo, não acontece. Mas o que acontece entre os dois, pai e filho, é que é o importante.

Em outubro passado, meu pai voltou com a ideia de andar para Compostela. As circunstâncias eram semelhantes, mas ao contrário. Dois anos atrás, foi ele a ter um tumor na bexiga. Durante um ano, urinara sangue sem que os médicos lhe dessem uma razão, muito menos a cura. Levei-o a um dos médicos que trataram de mim, anos atrás. Por sorte, meu pai também pôde se curar. Se antes o filho é que saíra de um momento delicado, agora era a vez do pai. Ele disse que agora a caminhada ia acontecer, não importava como. E marcamos uma data para a partida, que se tornou sagrada: hoje.

Entre Campo de Estrelas, o romance, e a viagem de verdade, que começa agora, muita coisa aconteceu. O médico que cuidou de mim quando eu estava doente, Eric Wroclavski, faleceu. Foi vítima do mal que travata: um tumor na próstata, que ele descobriu, por ironia do destino, tarde demais. Não revelou a ninguém que estava doente. Descobriu estar desengandado ao mesmo tempo em que eu descobrira meu polipozinho. Naquele tempo, ele me dissera: "Você tem sorte". Eu não entendia como podia ter sorte com uma notícia daquelas. Hoje, relendo aquele encontro, sei que ele dizia isso porque ele, Eric, não recebera do destino a mesma oportunidade. "Você descobriu a dopença em tempo de se curar", disse ele.

Fui ao hospital visitar Eric, quando ele estava já na fase terminal da doença. Levei, comigo, Campo de Estrelas, onde ele é identificado pelo segundo nome - Roger. Li para ele as partes do livro em que aparece. Preso à cama, sem poder se mexer, reviu nossas conversas, que não eram de médico e paciente, mas de amigos, um procurando ajudar ao outro - eu, sem saber por que ele queria saber tanto de mim, onde buscava também força, por rumar mais rapidamente para a morte. Ao me despedir no hospital, sem saber o que dizer, talvez, ou resultado da confusão mental em que que nos deixa a angústia, fiz uma declaração absurda: "Médicos não salvam ninguém para sempre", disse eu, e apontei o romance deixado na cabeceira do leito hospitalar. "Eu é que salvo."

Depois de Campo de Estrelas, eu me casei, tive um filho, que hoje tem seis anos, escrevi mais um romance, Amor e tempestade, fui editor de livros, mudei novamente de trabalho, me separei, comecei há apenas um mês num novo emprego. Ao ser convidado para o novo trabalho, avisei que precisaria me ausentar a partir de hoje, por duas semanas - um compromisso sagrado. Meu pai diz que a caminhada tem de ser agora e nunca mais, pois se aproxima dos 80 anos - embora permaneça com um vigor impressionante, até ele sabe que não será sempre assim. Não penso em reviver a minha viagem com ele de adolescência, nem em escrever outro romance, mas sei de uma coisa: a presença é insubstituível. Somos amigos. E, quem sabe, Campo de Estrelas terá uma continuação, se não literariamente, pelo menos na minha vida, e na dele também.

Minha vida está uma bagunça. Comprei uma casa, há uma semana. Vou deixá-la desmobiliada, com uma porção de coisas pendentes. Preparei os assuntos de trabalho como pude para poder me ausentar. Beijei meu filho longamente esta manhã, ao deixá-lo na escola. Gravei mensagens para ele, para minha mulher, e sentei para escrever estas linhas. Ao meio-dia, parto, deixando tudo para trás. Encontrarei meu pai no aeroporto. É bom pensar que, por alguns dias, seremos nós dois, novamente, sem endereço certo. Não fizemos grandes preparações, como sempre. Não há um roteiro pré-definido, não sabemos onde nos hospedar, temos pouco ou nenhum equipamento. Como diz meu pai, vamos andar por lá, olhar as estrelas, e ver o que acontece. E, depois, vamos voltar.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Quando o espelho fica feio



Há muitos anos, dei o sinal para a compra de uma casa, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Pertencia a uma viúva, que falecera e a deixara como herança para o filho, radicado nos Estados Unidos. A pessoa com quem eu tratara era o advogado do herdeiro, que recolheu o cheque - algo como 5 mil reais, em dinheiro de hoje, e me passou um recibo. Um levantamento nos cartórios, porém, revelou que havia uma pendência em relação ao imóvel. A empregada da viúva falecida alegava judicialmente que, por ter sido cuidadora nos últimos anos de vida da patroa, tinha direito à casa, que lhe teria sido deixada. Assim, achei melhor não concluir o negócio, que corria risco, e pedi o dinheiro do sinal de volta.

Pedi meu dinheiro de volta - e não o recebi. O advogado do herdeiro, de origem libanesa, alegava que o negócio ainda daria certo. Que eu esperasse para ver a solução do caso na Justiça, o que, como se sabe, pode levar anos. E entrei afinal na Justiça, isso sim, para reaver o dinheiro.

O tempo passou, a Justiça tarda, mas um dia acontece, e acabei por receber o dinheiro de volta, cobrado da pessoa a quem entreguei o cheque - o advogado libanês. Irritado com a demora da Justiça, e agindo como justiceiro, um ímpeto que às vezes me assalta, acatei a sugestão de minha advogada, que entrou com uma ação na OAB para cassar seu registro como advogado. A justificativa era evitar que, no exercício como advogado, ele viesse a lesar outras pessoas. Achava eu, um advogado não podia fazer aquele tipo de coisa.

O advogado foi cassado, uma notícia que me deu uma momentânea satisfação, que era de dever cumprido, talvez um pouco de vingança. E esqueci daquilo.

Cinco anos se passaram. Um dia, no trabalho, minha secretária avisou que uma senhora estava na porta da empresa, sem hora marcada. Era a mulher do advogado libanês e seu filho, que pediam para falar comigo. Concordei em recebê-la.

A senhora entrou na frente; tinha semblante aflito e trazia nas mãos uma pasta cheia de papéis. Atrás, o filho - um rapaz de seus vinte e poucos anos, olhar assustado. Sentaram na minha frente, na sala de reuniões. Então, ela começou a falar. Disse que o marido havia falecido, três anos antes; que ficara doente, porém, mais que tudo, vivera seus últimos anos amargurado por não poder trabalhar, uma vez que tinha perdido sua licença; e, mesmo depois de tanto tempo, e com o marido morto, queria me provar que ele não tivera culpa.

- O cheque estava com o herdeiro, nos Estados Unidos - ela disse. - Meu marido era honesto. Gostaria de lhe mostrar esses documentos, o senhor precisa conhecer a vida dele.

Passaram muitas coisas diante de mim - a figura arqueada do homem, seu nariz pronunciado, de onde saíam pelos escandalosamente longos; do paletó surrado, com cheiro de armário; e de como eu o tratara, com aquela gentileza formal de quem está interessado no negócio, e para isso tem de passar, necessariamente, por aquela pessoa. Pensei que, se fosse mesmo honesto, o advogado teria tentado recuperar o cheque, ou dizer que cobriria o cheque e depois cobraria do herdeiro; poderia ao menos não ter insistido para que eu concluísse o negócio, quando ambos sabíamos que isso seria arriscado e irregular e eu manifestara meu desejo de desfazê-lo. Porém, naquele momento, o que sobrava daquilo tudo era somente a viúva, de coração dilacerado, tentando provar a mim algo que ficara no passado.

Talvez ela quisesse explicar algo a si mesma, mais do que a mim; porém, talvez como uma vingança dos anos ruins que ajudaram a levar embora seu marido, quisesse que eu compreendesse algo sobre mim mesmo. E eu vi - vi o justiceiro, que quando já vencera uma disputa ainda pisoteara aquele que lhe fizera o mal; eu tinha ido longe demais, sem pensar nas consequências do que fazia para um ser humano, e não só a ele, mas aqueles que lhe eram caros.

Para mim, o negócio da casa ficara para trás; para a família do advogado libanês, durava até então; sobrevivera até mesmo à morte dele. E isso pesou.

O mal é feito de muitas formas - por raiva, fraqueza, inveja, soberba, orgulho, preconceito, ou, por vezes, escudado nas necessidades profissionais, por trás das quais está a desculpa da mera necessidade de sobrevivência. Muitas vezes, sim, fazemos o mal sem perceber. Mas outras, o mal passa na nossa frente, o enxergamos, e o cometemos mesmo assim, sem avaliar suas consequências. Mesmo a razão, quando passa das medidas, perde a razão; e a razão nunca pode desprezar o componente humano que há ou deveria haver nas nossas decisões.

Um simples gesto por mudar a vida das pessoas, para o bem ou para o mal. Muitas vezes sou surpreendido por uma pessoa, às vezes a mais inesperada, me agradecendo por algo que fiz de bom ou importante para ela, muito tempo atrás. É estranho, porque não lembro da maior parte dessas boas ações, o que me leva a pensar que na maioria das vezes fazemos o bem sem pensar. São aqueles gestos que nos custam pouco, e para nós são passageiros, mas por uma razão ou outra podem fazer muita diferença para melhor na vida de mais alguém.

Existe também o mal que fazemos sem perceber, mas também acaba, de uma forma ou outra, por se revelar. Assim como o bem que fizemos quase sem querer, ele também se apura com o tempo. Porém, entre o bem que fazemos, e o mal, o mal é o que fica conosco, o mal e que é mais difícil de olhar. De reconhecer. E de consertar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Quanto uma casa pode valer


Ernest Hemingway tinha uma casa em Key West, ilha na costa da Flórida, cercada por belos jardins, que se pode visitar hoje em dia, como a um museu. Ali, ao lado da piscina, há uma moedinha encravada no cimento, da qual se conta uma história. Ao construir a piscina, a primeira e única em sua época na ilha, encerrando a obra que lhe custara uma pequena fortuna, Hemingway tirou a moeda do bolso, quando o cimento ainda estava fresco. E a jogou ali, enquanto contemplava a obra. “Tome”, disse ele. “Leve também o meu último penny.”

Escritores têm uma relação forte com a casa, o ambiente onde juntam suas coisas e se recolhem num mundo próprio e caloroso, favorável à criação. Existe nisso uma certa paixão obsessiva, ou uma compulsão, porque, por mais que se gaste todo o dinheiro na “casa dos sonhos”, essa compulsão nunca termina – o escritor parace um eterno insatisfeito, como se, para receber novamente a energia que o levará a um livro novo, precisasse também de uma casa nova, de novos ares.

Assim como Picasso, Hemingway trocava de casas e mulheres a cada fase literária. Não deve ser coincidência. Sem ser nenhum Hemingway, muito menos Picasso, sei muito bem como é isso. Já me mudei várias vezes, e nem quando morava sozinho em uma casa grande, com piscina e palmeiras imperiais, me dava também por contente. Para escritores, casas são um pouco como livros: quando você completa um, está ávido, ou quase aflito, por escrever o seguinte. E o mundo ao redor tem de girar em função disso. A gente faz girar.

Pouca gente entende esse processo. Assim como poucos entendem o sacrifício que fazemos para escrever um livro, não entendem como podemos abandonar tudo aquilo que outros já acham muito bom e parecia definitivo para buscar algo diferente. Isso cria muitos problemas com as pessoas que convivem mais de perto. Tenho a sorte de ter encontrado uma mulher que aceita meus ímpetos e está disposta a embarcar comigo nessas reviravoltas impulsionadas pelo coração, sem pesar tanto os recursos e os aspectos práticos. Não que ela não seja pragmática, ao contrário. Mas tem as duas moedas no bolso: a do cérebro e a do coração.

Assim como não se olha o preço que pagamos para escrever um livro, que nos custa literalmente um pedaço da vida – meses de trabalho, muitas vezes sem saber se teremos retorno -, não olhamos também o preço que o sonho imobiliário pode custar. Fala mais o coração. A maioria das pessoas faz muitas contas e evitar gastos desnecessários, pechincha ou procura saber se o preço pedido por um imóvel é justo. Escritores, não. Pagam o preço que for, certos de que somente ali serão felizes. E quanto maior o preço, melhor. Significa que o vendedor dá alto valor àquilo que ele está vendendo. E esse julgamento é o que vale.

O preço de um imóvel, como muita gente diz, é o de mercado. Eu vejo no imóvel um outro valor: aquilo que ele representa para o proprietário. Muitas vezes, o dono de um imóvel joga o preço lá para cima por conta da dificuldade de se desligar do lugar onde passou momentos felizes ou onde abrigou seus sonhos por um período da vida. Esses lugares não têm preço.

Há dois meses, encontrei um homem que está se separando de sua casa. Pediu por ela um preço exorbitante, para o lugar, para o tamanho, para o mercado. Ali ele vivia com seus cães, com uma mulher que o abandonou, com o nascer do sol e o café da manhã no meio da mata. Está ficando cego, devido a uma isquemia.

Este homem vende sua casa como quem abandona a vida. Talvez ele imaginasse que nunca encontraria comprador para a casa, nas condições que impõe. Eu nunca penso muito no dinheiro, mas na vida: daqui a alguns anos, será na experiência vivida que estará o patrimônio, e não no dinheiro investido.

Caminhando pela propriedade, deparei-me com um canil, onde um cachorro cinzento saiu sem fazer barulho. “Ele está cego”, disse o funcionário que me acompanhava. O cão cego de um dono que está ficando cego. Pensei no futuro, quando eu também, velho ou doente, cego ou entrevado, terei de sair dali. Casas pedem muito da gente, dão trabalho, são uma alegria para a juventude. Ainda estou em tempo, penso, e minha vontade de viver a vida passa por cima de qualquer obstáculo bancário.

Sim, o homem cego achou o cliente que não queria. E só nós dois, o que vende e o que compra, sabemos o que está realmente acontecendo. Que ele fique com meu último centavo.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Os dez melhores filmes de todos os tempos

O cinema está tão perto da literatura que ambos para mim são uma coisa só: a arte de contar histórias escrevendo produz imagens, e as imagens para mim se tornam como referências literárias. Segue aqui a minha lista de filmes preferidos, que para mim vale como a lista dos dez melhores filmes de todos os tempos. Assim como a lista dos dez melhores livros, cada um deve ter a sua. Fica esta como inspiração.

1. Cidadão Kane. Pode parecer óbvio citar este que tantos consideram o melhor filme de todos os tempos, pela novidade narrativa (um filme de ficção feito como se fosse um documentário), a força elementar da ideia central (o significado de "Rosebud", somente revelado ao final), e sua ligação com a questão essencial da felicidade. Os clichês sempre têm um fundo de razão. O delírio de poder e dinheiro do milionário Kane, barão da imprensa, é confrontado com sua solidão final. A ironia é que o repórter em busca da resposta para o enigma de Kane jamais a encontra - ela fica como uma espécie de segredo reservado ao espectador.



2. Zabriskie Point. A obra prima de Antonioni, sobre um estudante que foge da polícia, encontra uma mulher no deserto e tem com ela um parênteses de amor, é uma elegia da liberdade. O final antológico ainda me faz palpitar o coração. O mundo sempre quer enquadrar o indivíduo, submetê-lo; nenhum outro filme representa tão bem a liberdade, nem mostra como ela está perto da paixão. Pelo tema, e também a estética, ele é também o expoente de uma geração marcada pelos movimentos de libertação, fosse contra as ditaduras que havia pelo mundo como dos costumes, desde a roupa ao Woman's Lib. Se querem saber como a geração de 1960 mudou o mundo, este filme mostra qual era a sua força interior.



3. O Esporte Favorito do Homem. Estrelado por Rock Hudson e Paula Prentiss, é uma deliciosa comédia sobre um expert de equipamento de pesca convidado por uma charmosa e desastrada marqueteira a participar de um torneio num lago turístico. Até mesmo eu não entendo bem o fascínio que esse filme exerce sobre mim, ainda mais sendo uma comédia aparentemente sem maiores pretensões. Acredito porém, que o motivo seja esse: ele é uma parábola irresistível sobre a inevitabilidade do amor, a conexão entre duas pessoas que aparentemente se detestam, e a natureza paradoxal da ligação entre homem e mulher, cujo encontro sempre parece ir além das coincidências, como uma prova da existência do destino. Isso contado sem nenhum intelectualismo, mas com a graça que deveria haver em todos os relacionamentos amorosos.



4. Blade Runner. Este é o filme que marcou minha geração; perdi a conta do número de vezes que o assisti, e sempre encontro nele alguma coisa de novo. Tenho certeza de que nem Ridley Scott se deu conta, quando o fez, da importância que esse filme teria; não é por acaso que tenha gerado tanta discussão ao longo dos anos. Persistem ainda duas montagens, uma feita pelo estúdio, no seu lançamento, outra que é chamada de "a versão do diretor". Eu gosto de ambas as versões, embora nos últimos anos tenha preferido a do diretor, que é mais sutil, e ao mesmo tempo mais abrupta e cruel. A ideia dos androides que adquirem sentimento e querem mais tempo para viver pode parecer um antigo clichê, mas a criação de um futuro onde o passado faz parte do cenário, do bairro chinês às bicicletas, o clima chuvoso de um planeta que se tornou inóspito, e sobretudo o personagem central, um detetive noir, fazem dele uma espécie de quebra cabeça cultural onde entretenimento puro e filosofia se fundem de um jeito que até parece natural. E é cheio de momentos antológicos, como o encontro do ciborgue assassino com seu criador, parábola de um encontro do Homem com Deus, sua declaração no momento da morte ("lágrimas na chuva") e a frase final que fecha o filme, de um impacto macabro que não fala somente ao personagem, mas a todos nós.



5. Os Embalos de Sábado À Noite. Clássico de um tipo de cinema considerado trash, foi um estrondoso sucesso de bilheteria e um fenômeno de massa em seu lançamento, que mudou o comportamento de toda uma geração. O que mais chamava a atenção eram os malabarismos de John Travolta ao som de Saturday Night Fever, mas o que o filme representava era a possibilidade de um sujeito comum e sem esperança de melhorar de vida e se tornar alguma coisa diferente - um nome com significado, por meio de um talento especial. Isso teve um impacto expressivo em todos aqueles garotos que viviam na periferia, como não mais que um número de RG. E que achavam que, como Tony Manero, poderiam sonhar com alguma coisa, numa época em que a sociedade de consumo de massa e a busca pelo hit alcançavam o seu auge. O figurino datado, a estética brega, os diálogos que hoje soam bisonhos retratam uma época que não existe mais; talvez esses sonhos de fama e riqueza também sejam hoje coisa do passado, ilusão passageira daqueles que, como eu, gostariam de recuperar esse tempo em que tudo era possível, até mesmo ser inocente.



6. O Cão Andaluz. Lembro quando vi o filme de Buñuel, quado ainda estava na faculdade, em uma sessão na Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo. O filme ainda causava escândalo, embora por razões diferentes das que provocara no seu lançamento. O gerente teve de vir à plateia irada, explicar que a projeção não havia sido interrompida de repente; para exasperação do público que reclamava seu dinheiro de volta, revelou que a obra prima do surrealismo tinha, de fato, apenas 20 minutos. Esse delírio que tanta gente buscou inutilmente explicar, onde Salvador Dali aparece puxando um burro morto dentro de um apartamento e um olho é cortado a navalha, numa sequência de cenas absurdas, foi feito para não ter sentido, ou para chocar; é uma provocação à imaginação, a ver diferente, a abandonar a necessidade humana de explicação para tudo; é uma elegia do caos universal, uma desconstrução do que sabemos. Por isso, mostra que a tarefa humana é desaprender, para entender melhor: nenhuma outra obra de criação tem esse peso intelectual, estético e histórico.



7. O Gabinete do Doutor Caligari. O impressionismo alemão nos deu essa pérola, que nos faz ver como podemos nos acostumar com a loucura; ao nos fazer entrar na realidade do louco, ao ponto de parecer a normalidade, passamos a duvidar de tudo, sobretudo de nós mesmos. Uma das grandes tarefas do cinema, a meu ver, é nos fazer mudar de perspectiva; seja para entrar no mundo do sonho, da fantasia, ou mesmo da loucura, seja para quebrar conceitos e pensamentos pré-estabelecidos como para entender o outro e anós mesmos; aí ele se transforma em arte. Com isso, abrem-se novas portas; ver diferente, quebrar paradigmas, é o que faz a sociedade dar novos saltos, assim como permite aos indivíduos compreender melhor uns aos outros, fugir da mesmice e encontrar melhores caminhos.


8. Amarcord. Federico Fellini fez grandes filmes, mas entre eles este é meu preferido, pela sua leveza; o retrato de um pequeno paese italiano, onde os humores, os sentimentos e o próprio modo de vida mudam conforme a estação é uma amostra perfeita do que é a Humanidade; faz com que entendamos como somos parte do mundo e, embora o homem tenha fundado sua subsistência no artifício das cidades e das máquinas, se integra à natureza em espírito. É um filme, por isso, instigante e cheio de humanidade; o gênio de Fellini em encontrar a beleza e a extravagância no cotidiano faz a gente olhar com mais atenção e enxergar de verdade a vida ao nosso redor.



9. Doutor Jivago. Um épico em todas as suas dimensões, mostra ao mesmo tempo a grandeza e a iniquidade da vida; a história do médico que encontra a ruína e a felicidade, ainda que breve, as trapaças do destino, a crueza da realidade, a beleza do momento; há pouca coisa que faz o fascínio, o drama e a complexidade da vida que não esteja dentro desse filme. Julie Christie, como está aqui, é a mulher mais bela que já vi no cinema; nem mesmo a interpretação lacrimosa de Omar Sharif tira a força da história de Pasternak. E são inesquecíveis os cenários grandiosos, como a cabana mergulhada na neve onde se realiza o amor de Jivago e Lara, da qual eu não consigo me lembrar sem ouvir o lírico som da balalaica.



10. 2001, uma Odisseia no Espaço. Stanley Kubrick só fez grandes filmes; todos eles poderiam estar numa lista dos melhores de todos os tempos, assim como todos os romances de Gabriel Garcia Marquez estariam numa lista dos melhores livros. A visão de passado e futuro como uma coisa só, numa espécie de cosmogonia, porém, faz com que este seja seu trabalho mais ambicioso. Recentemente, tenho pensando também em como Kubrick foi profético. As panes de computador, que hoje fazem aviões caírem, e carros acelerarem em vez de brecar, tornam bem realista o HAL - o computador de bordo que toma conta da nave e passa a matar seus tripulantes. Um filme ainda misterioso, intrigante, com um ritmo que nos obriga a entrar em outra dimensão, e que esteticamente não envelheceu, mesmo com a visão bem mais precisa que temos hoje do espaço; esta é aquela obra de arte que qualquer criador gostaria de ter feito, ainda que forneça mais perguntas que respostas. Porém... Não será assim a vida?







domingo, 3 de março de 2013

O que é ser especial



André, 6 anos, leva um beijo de uma menina de 12, que vem dormir em casa.

Vem para minha cama, onde espero para lhe contar a história antes de dormir. Deita e, em tom confidente, me diz, na penumbra:

- Ela disse que tenho bochechas lindas. Eu sou um menino especial.

Sorrio. Digo:

- Você é mesmo um menino especial.

Ele esconde o rosto um pouco, se aproxima.

- Sou especial para você.

- Não filho, você é muito especial para mim, porque é meu filho, mas é especial para todo mundo.

O que é ser especial, afinal? Desde criança, sonhamos com muita coisa. Ser piloto de avião faria meu filho ser diferente? Será que a coragem distingue realmente os corajosos? Será que um cientista é especial ou mais especial que os outros porque a inteligência é distintiva. Ser belo é ser especial? Conheço gente corajosa e mesquinha; pessoas muito inteligentes racionalmente que são ignorantes sentimentais; existe beleza em gente feia, e isso pode fazer de pessoas sem grandes atributos físicos pessoais também especiais.

Todos cultivam a ideia de que é preciso ser especial, no sentido de diferente, único, com um talento ou capacidade admiráveis. É preciso ser especial para ser rico. Para conquistar as mulheres ou os homens. Para ganhar um prêmio. Para fica para a posteridade.

Ainda assim, todos são especiais, mesmo quem não tem talento, não se considera vencedor. Todo ser humano tem algo de único e inconfundível. Todo ser o humano tem o maior poder de todos: o poder de ser ele mesmo.

Meu filho me fez pensar sobre o que nos faz sentir especiais. E nessa noite, eu vi claramente o que é ser realmente especial. Ser especial é se sentir especial, por alguém que é especial para nós. Isso é o que faz a verdadeira diferença.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Pai, filho, amigo

As frustrações amorosas e um valor maior que ser, apenas, pai



Meu pai me disse, certa vez, que eu era o melhor amigo dele.

Confesso que eu, quando ouvi isso, no instante, não entendi. Eu o via como pai, não como amigo. Eu tinha muitos e grandes amigos. E um pai, somente. Isso devia ser muito mais importante que qualquer amizade. Não entendia como ele podia achar aquilo uma promoção.

Pego meu filho na escola quase todos os dias, uma maneira de estar presente no dia a dele, desde que me separei de sua mãe. E aproveito esse tempo, no trajeto da escola para casa, dentro do carro, ou na hora do almoço, para conversar.

Há alguns meses, quando ele tinha ainda tinha 5 anos, sentado na cadeirinha extensora do carro, ele disse que estava chateado com um colega de escola, G. aquele que considerava, até então, seu melhor amigo na classe. Melhor amigo, para ele, é um posto muito importante, e seu ocupante, embora varie de tempos em tempos, é levado muito a sério. Acontece que G., depois de tentar conquistar P., a garota que meu filho adorava, passou a dizer que não era mais ele. E meu filho, sinceramente triste, amargava a frustração de ver contra si aquele de quem esperava na amizade o benefício da reciprocidade.

- Ele diz que o melhor amigo dele agora é o D - disse meu filho, cabisbaixo, referindo-se a outro colega, inteligente e simpático.

Lembrei da minha conversa com meu pai, anos atrás. E pela primeira vez entendi porque ser amigo, para ele, era tão importante. País são dados pela natureza. Mas nem todos os pais são amigos de seus filhos. Amigos, a gente escolhe.

- Posso te contar um segredo? - eu disse a ele.

André adora segredos.

- O que?

- Você é meu melhor amigo.

Ele ficou surpreso. Talvez tanto quanto eu, no dia em que meu pai disse que éramos amigos. Assim como eu, não disse nada.

*
Em dezembro de 2012, fomos para a Disney, junto com a família de minha namorada. André estava animado em viajar para os parques de diversão na companhia de outras crianças ? só queria saber delas. A partida, porém, foi uma frustração. Depois de um voo para o Rio de janeiro, fomos barrados, eu e ele, por falta de um documento a ser anexado ao passaporte italiano, necessário na entrada em Orlando. Por volta das nove da manhã de um dia ensolarado, vimos o avião fechar as portas e tivemos de ir embora, enquanto os outros, embarcados, iriam decolar.

O voo seguinte para Orlando seria á meia noite daquele mesmo dia. Em vez de voltar para São Paulo e ficar em casa, á espera do novo voo, decidimos, eu e ele, ficar no Rio de Janeiro. Tomamos um táxi, almoçamos em um restaurante no calçadão de Copacabana e depois subimos o Pão de Açúcar. André regalou-se com lulas fritas na refeição, brincou no calçadão, refrescou-se nos vaporizadores de água. Depois, rosto colado no vidro do bondinho, aproveitou a viagem um pouco mais do que fizera da primeira vez que subira ali, com a mãe, num dia de tempo nublado. Mostrou para mim a passarela pelo bosque dos macacos, tomamos refresco e ele brincou bastante tempo nas telas interativas do museu que conta a história do lugar.

Pegamos o avião para São Paulo, no fim da tarde. Ele cochilou no meu colo, enquanto esperávamos o voo para Orlando, e dormiu também todo o trajeto até os estados Unidos. Esperou o dia inteiro com uma paciência diferente para um garoto de energia radioativa, estava bem humorado, sem me criticar ? eu, o adulto qeu havia esquecido o documento e causara aquilo tudo. Orlando seria muito divertido, com as outras crianças, os parques, toda a experiência. Porém, para mim, o dia forçado que passei com meu filho no Rio de Janeiro, como resultado do acaso, com certeza foi o melhor de todas as férias. Por causa dele.

*
André tem sido meu melhor amigo desde que nasceu. Quando era bebê, e eu escrevia em casa, era a companhia que eu procurava para as horas de intervalo. Eu o embalava para dormir, na hora do almoço. Catava para ele e, sem saber nenhuma canção de cor, inventava a letra ? depois anotava os poeminhas feito para ele dormir. Quando ficou um pouco maior, eu o levava para andar pela rua no canguru. Era meu companheiro, inclusive de trabalho.

Quando tinha de dois a três anos, quando almoçávamos em casa, ás vezes ele, que se sentava no canto oposto da mesa, levantava e vinha na minha direção. Setava no meu colo e gostava de me dar comida na boca, da mesma forma que eu fazia, quando ele era ainda um bebê. De alguma forma, sabia do que eu precisava. O papai cuidava da casa, da mamãe, do irmão, de todo mundo. Mas quem cuidava do papai? Havia no gesto de carinho, além da proeza de cuidar do adulto, algo que tinha a ver com compaixão.
Por esses e outros motivos, tive a impressão de que meu filho, mesmo pequeno, era capaz de me entender e levar em conta meus sentimentos. Preocupar-se comigo. Ser meu amigo. Tornou-se um companheiro bem disposto, mesmo para coisas que ele mesmo não entendia ou não gostava muito (certa vez, na saída de um jogo do Palmeiras, ele, com 6 anos, me disse, intrigado: ''pai, você gosta mesmo de futebol, né?'').

Quando me separei, e ele vinha passar as noites comigo, ficava mortificado por saber que eu vivia naquele apartamento espartano, sozinho.

- É triste - dizia.

Ele me estimulou a ter uma namorada. Aproximou-se dos filhos dela. Não queria estar sozinho, e sobretudo que eu ficasse sozinho.

Uma vez, sentado na sala, enquanto assistíamos TV, no intervalo do Bem 10, surgiu uma propaganda com a história de um garoto atrapalhado diante da namorada.

- Meninos sempre ficam um pouco bobos quando apaixonados - disse ele, que já havia caído de amores.

- Ah e como você sabe? - provoquei.

- Eu vi na TV - ele disse, para não dizer que sabia como era.

- É verdade -, eu disse. - Eu também, com as mulheres, sou meio bobo.

Com os olhos fixos na TV, André então disse:

- Não, você não é bobo com mulher, não.

- Sou, sim!

E ele, mortalmente sério:

- Não. Você, não.

Tenho a impressão de que os amigos sabem quem você. talvez melhor que você mesmo. Meu filho às vezes me assusta. E, como meu melhor amigo, me faz pensar.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

As coisas perdidas

A família, os elos cortados e a luz poente na super metrópole



Penso nas coisas perdidas, árvores caídas com o vento, que viram sinal do tempo, deixando um vazio na paisagem. Penso na mãe que já não vejo, mãe de um tempo benfazejo, tempo que também não retorna, enviado como ela não sei para que céu. Penso em meu pai, que ainda está por perto, mas ao mesmo tempo distante, como se tivesse sido bastante o tempo da minha criação. O tempo da família, que ficou atrás como a mobília, e deu lugar a uns poucos versos.

Penso nos amigos dispersos, pelo tempo e pelas obrigações, e penso que ainda somos todos os mesmos, próximos e fieis e queridos, um pouco mais vividos, talvez um pouco mais sofridos, e sinto falta do aconchego da amizade.

É como se a roda viva fizesse perdida a juventude, esta que não precisaria acabar nunca, porque ela mora no peito, a despeito do que acontece com os cabelos mais brancos. Penso na liberdade perdida, a liberdade de andar e brincar na rua da infância, a rua sem medo, menos quando diziam que vinha o homem do saco. Penso na confiança arrancada do peito, a melancolia dodo tempo que meu filho jamais terá; da vida em casa de meus avós, desperdiçada continuidade.

Sinto falta dos elos cortados, sinto falta dos outros que não vejo. os outros que prezo ainda mais que antes, pois não importa estar longe, de estarmos indolentes, ruminando a vida; sofro por mim e por eles, angústia que no final é só minha, pois todos entendem melhor, assim penso, que a vida segue dessa forma, é seu natural.

A angústia é só minha, como são também minhas são as flores, o torvelinho da água, a chuva de verão; as paisagens que não serão perdidas na espiral da memória, ou apagadas na indiferença do tempo; talvez as pessoas devessem ser como as árvores, que quando caem descobrem mais um pedaço de céu.

Deslizo estes pensamentos no caderno quadriculado com a ponta da minha Jotter, querendo ficar um pouco mais; não perdi a sensação do vento no rosto, não eprdi os meus desertos, que enchi com o coração; não perdi o prazer simples do homem andando na rua, esquecido na multidão, nem de ver a vida próxima, os rios de lanternas vermelhas no fim de tarde, a metrópole ensanguentada pelo sol poente, que se enfia sob as pontes da Marginal; os bueiros que exalam seu hálito de sepulcro, os mendigos de olhos negros, os seguranças de ternos mal ajambrados; as janelas enegrecidas pela fuligem da cidade.

Perdemos aquela calma do passado, trocado pelo frenesi, mesclado à indiferença, acabou-se o tempo de olharmos para nós mesmos, o que dizer então de olhar para os outros; perdemos o hábito de parar o relógio, de jogar baralho após o almoço de domingo, de tirar a soneca, de não fazer nada, esquecer o tempo. Perdemos muito do sentido, dos laços, das antigas salvaguardas, da importância essencial da vida sem objetividade, sem informação imediata, do direito ao esquecimento; perdemos assim as esperanças, e mergulho dentro de mim mesmo, como quem vai ao poço beber.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O fim da sociedade do ócio

O desafio da era contemporânea é preservar o sentido da coletividade sem perder a liberdade individual extrema que a era digital permite



O filósofo e economista André Gorz, em seu livro Adeus ao Proletariado, previa ainda na Década de 1980 que viveríamos numa "sociedade do ócio". A criação de facilidades com a computação doméstica e a industrial, onde a produção passou a ser feita por robôs, criaria riqueza e geraria mais tempo para o homem dedicar-se ao lazer e a si mesmo.

Não aconteceu nada disso. Claro, os robôs estão na fábrica, assim como os computadores pessoais estão não apenas em casa como agora no bolso dos cidadãos, mas não existe a sociedade do ócio. As corporações exigem agora que se responda a tudo imediatamente, fazendo tudo mais rápido, ao mesmo tempo, e por menos dinheiro. Uma solicitação por escrito pode e tem de ser respondida em tempo real.

Perdemos o direito de não sermos encontrados e de ter um tempo para nós mesmos. Antigamente, o trabalho não era tão selvagem. As pessoas ganhavam a vida sem tantas tarefas. Tinham menos pressa. Não sabiam pelo Facebook o que acontecia na vida dos outros. Vivíamos na sociedade do ócio e não sabíamos.

*
Claro que a frase anterior é de efeito e não retrata a realidade. A bem da verdade, a sociedade do ócio não aconteceu e não acontecerá jamais. O homem foi feito para querer sempre mais. É o único animal com capacidade e vontade de acumulação. É o único ser da natureza que junta mais do que o necessário para viver. É que tem noção de futuro, o conceito que impulsiona a necessidade da provisão.

O homem guarda para si, para a família, para o amanhã. Ou simplesmente para ter mais. Inventou o capital e a concorrência. A sociedade se amoldou ao processo cumulativo.

O ganho de capital aumentou ainda mais a desigualdade social. Na idade Média, o rico morava num castelo de pedra, mas andava a cavalo e comia pernil em cima do mesmo feno onde defecavam os cachorros. O pobre vivia numa cabana, mas andava a cavalo e comia pernil em cima do feno onde defecavam os cachorros. A geração de riqueza aumentou também a distância entre os que se aproveitam dela e os que são apenas explorados ou marginalizados.

A multiplicidade de seitas religiosas hoje parece querer compensar esse mundo agreste, criados por nós mesmos. Olhar o próximo com compaixão, pensar no outro generosamente e sermos solidários são formas de restabelecer não apenas nossa humanidade, como de pedirmos um pouco de clemência para nós mesmos. Nenhum homem é produtivo, cumulativo e auto-suficiente a vida inteira. Existem os seres dependentes, física e financeiramente. E todos ficam velhos.

É preciso pensar nos sistemas de saúde, que atendam não apenas os que têm dinheiro ou são capazes, mas os que simplesmente não podem ficar desassistidos. É preciso pensar nos problemas coletivos e oferecer nossa cota parte de trabalho individual em benefício do bem comum. Sabemos que uma sociedade com mais equilíbrio reverte seus benefícios também para os que mais contribuem com ela. O rico não pode passar a vida dentro de um muro cercado pela favela. Isso não é viver bem.

A compaixão é algo que devia ser incentivado nas novas gerações. O smartphone é o símbolo de uma era de extremo individualismo, em que cada um pode levar no bolso seu pequeno universo pessoal. Com um iphone, podemos não apenas satisfazer necessidades pessoais como nos relacionar com os outros.

Cada geração possui seus desafios, e a desagregação será com certeza um deles. A educação sempre tem como objetivo estabelecer comportamentos éticos coletivamente aceitos e isso se torna cada vez mais difícil numa cultura que permite e estimula a múltipla escolha.

Sem sombra de dúvida, a educação será o maior negócio do futuro. Dela dependerá o sucesso das Nações para se manter unidas e preservar sua organização e a força coletiva.

O individualismo é essencial para a existência humana, vocacionada para a liberdade, um direito inquestionável. O problema é como aprofundar a liberdade sem perdermos o sentido coletivo da Humanidade, que hoje parece tão ligada virtualmente, mas nos oferece universos absolutamente individuais e sem fronteiras.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

De autor a editor - e vice-versa



Como jornalista, me tornei editor muito cedo, aos 23 anos, quando trabalhava na revista Veja. Desde então, sempre ocupei cargos de chefia na imprensa, e me tornei publisher de revistas, como a Forbes, que formatei editorialmente para ser lançada no Brasil, em 2001, e dirigi durante seu primeiro ano.

Em 2003, deixei meu emprego na imprensa para me dedicar apenas a escrever. Foi uma forma de respirar, depois de exercer cargos executivos desde tão cedo. Durante oito anos, vivi apenas de livros, a começar pelo lançamento da biografia best seller de Rolim Adolfo Amaro, fundador da TAM (O Sonho Brasileiro, 2003), seguida por bem sucedidos livros de ficção (A Quinta Estação, 2005, Campo de Estrelas, 2007, e Amor e Tempestade, 2009). Durante esse tempo, não deixei completamente a imprensa. Escrevi para revistas como Estilo, Playboy e Veja São Paulo, onde fui convidado a fazer um trabalho especial, o perfil dos vencedores do Prêmio Paulistanos do Ano, em suas duas primeiras edições. Boa parte desses perfis foi também republicada em um livro, Eles Me Disseram (Saraiva/Versar, 2008).

Em novembro de 2009, aceitei um convite da Editora Saraiva para reunir minha experiência como autor e editor num desafio único no mercado: desenvolver a área de ficção e não ficção da empresa que tem como co-irmã a maior rede de livrarias e o maior site de comércio eletrônico de livros da América Latina. Deixei de ser um violinista no telhado para reger novamente uma pequena orquestra. Aprendi muito e fiquei bastante satisfeito com os resultados da missão.

Em três anos e quatro meses, um período relativamente curto para o mercado, a Saraiva passou a frequentar com seus livros o palco central do mundo editorial no Brasil. Fizemos alguns best sellers, como o livro de memórias de Ozzy Osbourne, e trouxemos para a Saraiva as principais obras de um best seller brasileiro, Paulo Coelho, que pela primeira vez fez também um livro para crianças (Fábulas, 2011).

Com a criação do selo Benvirá, um nome que extraí de um velho disco de Geraldo Vandré (inventor das imaginárias “Terras do Benvirá” e da “Capitania de Vanmar”), a Saraiva começou a vender com mais liberdade suas obras não somente para a rede própria, como para todas as outras redes e livreiros independentes do Brasil. Para consolidar a marca, instituímos o Prêmio Benvirá de Literatura, que começou com um recorde de inscrições (1.932) em concursos literários no Brasil. O ganhador, o estreante Oscar Nakasato, um professor de português de Apucarana, no Paraná, arrebatou ano passado, com o mesmo livro, Nihonjin, o Jabuti de Melhor Romance - o prêmio mais importante do mercado brasileiro.

Com o Benvirá, demos oportunidade a vários autores estreantes, revelações como Lívia Brazil, Alessandro Thomé, Benedito Costa Neto, Raphael Montes. E essa história continua. Com a segunda edição do Prêmio, que paga 30 mil reais de dotação, o tradutor e professor da USP Luis Sérgio Krausz, recém anunciado vencedor, além de ser reconhecido no meio acadêmico e intelectual, poderá receber também o impulso comercial e de marketing para lançá-lo entre os grandes autores brasileiros. Mais uma dezena de originais oriunda do Prêmio está sendo negociada para a publicação. Entre os finalistas, estão cinco autores inéditos, que vão ganhar o mercado graças ao concurso.

Tivemos espaço também para a não-ficção nacional, do best seller A Dieta Gracie à reedição de livros importantes de História, como 1961 – O Brasil entre a Ditadura e a Guerra Civil, de Paulo Markun e Duda Hamilton. Não esqueci também o jornalismo em livro, com a publicação de reportagens contemporâneas, como Dias de Inferno na Síria, a saga do repórter brasileiro Klester Cavalcanti, preso no país da guerra mais cruel do nosso tempo, e As Melhores Frases em Veja.

Construímos para a Saraiva um catálogo que garante boas vendas também no médio e longo prazo, com autores clássicos como Patricia Highsmith, William Faulkner, John dos Passos, Hermann Broch, José Donoso. A eles se juntam autores contemporâneos de qualidade, cuja obra certamente vai perdurar, como o romancista britânico Rana Dasgupta, o ensaísta mexicano Enrique Krauze, o historiador israelense Schlomo Sand e o professor de ciência política Joseph Nye - alguns dos intelectuais mais importantes da atualidade.
A Benvirá participou das últimas três Flips com cinco autores. Demos um brilho novo à festa com as “Musas da Flip”: primeiro, a cubana Wendy Guerra, depois a argentina Pola Oloixarac, que conquistaram um grande público não apenas pela beleza propalada pela imprensa em Paraty, como pela qualidade de sua ficção. E fizemos barulho, com eventos como a “festa Cubana” em homenagem a Wendy Guerra, ou o desfile do dragão chinês e do cantor de kabuki em Paraty, ano passado, para promover o livro de Zoé Valdés, A Eternidade do Instante, sobre um chinês em Cuba.

Ao mesmo tempo em que trouxemos autores internacionais, abrimos caminho para vender os autores nacionais fora do Brasil. Numa iniciativa inédita para uma editora brasileira, elaboramos um catálogo internacional, em inglês, e constituímos Luciana Villas Boas agente da Benvirá para vender as obras de nossos autores no exterior. O que, esperamos, renderá os primeiros frutos agora nas feiras de Londres e Frankfurt. Vendemos os direitos de livros de nossos autores para o cinema e abrimos largo espaço na mídia para nossas obras. Pela primeira vez a Saraiva viu livros da editora ocuparem espaço nobre na imprensa, como a capa dos cadernos de cultura da Folha de S. Paulo, Estadão e o Globo, além de reportagens extensas nas principais revistas semanais.

Claro que por trás de todas essas iniciativas esteve sempre a minha vontade de fazer pelos autores tudo aquilo que eu, como autor, gostaria que as editoras fizessem por mim. O autor brasileiro carece de um trabalho mais individualizado, que o ajude a construir de fato uma carreira. O autor brasileiro comercialmente mais bem sucedido, Paulo Coelho, teve que se virar sozinho quando lançou seus primeiros romances, chegando a dizer que voava e fazia chover (a mística do “mago”, a imagem que o ajudou no começo, e hoje, no Brasil, lhe custa um pouco caro).

Hoje Coelho pode dizer que vendeu mais de 150 milhões de livros porque não dependeu jamais de um editor brasileiro. Na verdade, ele sempre teve a seu lado uma bruxa de verdade, a agente Mônica Antunes, uma mulher extraordinária de quem tive a felicidade de ficar amigo. Mônica se dispôs a representar Coelho quando ele não havia vendido ainda, no Brasil, mais que 500 exemplares. Certa vez, perguntei a Mônica como ela tinha conseguido vender os direitos dos livros de Coelho em mais de 150 países. E ela me respondeu, com sua funcional simplicidade: “Batendo de porta em porta”.

Nos três anos em que estive na Saraiva, bati também de porta em porta: na porta dos agentes, dos livreiros, dos jornalistas, dos eventos literários. A área de ficção e não ficção, incluindo a dos livros infantis com o selo Caramelo, teve seu faturamento multiplicado por quatro. Se tudo está tão bem, por que sair, agora? Porque ainda sou autor e o apelo de voltar à vida de violonista no telhado é muito forte. Quero voltar a escrever, especialmente meus livros, na imprensa e também aqui.

Para minha tranquilidade, e da Saraiva também, deixo uma equipe muito competente, liderada agora por Rogério Alves, que foi diretor editorial da Planeta, um conhecedor do livro e do mercado. Sujeito que acorda cedo, Rogério é um trabalhador diário e astuto que move a equipe com seu singelo e simpático mote, repetido em tudo o que faz: “Vamo que vamo!” Com a editora Débora Guterman e uma equipe que deixará saudades para mim, estou certo de que ele fará um trabalho ainda melhor do que eu seria capaz.
Desejo toda a sorte a Rogério e à equipe da Benvirá, bem como a todo os nossos autores. A eles agradeço a confiança em mim depositada e os resultados até aqui. Espero que eles possam enfrentar os desafios internos que existem em todas as corporações e os externos, não apenas os de mercado como os trazidos pelas mudanças da era digital. Estou certo de que a Saraiva, como as demais editoras brasileiras, saberá encarar mais esta fase não como um problema, mas como a abertura de novas oportunidades. Dessa forma é que se poderá preservar não apenas a essencial função do editor como a própria cultura brasileira.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Prêmio Benvirá: por que não são anunciados os finalistas

Os motivos para manter certo sigilo em um concurso que vai além do nome vencedor



Muita gente pergunta por que a Editora Saraiva não anuncia os finalistas do Prêmio Benvirá. Explica-se.

Não se obriga, pelo regulamento, a divulgação da lista dos finalistas. Na verdade, não existem "finalistas", no sentido estrito, e sim uma pré-seleção de 10 originais, feita por nós, a equipe editorial, para auxiliar os jurados na escolha. Com um volume de 1.505 inscritos, seria difícil para apenas três pessoas examinar tudo o que chegou. Contamos para a pré-seleção com um software muito bem feito, que nos permite examinar a sinopse e o original e deixar nele uma bandeira - "em análise" (amarelo), pré-aprovado (verde), aprovado (azul) ou reprovado (vermelho). Depois, pode-se capturar somente os arquivos estabelecidos como "pré-aprovados" e, por fim, "aprovados". Sem tal programa, seria impossível fazer a seleção de forma tão criteriosa e num prazo tão curto.

Os dez finalistas, portanto, não são finalistas no sentido formal. Os jurados têm acesso à lista completa de inscritos, com seu perfil e a sinopse dos livros. Somente a leitura da compilação de nomes, perfis e sinopses de 1.505 participantes equivale a ler um livro do tamanho de Guerra e Paz, consumindo dos jurados um bom tempo. A partir dessa lista, eles podem pedir vistas de qualquer original. Luis Brás, por exemplo, pediu para ver cinco obras que não estavam na lista de dez (depois de examinar os cinco, ficou com os dez que havíamos pré-selecionado). Anna Maria Martins também pediu vistas de mais dois originais, além dos que lhe entregamos (e também os eliminou em seguida). Isso serviu para reforçar a confiança que a equipe de jurados tem na pré-seleção. E assim eles puderam se dedicar mais à leitura dos manuscritos que passaram pela nossa peneira.

O trabalho da equipe editorial garante que todos os originais sejam examinados, mesmo aqueles de autores que não sejam conhecidos pelos jurados. A lista de dez reflete o que acontece na prática: havia 5 autores estreantes, e outros cinco selecionados entre autores já publicados por grandes editoras, a maioria deles já vencedores de outros prêmios, incluindo o Jabuti.

Existem outros motivos para não se divulgar os finalistas. Muitos dos originais são tão bons quanto o vencedor. Na escolha de qualquer prêmio, infelizmente o vencedor só pode ser um. Às vezes é uma escolha entre obras muito parelhas. Por isso, sempre defendi a ideia de que seria injusto revelar as outras obras, que não podem ser vistas como "perdedoras" num processo que sempre tem algo de subjetivo. Elas têm muita qualidade e eventualmente podem serem consideradas tão ou mais "comerciais" quanto a obra ganhadora.

Por fim, os autores publicados por grandes editoras que chegaram perto de vencer o prêmio não teriam a ganhar com esse tipo de divulgação - pelo contrário, talvez se sentissem desprestigiados por aparecer numa lista de quem tentou e não chegou lá. Qualquer lista, para ser divulgada, precisaria de uma consulta prévia aos participantes. E basta um deles não concordar com a divulgação da lista, para que não faça mais sentido ela vir a público.

Quando propus à Editora Saraiva levarmos adiante o prêmio, pensava não apenas promover a literatura como levantar originais inéditos de qualidade, de autores publicados ou não. Por acompanhar as negociações, observo que mesmo os autores já publicados têm interesse em ver seu livro publicado com o selo Benvirá. Todos os autores que foram pré-selecionados pela equipe editorial, com originais excelentes para publicação, em princípio interessam.

Aos poucos, a lista dos "finalistas" vai naturalmente aparecer no calendário de lançamentos da Benvirá, que vai lhes dar tanta importância quanto ao vencedor do Prêmio. E espero que ambos, autores e editora, venham a colher os frutos de todo esse esforço: os autores, por escrever e participar; a editora, pelo investimento e todo o trabalho que envolve a premiação. A todos, desejo o que se pode desejar de melhor, nesse caso: o reconhecimento pelo sucesso do livro no mercado.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Prêmio Benvirá: o vencedor (e outros ganhadores)


Na última sexta-feira, dia 15, reuniram-se a portas fechadas na sede da Editora Saraiva, em São Paulo, os integrantes da comissão julgadora do 2o. Prêmio Benvirá de Literatura: Anna Maria Martins, escritora, membro da Academia Paulista de Letras e da curadoria do Prêmio Jabuti, Luis Brás, nome agora adotado pelo escritor e jornalista Nelson de Oliveira, e José Luiz Goldfard, curador do Prêmio Jabuti. Em uma reunião de cerca de 1 hora, discutiram os originais selecionados a partir das 1.505 inscrições no prêmio, em especial os 10 indicados pelos editores da Saraiva que, num trabalho de apoio à comissão, examinaram exaustivamente o vasto material enviado ao concurso por meio do site www.benvira.com.br.

Depois que o vencedor da primeira edição do Prêmio Benvirá de Literatura, Oscar Nakasato, ganhou ano passado também o Jabuti de Melhor Romance, a responsabilidade dos jurados já havia aumentado bastante. E a escolha se tornou ainda mais difícil pelo alto nível dos participantes. Entre eles, havia não apenas estreantes, como também autores que já venceram outros prêmios, como o próprio Jabuti, e são publicados por algumas das melhores editoras do país.

Por margem apertada na preferência dos jurados, saiu vencedor "Deserto", de Luis Sérgio Krausz. Tradutor de literatura alemã e hebraica, além de professor de Literatura Judaica e Hebraica na Universidade de São Paulo, Krausz é um intelectual respeitado no meio acadêmico e literário. Não é exatamente um estreante: já teve publicados um romance (Desterro: Memórias em Ruínas, de 2011) e uma obra ensaística (Passagens: Literatura Judaico-Alemã entre Gueto e Metrópole). Porém, com o prêmio Benvirá, terá pela primeira vez a oportunidade de ver um livro seu publicado por uma editora com força comercial, além de ter ao seu lado o poder de divulgação que o próprio prêmio oferece.

O resultado foi anunciado oficialmente ontem, e Krausz receberá a dotação em dinheiro de 30 mil reais em maio, junto com o lançamento do livro e a cerimônia de remiação. Além dele, existem muitos outros ganhadores com mais esta edição do Benvirá, que tive a satisfação de criar e dar impulso, graças ao apoio da Editora Saraiva. A começar pela própria Editora e os dez finalistas, que já estão sendo convidados a publicar suas obras - de gêneros diversos, mas com alta qualidade e que tinham potencial para ganhar não só este prêmio como outros dos quais ainda poderão participar, agora na condição de autores publicados.

Acredito ainda que todos os participantes ganham em um prêmio como esse. Ele obriga ao esforço de lapidação do texto, à reflexão e a um aprimoramento técnico essenciais para que todos possam continuar a escrever com a meta de publicação e participação em outros concursos. Por fim, ganha a cultura brasileira, que tem hoje no Prêmio Benvirá um estímulo oriundo de um selo editorial voltado não somente para a difusão da cultura brasileira pela via acadêmica ou governamental, mas sobretudo de mercado.

Neste dia 28 de fevereiro, estou deixando a Saraiva para outros desafios pessoais. Estou inaugurando três selos editoriais para a publicação de livros digitais, o Copacabana (Ficção), País do Futuro (Não Ficção) e Bicho da Letra (infantil) e retomo uma posição na imprensa, que nunca abandonei, como diretor de redação da revista Playboy. Saio satisfeito pela consolidação do Benvirá como um dos prêmios literários mais importantes do país, além da publicação de alguns livros vendedores e a formação de um respeitável catálogo na Saraiva, que hoje tem autores importantes, uma participação efetiva em eventos como a Flip e uma estrutura para vender bem livros não apenas no mercado nacional como no internacional - tarefa muito importante para os editores brasileiros e a cultura nacional.

A todos que participaram do prêmio, e não ganharam, nem estão sendo publicados ainda, fica minha mensagem final, enviada agora que estou voltando também ao posto de autor brasileiro: continuem em frente. Escrever depende do esforço contínuo de aprimoramento. E é uma atividade essencial, não para se ganhar prêmios ou abandonar aquele emprego chato com o sonho de se tornar escritor, mas para a reflexão, a contribuição para a sociedade com as nossas ideias e a difusão do maior valor que temos no Brasil: o brasileiro e aquilo que ele pensa e ele é.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

"Pai, tenho sede"

Os desafios da educação na era digital



As crianças hoje querem tudo rápido, e para ontem.
André, 6 anos, no carro.
- Pai, quero água.
- Não tem.
- Quero água.
- Não tem, por duas razões. Uma, porque não tem. A segunda, porque não é assim que se pede.
- Por favor, você podia me dar água?
- Filho, você resolveu a segunda razão, mas ainda tem a primeira. Não tem água. Espere até chegarmos em casa.
*
Vão dizer: ah, André tem apenas seis anos.
Vejamos Lucca, 12 anos, no mesmo dia, dentro de outro carro, indo de São Paulo a São José.
- Mãe, estou com sede.
(Silêncio da mãe).
- Estou com sede!
- O que você acha que eu posso fazer a respeito?
Lucca pensa um pouco.
- Poderia me informar quanto tempo a gente ainda leva para chegar em casa?
*
A indústria da informação está acostumando toda uma geração a ter tudo instantaneamente, ao toque de um botão.
É uma geração completamente diferente da de meus avós, meus pais e da minha própria geração. Meus avós vinham da Segunda Guerra, um tempo em que era importante administrar a escassez. Não ter as coisas era normal. E era preciso estar preparado para a falta das coisas.
Eu não vi o tempo da guerra mundial, mas conheci a escassez de outros tempos e outras guerras. Quando era criança, a TV era preto e branco e tinha apenas 4 canais. Custava a ligar e formava a primeira imagem só depois que esquentavam as válvulas. Não havia produto importado no Brasil. Não se podia escolher muita coisa. Nem mesmo os governantes, pois reinavam os prepostos da ditadura militar em todas as esferas: municipal, estadual e federal. Meu pai, que vinha da esquerda, quando nasci perdera o emprego, tinha amigos presos, naquele tempo tudo podia acontecer.
A economia era quase soviética, resultado do nacionalismo militarista que fechara xenofobicamente as portas do Brasil para qualquer coisa que viesse de fora. Andar de avião era raro e caríssimo. Minha mãe coibia o uso do telefone, que era para conversas rápidas e de emergência. Telefone custava caro e a ligação internacional, além de caríssima, era difícil.
Na Casa Verde, onde morei parte da minha infância, com frequência faltava água. Por isso, no quintal da minha casa, havia um alçapão que dava para um reservatório de emergência. No verão, eu gostava de me enfiar pelo buraco e ficar lá dentro me refrescando.
Era preciso estar preparado para a privação. Na verdade, eu nem via essa situação como de privação. Eu tive de aprender a esperar. Até mesmo para beber água.
*
É preciso ser duro para sobreviver. Muitas vezes tentei demonstrar ao João, hoje com 16 anos, que nem sempre o caminho mais fácil é o melhor. Como no videogame, para ele o melhor era sempre cortar caminho, trapacear, usar todos os recursos disponíveis pelo jogo para ganhar. Não entendia por que eu não fazia o mesmo. E eu queria ganhar sem apelar para os truques que o jogo proporcionava.
Muitas vezes pensei que era inútil tentar lhe mostrar o valor do trabalho, da necessidade do empenho, e que a maneira como fazemos as coisas é tão importante quanto o resultado. Acho que ele nunca me compreendeu muito bem. Talvez, quando ficar mais velho e tiver outras experiências.
*
Qual é a validde de sabermos fazer na caneta as operações matemáticas se a calculadora faz isso por nós? Quando eu era estudante, usar a calculadora em sala de aula era proibido. Creio que isto era para estimular o raciocínio matemático, mas esse ganho abstrato parece coisa do passado. Hoje as crianças usam não apenas a calculadora como todas as informações disponíveis na internet. Isso não quer dizer que não exercitem o pensamento. Ele é estimulado por questões mais avançadas do que fazer de cabeça as quatro operações. As crianças já não partem mais de questões elementares. Já começam mais avançadas, embora isso me faça às vezes pensar que lhes faltam algumas noções elementares.
Hoje muitos alunos tendem a estar mais bem informados que o professor em um ou outro assunto. Podem questioná-lo. Qual o sentido então da educação hoje? Estaremos formando uma geração melhor?
*
Na medida em que ficamos mais velhos, tendemos sempre a acreditar que o passado era melhor e tinha melhores ensinamentos. A percepção de que as novas gerações tendem ao comodismo não é novidade. Meu pai não tinha televisão na infância – um privilégio que só conquistou depois de casado e com um filho pequeno. Eu acordava às sete da manhã para ver Regina Duarte, ainda uma adolescente, apresentando os desenhos matinais: Pepe Legal, a Tartaruga Touché, Dinguelinguelingue, o Coelho Ricochete, além do meu favorito, o gato Manda-Chuva, um vagabundo muito simpático que morava dentro de uma lata de lixo. Meu pai bem poderia dizer que minha vida era cômoda e que eu devia sair da frente da televisão para viver a vida de verdade (acho que dizia).
Ele não deixou de ser também, para seu tempo, um privilegiado. Era a única criança de sua classe, na cidade de São Roque, que possuía um par de sapatos. Envergonhava-se deles – deixava-os em um buraco na estrada, a caminho da escola, para não ser discriminado entre os colegas que andavam de pé no chão. Ao voltar para casa, depois da escola, apanhava os calçados de volta no buraco onde os deixara, para chegar em casa calçado. Não queria desapontar meu avô Guaracy, seu pai, que se orgulhava de poder dar sapato ao filho mais velho. E, sem ser sapateiro, os consertava pessoalmente, quando davam no prego.
*
As gerações futuras terão de cultivar os velhos princípios de alguma forma. Já nascerão em cima de um tênis com solado amortecedor, poderão assistir qualquer coisa na TV em qualquer lugar a qualquer hora, não perderão tempo fazendo contas elementares na caneta, mas terão outros desafios, a partir daí. Não reinventarão a roda, mas terão de inventar algo novo a partir do que já está feito. Terão confortos que não existiam antes, mas terão de conquistar novos benefícios que ainda não existem.
Ainda acho que o despojamento dá têmpera ao ser humano, mas não é a condição principal para isso. Existe gente completamente despojada sem nenhuma força de vontade para melhorar de vida; tornam-se simplesmente acomodados. Meu filho André quer água na hora, mas é também persistente, tenaz, não desiste, muitas vezes além da conta. Quer as coisas de imediato, e não descansa quando não as obtém. Não aceita “não” como resposta. Para um pai, isso ás vezes é infernal e mostra a necessidade de implantar um pouco de equilíbrio num cérebro fervilhante. Mas acho melhor isto – segurar um garoto radioativo – do que ter de empurrar uma criança inapetente.
André é rápido de raciocínio e sensível. Ainda não sabe ler e escrever direito, mas desenha muito bem e realiza diversas operações no ipad. Tem memória prodigiosa e é muito cioso do que acredita ser a lógica. Questiona e enfrenta adultos, tanto moral quanto intelectual e, por vezes, até fisicamente. Não tem aquela postura obediente da criança de antigamente. Orientá-lo é um desafio, que requer o melhor de mim, como adulto.
Fico imaginando o futuro do ser humano, a partir do meu filho. Tento lhe ensinar o valor de saber esperar, sem lhe tirar o ímpeto e a rapidez do ambiente em que é criado - não por mim, mas pelo mundo ao nosso redor. Parece um mundo mais rápido, agressivo, implacável. Mas eu vejo no meu filho, também, algo da antiga humanidade. Como no dia em que, aos três anos, passando por um mendigo deitado na rua, me perguntou se não poderíamos levá-lo para casa e lhe dar cama e comida.
Sei que o mundo dará ao André os instrumentos para sobreviver na era da informação. Acho que a tarefa da educação, porém, continua a mesma: fazer com que nossas crianças, além de gente do seu tempo, sejam também gente de todos os tempos. E que pensem nos outros, respeitem o bem coletivo e conheçam os limites, inclusive do tempo – tudo aquilo que permite a coexistência na vida em sociedade.
*
- Papai, posso jogar videogame?
- Agora não, filho.
- Por que não?
- Porque... não. Vai ver um pouco como está o mundo lá fora.
- Está chovendo, pai.
- Então vai fazer outra coisa.
- Posso jogar no seu celular, pai?

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Havana (De Caixa de Amor)

O mar bate no rosto
Da cidade abandonada
O asfalto traz o gosto
De tristeza muy salgada

As sombras das ruínas
Cobrem as ruas desertas
Não há placas nas esquinas
Onde as vidas são incertas

O tempo aqui engana
Faz eterno o que acabou
O vento sopra a velha Havana
Como alma que passou

Só o amor entre escombros
Alivia as minhas tristezas
Faz mais leves os meus ombros
Deixa as luzes mais acesas

Um aperitivo de Caixa de Amor e Matar saudade, agora à venda como livro digital).
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A breve história do Papa Cuco


Quando esteve no Brasil, hospedado no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, o Papa Bento XVI ganhou dos repórteres que davam plantão na praça o apelido de "Papa Cuco". Animado com a multidão reunida debaixo da sacada da janela no quarto onde se hospedava, ele voltou diversas vezes para ouvir a manifestação da multidão que cobria o largo de S. Bento, para chateação dos jornalistas que, lá embaixo, esperavam que ele fosse enfim dormir para também ir embora. Cada vez que o Sumo Pontífice aparecia na janelinha, com aquele sorriso de quem estava gostando da bajulação toda, dava a impressão de estar marcando as horas, como num relógio de parede. Resultado, lhe pregaram o epíteto.

Conto essa história para dizer que o Papa Cuco será muito mais lembrado pelas suas esquisitices anedóticas do que por algo mais palpável no comando da Igreja. A maneira como ele comunicou sua renúncia, esta semana, é o ponto culminante da breve trajetória desse Papa insólito, até simpático, mas meio desastrado, que em nenhum momento correspondeu à mitra dourada ou sequer ao rústico cajado de um líder espiritual.

Ao desmentir a si mesmo no passado, Bento XVI já havia colocado em xeque a famosa "infabilidade" papal - um mito que a Igreja Católica faz questão de preservar.
Agora, com seu pedido de demissão, alegando "falta de forças" para continuar no cargo, Bento XVI lança um enigma sobre a comunidade católica. Como muitos outros papas em condições físicas muito piores saíram do Vaticano somente dentro do caixão escarlate, pergunta-se se não haveria algo ainda mal explicado na sua saída. Quem se lembra do escândalo do Banco Ambrosiano sabe que não seria a primeira vez se houvesse algo mais entre o Céu e a terra do Vaticano do que supõe a vã filosofia.

Quando foi escolhido, o cardeal Ratzinger tinha uma imagem bastante diferente da que deixa na saída. Dizia-se que ele era um sábio ardiloso que na prática já comandava o Vaticano, como uma espécie de eminência parda nos últimos anos do então já realmente fisicamente enfraquecido João Paulo II, falecido em 2005. No exercício do cargo, em lugar do Maquiavel de batina, Bento XVI variou entre um certo deslumbramento com o próprio cargo, como no Largo do São Bento, e certa incapacidade de encarar as grandes questões do catolicismo, que assiste hoje uma distância cada vez maior entre seu discurso e a prática cotidiana de seus acólitos.

Enquanto todos perguntam quem será o novo Papa, fico pensando em quem será o velho Papa: um homem diante do dilema de ter às mãos uma máquina sobre a qual não tem controle, impotente diante da necessidade de mudanças em uma estrutura monolítica, ou apenas um homem que perdeu, se não a fé em Deus, a fé em si mesmo? Por que não poderia um Papa simplesmente desistir, como ser humano que é, assim como nós pedimos demissão de um emprego que no começo parecia tão bom mas, com o tempo, se revela um pé no saco?

Sem ter feito nada de especial, o Papa teve seus momentos de glória, na sacada do largo de S. Bento, e em algumas outras ocasiões. Poderia ter desfrutado do cargo até o final, assim como Jânio Quadros, que em 1961 renunciou à presidência do Brasil falando em "forças" estranhas que jamais foram identificadas. Quem sabe sua renúncia seja, em vez de algo desapontador, prova de uma virtude que não é somente de desapego, mas de humanidade. Bento XVI é hoje apenas o retrato vivo e representativo de uma entidade poderosa que se encontra perplexa. E sai de cena em meio à perplexidade, deixando a cada um a tarefa de juntar as certezas que nos restam.

Caixa de Amor e a volta da poesia



Não sei quem decretou a morte da poesia, mas essa foi uma lei não escrita que pegou, sem que a gente saiba exatamente a razão. No mercado editorial, repete-se que poesia não vende e por isso poucas editoras passaram a publicá-la. Talvez isso tenha começado como uma simples desculpa de algum editor para se livrar de algum aspirante; depois, como a desculpa se tornou confortável, passou a ser usada tão indiscriminadamente que se consagrou uma dessas verdades não comprovadas que seguem sozinhas como se fossem mesmo verdadeiras.

O resultado disso é que a poesia quase desapareceu das livrarias, mesmo a clássica, aquela que as crianças estudam e leem – ou deveriam ler – na escola. O espaço para a poesia diminuiu, de forma geral, e criou-se essa imagem de que ela é o supérfluo do supérfluo, ou brega, ou uma linguagem arcaica, ultrapassada. Estes tempos, porém, começam a mudar.

Uma das coisas que resolvi, ao começar a Editora Copacabana, é publicar poesia. A internet tem essa vantagem: ela pode se apropriar daqueles nichos abandonados pela indústra do livro de papel, e encontrar os fieis leitores de um gênero carente de seus clássicos e também das novidades. O mito de que não existem mais bons poetas não passa mesmo de mito: eles estão por aí, tão importantes quanto sempre foram.

A poesia é momentânea e tem certo poder catártico; literatura concentrada, vai mais fundo e melhor do que qualquer outra linguagem. É um gênero que eu nunca quis explorar comercialmente, nem tanto por desinteresse dos editores, que nem sabiam que eu escrevia poemas, mas por um certo receio de parecer pretensioso demais e me prejudicar. Entre outros tantos preconceitos, existe o que de um romancista não pode ser um bom poeta. Claro que há muitos exemplos para desmentir essa falácia, como Borges, que não era romancista, mas foi grande contista, além de poeta; e Octavio Paz, que também era ensaísta brilhante. Mas o editor brasileiro é feito dessas verdades; então, para um autor, cuidado.

Escrevo poesia, sempre escrevi, embora sempre como uma atividade espontânea; a poesia surge de repente, é uma expressão mais urgente, como um desabafo. Só mais recentemente tenho me disposto a publicá-la e a pensar nela como um meio de trabalhar melhor a prosa. Sempre fui muito dedicado, no romance, ao desenvolvimento da trama. Dava muito mais atenção ao enredo que à linguagem, com exceção de meu primeiro romance, Filhos da Terra. Ali, o narrador precisava ser caracterizado como um italiano do sertão brasileiro, portanto com uma linguagem própria, e o cuidado com cada palavra fazia sentido.

Hoje penso que posso não apenas fazer poesia, como transferi-la para a prosa, tanto quanto possível. E que existem muitos adeptos que ficaram órfãos do gênero. Por isso, venho recolhendo meus poemas, escritos esparsamente ao longo dos anos em cadernos espanhóis de capa de couro mole, junto com rabiscos, desenhos, cronogramas de trabalho e cálculos de contas a pagar.

O primeiro livro de poemas que vem à luz é Caixa de Amor e de Matar Saudade, que escrevi durante o casamento com Graziela, e narra sem querer a história de um amor. Pedi licença ao objeto dos poemas, mais de um centena deles, escritos ao longo de oito anos maravilhosos, coroados pelo nascimento de um menino que é a luz dos meus dias, e que retrata um tempo que, como todos os tempos, teve começo, meio e fim.

Caixa de Amor e de Matar Saudade, o título, surgiu de uma caixa que Graziela me deixou, quando passou 40 dias trabalhando longe de casa, na cobertura da TV da Olimpíada da Grécia, em 2004. Deixou aos meus cuidados o pequeno João, seu filho, então com oito anos, e com quem eu convivia dentro de casa fazia apenas um mês. Havia na caixa fotos, bilhetes e outras pequenas lembranças. A isto fui juntando poemas que escrevi ao longo do tempo, a maioria deles de amor e de saudade.

Depois, esses poemas foram reunidos num blog fechado, ao qual somente Graziela tinha acesso. Preciso agradecer o desprendimento dela, ao concordar com a publicação dos poemas. E inaugurar esta nova fase de poesia, esperando que ela volte a se espalhar e encha com o significado de um grande amor outros corações, mesmo os desavisados, que poderão ser tocados com a revelação de um material que, mesmo sendo tão íntimo, diz respeito a todos os relacionamentos, por conseguinte a todos nós.

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As mais duras escolhas

Lincoln, o filme de Steven Spielberg, sem ser um grande filme, tem grandes momentos – especialmente aqueles que dão oportunidade à interpretação de Daniel Day-Lewis e algumas cenas, como o encontro do protagonista com o general Grant, ao fim da guerra, numa conversa de compadres. Lincoln comenta que um permitira ao outro realizar uma porção de coisas horríveis. Há na ironia, junto com uma discreta celebração da vitória, o travo de amargor pelo preço que ela custou.

A história americana é marcada pelas terríveis dissenções que levaram um país a uma guerra civil que matou 600.000 pessoas. O filme mostra a dura escolha de um presidente que decide continuar a matança, por uma questão de princípio: enquanto não houver o abolicionismo, isto é, que se restabeleça o princípio da igualdade, nenhuma paz faz sentido. E isso precisa ser levado às últimas consequências.

Lincoln faz aprovar a lei abolicionista e acaba com a guerra de secessão, mas não por um acordo. No Congresso, compra votos e manipula o que pode para encorajar o voto daqueles parlamentares que receiam represálias; com os sulistas, também não obtém nenhum consenso. Apesar de sua vocação para contar histórias - o pendor daqueles que vivem para convencer os outros pelo bem -, só impõe a paz ao aniquilar os confederados pela via militar. O convencimento vale muito pouco. A democracia e a Justiça prevalecem pela força, mesmo no país que se arvora em ambas como o mecanismo da paz.

O filme é esquemático, mas traz as ideias que representam a chave para o avanço do mundo civilizado. A igualdade de direitos, um princípio que parece tão fundamental, foi o grande desafio de Lincoln, mesmo que, como mostra o filme, ele entendesse os negros tanto quanto um povo alienígena. Acreditava na essência da Humanidade, na Justiça e na igualdade perante a lei. E a força dessa convicção era maior do que qualquer diferença, estranheza ou obstáculo.

As dissenções elementares da sociedade americana não desapareceram até hoje. O desafio de Lincoln foi o mesmo de John Kennedy, um século anos depois, quando, ao lado do irmão Bob, seu secretário de Estado, colocou-se ao lado de um negro para que ele pudesse entrar na universidade em um Estado conservador. Seis meses mais tarde, assim como Lincoln, ele seria baleado na cabeça. E seu irmão Bob também seria assassinado pouco tempo depois.

Foram precisos quase 150 anos desde Lincoln e dezenas de eleições presidenciais para que um negro assumisse seu lugar na Casa Branca. A desigualdade ainda é o maior desafio dos presidentes americanos. Não é por outra razão que, no discurso de posse de seu segundo mandato, Barack Obama viu diante de si, no vasto campo diante do Capitólio, em janeiro deste ano, uma multidão que simbolizava o país galvanizado pela importância do momento.

Obama representa não apenas mais uma vitória da igualdade dentro dos Estados Unidos, como uma esperança para todo o mundo: a expectativa de que os americanos aceitem cada vez mais não apenas a igualdade racial e política como a igualdade entre os povos, e que possam a partir disso respeitá-la.

Os adversários de Obama ainda são os mesmos de Lincoln e Kennedy. Aqueles que ainda é preciso vencer às vezes com o ardil ou com a força, para que a Justiça e a igualdade possam subsistir. A esses perdedores historicamente restou o recurso baixo, torpe e covarde da vingança e do terrorismo. Dessa forma eles colaboram, sem querer, para o avanço do Iluminismo. Cada vez que um gigante cai, sua sombra se levanta. Lincoln foi assassinado porque fez a igualdade triunfar, mas aqueles que desejavam sua morte não perceberam que, ao matá-lo, fizeram dele não apenas um mártir, como consagraram seus ideais.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Os Bee Gees e a música que marca as gerações

Caminhando por uma loja de conveniência, em busca de uma barra de chocolate, encontrei algo que, em outros tempos, me deixaria de cabelos arrepiados: um CD com a compilação das melhores músicas dos Bee Gees. Vacilei por um instante, e me surpreendi com a simples vacilação. Por quê não? Preço: 14 reais e noventa centavos. Comprei.

Sei que hoje em dia não se compram mais discos (ou Cds), e que os Bee Gees são datados por uma era da qual muita gente não tem nem lembrança, por não ter nascido, ou apagado da memória. Mas havia alguma coisa ali que me intrigava. Aquele Cd era uma espécie de teste: de memória, do tempo, de mim mesmo.

Como em muita gente que conheço, os Bee Gees passaram os últimos vinte anos provocando em mim certa aversão. Explica-se. Houve uma época, aquela em que eu começava a querer namorar, morava na periferia e frequentava o que na época se chamava de discoteca, em que eles representavam não somente a trilha sonora das festas como de uma geração inteira. Poucos fizeram tanto sucesso ou marcaram uma fase como os Bee Gees. Embalos de Sábado À Noite , o filme com John Travolta, que catapultou a um sucesso sem paralelos o disco Saturday Night Fever(1977), foi muito mais que uma onda musical: representou uma grande mudança de comportamento.

Pouca gente ousaria comprar os Bee Gees aos Beatles, ou a Michael Jackson, músicos que também foram um fenômeno de vendas e comportamento em sua época. Enquanto os Beatles e Jackson são considerados gênios, ou clássicos da mpusica pop, os Bee Gees viraram símbolo do brega, do datado, do ultrapassado. Por quê?

Os Bee Gees eram música de consumo, mas que consumo? Em Saturday Night Fever, o filme, um rapaz de periferia, sem muita perspectiva de vida, encontrava na dança o seu talento, ou a única oportunidade de ser alguma coisa de interessante na vida. Essa ideia de uma simplicidade franciscana provocou na época uma monstruosa resposta sociológica. Saturday Night fiver se tornou uam das maiores bilheterias de todos os tempos, e catapultou os Bee Gees à ultima galáxia na escala do sucesso.

Em seguida, Travolta voltaria com tudo em outro filme, Grease, o musical com a história do rapaz pobre que se apaixona pela garota riquinha e perfeita (Olivia Newton-John, no papel que a tornaria famosa). Lembro do Cabeça de Ovo, apelido do Sérgio, que era um garoto fracote na infância, que apanhava de todo mundo na rua Xiró, aparecer de repente crescido, numa camiseta preta com os braços de fora - a moda que apareceu por causa do filme.

O Ovo ganhara músculos de repente e muito respeito, mas não só ele. Desde Saturday Night Fever, toda uma geração de piás passara a acreditar mais em si mesma. As pistas de dança se encheram de garotos e garotas autoconfiantes, que rodopiavam como gênios da raça e de repente tinham a sensação de que ali acontecia tudo e que tudo era possível. Com Michael Jackson de meias prateadas, entraríamos em seguida nos Dancin' Days, uma versão da mesma coisa, já sem a implicação social de Grease e Saturday Night Fever, em dançar era diversão pura.

Os Bee Gees fizeram muitos outros sucessos além de Night Fever, cada um tão grande quanto o outro, numa incrível sequência - More Than a Woman, Stayin' Alive, How deep is Your Love, Too Much Heaven. Brilharam mais rápido, porém de forma ainda mais intensa que o próprio Michael Jackson. Sua discografia se tornou parte da biografia de todo mundo que viveu naquela época. Mas pouca gente se lembra, afinal, do que aquilo falava, mesmo.

Os Bee Gees foram embora, desapareceram de repente, e repito: por que? Foi tal a overdose de Bee Gees que, como o fim de uma moda, e tão marcados por uma época, eles passaram a representar o mundo que acabou. Simbolizaram para mim, e creio que muita gente, aquilo que não queríamos mais ser, ouvir, saber - os adolescentes com cara espinhenta, desajeitados e sem perspectiva de nada.

E, sim, cansaram - a voz agudíssima, capaz de quebrar garrafas, e aquele balanço que marcou a virada dos anos 1970 para os anos 1980, foi substituída pela música progressiva do Pink Floyd e a cadência da guitarra do Police, com suas letras inteligentes e sua cara de banda universitária. Os Bee Gees foram sepultados ali. Para mim, até a semana passada.

Eis então que, passados tantos anos, eu me senti preparado para aquilo, de novo. Senti vontade de, longe daquele tempo, e bastante seguro para mão ter mais vergonha de qualquer coisa, saber, afinal, como era aquela música. Ouvir de novo as letras. Entender um pouco o que eu era, ou o que era aquele tempo, e saber se aquilo é algo que pode durar.

A arte, em qualquer forma, seja a da música, ou um livro, quando é lançada ao sucesso extremo, perde seu sentido original. Fica imantada pelo momento, associa-se a ele. Só o tempo é capaz de depurar o significado que vai além da própria obra e a devolve ao seu estado original de simples obra - apenas a arte, com sua beleza original. Aí é que se sabe se ela pode sobreviver. Hoje se pode, afinal, ouvir Bee Gees. E avaliar se aquela música, ainda hoje, fala aos corações.

Faz uma semana que ouço os Bee Gees. Comecei no carro, a caminho do trabalho, sozinho. Me peguei repetindo algumas músicas, várias vezes, primeiro para ter certeza do que diziam, mais tarde por gostar. Depois, levei o CD para casa. Coloquei Bee Gees, que no passado era música de festa, para tocar... durante o jantar. E lá estava o pessoal todo, em instantes, balançando - de lá para cá, de cá para lá, com o garfo na mão. Crianças que nunca tinham ouvido Bee Gees antes.

E as letras são de adulto. Algumas, lindas canções de amor. Escolhi a minha preferida, cuja letra diz:

Tender love is blind, it requires a dedication
All this love we feel needs no conversation
We ride it together, ah ha
From one love to another, ah ha

Islands in the stream that is what we are
No one in between how can we be wrong
Sail away with me to another world
And we rely on each other, ah ha
From one lover to another, ah ha


Gosto de ouvir a obra inteira de uma banda, porque às vezes o que gosto mais não é o óbvio, o que fez mais sucesso. Ali dentro encontramos às vezes algo que nos diz mais respeito, ou que, é, simplesmente, melhor. Esse exercício é muito interessante quando examinamos o passado. Islands in The Stream, a canção acima, não é a música que mais fez sucesso em seu tempo. Não se compara a Stayin' Alive ou You Should be Dancin, que qualquer um reconhece aos primeiros acordes. Mas eles sabiam fazer canções elaboradas, onde os agudíssimos dão lugar ou se alternam a outras vozes, capazes de falar conosco intimamente.

Os Bee Gees não eram apenas - bem, ainda são - muito bons. Eles não conseguiram fazer nada novo, tão grudados ficaram aos grandes sucessos do passado. Sua obra a partir dos anos 1990 padece da síndrome do medo da comparação com eles mesmos. Sofreram com a mesma maldição de outros clássicos que seus contemporâneos enjoaram de ouvir, como Para Não Dizer que Não Falei das Flores (ou "Caminhando"), de Geraldo Vandré. Jamais conhecerão novamente a fama como naquele tempo. Um deles, Andy, já morreu. Mas posso dizer que, finalmente, entendo os Bee Gees. Independente de seu tempo. E reafirmou minha certeza de que as boas mensagens, mesmo as que parecem tão datadas, podem durar.