domingo, 29 de outubro de 2017

Carille e o que falta para um campeão

O técnico do Corinthians, Fabio Carille, foi neste domingo para casa com muito o que pensar.

Estrela ascendente do futebol brasileiro, surpreendeu a todos ao levar um time sobre o qual todos tinham poucas expectativas a vencer o campeonato paulista deste ano e fazer um primeiro turno assombroso no Campeonato Brasileiro, com 82% de aproveitamento.

E então o imbatível Corinthians de Carille só amealhou 33% dos pontos do segundo turno até aqui.

Carille vai para casa. O Corinthians teve uma semana de descanso. Tinha o time completo. E perdeu para a Ponte Preta. Terceira derrota seguinte. A diferença para o Palmeiras de 16 pontos caiu para 6 e pode ir a 3 amanhã, o que geraria um clássico dramático semana que vem.

Como explicar?

Ele me lembra uma conversa que tive certa vez com Muricy Ramalho, hoje comentarista do Sportv. Muricy passou muito tempo como um bom treinador, conhecido por fazer times que jogavam muito bem, mas não ganhava campeonatos. Levou muito tempo para se tornar um técnico campeão. Perguntei a ele o que havia mudado do Muricy que merecia, mas batia na trave, para o Muricy vencedor.

- Nada - disse ele. - Eu continuo fazendo as mesmas coisas.

Seria apenas sorte, então? Manter o bom trabalho é uma forma de dizer que, quando a sorte virar um pouco para o seu lado, você estará preparado para aproveitá-la. Mas hoje acho que há algo mais.

Existem ótimos treinadores e profissionais competentes que fazem um bom trabalho, mas não são vencedores. O futebol está cheio deles. Dorival Júnior, por exemplo. Fez ótimos trabalhos - neste momento mesmo, está salvando o São Paulo do rebaixamento. Seu Santos jogava muito bem. Tirou também o Palmeiras da queda na segunda divisão. Mas há um detalhe. Dorival nunca ganhou um título importante. É um grande treinador. Mas, como técnico de futebol, algo faltou.

Tite por muito tempo foi só um bom treinador. Fez campanhas pífias, como no Palmeiras. Foi no Corinthians que algo nele mudou. Ganhou a Libertadores e um mundial. Foi para a seleção e agora onde põe a mão parece virar ouro. Tornou-se um vencedor.

Existe algo que Carille e o Corinthians agora precisam enfrentar. Uma coisa é chegar perto, a outra é ganhar. É preciso aquela energia a mais, na hora H, capaz de decidir. Essa diferença é a mentalidade do vencedor.

Jogadores de tênis conhecem isso muito bem. A força mental, num jogo física e tecnicamente muito equilibrado, faz toda a diferença no final. Não basta ser bom. É preciso ter o que os americanos chamam de right stuff - aquele algo a mais, que faz a mentalidade vencedora.

Carille tem pouco tempo como técnico. Ainda não foi testado nesse ponto. É jovem, inteligente e corajoso. Esta é a hora de sabermos se ele e o seu Corinthians têm aquele algo a mais.

No campeonato brasileiro do ano passado, o Palmeiras vacilou na reta final. Mas encontrou essa força para afastar de novo os concorrentes. Encontrou o seu modo vencedor.

Não é assim tão fácil. O Corinthians tinha um campeonato já nas mãos. Mas chegar perto não é chegar. Sem essa estamina extra, muita gente boa, que talvez até merecesse, já morreu na praia.

O campeonato paulista foi ganho quando os outros grandes times prestavam atenção em outras competições, especialmente a Libertadores. Agora que a maioria deles - Palmeiras, Santos, Flamengo, Botafogo - só pensa no Brasileiro, viraram concorrência séria. Os jogos estão mais duros, incluindo contra os times na parte baixa da tabela, que lutam contra o rebaixamento. E o Corinthians começou a perder.

É hora de Carille e seu time mostrarem se têm essa energia moral para embicar a aeronave em franca queda para cima de novo.

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