quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Moisés e a vitória dentro da derrota do Palmeiras na Libertadores

O jogo se mostrava enrolado, difícil, com os mesmos problemas de sempre: time desentrosado, afoito, dependente de centros sobre a área desde o primeiro minuto. O estilo de Cuca, de fazer os jogadores correrem até seu limite, mostrava-se mais uma vez ineficiente diante de um adversário bem armado, que defendia bem e contra atacava com perigo. O torcedor em suspense, aflito pela necessidade da vitória por pelo menos 1 gol para manter as esperanças, foi para o intervalo com os olhos redondos como o zero a zero no placar. Mas, no segundo tempo, como um toureiro na arena, entrou Moisés.

Em todo este ano, Moisés havia jogado apenas meio tempo, na semana anterior. Vindo praticamente da fisioterapia, depois de uma cirurgia com recuperação longa e delicada, foi colocado às pressas, como se faz somente nos momentos de desespero. Expuseram Moisés a um sacrifício alarmante, perigoso, irresponsável.

Mas Moisés entrou. Na partida decisiva do campeonato, oito meses depois de iniciado o ano, ele fazia sua estreia de verdade. E tudo mudou de repente.

Clarividente, Moisés tomou conta do jogo. No lugar do velho time de Cuca, onze correndo atrás da bola, a bola é que começou a correr. Passava dos pés de Moisés de um lado a outro do campo. Achava o espaço antes inexistente. Como no toque de trivela que, em curva, passou atrás do zagueiro e encontrou, lá na frente, Dudu. Este fez a volta, devolveu a bola para a área, para encontrar quem? Mais uma vez, Moisés, que correu para receber.

A bola veio, rolando na área, até os pés do camisa 10. Num jogo em que se precisava desesperadamente do gol, a torcida, naquele ínfimo de segundo, engolia sem nem tempo de soltar o grito: "chuta!" Moisés, não. Com a calma do craque, a tranquilidade que vem da categoria, aplicou a finta seca. O zagueiro, ludibriado, foi ao chão. Com o terreno limpo à sua frente, Moisés então estufou a rede.

Moisés foi o grande jogador do Palmeiras na campanha que levou o Palmeiras ao título brasileiro em 2016. Em apenas quinze minutos, se tornou também o melhor jogador do Palmeiras em 2017. O time cresceu. Uma bola na trave de Keno. Parecia algo que sua torcida já conhecia: o Palmeiras, o Palmeiras de verdade, e não aquele Bragantino de verde, que come grama por cada centímetro, para vencer campeonatos arrebentando jogadores (somente ontem, estouraram dois: Mina e Dudu). O Palmeiras da categoria, o Palmeiras da Academia, o Palmeiras do grande futebol, como a torcida quer ver.

E então, de repente, Moisés se apagou. Procura-se Moisés em campo, e lá está ele, praticamente sem andar. Puxa a perna, massageia o joelho. Quinze minutos de jogo, era o que ele tinha. E o Palmeiras, então, jogou o resto do segundo tempo com dez.

O apito final, para os palmeirenses, sob a pressão do adversário, acabou sendo um alívio.  A decisão seguiu para os pênaltis. Puxando a perna, quase perneta, mas sereno, com a confiança monstruosa de quem é a estátua moral de uma equipe, Moisés bateu seu pênalti. E converteu o gol. Mas o Palmeiras, o Palmeiras de Cuca, inseguro e extenuado pelo ritmo que impõe o esquema de jogo de seu comandante, rendeu-se ao adversário: bravo, bem treinado, fisicamente dosado e sem medo.

Desclassificado, o Palmeiras perdeu. Perdeu, mas em certo sentido ganhou. Com sua passagem em campo, Moisés nos lembrou qual é o Palmeiras que queremos, e que Cuca ficou devendo.

Não é possível gastar 100 milhões em contratações e depender, no jogo que importa, do herói combalido, que vem do tratamento para o sacrifício. Moisés foi sacrificado, diante de 38 mil pessoas. Saiu mais uma vez consagrado, diante de um público reconhecido e grato. E foi um mensageiro. Mostrou que, além dele, o Palmeiras, com todo seu dinheiro, nada fez no ano. Enquanto o Corinthians, cujo elenco custou menos que Borja, treinou um time que faz a bola jogar, aposta no conjunto, e não depende de nenhum herói, nós dependemos de um homem só.

(O Palmeiras dependia de outro, Fernando Prass, o defensor de pênaltis, o homem das decisões. Mas Cuca o colocou inexplicavelmente no banco).

Cuca mostrou em uma partida como se joga um ano no lixo, mas Moisés nos mostrou que quinze minutos podem valer um ano também. Quem assistiu esse jogo, por causa de Moisés - e que Deus permita que a contusão não tenha voltado seriamente - pode dizer que ontem, enfim, vislumbrou novamente (por 15 minutos) o seu time do coração. Essa foi a nossa vitória.




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