sexta-feira, 4 de março de 2016

Lula só não contava com a crise

No que o ex-presidente Lula é diferente do ex-presidente FHC?

Muito pouca coisa.

Quando deixou o governo, FHC aconselhou Lula a seguir as diretrizes básicas da política econômica, que tinha dado estabilidade ao país por oito anos. A inflação estava controlada, as finanças melhoraram, o país estava preparado para crescer. O Brasil estava sendo arrumado.

Lula fez um governo sobre aquelas bases e ampliou sua ação social. Não investiu em educação, saúde e outras áreas onde devia colocar o dinheiro público. Promoveu uma rede assistencialista que aumentou a renda dos mais pobres, gerando uma bolha que devia ter sido seguida por outras medidas.

O PT, porém, se acomodou nessa passageira glória. O modelo precisava de uma reinvenção, ou de um segundo passo, que não aconteceu. A fórmula se esgotou. O governo gastou além do que devia e a crise econômica internacional ajudou a deixar a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, sem saída.

Lula copiou FHC em outras coisas, porém. Ao sair do governo, criou, como seu antecessor, um "Instituto" para receber doações financeiras de empresas - acertos do tempo de governo, que lhe dariam uma aposentadoria folgada, sob os moldes de uma instituição supostamente sem fins lucrativos.

Uma maneira elegante inventada por FHC para abrigar dinheiro privado num bolso que antes não tinha mais que o salário de presidente e as aposentadorias como professor.

Lula também fez outras coisas semelhantes a FHC no território eticamente discutível. No governo FHC, o falecido jornalista Paulo Francis já denunciava desvios da Petrobras, caminho aberto que o PT aprofundou para desviar dinheiro primeiro supostamente para o projeto de perpetuação do partido no poder e, pelos escaninhos desviantes que surgem na surdina, para o bolso de seus operadores.

Claro, tudo isso seguiu no governo de Dilma.

Lula fez tudo parecido com FHC. Por que ele, porém, é que está sendo intimado pela Polícia Federal a depor pelos escândalos de corrupção, e não o cacique do PSDB?

Lula sabe muito bem como é a índole do brasileiro. A imprensa, as instituições, ninguém incomodava FHC porque havia uma crença generalizada de que o presidente estava colocando o Brasil no caminho certo. E ninguém queria arruinar a economia e seu próprio bolso com um processo que não interessava.

Lula teve a prova de que a ética não é mais importante do que a política na disputa pela reeleição. Seu oponente, Geraldo Alckmin, expôs na campanha eleitoral e nos debates ao vivo na TV as denúncias de corrupção do governo petista que já vazavam aos borbotões em sua primeira gestão.

Porém, o eleitorado não quis nem saber. A economia estava direito, o povo estava recebendo dinheiro, o mercado se inflava e a elite empresarial enchia a burra. Ninguém queria abrir um processo que não interessava. Lula se reelegeu com folga, diante de um surpreso Alckmin.

O erro no plano de Lula foi confiar demais no Brasil. Acreditou que o país seguiria no rumo do crescimento graças às bases que estavam plantadas. E que tudo o que fizesse seria varrido para baixo do tapete, como aconteceu com FHC. Seu excesso de confiança, o mesmo com que estimulava os brasileiros a uma onda de otimismo sem precedentes, no final o traiu.

Veio a crise - a única coisa que o brasileiro realmente não tolera. As denúncias surgiram mais claras. A elite antes satisfeita se voltou contra Lula. Não porque ele é um ex-operário, ou porque está à frente de um partido e de um governo com um projeto de esquerda, voltado para a distribuição de renda. Os bancos nunca ganharam tanto dinheiro quanto no lulopetismo. O PT também podia fazer o que quisesse, e ter o ideario que quisesse, desde que continuasse dando lucro.

Os únicos que bradaram contra o PT estavam dentro da classe média urbana, que promoveu as primeiras manifestações públicas a favor do impeachment. Não porque a classe média é mais esclarecida, e sim por estar pagando a suposta redistribuição de renda que financiou a onda consumista na ascendência da chamada classe D.

Porém, mesmo uma família de baixa renda não compra três geladeiras por ano. Esse ciclo se esgotou. Sobrou a classe média raivosa e agora os ex-ascensionais, que voltam para a velha realidade: o D de "desemprego" e "desilusão".

Se a corrupção sempre existiu, o processo de impeachment contra Dilma é golpe? É golpe na medida em que só acontece em função da crise, que é econômica, e não política ou mesmo ética. Do ponto de vista ético e político, deveriam ser investigados todos os processos de corrupção no país desde Cabral.

Isso vai muito além de Lula. O PT tem aliados na teia da corrupção que vão bem além das fronteiras do partido, haja vista a participação de Eduardo Cunha, líder do PMDB na Câmara nos escândalos em investigação. A rede da corrupção é ampla, geral e irrestrita. Está nos gabinetes de Brasília e nos escritórios envidraçados das grandes corporações.

Ao mesmo tempo, o processo de impeachment contra Dilma e a investigação da participação de Lula no Lava Jato não é golpe, uma vez que os elementos estão todos aí: corrupção ativa e passiva, tráfico de influência, administração ruinosa.

O Brasil nasceu sob o signo dos saqueadores, como mostra meu mais recente livro, A Conquista do Brasil (Editora Planeta). Tem sido assim ao longo de sua história. Isso não mudou, e não só por causa da elite política. Enquanto os brasileiros tolerarem a corrupção em qualquer tempo, incluindo na bonança, a ética não será respeitada, nem a política renovada. Essa é a grande mudança que este país precisa, capaz de consolidar instituições que garantam mais probidade, eficiência e controle na administração pública.

Até lá, será hipocrisia falar mal de Lula, ou de Dilma, ou de Cunha, ou de quem quer que seja: pessoas à imagem e semelhança do próprio eleitor. Certamente, puni-los seria um começo. Mas o Brasil tem defeitos congênitos que vão muito além.


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