quarta-feira, 30 de março de 2016

O PMDB e a volta dos que não vão

Sai o PMDB do governo, para voltar daqui a pouco.
E o PT volta a ser apenas o PT. Um partido pequeno, embora barulhento, capaz de encher uma rua de bandeiras vermelhas, ocupar uns sindicatos e instrumentalizar o movimento sem-terra. Provavelmente sairá desse episódio muito avariado, sem nem mesmo conseguir de vez em quando pegar uma ou outra prefeitura mais importante.
Isso acontece quando o presidente não é de um partido majoritário. Não adianta o presidente ser popular e seu partido não ter representação no Congresso. Esse paradoxo só é possível em países cujas instituições favorecem o surgimento de líderes populistas, tanto quanto o encastelamento das elites no poder. Uma democracia de difícil digestão.
Lula conquistou as massas para o PT, mas não conseguiu fazer seu partido ser majoritário no Congresso e o apoiou em bases espúrias. Deveria ter tentado de outro jeito, talvez, e foi refém do próprio PMDB que agora deixa o PT ruir sozinho. Caiu na bandalheira do mensalão e outros "ãos" que o puseram a perder e deixaram os mesmos com o poder novamente à sua mercê.
As elites ainda estão incrustradas nos estamentos do poder. E mesmo um líder popular só governa no Brasil quando também serve a elas. Quando a elite deixa de ganhar dinheiro, é ela, a elite, e não a plebe insatisfeita, que força a troca de mandatário.
Anti-democracia? Não. Apenas a democracia à brasileira. O impeachment está virando instituição. É a forma substitutiva do que acontece no parlamentarismo: quando um governo vai mal, o primeiro-ministro cai. Muda o governo sem eleição e sem abalar as estruturas. No Brasil, é impeachment.
Dilma, abandonada, fica agora sem saída. Andará pelos corredores do Planalto como o personagem de Garcia Marquez em "Ninguém Escreve ao Coronel". Ainda há tempo de renunciar. Mas talvez ela ache que ser imolada a fará mártir algum dia.
Único no PMDB que garante sua permanência no governo, para poder tomar o poder lá na frente, Temer provavelmente sabe que precisa consertar as coisas rápido, ou toda essa manobra de nada adiantará. É um desafio e tanto. O PMDB também é réu e a pressão da Justiça vai continuar. A mudança do presidente, porém, pode trazer alguma reação no terreno da economia, onde a paralisia de Dilma vai transformando o desastre em catástrofe.
O sistema partidário no Brasil precisa melhorar. E fica o desafio para a reconstrução da esquerda, entendida como uma força política a favor de mais justiça social num país de desigualdades tão gritantes. O que, da forma como estamos, abre tanto espaço para líderes populistas e candidatos a ditador de opereta quanto para coronéis que cobram seu apoio político em dinheiro.
Isso precisa acabar e só acabará quando a esquerda se organizar solidamente de forma partidária. Uma esquerda que vá além do PT, mais moderada, mais democrática, menos sujeita a acordos espúrios e com um programa mais sólido, que possa garantir de fato uma reforma social bem sucedida a longo prazo.
No momento, mais urgentemente, o que precisamos não é de um governo de esquerda ou de direita. É de um choque de gestão na administração pública. Um governo capaz de combater a crise. Como foi o de Itamar Franco, um vice que chegou também atrás de um processo de impeachment e, saindo do quase anonimato, cometeu um erro atrás do outro, mas não desistiu até consertar a economia, desfigurada pela superinflação.
Era um tipo esquisito, e o Brasil sacudiu como um caminhão numa estrada de terra, mas foi o melhor presidente que o Brasil já teve desde que a democracia voltou.

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