quinta-feira, 17 de março de 2016

A reconstrução da esquerda e a saída para o Brasil

O desfecho do processo de corrupção contra o governo, que tem como novo símbolo a nomeação de Lula como ministro da Casa Civil para escapar à prisão, oficializando o próprio Palácio do Planalto como valhacouto para o crime, deixa em todos os brasileiros um sentimento natural de desesperança. E desconstrói a imagem da esquerda, entendida como a força política alinhada com o interesse popular, das causas sociais, preocupada não apenas com o desenvolvimento econômico, como também com uma certa distribuição de renda e uma sociedade mais justa.

Parece que a esquerda fracassou. Porém, na verdade, ela nem começou.

O rumo tomado pelo PT desfez a ideia de que tínhamos no governo um projeto de esquerda. Junto com a ruína do PT, é preciso reconstruir não apenas a economia nacional, como um projeto de esquerda verdadeiro. Que faça o trabalho esperado de Lula, de forma eficaz e duradoura, para que o Brasil possa realmente subir um degrau na escala do desenvolvimento econômico e social.

Passado o tempo, fica mais claro que o Lula e o PT não foram, de fato, a esquerda no poder. Não passaram de mais um governo demagógico, que distribuiu benefícios aos mais pobres, na forma de programas como o Bolsa Família, um método clássico de perpetuação de líderes de direita.

O demagogo é de direita, não importa se dá dinheiro aos pobres, porque em vez de mudar a estrutura da sociedade, avançar nas mudanças sociais, cria uma ilusão, com ajuda de um certo carisma. E mantém o status quo, as velhas estruturas, enquanto na surdina de quebra vai locupletando o próprio bolso.

A demagogia é direita porque é conservadora. Não muda a sociedade. Mantém e fortalece as velhas raízes, inclusive as que instalaram a corrupção crônica no sistema. O PT não é diferente de Eduardo Cunha, o corrupto da elite. Eles fazem parte do mesmo eixo.

Nenhum projeto demagógico dura muito. Pode durar a existência de um político carismático, capaz de criar a imagem de "pai dos pobres", como foi chamado Getúlio Vargas, em quem Lula muito se espelhou. Porém, não dura porque não há uma criação de riqueza real que possa ser distribuída e mudar o país.

Hoje, estamos voltando de repente para a economia de dez anos atrás. Os programas assistencialistas do PT quebraram as finanças públicas. O dinheiro que sustentava a bolha acabou. E ela está se dissolvendo no ar.

O projeto do PT no governo foi um fiasco, mas a esquerda não acabou. É preciso reconstruí-la em bases mais sólidas, porque o Brasil precisa avançar no terreno social. Porém, o que é a esquerda? Defini-la é também apontar soluções para o futuro, é saber o que fazer.

Está provado que o assistencialismo é um bumerangue, volta contra o governante e o povo. É preciso abandonar as medidas demagógicas, ao preço que for. Sanear o Estado. Eliminar paulatinamente os programas que sangram as contas públicas. Recuperar a capacidade de investimento do Estado. Isso significa mais crise, por algum tempo. O PT fez uma festa com dinheiro. E não há outro jeito senão pagar essa conta.

O segundo passo é o que a esquerda deveria se propor como esquerda. Uma maior igualdade social, ao modelo do que temos em alguns países europeus, se dá pela ação do Estado onde o Estado deveria estar.

Um bom programa de educação, com escolas públicas de qualidade, dá oportunidade aos mais pobres, que hoje não têm dinheiro para pagar por escolas particulares. E desonera a classe média, que também sofre com esse tipo de despesa.

Outra área prioritária de investimento num programa efetivo de esquerda é a da saúde. Uma rede hospitalar e de atendimento médico de qualidade, ampla e eficaz, tem o mesmo efeito que o projeto educacional - oferece igual oportunidade a todos.

Nem sempre a distribuição de renda acontece pela transferência de dinheiro aos mais pobres, de forma direta, por meio da taxação dos mais ricos. Ela pode se dar com um investimento do Estado em algo que de fato diminua a despesa de todos os cidadãos. Todos pedem por serviço público, especialmente educação e saúde de qualidade. Ao investir nisso, o Estado desonera a todos. Promove um ganho de renda. Dá iguais oportunidades a todos. Isso é promoção social.

Um governo de esquerda pode e deve estimular a iniciativa privada. Ela é que cria caminhos reais de desenvolvimento, porque está sempre à procura de oportunidades, de fazer mais. Uma reforma fiscal, que simplifique e desonere não apenas os grandes capitalistas, como a grande massa de pequenos empreendedores, que são a nova força da economia mundial, seria um fator econômico importante.

No mundo global, a tendência de concentração de riqueza nas mãos de algumas empresas é muito forte. Porém, todos aqueles que são excluídos desse grupo começam a formar também o que se poderia chamar de economia da cauda longa: uma infinidade de pequenos negócios que, no conjunto, têm uma força ainda maior.

O estímulo ao pequeno e médio empresário, ao profissional liberal, a integração ao sistema do grande contingente de empreendedores que hoje trabalha na clandestinidade porque não pode arcar com o peso de taxas e impostos, daria certamente um novo impulso ao país e às finanças públicas.

Nao existe muita divergência entre partidos quanto a quais são os grandes desafios do poder público no Brasil. Como nos Estados Unidos, o que se discute aqui são pequenas diferenças. Nos EUA, os partidos majoritários são muito parecidos. Suas diferenças se dão na ênfase: ênfase na carga de impostos, na preocupação com a saúde, com a educação, além de algumas questões de princípio, como a defesa do aborto legal.

A esquerda ainda tem uma grande missão no Brasil. Só que ela precisa ser de verdade. Ninguém é contra a promoção social - nem o capitalista mais reacionário. Mesmo os ricos não querem viver atrás de cercas elétricas e sabem, melhor que ninguém, que um povo com mais renda se traduz em um grande mercado consumidor para produtos e serviços.

O Brasil precisa de mudanças, mas que sejam duradouras, para não voltar sempre às mesmas crises. Essa ciclotimia é que está cansando, pelo menos a geração que construiu a democracia após a ditadura, ajudou a estabilizar a economia e agora se vê às voltas com os mesmos problemas de antes: uma crise econômica e ética que ameaça nos recolocar no ponto inicial outra vez.

O dano econômico e ético que o PT causou ao país é profundo, a ponto de muita gente questionar as instituições. Mas elas estão funcionando, a começar pelo Judiciário. O que se precisa, apenas, é de clareza - e um projeto de esquerda verdadeiro, limpo, que coloque o eixo no lugar.

É pouco provável que o eleitor vá identificar esse papel com o PSDB, que teve a oportunidade de implantar um projeto real de esquerda mas não avançou, deixando o terreno ao PT - e é tão responsável pelo que acontece agora quanto o monstro que o sucedeu.

Esse projeto de esquerda pode vir agora, com um acordo pelo qual a presidente Dilma pode negociar com a oposição um programa para levar seu governo até o fim. Esse governo ainda pode servir de alguma coisa, além de guarida para foragidos da Justiça. Ou, com ou sem impeachment, isso terá de acontecer no próximo governo, inapelavelmente.




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