terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A carta maliciosa de Temer

O vice-presidente Michel Temer, do PMDB, é um político com a cara do seu partido. Parasita do governo, de qualquer governo, seja qual for seu cunho ideológico, o PMDB se especializou em utilizar sua força no Congresso para obter cargos e uma boa posição para negociatas que, como mostram as acusações contra Eduardo Cunha, presidente da Câmara e líder do partido, são da pior espécie.

Fiel garantidor do apoio peemedebista ao governo de Dilma Rousseff, Temer se queixou, por escrito, de ser um elemento "decorativo" na sua administração. Como se o partido fosse vítima inocente, e não participante ativo, da corrupção e do desastre econômico que marcam a atual gestão.

Ré no processo de impeachment instaurado no Congresso, Dilma colhe hoje tudo o que o PT andou plantando. Fez uma política econômica cega às consequências da demagogia sem limites e agora se vê às voltas com uma profunda crise econômica. Não controlou a máquina pública e sofre com a imagem de corrupção e desperdício que ficou colada à sua gestão.

Temer, com Dilma: a investigação tem de continuar
Por último, passa a sentir também os efeitos negativos de depender de aliados que manobram nessa linha: tão perto do governo quanto necessário para dividir o poder, e tão longe dele quanto se faz necessário. Especialmente quando se trata de fugir das investigações policiais ou abocanhar o cargo que, em caso de sucesso do impeachment, cairia no seu colo.

Temer reclama em sua missiva, entre outras coisas, da "desconfiança" de Dilma. É a única coisa em que ela tem razão. Como não desconfiar do PMDB?

A carta de Temer é revestida de um caráter que não está no texto, e sim nas entrelinhas. Sua malícia sugere o golpismo. Temer se afasta da presidente no momento em que deveria apoiá-la. Dilma vai ficando ainda mais isolada.

O PMDB não tem moral para acusar Dilma de nada. Nem de dizer que é mero figurante. É co-partícipe do governo e de suas falcatruas. É tão réu quanto o PT. O que não invalida as razões do processo de impeachment de Dilma. Uma coisa são as pessoas, como Cunha, de comportamento deplorável. Outra são as instituições. O impeachment é previsto em lei para ser aplicado em casos que parecem justamente o da presidente.

A atitude de Temer, que se segue ao acolhimento do processo de impeachment no Congresso, dá mostras de que seu apego pelo governo aumentou. Diferente dos tempos em que preferiu ficar apenas à sombra do Palácio, seu apetite cresceu com a possibilidade real de assumir o controle. O impeachment é, antes de tudo, um processo político. Caso contrário, ocorreria num tribunal,  não no Congresso. E, no atual quadrante político, Dilma pode se considerar mais com um pé fora do que dentro do Planalto.

O que seria um governo do PMDB? O fato de ser também réu não impede que o partido apóie o impeachment no Congresso nem tira a legitimidade do processo, que tem valor em si. Um governo do PMDB indica apenas que a crise política e econômica vai prosseguir, numa nova etapa.

Os males feitos à economia só serão corrigidos com muito tempo. Os políticos que colaboraram, participaram e promoveram a bandalheira desvelada pelas operações como a Lava Jato ainda continuam por aí. A mentalidade que rege a política brasileira não mudou.

De todas as figuras que participam desse processo, talvez Dilma seja a mais inocente. É difícil acreditar que ela nunca tenha sabido de nada, pela posição que ocupa no governo desde a gestão de Lula. Porém, é bem possível que ela tenha sido refém do seu partido, de suas alianças e da própria política como é feita hoje no país. Será imolada, porque nao recusou essa posição; ao contrário, beneficiou-se dela para estar e manter-se onde está. Ninguém lamentará, portanto, sua saída.

O que não pode acontecer é que Dilma seja lançada às piranhas e tudo volte a ser como antes. O governo, com Temer, continuará sob investigação. E as listas terão de ir até o seu fim.

Um comentário:

  1. A primeira CARTA PEDINDO EMPREGO foi do Pero Vaz de Caminha e a última a do Michel Temer. Hoje é a entrevista.

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