sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Dilma devia ficar

Não é preciso estar em Brasília, nem ter bola de cristal, para saber que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff deveria dar em nada. A razão é uma só. Ninguém pode querer o lugar dela. Pelo menos, por enquanto.

Assumir o governo agora, para qualquer um, seria carregar também o ônus da crise na próxima eleição. E o povo brasileiro estará muito mau humorado.

Durante uma década, entre o segundo mandato de Lula e o atual de Dilma, O PT aprofundou no governo os gastos públicos delirantes que levaram à falência do Estado. O crescimento do país se baseou no chamado "investimento social", que se somou ao desperdício puro e à sangria da corrupção para levar o Estado brasileiro à bancarrota.

Por anos, gastando além da conta, foi o governo que deu empuxo à economia. Agora, endividado, não tem mais como continuar. Para corrigir isto, é preciso consertar as finanças federais, o que significa tirar a locomotiva que carregou o Brasil nesse ciclo ilusório de crescimento.

Ele não teria sido tão ilusório se, por trás daquele impulso inicial do mercado, com o crescimento da renda da classe C e D, houvesse um maior controle fiscal, uma administração equilibrada e um incentivo ao investimento privado, que nos colocasse na rota do crescimento sustentável.

Isso não aconteceu. O empresariado brasileiro foi sócio do governo nessa jornada brancaleone. Mamou tranquilo no dinheiro que aparecia de repente, enchendo os bolsos sem fazer a sua parte. Ficou satisfeito enquanto o povo comprava TVs e geladeiras e fez vista grossa à corrupção - quando não colaborou. Nadou em dinheiro por algum tempo. Agora, terá de entregar os anéis conquistados estes anos, demitindo quem contratou e recolocando as coisas do tamanho que eram dez anos atrás.

Isso significa que temos à nossa frente inevitavelmente um período longo e doloroso. Não apenas o governo federal está sofrendo. Até mesmo municípios começam a se queixar de falta de caixa. Há lugares onde se anuncia que não haverá 13o para o funcionalismo. Isso, porque o setor público não pode demitir, como o privado está demitindo. As contas públicas viraram uma calamidade, que só vai aumentar, na mesma medida em que a receita tributária cai com a recessão.

Dilma: no governo, como marionete

Quem iria querer assumir o ônus de arrumar isto? O PSDB, como oposição, vai esperar confortavelmente sentado pela próxima eleição. O PMDB, aliado do PT, é um partido parasitário. Está sempre ao lado do governo, para obter favores, mas no plano federal não assume o primeiro plano, para não virar vidraça. É assim que ele funciona.

Além disso, o PMDB também tem muita roupa suja na lavanderia para se expôr ainda mais. As denúncias de corrupção que recaem sobre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, sugerem que quanto menos exposição para o partido, melhor.

Em 1991, quando começou a campanha do impeachment de Fernando Collor, o Brasil também se encontrava numa profunda crise econômica. Ao entrar no governo, com o pacote que assumidamente era a única bala que devia matar o "tigre", e não matou, pelo contrário, Collor deixou o país numa situação igualmente periclitante.

O vice, Itamar Franco, assumiu por duas razões. Primeiro, naquele tempo o PMDB ainda estava mais perto do PMDB de Ulysses Guimarães, que ajudara a construir a democracia no Brasil - era um partido diferente deste que está aí, desfigurado pelo fisiologismo. Segundo, por conta do próprio Itamar. Ciclotimico, impulsivo, Itamar não tinha, no entanto, medo do poder - nem do ônus da crise. Achavam-no meio louco, e, talvez por isso mesmo, assumiu.

Muita gente gozava o topete simbólico do presidente e questionava seu estilo tempestuoso ("Sou mercurial", ele mesmo dizia, "vou de zero a 100 graus"). Porém, Itamar foi o melhor presidente da República da recente era democrática. Pegou um país destroçado por anos de ditadura, com uma inflação que nos deixava à beira do colapso, balançado pela desastrosa retirada do primeiro presidente eleito pelo povo em 30 anos, e tratou de agir. Trocou de ministro econômico até acertar. Por fim, instalou Fernando Henrique, a contragosto do próprio FHC, que teve de encampar meio forçadamente a tarefa. Mas, no final, deu conta do recado.

Na gestão de Itamar, começamos a consertar o Estado brasileiro. Primeiro com o controle da inflação, que reuniu a neutralização do seu efeito inercial e uma série de medidas de controle fiscal. Elas prosseguiram com a era das privatizações na gestão de Fernando Henrique, eleito a cavaleiro do sucesso do plano que, na verdade, foi de Itamar.

Com Itamar se obteve o maior ganho econômico e social da era recente da República: o Plano Real. Faltava a promoção social. Fernando Henrique ficou sentado em cima das glórias do passado. Graças a essa inércia, perdeu a eleição para Lula, afinal, e dessa forma ficamos entregues ao que nos colocou nos dias de hoje.
O célebre topete

Michel Temer, o vice de Dilma, não é Itamar. Em vez de assumir o posto, o que a aliança oculta da salvação nacional está fazendo é uma intervenção branca no governo. Na prática, Dilma já não está no controle da máquina pública. Seu ministro econômico, Levy, é um funcionário do Bradesco. Seu plano de ajuste fiscal nada tem a ver com o projeto do PT. É o anti-PT na gestão do próprio PT. E Dilma não pode fazer nada, porque sua alternativa é a degola.

Se ficar no cargo, Dilma está destinada a terminar seu mandato como uma espécie de marionete. Quem seguir até o fim ficará com o ônus do ajuste. Ele tem de ser feito ainda nesta gestão, porque seria desastroso demais esperar três anos por um outro governo.

Serão três anos duros, onde todo o mal terá de ser feito. Para que no final este governo seja imolado, pelo voto direto, e alguém possa recolocar o Brasil de novo numa rota que aponte para o futuro.


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