segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A única razão do impeachment


Discute-se por aí se a crise instaurada no governo Dilma é mais política ou econômica. Simpatizantes do governo (os que restam) alegam perseguição; dizem que se investigaram  esta gestão, e não as anteriores, é porque é do PT - como se apenas um governo "popular", de pobres para pobres, fosse passível de cadeia (ainda que os ricos das empreiteiras tenham sido os primeiros a conhecer o xadrez). E que gestões anteriores, especialmente de Fernando Henrique, foram beneficiadas pela vista grossa da polícia, atribuindo à Justiça um viés partidário.

A realidade é que a crise é econômica, como sempre foram todas as crises no Brasil. A ditadura militar não caiu por motivos ideológicos. Caiu porque o "milagre econômico" desaguou num país altamente endividado, arruinado pela inflação e sem perspectivas. Depois veio a gestão civil e retornamos à democracia, não porque gostamos tanto da democracia, e sim porque a inflação batia em 80% ao mês e ela, a democracia, era a única coisa que não havia sido realmente tentada.

Não foi a polícia que deixou de investigar as contas de Fernando Henrique: foi a imprensa, as entidades civis, o Brasil. O motivo: as coisas estavam indo bem. A inflação tinha sido debelada, o governo se retirava da produção e dos serviços, havia espaço para trabalhar e perspectiva de crescimento. Ninguém tinha interesse em desestabilizar um governo que estava tirando o país do buraco.

O Brasil não investigou o governo Lula, nem na primeira como na segunda gestão, quando já se desenhava bem o cenário da corrupção galopante e do aparelhamento do Estado. O motivo é que as coisas continuavam indo bem: o Brasil finalmente crescia e o povo estava satisfeito porque podia comprar iogurte, geladeira e TV no supermercado.

O brasileiro não se importa tanto com a ética na política; ao menos, tanto quanto se importa com o seu bolso. Se o PT tivesse roubado mais discretamente, em lugar de promover o tsunami que praticamente quebrou o Estado, e o país continuasse em crescimento, ninguém estaria falando em impeachment da presidente. Ocorre que a corrupção, quando não se cortam os braços, estende tentáculos de polvo. E isso contribuiu pesadamente para a crise abrupta e profunda que já está aí.

Além de não ver a importância da ética na política, o problema do Brasil é essa crise, surgida justamente pelo fato de não termos cuidado da ética lá atrás. Ela não será pequena, nem breve. Durante alguns anos, o governo teve a chance de aproveitar seu bom momento para plantar as bases do crescimento sustentado. Um modelo não alimentado somente pela transferência de renda, na forma da taxação da classe média em favor da chamada classe C. Como foi essa política de renda populista da era petista, na forma de um mensalinho para os mais pobres,

Nos dois mandatos de Lula e no primeiro de Dilma, o PT no governo deu dinheiro aos ricos e esmola aos pobres. Manteve a elite e o povo satisfeitos, mas não plantou as bases para o progresso duradouro. Com o esgotamento do modelo, os ricos deixaram de ganhar e vêem a volta atrás como cenário. Os pobres já olham preocupados para a inflação que corrói o pouco que avançaram. E a classe média urbana espoliada já está louca com esse governo há muito tempo. O cenário completo para o apoio incondicional e geral ao impeachment.

Pode-se mudar Dilma de lugar, mas a questão é: mudar para o quê? É tarde, mas as reformas estruturais ainda estão por fazer  A maior delas no momento é o reenquadramento do Estado, seu desinchamento, para que volte a ser operacional. Isso no primeiro instante significa mais crise econômica, pela retirada do Estado como agente alimentador da renda e do mercado.

Com o tempo, porém, o Estado poderá recuperar sua capacidade de investimento, para investir no que realmente lhe cabe, que é a verdadeira promoção social. Em especial, em educação, que realmente dá igualdade de oportunidade para todos e faz alguém mudar de vida, com um novo patamar de renda. Somente com a qualificação o cidadão dá o salto desejado na sua vida.

Educação é um processo de longo prazo, capaz de levar um país a outro estágio de desenvolvimento. O trabalhador qualificado, o empresário bem formado e o cientista e pesquisador são os elementos que colocam um país no primeiro mundo, e não um governo demagogo, corrupto e perdulário.

Com a qualificação, o valor agregado do produto aumenta, a produção também, e por conseguinte a renda cresce. Perdemos doze anos nessa direção. Levaremos outros doze se começarmos agora.

O Brasil é um país imediatista, que não planeja e vive de sucessos a curto prazo. Por isso, está destinado a viver em ciclos de progresso alternado com grandes abismos. Um planejamento de quinze anos, que deveria ser seguido em linhas gerais mesmo com a troca de governo, como acontece em países como a Alemanha, é essencial para qualquer partido que deseja fazer uma plataforma eficaz de governo com vistas ao progresso para o país. E para isso deve funcionar por regras transparentes, porque a corrupção não somente esgota os recursos do governo, como mina a confiança do empresário, do investidor e do cidadão, instaurando as leis da máfia como regra.

Esse planejamento deve ser da economia, da infra-estrutura, dos transportes, das comunicações, da tecnologia, do meio ambiente, da educação. Só com um trabalho coerente de cada área e de seu conjunto ao longo do tempo se pode fazer um Brasil à altura do que queremos. Sem os espasmos que parecem ameaçar a única coisa de bom que realmente fizemos nas últimas décadas: a democracia, capaz de dar ao povo o poder de depurar a política, mudar e melhorar um país.



Um comentário: