quinta-feira, 25 de junho de 2015

A prisão de Lula


Em 1980, quando ainda era líder sindical, Luis Inácio Lula da Silva ficou 31 dias na cadeia. Eram outros tempos, marcados por tensões políticas, sindicais e, para ele, também pessoais. O motivo da prisão era político: como sindicalista, com capacidade de movimentar as massas nas célebres greves que se estenderam pelo perído de decadência econômica do regime militar, Lula teve que acompanhar o andamento da paralisação das indústrias no ABC pelo rádio de pilha. Saiu da cadeia por um dia, para ir ao enterro da mãe, concessão feita pelo ex-chefão da Polícia Federal, Romeu Tuma. Dividia sua cela, 10 metros quadrados nas dependências do Dops paulista, com outros nove sindicalistas. Foi contra a ideia dos colegas de cela de começar uma greve de fome. Pressionava o dirigente sindical José Maria de Almeida, que mais tarde entraria para a corrente Convergência Socialista, uma das mais radicais abrigadas no PT, para que lhe desse escondido um saquinho de balas – no final, a greve de fome durou só um dia e meio e Lula ficou com a fama de comilão.

Hoje, 35 anos depois, o UOL dá notícia de que um cidadão brasileiro entrou com um pedido de habeas corpus para evitar o que parece inevitável: a prisão do agora ex-presidente da República. E a causa não é trabalhista, nem política. Diferente do tempo do regime militar, o Brasil não é mais um regime de exceção, e sim uma Nação sob o estado de Direito. E uma democracia, que levou Lula ao posto máximo da administração pública com a missão de governar o país inteiro, porém imbuído da necessidade de melhorar a vida da classe de despossuídos que ele sempre representou. De ser diferente das antigas elites predatórias que ele sempre combateu. E agora todos os dedos apontam para Lula como o orquestrador da vasta rede simbiótica do PT com empresários, muitos dos quais já frequentadores da cadeia, para roubar dinheiro público.

Para Lula, a cadeia não seria novidade. Mas, se o motivo de sua primeira prisão hoje soa nobre e heroico, o da segunda é vexatório. Foi-lhe entregue um voto máximo de confiança: esperava-se que o ex-pau de arara governasse exemplarmente para diminuir a injustiça social e se comportasse de forma digna, à altura da investidura que lhe foi conferida. A revelação da corrupção recorde, que derrubou ao chão uma estatal do porte da Petrobras e se espalhou por todo o organismo do governo federal, é um desapontamento histórico do mesmo tamanho que tivemos com Fernando Collor, primeiro presidente eleito democraticamente depois do regime militar, que renunciou na esteira das denúncias de corrupção.

Se a elite política brasileira nunca se mostrou confiável, por sempre se colocar na posição de tirar proveito dos cargos públicos em benefício próprio, uma prática que não se resume ao governo federal nem ao PT, esperava-se que ao menos com Lula tivesse sido diferente; ele e o PT, que foi construído sobre um discurso purista em anos a fio de oposição à ditadura e aos corruptores de toda espécie. Ao subir a rampa do Palácio, porém, Lula se tornou tão de elite quanto qualquer outro. Ou pior: comportou-se como o pobre que passa fome e, quando come, se lambuza. Do sindicalista preso, sobrou apenas o comilão.

A Justiça tem reunido elementos para esclarecer e desmontar todas as operações danosas realizadas durante a gestão do PT no governo federal. Na verdade, já nem importa se Lula será indiciado ou não, será preso, ou não. O dano está feito e o desencanto já aconteceu; o pasmo, também. Não resta dignidade para quem se encontra entre duas situações possíveis: a ignorância absurda, a omissão inaceitável em relação ao que se passava à sua volta, ou a orquestração direta de tudo. Lula é a pá de cal na esperança do povo brasileiro de encontrar um governante honesto. Para fechar sua incrível biografia, mergulha no lixo da história com um salto ornamental. Para o Brasil, o que resta? A polícia, hoje a única garantia de que haverá um mínimo de ética na política.

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