quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Quinta Estação e as verdades inventadas da ficção


Eu estava em morando em Nova York, em 2005, quando tocou o telefone e – não sei como ela me achou – estava do outro lado da linha uma antiga namorada.
- Meu pai leu o seu livro!
- Não diga! Antigamente ele me detestava. Agora é meu leitor?
- Ele diz que está cheio de sexo!
- E daí? Você sabe como é ficção. A gente se inspira em coisas reais, aqui e ali. Mas não tem seu nome, indicação, nem nada. Ninguém vai saber.
- Como que ninguém vai saber? Agora só me chamam de Sofia!
Claro que a ex-namorada não se chamava Sofia, e que seu pai talvez tivesse mais razões para ler meus livros que ela. O cavalheiro sempre me desprezara, por achar que jornalistas eram pé-rapados - portanto, não merecedores da moça que ele criara em aulas de gastronomia e quitação num colégio canadense. Em dois anos de namoro, eu nunca o conhecera pessoalmente e jamais fora convidado a entrar em sua casa. Para completar, ouvia uma porção de barbaridades que ele falava a meu respeito, relatadas por amigos em comum, que eu só podia atribuir à natureza freudiana dos pais.
Certa vez, tive a oportunidade real de conhecê-lo, durante uma viagem a Los Angeles – ele estava por coincidência na cidade e convidara a filha para sair. O convite, claro, não se estendia a este pé-rapado aqui, que por sinal pagava para a filha a passagem, a estadia e outras coisas mais em seu giro pela Califórnia. Quando voltei para o hotel, depois de uma caminhada para espairecer, avistei-o ao longe conversando com a filha na calçada. Vexame ou não, vou contar aqui: entrei no edifício ao lado e ali fiquei escondido por algum tempo, para evitar um contato de terceiro grau, com consequências imprevisíveis.
Em A Quinta Estação, o pai da moça aparece como o esmerado senhor que gastava sua aposentadoria nos melhores restaurantes e andava de bengala sem ser manco, para parecer nobre como sugeria o sobrenome anglo-saxão. Vingança? Nem de longe. Apenas a inspiração enriquecedora de uma pequena passagem de um livro que tem coisas muito mais importantes. Não posso negar, porém, que me diverti refletindo sobre o personagem e extraindo dele o que, a meu ver, era única coisa que ele tinha de notável.
Como muitas obras de ficção contemporâneas, A Quinta Estação tem muitos pontos de contato com a realidade. Livro de contos que também funciona como um romance, ele trata do amadurecimento masculino, com nossa visão sobre os relacionamentos e, claro, o sexo. Evidente que fala muito da vida contemporânea a partir de experiências pessoais. Emprega muito do que vi e vivi, o que, em se tratando de relacionamento, compartilhei com outras pessoas. Isto leva à pergunta que nasceu junto com a literatura: em que medida essas histórias e experiências são propriedade do romancista, ou invadem a privacidade alheia?
Ninguém jamais ouviu dizer que alguém reclamou ser Madame Bovary e processou Flaubert; muito menos embargou a obra de Dostoievski, se dizendo Anna Karenina. Seja lá de onde for que se tira a matéria-prima, um romance só existe por conta e na cabeça do autor. O que acontece, de fato, é que mesmo uma obra de ficção vem de algum lugar. E as pessoas ao redor de um romancista às vezes vivem desconfiadas do juízo que ele faz sobre os outros; a maneira como pode transformar qualquer situação banal em material de trabalho, moldar a realidade conforme sua própria cabeça e devolvê-la ao conhecimento do mundo daquela forma, talvez de forma indelével.
Certa vez um meu ex-cunhado, juiz que despacha diariamente sobre polêmicas questões de Direito num tribunal de São Paulo, ao ler um outro romance meu (Campo de Estrelas), me abordou, com ares jurisprudentes. “É um grande romance, mas, poxa, você acertas as contas com uma porção de gente ali”, disse. “Como a gente se defende de você?”. Tive que pensar um pouco. E no final, respondi: “Permanecendo em silêncio”.
Lembro da indignação de meu avô Guaracy, que a certa altura da sua austera vida se tornou personagem do livro de uma sobrinha, prima de meu pai, também jornalista e escritora bissexta. Ex-ferroviário, vovô Guaracy aparecia no romance com seu nome verdadeiro, contando à mesa o escabroso caso de um funcionário esmagado por um trem, narrado com sanguinolenta minúcia. O livro se chamava O Caos na Sala de Jantar. Claro que sua indignação se justificava; meu avô jamais contara aquela história, muito menos durante a refeição; ficou possesso com a ideia de que existia um livro que o difamava no cuidado maior de sua vida: a educação. É difícil escapar das referências familiares quando se escreve ficção; porém, eu pelo menos sempre tive o cuidado de preservar a identidade das pessoas, por causa dos outros e delas mesmas. Ainda mais porque nem eu, às vezes, sei distinguir o que foi verdade ou o que é fruto da imaginação nas histórias que escrevo.
Uma das melhores obras que já se fez sobre esse assunto é o filme Desconstruindo Harry, de Woody Allen, que faz o papel de um escritor dominado pelo mais trágico acontecimento na vida de um romancista: o bloqueio criativo. A vida dele é um desastre e todos à sua volta o detestam, recriminando-o por se julgarem utilizadas e vilipendiadas nas obras que ele escreve. Harry, que obviamente é um alter-ego do cineasta, como na maioria dos filmes que Allen faz, vai a uma homenagem acompanhado de uma prostituta e um cadáver, briga com a ex-mulher pela guarda do filho e só recebe reconhecimento no momento, ao mesmo tempo tocante e de suprema ironia, em que é aplaudido de pé pelos únicos seres que, afinal, o compreendem – seus próprios personagens. No final, sua vida ainda está uma droga. Mas ele afinal tem uma ideia, desaparece o bloqueio criativo e ele é feliz de novo. No seu egocentrismo esquizofrênico, escrever é a única coisa que resta ou importa, a única felicidade possível.
É um brilhante tratado sobre a relação do artista com seu entorno, que me tira sempre um sorriso no canto dos lábios. E não são apenas as maravilhosas mulheres que viveram comigo as vítimas de um processo semelhante. Tenho um amigo que, a cada livro que publico, me telefona, preocupado, e pergunta: “Quem você f... desta vez?” Claro que é piada, mas ele se preocupa, mesmo. Diz outro amigo, o escritor e jornalista Fernando Morais, que escrever é fazer inimigos. Morais escreve biografias e reportagens, não se relaciona com seus personagens, exceto quando eles ou seus descendentes lhe tascam um processo qualquer. Para o ficcionista, escrever é potencialmente fazer inimigos mesmo entre os seres amados, com quem a gente gostaria, ou tem de continuar convivendo. Deles se poderia esperar, pelo menos, compreensão. Mas nem sempre é assim.
A Quinta Estação está aí de volta, publicada em versão digital pela Editora Copacabana, depois de muito tempo esgotado e fora das livrarias. Para aqueles que se acharem no livro de alguma maneira, fique claro que se trata de uma obra de ficção, e qualquer referência não passa de mera coincidência. De maneira geral, peço a todos que não se preocupem. E, à minha antiga ex-namorada, posso apenas dizer que, quando ela for pelancuda e encurvada, talvez ainda venha a ficar feliz ao reler o livro e lembrar que um dia fez sexo. A ficção é uma das raras coisas de nós que podem ficar. Ainda que, durante a vida, às vezes incomode.

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